Idade Negra
1 Capítulo 1 - Nocte
Em uma noite pacata no bairro Crafen, tudo estava como sempre estivera neste horário. Eram exatamente 03:01 AM e a calmaria consumia todas as ligações que faziam daquele, um lugar maravilhoso para se viver; a madrugada era serena, e o único resplandecer de algum sinal iluminado, certamente se originava dos mais variados tocos de madeira ou até mesmo de ferro que sustentam as transmissões de energia elétrica — os postes, é claro.
Postes que iluminam, postes que trazem a falsa segurança de que mesmo na escuridão interminável, para aqueles que a temem, ainda existe algo lá fora.. que podemos definir sutilmente como "luz afora".
Luz afora que resplandece em lineares formas redondas àquelas singelas ruas, que na calada da noite permaneciam solitárias. Nos exibindo a genuína face da escuridão, conceito que talvez só possa ser plenamente observado nas mais excepcionais madrugadas. As correntes de ar criavam um clima peculiar, aconchegante para aqueles que a admiram: era uma adorável noite de sexta-feira.
A chuva enfraquecida emitia lindos sons, que climatizavam o ambiente de forma harmônica; era definitivamente uma noite pacata. Mas estranhamente, não como as outras.
03:10 AM
Ar, água, escuridão e pequenos feixes de luz deixaram de ser protagonistas após os primeiros sinais de que o ambiente teria um novo companheiro — um som que porventura não se associava como uma sinergia — aos outros elementos.
Estávamos falando de algo vulgar... que quebra o silêncio noturno. O bairro Crafen não era um lugar muito movimentado à noite, portanto era como um Hobbie (um pouco estranho, eu sei) observar pela janela tudo o que acontecia, nos mínimos detalhes.
De pouco a pouco o som foi aumentando, em um ritmo progressivo. Nos meus cálculos, deduzia estar a aproximadamente 4 ou 5 quadras de distância — mas o volume crescia em um tom grotesco, certamente deveria ser um carro antigo.. dizem por aí que sextas à noite são convites fáceis para bêbados se aventurarem em festas noturnas; seria isso?
Eu sei, eu sei.. sou um pouco curioso demais, afinal, isso realmente importa? Tirando o fato de que estamos no bairro mais calmo da cidade.. isso deveria ser normal, não?
03:13 AM
Demorou, mas enfim esta carcaça começou a emitir reais sons de que estava andando.. em uma velocidade extremamente reduzida, mas estava alí.. com seus faróis ligados, o carro era antigo como eu deduzia. Minha falta de conhecimento em automóveis me fazia descrevê-lo em duas simples palavras: lata.. velha.
O veículo finalmente passa pela minha casa (Minha residência estava localizada ao final da rua), e toma seu rumo.
– Eu realmente perdi meu tempo com isso? me questionei. Logo sentei na cama que estava exatamente ao lado da janela, no segundo andar do sobrado.
03:14 AM
No mesmo instante em que sentei, logo pude escutar um grande barulho de um estouro de pneus — "koff..ff..ff".. juro que soltei uma larga gargalhada e disse:
– Essa merda não serve nem pra dar uma voltinha?
Por curiosidade.. tentei me locomover à janela para dar uma olhada bem rápida do que poderia estar se passando; bem.. eu não ví nada.
(...)
Mas algo aconteceu.
No mesmo momento em que voltaria a me sentar na cama, eu fui atordoado por um nítido grito agudo.
Ecoando absurdamente por todo aquele silêncio mortal, meus deboches logo se tornaram fortes calafrios. Poderia jurar que congelei por um instante, não fiz absolutamente nada a não ser ficar parado olhando para a parede. Era de um homem, podia ter certeza.
"AAAAAAAAAAAAAAaaaaaaaaaaaaah" foi a melhor recapitulação que minha memória conseguiu fazer, estranhamente o agudo final foi o mais assustador..
– O que?
Gritei em voz alta.
03:18 AM
Tudo aquilo parecia como uma grande ironia.. uma grande, e assustadora poderia dizer. Talvez eu nunca tivesse realmente pensado no "e se?" em todos estes anos de Hobbie; mas algo aconteceu! E a grande questão no momento é: o que fazer? O relógio na parede emite sons que eu nunca antes havia notado, o típico "toc, toc.. toc, toc" parecia mais alto do que nunca.
Eu estou bem? Talvez um pouco apavorado, mas eu ainda não enfrentei um de meus maiores temores do momento. Eu ainda não me decidi, se de fato iria sair de casa e ajudar aquele pobre homem.
Tudo bem. Eu posso fazer isso.
03:20 AM
Puxei uma grande porção de ar em meus pulmões, soltei, e logo comecei a agir. Me vesti rapidamente, colocando uma calça e uma camisa regata, além de um sapato esquecendo-me das meias apenas. Não prestei atenção nos demais detalhes; desci as escadas em ritmo acelerado, corri até a sala de estar e peguei minha lanterna. Me confortei
– Norman, você consegue!
Me indaguei enchendo-me de determinação para ajudar aquele pobre rapaz.
Não demorou até que eu pudesse ver a porta e eventualmente, abri-la. A chuva estava fraca, olhei a minha esquerda e ví ao final da mata que cobria o bairro uma luz acessa. Piscando, repetidas vezes. Este então, seria o meu destino.
Foi aí, que tudo começou.
Poucas vezes em minha existência eu pude sentir tamanha emoção envolvida em calafrios que corriam minha espinha e atordoavam minha mente. A cada passo, a cada gota percorrendo meus fios de cabelo trafegando até meus cílios e por fim tendo seu destino inevitável, o chão — era notório sentir meu coração palpitar mais forte. E mais forte.
Em meu horizonte, observava uma incrível calmaria que talvez me assustasse. As árvores transmitiam uma estranha sensação de hostilidade já que fortes ventanias chacoalhavam os galhos fazendo-os entrar em um terrível impasse que parecia nunca acabar. Elas certamente não me queriam ali.
Já o chão, levemente encharcado pela chuva que o acometia, refletia a Lua, que por sua vez não poderia estar mais cheia. Talvez o mais estranho de tudo isso não fosse o que já havia ocorrido — mas sim notar que uma gosma verde estava impregnada ao solo de forma peculiar. Tudo fazia mais sentido quando foquei meus olhos à frente, notando assim um incrível caminho que se formava quase que, se perpetuando por aquela velha estrada surrada pelo tempo.
O que por um momento me trouxe terríveis pensamentos e dúvidas — liberou um caminho em meus pensamentos para uma grandiosa curiosidade — que se evoluía ao notar uma estética única formada por todo aquele clima e é claro, situação. Reluzentemente verde e me consumindo, logo me senti abraçado por um sentimento de angústia, fascínio, e.. terror.
Me apressei, correndo com meus olhares fixados ao solo que deliberadamente me hipnotizava a cada passo largo dado, fazendo-me quase esquecer de qual era o sentido da minha principal missão por aquele lugar tão estranho e único.
03:50 AM
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