Ich Liebe Dich.

39 Cap.39: Garotos e garotas aparentemente normais.


Quando cheguei a casa, fui logo ver se a caneta de Peter escrevia mesmo feito sangue.

Peguei um papel e escrevi.

“Ich Liebe Dich”

Ficou tão lindo e macabro ao mesmo tempo, que fechei o livro de folhas amareladas bruscamente, sentindo uma brisa fria me gelar a nuca. Com meus cabelos amarrados, o frio me gelava em todos os sentidos.

A tinta era algo viscoso e vermelho sangue como Peter havia me dito. Achei que ele estava exagerando quando me contou aquilo. Havia adorado aquele presente.

Eu havia prometido a ele, que, para que ele pudesse fazer com que meu coração mudasse, viraria minha rotina ir vê-lo. Isso significava que teria de ir vê-lo quase todos os dias. Por incrível que pareça, essa idéia não me pareceu doentia.

Talvez fosse para quem não o conhecesse, mas eu estava viciada em Peter, talvez não do modo que ele queria ainda, mas eu gostava muito da companhia dele.

Além disso, eu tinha que aproveitar o meu tempo livre da universidade. Sim, pois minha doença havia me dado um atestado de alguns meses. Eu ainda tinha que ficar em observação... E eu não tinha melhor jeito de aproveitar aquela folga, do que estando na Alemanha, com um homem como Peter

Então, era dia após dia. Uma rotina. Peter.

As vezes eu até ficava conversando com a Sam antes de dormir e também assistia filmes com ela. Ríamos muito. Quero dizer... ela ria muito. E eu ria, às vezes. Isso a irritava às vezes e ela dizia que estava com saudades de Joseph e de Gustav que riam com ela das piores idiotices. Então eu ficava meio triste por lembrar-se de Joseph.

Ainda o amava. Não sabia se eu queria esquecê-lo de verdade. Mas, as vezes por Peter eu queria esquecê-lo. Mas não gostava desta idéia. Parecia-me idiota fazer isso. Tentar esquecê-lo só por Peter. Seria abnegação demais. E eu ainda era Charllottie, apesar de tudo.

Mesmo assim, eu não podia fazer nada a respeito. Podia apenas esperar que meu cérebro e coração, junto num plano maligno, não fossem cruéis comigo e com Peter.

Havia acordado e levantado disposta. Ia até a organização. Hoje eu e Peter iríamos conhecê-la melhor. Ele tinha me prometido um passeio havia muito tempo, mas parecia que ele evitava falar no assunto e que me queria longe dos outros membros. Por isso é que eu queria mais ainda ir. Afinal, isso instigava a minha curiosidade. Curiosidade e vontade de me estrepar.

--- Peter, porque, exatamente, está evitando que eu veja os outros membros? –Eu perguntei, subitamente, o que o fez se retesar.

Por alguns segundos ele ficou em silêncio.

--- Porque eles não são civilizados. Acredite, os únicos civilizados que você conhece por aqui, são Sam, eu e Angel. E Angel está se mostrando mais civilizada do que eu imaginava. –Peter disse, murmurando como se estivesse escondendo algo.

--- Ora, Peter, eu sou quase misantropa. Não sou civilizada. Talvez até menos do que eles... –Revirei os olhos murmurando também.

--- Acredite, não é. –Peter murmurou novamente enquanto andávamos pelos campos.

Aqueles campos...

Antes de ver os prédios altos e brancos como fortalezas impenetráveis e assustadoras, tinha um portão preto e que parecia ser de outra época. Para ser mais específica da era medieval. E além do portão, estava o gramado. Muito vasto e grandioso. Este portão dava para a rua mesmo, normalmente. Mas além do portão, não se via nada. Somente o gramado espaçoso, que, de tão extenso que era, não permitia que as pessoas do lado de fora soubessem o que havia depois dele. Que eram os tais prédios altos que sugeriam ordem e ao mesmo tempo mistério.

De repente escutei uma risada sonora que me parecia um pouco com a de Angel. Mas não era a mesma. Olhei melhor para frente tentando avistar algo. Vi três pessoas ao longe. Pareciam-me que eram duas mulheres e um homem.

--- Venha, Charllottie. –Peter semicerrou os olhos e me puxou levemente. –Vamos por aqui. –Ele disse, desviando a direção que tomaríamos. Foi até engraçado, como ele “fugia”.

--- Não. –Olhei para ele séria. –Eu sei o que esta a fazer. Não vou mudar de rumo. Vou ao encontro deles. Interessam-me.

--- Não há nada demais neles, Charllottie, acredite. –Peter revirou os olhos.

--- Então não teria lógica você me repelir deles. –Levantei uma sobrancelha só.

--- Ah... –Peter fechou os olhos e bocejou. –Não tem nada a ver com você. Eu só não gosto deles.

--- Porque não? –Perguntei, com um sorriso.

--- Não é nada. –Peter estava olhando para mim, mas de repente virou o rosto para as três pessoas.

--- Ora, se não é Peter, omisericordioso. –Uma gargalhada sonora veio do homem.

--- Ora, se não é Christopher, o tredo –Peter não riu.

--- Eu? Você que é insano. Como eu poderia sair deste paraíso? –O homem riu e abriu os braços contemplando o lugar. Depois olhou para a outra mulher, com uma cara de luxúria.

--- Pete! –A menina baixinha e loira pulou em Peter e puxou sua camisa quase encostando seu rosto no dele. –Senti muitas saudades! Pensei que não ia voltar! –Ela disse, encostando o seu dedo indicador na boca dele.

Via-se que ela era maior de idade, por seu corpo bem evoluído, mas ela parecia bem jovem. As roupas eram quase infantis e tudo nela transpirava algo infantil.

--- Ah, olá, Jo... lie. –Peter disse, meio desconfortável.

--- Hum, Petezinho, mas que sem gracinha, eu fico toda animada com a sua volta e você nem mostra o mesmo. –Ela o soltou. Ainda bem.

--- Olá... Peter. –Dessa vez a voz era bem forte. Diferente da voz fina e irritante da garota. –Eu senti muitas saudades. –Ela piscou para ele. Era uma mulher alta de cabelos ruivos e ondulados. Seu corpo parecia esculpido por um escultor competente.

--- Oh, Norma, você também sentiu saudades? –O homem alto e de cabelos castanhos lisos a cair no rosto falou, sarcasticamente. -Oh! Que coisa esplêndida. E eu aqui achando que o céu não era azul... –Ele ficou olhando pra o céu como se ele estivesse mesmo vivendo uma descoberta fabulosa.

--- Não me falou que tinha amigos, Peter.-Eu disse, seriamente.

--- Oh, e quem... é esta coisinha? –A garotinha loira que devia ter uns dezoito anos quase ficou na ponta dos pés para alcançar meu rosto. Olhei bem para o rosto dela e vi que ela me parecia mais criança do que nunca.

Tinha cabelos loiros cacheados e olhos azuis. Vestia um vestido rosa-bêbe e sapatilhas que pareciam de balé.

--- Charllottie Vanderwood. –Peter respondeu, claramente.

--- Oh, e vai morar conosco? –Ela dirigiu-se agora para mim fazendo careta.

--- Não. Mas sabe que é tentador agora que me abriu os olhos! –Olhei para ela a sorrir sarcasticamente e completei com umas batidinhas em sua cabeça.

--- Poderão ficar o quanto quiserem. Quem sabe ela não dá uma boa atiradora? –A mulher ruiva falou, em tom ainda fleumático como no princípio.

--- Charllottie não vai se juntar a vocês, Norma. –Peter olhou para o lado, emburrado.

--- Há há há há – A mulher o olhou, sedutoramente. –Peter... O poder é sedutor.

--- Não para mim. –Peter resmungou.

--- Eu já sei disso. –Ela respondeu.

--- Vamos, Charllottie? –Peter me perguntou olhando-me nos olhos –Acho que precisamos respirar um ar puro. Não está se sentindo sufocada? –Ele perguntou.

--- Para falar a verdade, um pouco. –Eu disse, sendo sincera.

--- Então vamos. –Ele pegou a minha mão e seguimos pelo outro lado.