Icy moon, bloody sun.
1 E - Mistério
Notas iniciais
Evey estava ali a encarar o monitor de seu notebook.
Deveria ou não fazê-lo?
A lua a observava da mesma forma como inundava com aquelas luz de três vertentes. Ela voltou seu olhar para os céus iluminados, porém lúgubres da noite, véu imenso esburacado por suas estrelas, seus astros e seus buracos-negros.
O vento batia nas cortinas de forma que só farfalhavam naquela época do ano. Cada movimento, uma dança. Há tanto no mundo de que se poderia falar mal, mas é difícil ficar zangado quando há tanta beleza no mundo. Mesmo assim nossa querida Evey se zangava.
Ela decidiu clicar porque é melhor ser uma válvula de pressão que um vazio mero, o que era ela neste exato momento.
Ela queria a guerra, embora não gostasse de ver os efeitos dela nos outros. Tantos sujos de sangue e atingidos pelos estilhaços. Não poderia mais se centrar nisso, se não perderia o foco novamente e recomeçaria a se cortar.
Não. Não havia cicatrizes, infelizmente.
Seu pulso doía, como se quebrado, de qualquer modo. Porém, fodam-se os problemas, ela clicou e pesou ao esperar a página abrir. Seu coração idiota até bateu mais rapidamente.
Mas, antes...
“Merda de internet lerda, até minha Tim pega melhor” – pensou Evey enquanto conferia a nova mensagem no seu celular. “Ah dahora, Nicolas.”
Às 00h34 -
Nicolas disse:
Eveeeeeeeey
Eeeeei
NEM TE CONTOO
SABE A PAULA?
Ela quer meu corpo nu, -v-
Evey já ia digitar: “Porra, Nicolas que legal, que tal você ir logo se foder com ela e me deixar em paz?”, contudo desistiu, que tipo de amiga seria?
Mas que gênero de amigo era aquele Nicolas fazendo-a gostar dele e depois esfregando na cara dela que estava a fim de duas garotas ao mesmo tempo, ambas não sendo ela.
Uma delas, a propósito, vinha a ser essa Paula. Não que ela fosse uma má pessoa, só que Nicolas abusava outras seguidas de Evey pra resolver (ou na realidade só confundir mais) os casos e descasos dele com essas duas garotas.
Ela ignorou e colocou o telefone no modo avião. Voltou para seu próprio descaso amoroso.
A página carregou enquanto ela se indagava se deveria acabar com os dois relacionamentos de Nicolas. Ela fitou a tela do computador pelo excesso de luz em comparação com o quarto escuro.
O facebook de Dominik dizia: em relacionamento sério com...
Ela nem sabia quem era aquela guria cujo nome estava inserido em tal contexto tão bizarro. Afinal ela na foto de perfil dela havia os peitos ressaltando uma marca da modinha numa camiseta ridícula cor-de-rosa. Havia mais peito que rosto, e mesmo assim não havia tanto peito para ela querer se exibir daquele jeito.
Só podia ser brincadeira, uma zoeira básica de amigos trolladores.
Evey não estava logada, portanto não poderia ver os detalhes mais íntimos, como os comentários, porém ela rolou mais abaixo e percebeu que não era uma peça de mal-gosto. Tudo o que ele postava aquela vadia curtia.
Posts sobre bandas das quais a vadia nunca deveria ter ouvido falar, ela curtia de qualquer forma.
O.K., os opostos se atraem, mas tão contrários assim não havia nexo na cabeça de Evey.
Não teria como haver.
De tanta raiva, Evey deixou as lágrimas rolarem. Sentia-se tão banal e idiota, chorar por motivo tão inútil, como o “amor”. E nem havia como saber se era real amor porque nunca falara com Dominik.
Embora os gostos fossem parecidos para música, filmes, roupas, até a falta de sorrisos e o ar misterioso.
Caso caísse a máscara e notassem como Evey era ordinária e sensível, ela não fazia ideia do que poderia ocorrer. Ela resolveu voltar para seu interior e vasculhar alguma parte ainda digna de realizar uma vida.
Para isso, ela levantou da cama e pulou da janela do segundo andar de seu quarto até o telhado. Lá ficou olhando as estrelas e os raios solares refletidos pela Lua que ainda assim pareciam flechada a seus olhos.
Naquela luz havia dois tipos de luz e dois tipos de sombra. Uma vermelha e uma azul, sempre. E o ponto de referência era, obviamente, a própria luz normal da Lua. E atrás de tudo isso, ou apenas isso, só o abismo dos céus.
Os mesmos véus a vestir Evey neste instante. Toda a escuridão voltando a ela, ela a fazer o mesmo. As telhas geladas em suas costas, o ar gelado em suas faces, entretanto seu sangue fervia como nunca.
Febrilmente.
Não era doença ou consequência dos atos passados. O calor era crônico.
As folhas farfalhavam e o vento passava por ela como se quisesse levá-la, como se a folhagem quisesse engoli-la. Ela se indagava se isso já não havia lhe acontecido.
Ali só existiam a oscilação dos galhos, os pousos de morcegos, e o som da solidão, um ranger da própria terra. Era pacífico, se assemelhava ao nada.
No entanto a paz dura pouco para um ser natural. E lá foi Evey espionar a vida alheia.
O barulho do craquear das telhas pelos pés de Evey era abafado, para seus pais, pelo ar condicionado. As constelações mudavam de posição conforme a rotação da Terra. O muro do vizinho era alto, porém Evey ainda conseguia ver as janelas a encarar a própria parede e parte do quintal com churrasqueira e piscina.
A mulher, provavelmente com seus 40 anos já, gritava com o marido:
– ...nós arranjamos essa casa com apenas essa finalidade, Rodolfo! Ter filhos!
– Mas, querida, eu não consigo! Você entende!
– Então poderíamos adotar, ou pelo menos comprar um cachorro! UMA PORRA DE UM CACHORRO! MAS ISSO SUA AGENDA E SUA PREGUIÇA NÃO PODEM COMPRAR NÉ?
– ESCUTA AQUI, EU ME ESFORÇO MUITO PRA MANTER ESSE SEU LUXO! POR QUE VOCÊ NÃO VAI LÁ E PEGA UM CACHORRO, SOZINHA? TEM UMA PETSHOP LOGO ALI NA AVENIDA!
– Porque eu...
– VOCÊ O QUE?
–...
– VOCÊ O QUE?!
–PORQUE EU QUERIA FAZER ISSO COM VOCÊ, RODOLFO. NÓS NÃO SOMOS UMA FAMÍLIA? DETESTO FICAR EM CASA SOZINHA O DIA TODO.
– QUER IR TRABALHAR ENTÃO?
– VOCÊ SEMPRE RECLAMA DESSA PORRA DE TRABALHO! QUE SE FODA, EU NÃO LIGO MAIS! NÃO AGUENTO MAIS VOCÊ CHEGANDO EM CASA MAIS TARDE TAMBÉM E DANDO DESCULPAS!
– Mas...
– Essa casa à noite me assusta – ela irrompeu em lágrimas – Parece que qualquer um pode aparecer aqui, mesmo com as cercas elétricas. Eu tenho essa impressão – ela olhou pela janela com semblante paranoico e indicou todo o local com o braço. Evey recuou e se abaixou – é perigoso, Rodolfo. Preferia nosso apartamentinho no centro a esse lugar fantasmagórico.
Ele a abraçou e cochichou algo no ouvido dela similar a “...quitamos ainda... voltar pro apartamento... cachorro feliz?” , e a mulher assentiu.
Evey se espantou e abriu seus olhos vermelhos ao assistir ao casal começar a ligar para várias pessoas, e pegarem as caixas mal desembaladas e recomeçarem a empacotar todos os objetos da casa.
A questão era se o próximo residente estaria no páreo de produção do interesse de Evey.
Notas finais
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