Ich Liebe Dich.
125 Cap. 125: Criança astuta.
Notas iniciais
Dois anos. Kurt, minha linda e chata criança tinha agora dois anos. Nunca havia visto mais convencido e mais espevitado. Kurt me surpreendia cada vez mais com suas palavras embaraçadas. Ele adorava maças. Macarrão com queijo, nunca...
Ele amava o pai. Passava muito tempo com ele. Tudo que fazia, queria que o pai estivesse lá para vê-lo. Isso porque o pai o mimava como me mimava e a todos a quem ele ama. Mas ainda assim ele era muito apegado a mim. Podia estar com o pai, mas sem mim ele ficava desnorteado. Porque apesar de eu ser ranzinza, ele sabia que podia sempre contar comigo para infringir as regras. Comer doce antes do jantar. “Esquecer” de escovar os dentes quando estava muito sonolento... E outras coisas mais.
--- Teremos uma festa hoje à noite, meu amor. –Peter disse, despreocupado.
--- Teddy? –Perguntei eu, nada surpresa.
--- Sim... –Peter respondeu.
--- Olhe só, Kurt dá trabalho... Ele vai ficar nos perturbando a festa inteira. Não vamos nem poder dançar. –Falei eu, desapontada.
--- Não fale assim dele... Ele só quer muita atenção. –Peter riu.
--- Meu filho não parece com nenhum de nós dois, neste aspecto... –Murmurei, tombando na cama enquanto Peter acabava de se arrumar para ir à organização.
--- Ah, não, querida? Você é orgulhosa e teimosa. Bem que eu havia dito que o temperamento dele era seu.
--- É... –Disse eu, ironicamente.
--- É sim! –Ele subiu na cama subitamente e me beijou, rapidamente. Depois saiu, subitamente e fechou a porta gritando: “Não se esqueça de estar arrumada às nove!”
--- Tá. –Exclamei.
Peter passou o dia inteiro na organização. Às vezes ele ficava de folga e ia brincar com Kurt no gramado. Passear. Então eu também ia. Mas não gostava desta idéia.
A indolência estava me dominando naquele lugar. Isso significava que Kurt iria passar o dia todo me importunando para sairmos. Mas aqueles olhos infantis e doces eram tão infinitamente infantis e doces quando queriam algo... Não conseguia negar. Kurt era uma criança astuta...
Ah! E tinha mais. Kurt não me deixava escolher suas roupas. Ele é quem queria as escolher. Vaidoso como ninguém...
--- Mamãe... –Ele murmurou descendo a escada e vendo que a porta do meu quarto estava aberta. Fingi estar dormindo.
Ele correu para cima da cama, ligeiro. Subindo em cima da cama, pegou em meus cabelos e tirou-os da cara para examinar melhor meus olhos. Menino capcioso. Ouvi uma risada sonora sua. Ele me beijou e continuou ali. Abri os olhos e fiquei quieta. Ele estava atrás de mim. Virei-me, percebendo que ele estava quieto demais.
---Kurt?! –Indaguei, cuidadosamente antes de me virar.
Não houve resposta. Fiquei preocupada. Virei-me, bruscamente. Kurt estava com os olhos fechados. As pálpebras fortemente apertadas, indicando um sono falso.
--- Kurt... –Gargalhei.
Ele abriu os olhos, percebendo que eu não acreditava. Ficou emburrado, mas depois sorriu de ver-me sorrindo. Além dos adjetivos cruelmente julgados pela sociedade que Kurt possuía, ele tinha a felicidade.
--- Está bem, você ganhou a simpatia da mamãe ranzinza de hoje. –Sorri. –Vamos lá fora. –Disse eu, alegre.
A empregada nova às vezes levava Kurt. Mas ele preferia ir comigo, apesar de também ser apegado a ela.
--- Josephine, levarei o Kurt para passear. Quando terminar o trabalho pode ir embora, está bem?! –Gritei.
--- Está bem. –Ela não gritou. Estava na sala, perto do meu quarto.
Arrumei o Kurt, de acordo com as roupas que ele queria... Eu nem ligava muito para isso. Mas às vezes ele “discutia” entre olhares e poucas palavras, com seu pai sobre como ia fazê-lo. E ele aceitava as opiniões do pai.
Peguei uma cesta de piquenique e levei-o, segurando sua mão. Abri a porta de casa e o ar ainda estava um pouco úmido. Tínhamos acabado de sair do inverno para a primavera.
--- Não vamos até a Penny hoje. –Disse eu.
--- Penny não? –Kurt perguntou, despreocupado.
--- Não. Vamos passear pelo bosque onde há banquinhos, hoje. –Disse eu, como se ele entendesse. Ele entendia tanta coisa, que às vezes ficava confuso saber quando ele entendia e quando não.
Andei com ele até o pequeno bosque em que tinham uns baquinhos. Queria me sentar. Os pontos de Kurt por ter feito a mãe ranzinza se dobrar estavam acabando. A indolência voltando.
Ele ficara calado todo o percurso observando as árvores floridas e coloridas. Senti-me bem em ver que Kurt gostava daquele ambiente. Que ainda não estava se sentindo desprovido de qualquer coisa que uma pessoa normal podia ter.
--- Chegamos. –Disse eu, aliviada.
Kurt sentou-se no banco e eu também. Suas perninhas balançavam e ele ficava olhando em volta vendo como toda aquela paisagem era espetacular. Em certo ponto, Kurt era quieto. Não fazia muito barulho nem ficava se movimentando demais. Mas era imponente e autoritário.
Passei horas sentada. Ele também não levantou ou fez barulho. Estava absorto. Mas depois de uma hora, ele pediu comida. Para mim, ele apenas gostava do ar livre e dos barulhos dos pássaros. Por isso queria sair. Não para perambular como as outras crianças. Estava quase a dormir no banco, quando Kurt fez barulho.
--- Mamãe! –Ele gritou, com sua voz sinuosa.
Apontava para o nosso horizonte a norte. Era o Peter. Estava de jaqueta preta e calça jeans. Sorria, lindamente.
--- Ei, Charllottie, o que faz aqui? –Peter perguntou. Uma sobrancelha linda arqueada e um meio sorriso solene.
--- Não posso passear com ele?! –Perguntei eu, despreocupada.
--- Ah, tudo bem, chega de jogos... –Ele riu. Sentou-se e beijou meu rosto, devagar.
--- Papa... –Kurt disse, entusiasmado. Seus olhos brilhavam.
--- Kurt... –Peter pegou-o e levantou-o até o alto para sentá-lo em seu colo. Ele riu.
--- Já está tarde... –Disse eu, bocejando.
--- É, bem, já está escurecendo. –Peter disse. –E, Charllottie, a festa do Teddy é para despedida da sua mãe. –Peter sorriu e semicerrou o olhar. –Depois dos dois anos que passou aqui, ela irá embora.
--- Ah, que ótimo. O pai apaixonado pela mãe. –Disse eu, sonolenta.
--- Ei, você ainda tem esta festa para ir. Acorde! –Peter exclamou.
--- Está bem. Vou assistir o futuro casamento. –Disse eu, ironicamente.
--- Mas não é só isso. –Ele disse, seriamente.
--- Como assim? –Perguntei eu, ainda sem interesse.
--- Ele disse que tem uma coisa importante a anunciar. –Peter disse, agora com um ar preocupado. Senti sua preocupação e fiquei rígida.
--- Por favor, não me diga agora. –Disse eu, fechando os olhos.
Meu pouco de paz de dois anos tinha se esvaído em um tortuoso segundo. Algo corroeu meu estômago levemente, devagar. Uma pequena queimação. Uma sensação de chateação. Importunação. Como um calo no pé. Ou uma agulhada. Mas veio e passou tão rápido que foi como um vislumbre.
Meu cérebro resolveu que eu iria relaxar, pelo menos até a hora da festa.
--- Tudo bem. –Ele disse, distraído.
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