Ich Liebe Dich.
4 Cap. 4: Palco Holofotes, Beijo.
Notas iniciais
QUARTA-FEIRA, como sempre, chuvosa...
Olhava a janela escutando os barulhos da água no teto e vendo as folhas e a pequena e estreita estradinha molhada.
Meus olhos piscavam numa lentidão na qual todo o meu corpo estava envolvido. Minha mão estava no queixo e eu usava a minha jaqueta jeans que eu adorava. Tinha o cheiro do meu antigo guarda-roupa feito de madeira de cerejeira...
As íris vagavam pelo lugar pequeno abaixo da minha janela. Pela jabuticabeira invernal, rósea e levemente púrpura...
Eu queria alguém para me ajudar com as falas da peça então chamei Nathália Von Lochem. Uma garota com quem eu mal falava. Mas Sam era sua amiga e pediu para que ela me ajudasse. Nathália fazia teatro há alguns anos...
Nathália voltou do banheiro.
–-- Vamos ensaiar de novo, Lottie. -Ela disse me olhando torto.
–--Eu acho que já está bom assim, Nathália... — disse tentando realmente convencê-la.
–-- Não. É claro que não está bom. — Ela disse sendo mais que sincera.
E eu tinha que arranjar alguém tão rabugentamente sincero como Sam para me irritar naquela perfeita tarde chuvosa...
–-- Tudo bem. Vamos ensaiar de novo. — Eu disse com má vontade.
Eu olhava o tempo passar, enquanto recitava as falas sem a emoção necessária. Nathália bocejava, bufava, se encolhia no sofá, levantava... Estava inquieta com o meu desinteresse.
Até que eu resolvi fazer logo o que tinha de fazer, para que aquilo fosse logo acabado.
Fechava os olhos. Via algumas coisas que não me permitia ver por uns tempos. Coisas que me faziam tripudiar dentro de mim mesma, querendo sair do meu corpo. Ter uma alma com cheiro de nova. Não empoeirada com aquela...
Lembrei de quando eu e Bridget brincávamos no jardim da nossa casa grande. De como eu e ela parecíamos duas princesas. E de como agora eu parecia um cadáver. E Bridget um humanoide sem humor.
Abri os olhos e percebi que aquilo me fazia mais mal do que eu imaginava.
–-- Tudo bem Lottie, chega por hoje. –Disse Nathália quando viu-me provavelmente num estado de espírito carregado.
–-- Tudo bem. –Disse, com desânimo.
x.x.x
QUINTA-FEIRA, descobri que Peter Uric seria o meu par como o príncipe da peça.
Quando fui à universidade naquele dia, me deparei novamente com o cartaz de teatro. Nele dizia que Peter era o príncipe.
Um leve calafrio me percorreu. De repente, me sentia tonta. Alheia ao mundo que parecia passar rápido demais para que meu impulsos nervosos pudessem acompanha-lo. Olhei o chão e ele era vertiginoso. Coloquei a mão na testa. Estava fria.
A tontura passou um pouco. Fitei o horizonte e via a fonte, o sol se pondo e os pombos posados nela perfeitamente.
Precisava conversar com ele...
O que eu precisava conversar com ele?!
De repente a lembrança veio-me a cabeça.
“A peça!”
Eu só queria que Peter me ajudasse com o papel. O tal teria bastantes cenas com a participação dele...
Meus olhos procuravam agora mais sensatos e menos estonteados, a presença dos olhos dele. Aqueles olhos...
–-- Peter! Eu estava exatamente procurando por você. –Disse, quando o vi adentrar o corredor por onde eu andava.
Ele andava devagar. Seus olhos que vagavam sem distinguir coisas, sem expressar emoção, de repente ficaram duros. Irritados, quase.
–-- A mim? –Havia surpresa em sua voz, mas seu rosto mostrava inquietação.
Depois, como naquele passe de mágica instantâneo que só ele sabia fazer, seu rosto se moldou em algo puramente imparcial.
--- Sim, você –Disse, sorrindo sorrateiramente.
Arqueei uma sobrancelha.
--- Poderia ir a minha casa me ajudar com o papel desta princesa ridícula. Isto está se tornando um infortúnio... –Mal terminei a frase, e ele respondeu.
–-- Posso. –Seu tom era austero.
Seu rosto era impassível. O que furava meu sorriso esperto.
Tornei-me circunspecta, de repente.
–-- Pode estar lá às oito?
--- Sim.
--- O endereço...
--- Não se preocupe, eu me darei o trabalho de pesquisar por aqui...
--- Ah... –Murmurei. –Tudo bem.
--- A que horas? –Perguntou-me ele, apressado.
--- Às sete. Está bom?
--- Sim, adeus, Charllotie. –Disse ele com tom ainda sério, mas agora mais relaxado. Monótono...
Ele me parecia fingir algo pra mim. Quando seu rosto se tornava triste, ele logo se tornava sério. Quando se tornava docemente melancólico, logo voltava ríspido.
Mas quando sorria para mim, era verdadeiro. Uma das poucas horas em que ele deixava a tensão que o acompanhava ser solta e dar lugar a alguém aparentemente feliz...
x.x.x
Sai às seis horas da universidade para esperar Peter.
Embora de seis horas até sete fosse uma hora, eu poderia ficar lendo as cartas velhas de meu pai ou tomando chocolate quente. Ia ser uma boa desculpa para chegar mais cedo.
Olhar aquelas cartas onde papai dizia coisas intrínsecas não me fazia chorar, porque eu não conseguia mais. Estava tudo trancafiado em minha garganta, em meus ossos, enregelado, concretizado, segurando aquelas lágrimas, aquelas lembranças, aqueles sentimentos que eu havia decidido trancafiar no fundo da minha alma.
“Hoje a missão foi muito interessante. Nós tivemos a oportunidade de ver marte... É quase tão lindo quanto vocês três, que são a minha vida.”
Sempre tão gentilmente poético. Nós agora éramos cacos. Pedaços de marte que se comparariam a importância de poeira cósmica, lá. Não tínhamos mais vísceras, coragem, ou paixão. Éramos secas. Amargas, tristonhas...
A campainha tocou quando eu terminava de ler a última frase da primeira carta de Dezembro... Perto do meu nascimento. Perto de sua morte.
–-- Peter. –Sorri de modo cordial.
O rapaz loiro tinha os cabelos levemente longos só um pouco bagunçados e usava óculos com armações pretas. Parecia um nerd. Não o tinha visto usar óculos antes.
--- Você usa...
--- Sim eu uso óculos. –Ele riu. Um meio sorriso lindo que deixou covinhas em seu rosto.
--- Surpresa... –Disse, desafiadora.
–-- Posso entrar? –Ele sorriu, gentilmente.
Olhou-me como se dissesse que não tinha vindo para ficar ali fora e que eu estava perdendo tempo com frivolidades. Mas não era o olhar duro, severo, mas sim o olhar audazmente zombeteiro.
Eu realmente estava me acostumando com aquele seu sorriso. Me deixava mais à vontade.
–-- Entre. –Eu disse. Ele sentou no meu sofá e eu sentei-me ao seu lado.
–-- Quer que eu comece? –Ele perguntou, depois de me ver calada.
–-- Sim, por favor.
Peter tirou papeis de dentro da sua bolsa. Começou a ler, sem muita emoção.
–-- "Não diga que não é por amor." –Ele disse me olhando nos olhos penetrantemente, de repente.
Peguei os papeis desorganizados no criado-mudo, rapidamente.
–-- "Eu não o amo mais" –Disse, constrangida.
–-- É melhor fingir que eu sou Joseph. –Ele tirou o óculos e arqueou uma sobrancelha.
Os olhos, o portal do inferno, estavam me fitando audazes.
--- Você disse que usava óculos.
--- Não uso. É só pra não parecer tão junkie.
Sorri.
--- Não adianta muito.
--- Por isso eu resolvi acabar com isso.
Ele ficava muito mais bonito sem os óculos.
–-- "Eu não o amo mais" –Disse, agora com mais emoção.
–-- "Eu sempre amei você e fui algo mais ainda. Fui seu amigo. Era a mim que você procurava quando queria chorar." –Disse ele, incorporando o personagem.
–-- "Eu amo um bandido!"
Dizia, com a maior emoção que podia fingir.
Olhei o papel com estranheza. Eu tinha que chorar.
--- Qual o seu problema com choros? — Ele deu um meio sorriso malicioso.
–-- Faz muito tempo que não choro.
–-- Sério mesmo?
–-- Não, eu gosto de parecer uma estúpida do interior da Escócia que bebe muito uísque e nunca tem tempo para choros de mocinha. Por isso eu disse isso.
--- O que é tão delicado pra você, com choro?
--- Quer chocolate? –Perguntei.
–--Quero. –Disse ele, pegando a xícara e bebendo o chocolate quente.
Depois me olhou com um rosto sério.
--- Vamos parar um pouco e conversar sobre sua crise emocional. –Ele estava mais sério do que de costume.
--- Não vou falar disso com você. –Disse.
–-- Se quiser mesmo fazer isso, vai ter que mandar sua crise ir embora.
--- Eu não sou teatral. –Suspirei. –Não sei fingir bem. Não saberei fingir algo que não consigo fazer nem na realidade...
--- Porque não chora?
--- Porque o choro é o começo de tudo.
--- Tudo?
--- É por onde começa a derrota. Significa que você está desistindo. Eu tenho medo de chegar neste ponto e não conseguir mais voltar a minha parede emocionalmente dura que criei. Prefiro assim.
--- O que houve com você?
--- Meu pai morreu. Desde lá sou isso que você vê. –Disse, secamente, para que ele parasse de me fazer àquelas perguntas.
Meu pai me fazia muita falta. Ele me encorajava a não desistir das coisas, mas depois que ele morreu, eu estava meio enferrujada. Não que minha mãe fosse ruim no que meu pai fazia. Ela só não era tão boa e tão próxima de mim.
–-- Você é misantropo, antissocial, o que?
–-- Não exatamente. Por quê? –Ele riu de verdade quebrando um pouco da sua arrogância naquela noite.
--- Não se importa de me perguntar coisas intrínsecas mesmo não tendo intimidade comigo. Pessoas não socializam assim. Elas fingem a maior discrição possível.
–-- Tenho algumas regras, mas em nada consta isso. Se isso é ser antissocial pra você, então devo ser.
Sorri levemente.
Ficava fitando feito boba o rosto dele. Sempre tão melancólico, me atraía.
E entre conversas paralelas e ensaio, tentávamos me fazer chorar. Sem sucesso.
SEXTA-FEIRA, era o grande dia da peça.
Arrumei-me, olhando-me no espelho, deslumbrada.
Meu vestido era de cetim, cor de pêssego. Meus seios ficavam apertado pelo espartilho. Os cabelos negros, lisos imperfeitos agora eram ondulados.
Os olhos verdes tinha delineador e ficaram pequenos e charmosos. O rosto ainda era meio rígido, mas benigno. De uma fragilidade bonita. Como se qualquer toque pudesse desarrumar tudo que aquela brancura transparecia.
Fui até o palco, nervosa. A minha entrada era sutil, calada.
Dizia as falas com precisão. Não havia me esquecido de nada e atuava como a garota que a princesa era.
Mesquinha, egoísta, no auge de sua juventude, desprezando à ordem de tudo que recaía sobre ela.
Belíssima e imponente, ela andava pela sala, inquieta.
--- Anne, eu te amo. –Joe disse.
Ele estava circunspecto, às vezes. Mas logo encarnava o personagem.
Joe me olhava com seus olhos verdes numa euforia exacerbada.
Estávamos os dois deitados na cama, depois de uma ida ao camarim. Eu estava com uma roupa um pouco transparente por minha pele e o edredom.
--- Sabe, Anne, eu queria ver a cara daquele principezinho imbecil ao nos ver aqui. –Disse, enquanto fumava.
Seu torso nu, com belos delineados chamava a minha atenção. Dava graças por aquela ser a única cena mais indevida que teria de fazer. Ou eu teria de beijá-lo inteiro.
--- Não fale assim, Silver... –Disse a princesa, pesarosa.
A garotinha egoísta tinha na personalidade descrita no roteiro, certa ética que vinha de seus pais, na infância. Mas que era desgastada com o tempo e o amor.
--- Anne... Você não é culpada por me amar. Eu já disse! –Joe disse.
Silver era um homem enganador. Apesar de amar de verdade Anne Baudelaire...
Anne era teimosa e ingênua.
x.x.x
As cenas se passavam. Eu via Peter, via Joseph, atuava com um, com outro. Sempre traindo o príncipe...
Sempre deixando-o para trás, a garota egopista se martirizava depois. Até que chegou a hora em que ela teria de chorar.
Olhei para Peter, estupefata.
Aquele era o momento da peça em que eu não saberia o que fazer.
Então fechei meus olhos e escutei o silêncio de repressão que a plateia fazia.
Foi então que de repente senti-o. Senti o beijo dele. Suave e mortal.
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