Ich Liebe Dich.

1 Cap. 1: "Girassóis da Vida"


Olhei para o espelho e vi aquela garota que tinha um rosto nada infantil. Um rosto que parecia velho e cansado demais até para uma garota de vinte e um anos. Não que ele fosse enrugado. Pelo contrário, ele era límpido como uma nuvem branca. Pálido. Mas era quase lívido. O que já o deixara um tanto seco. Os olhos eram de um verde magnífico. Pareciam com qualquer cor em determinada luz. Um verde claro. Talvez a única coisa que apaziguasse a guerra fria que se encontrava ali no meu rosto. Eram claros, no entanto, meio sóbrios demais. O nariz era duro. Reto. Era o que mais deixava a impressão de algo sisudo, sério. O cabelo era liso. Mas não liso perfeito. Até porque tinha certo desleixo com o tal. Era preto. Ai sim, diria, “preto perfeito”. As sobrancelhas arqueadas me davam um ar de superioridade. Quando tudo que tinha era certa apatia, com uma dose de melancolia.

Olhei mais um pouco para o meu rosto, sorrindo levemente. Um sorriso um tanto forçado, como se fosse tirar uma foto emergencial. Eu gostava de olhá-lo. Apesar de não achá-lo bonito, achava-o graciosamente duro. Como um contraste entre a pele branca e macia e o cabelo preto e brilhante, e os traços do nariz e das sobrancelhas sérios e agudos.

Era uma manhã de sol fraco e as flores que brotavam no meu novo jardim estavam bonitas. A brisa entrou pela janela e levou meus cabelos ao meu rosto, acordando-me.

--- Charllottie, você poderia, por favor parar de olhar para o seu belo rosto e vir aqui? -Joe disse, enquanto olhava o teto, deitado na cama.

Olhei para seu torso nu, desviando o olhar, sucintamente, com um ar confiante que me era emprestado algumas vezes pela minha proteção desenfreada comigo mim mesma.

Já estava vestida e o olhava envergonhada. Porque a noite passada tinha sido estranha. Para ambos...

--- Você está bem? –Perguntou-me ele, obtuso.

Sentei-me na cama, ao lado do corpo jogado dele. Ele estava com o braço atrás da cabeça.

--- Olhe só, Joseph, não quero que me entenda mal... Eu só... Não sei o que deu em mim...

--- Não se preocupe, eu entendo o que você quer e o que não quer.

--- Mas –Fui interrompida.

--- Não importa mais. –Disse ele.

Pensando que eu não via a frustração, porém aceitação em seu rosto, ele simplesmente deixou-se bufar.

--- Espere um pouco mais. –Disse.

--- Eu apenas quero que entenda uma coisa, Charllottie, eu não vou forçar você a nada. –Disse ele.

--- Nunca deixaria que isso acontecesse. –Disse, firme. –Mas eu quero vê-lo feliz.

--- Isso não é algo que incomode tanto a minha felicidade. Ainda mais porque eu a tenho. –Disse ele, olhando-me com aqueles olhos perfurantes, no entanto meigos e calorosos.

Levantei-me e fui até a janela. Olhei-a, novamente embriagada por aquelas belíssimas paisagens holandesas. Para alguém como eu, amante de flores, aquele poderia ser o melhor lugar do mundo. Por isso tinha ido aproveitar minha férias curtas da Universidade, da minha mãe e da Escócia naquele lugar.

Mas apesar de o lugar ser extremamente bonito e de eu estar com Joseph, me sentia sozinha como sempre. Sem o meu velho pai ali, as coisas poderiam ser belas, coloridas, como as flores, que eram um grande pedaço da minha distração, mas mesmo assim não faria sentido. Seria apenas, bom.

Eu passaria horas, (e passava horas) olhando as flores belas que brotavam ali naquele canteiro perto da casa de Joseph.

Quando as via, sempre as comparava com as pessoas. Algumas delas me lembravam pessoas apaixonadas pela vida. Algo que faltava em mim descaradamente. Estas eram as rosas. Distintamente as rosas vermelhas, me lembravam a minha mãe. Que era uma mulher vivamente apaixonada. Por tudo o que fazia. Por tudo o que tinha de fazer. Mesmo depois da morte de meu pai, sempre a via sorrir e dizer que as coisas estavam bem. E chegava a odiar aquilo nela, quando estava no estágio de raiva do meu luto. Apesar de algum tempo depois, mais crescida, eu vê-la bebendo muito e fumando enquanto chorava em seu quarto, em um desses invernos.

Os girassóis. Esses eram os piores. Não podia nem pensar neles, que já me vinha a imagem de Samanta Stranger na minha cabeça. Eram como uma inquietação de criança, os girassóis. Como aquele sorriso doce e aquela energia que me deixavam irritada, perturbada. Como o sol, realmente. A minha querida amiga ruiva de sardas em seu rosto peculiarmente infantil me deixava doida. Mas pelo menos me tirara daquele inferno quase insuportável que era conviver com a morte de alguém tão próximo. A cada sorriso que a garota ruiva de aparelho dava na quarta série, eu tinha mais vontade de descontar minha raiva, frustração, rancor e tudo o mais nela. Porém não conseguia, pois ela queria muito ser minha amiga, e havia conseguido. E eu acabara por sorrir com ela, discretamente. Ou sorrir dela, que nem se aguentava em pé, de tão desastrosa. Apesar de parecer me amar e venerar desde pequena, em horas de desleixo, confundia-me com a minha irmã gêmea, (que nem sequer era idêntica) que saía, fingindo não saber que ela existia...

As rosas brancas, que ficavam na classe das minhas preferidas, lembravam-me pessoas realistas e solitárias. Eram como o meu pai. Era como se eu o estivesse vendo. Sentado ao piano de nossa antiga casa, ou na estufa, me ensinando sobre algumas flores. Ele gostava delas também. E até tentara fazer com que minha irmã gostasse. Mas ela realmente não gostava.

As pétalas macias destas flores e sua cor morta, calma, espumosa, me deixavam tão inebriada quanto seu perfume.

As rosas brancas também lembravam o meu semblante. Mas nada lembrava mais ele que o lírio. Com sua forma mal feita, comprida, magra, graciosa. Talvez eu fosse mais sombria do que um lírio e não tão leve quanto a rosa branca...

--- Hey! Este é nosso último dia aqui! Aliás...

--- Sim, é quase hora de partir. –Disse.

Mordi o lábio e pus as duas mãos na cintura. Joseph me olhou, com um meio sorriso ganancioso. A brisa de repente levou seus cabelos. Ele correu até mim e me beijou.

Atônita, olhei-o, incrédula. Sorri de leve. Embora estivesse com vontade de enforcá-lo por provavelmente me fazer ficar vermelha.

x.x.x

Quando eu cheguei à Escócia, logo pensei na primeira pessoa a quem ia encontrar. Não seria a minha mãe. Não, ela não se daria o trabalho de se importar com o que eu teria de ouvir de Sam até chegar a casa. Ela queria se certificar de estar livre das conversas frívolas de minha amiga enérgica. E ficaria sadistamente realizada em sua vingança. Porque não tinha concordado nem um pouco com a minha viagem de férias. E eu sabia que esse era o preço pelo qual eu teria de pagar. Ouvir Sam, por todo o trajeto do aeroporto até a casa.

--- Então, cadê o seu inglês esquisito? –Sam disse, quando me viu chegar. Os olhos curiosos procurando.

O seu vestido jeans e a sua trança, por mais incrível que parecesse, estavam dando um ar não infantil a ela. Ou eu me enganara brutalmente, ou Sam estava levemente menos enérgica. Talvez o universo conspirasse a favor de que meus nervos estivessem mantidos calmos.

--- Ah, Sam, Joe está logo atrás de mim.

--- Você só flerta com gente esquisita.

--- Não é um flerte.

--- Tá, tudo bem. Mas apesar de eu gostar muito do jeito camarada dele, e estar ficando amiga, ainda o acho simpático demais...

--- Posso ver nos seus olhos o quanto esperou por um amigo como Joe. –Levantei uma sobrancelha.

--- Não. Pode ver na sua decadência em diversão, como eu esperei por um amigo como ele. –Disse ela, sorrindo, triunfante.

--- Apenas cale a boca, porque ele está ai.

--- Joe!

--- Samanta, minha anã preferida. –Disse ele, sem sorrir.

--- Isso foi um pouco cruel.

--- Vamos, preciso te mostrar fotos, Sam! –Disse Joe,espontâneo.

E como o caráter bobo de Sam, ela logo esqueceu seu traumático tamanho.

x.x.x

Na Universidade, sentei-me na mesma carteira de sempre. De onde dava para observar o professor e a maioria dos alunos da sala. Encostada na parede, do lado esquerdo, no meio da sala. Observava os hábitos do professor, que adorava parar ali e não sair mais.

A aula estava para começar e Samanta ficava batendo o lápis na cadeira, enquanto Gregory mexia no cabelo de Rose. Professor Friedrich olhava absorto para uma orquídea do gênero Vanilla. Cuidadosamente tocando-a. Como se ela fosse de poeira.

Somente a brisa passava sem som pelo meu rosto, enquanto eu observava as coisas se moverem.

Foi quando olhei para a porta, de relance, como quem não quer nada, apenas vagando. Uma garota de cabelos compridos entrou, chamando a atenção do professor. Não observei seu rosto, de pronto, mas vi que era loira e que tinha os olhos claros. Azuis, talvez.

Sentou-se numa cadeira atrás da minha.

Quando passou por mim, olhei bem seu rosto. Era ariana. Pele, de tão branca, rosada. Olos azuis, bolas azuis. Piscavam sem parar, robóticos. Sem sequer desviarem o caminho da carteira onde ia sentar. Porém era como se eu a visse em minha direção. Focando-me. Era como se ela exercesse uma estranha força sobre mim.

Os cabelos moles balançavam graciosamente, enquanto ela se dirigia ao seu posto, a seu propósito hipnótico. O foco de seus olhos pragmáticos. Não sorria. Nem demonstrava desdém. Somente frieza.

--- Você a viu?! –Samanta Stranger então abriu sua boca. Nada inesperado a mim.

--- Não vi nada. –Disse.

--- Tudo bem, Friedrich, já vai começar.

O professor caquético de cabelos assanhados e grisalhos começou a falar. Era uma figura frágil, porém séria. Lenta e gradual. Talvez meu pai seria como ele quando velho.

A aula correu lenta. Eu fazia anotações enquanto a brisa ainda soprava calada e calma em meu rosto. Havia quase me esquecido, em meu senso prático, da bela e intrigante nova pessoa.

Mas claro, não por muito tempo.

Friedrich olhou para a minha direção, enquanto eu o olhava, com meu olhar de sempre. Achei, por um inquietante momento, que ele iria outra vez me chamar para discursar sobre minhas experiências extras na estufa. Porém ele apontou e falou, com o tom de voz grosso e sério de sempre.

--- Senhorita Angel, seria um bom momento para se apresentar, este de agora? –Indagou, circunspecto.

--- Claro. –Disse a mulher com uma voz grave e polida que me estremeceu levemente.

Levantou-se da carteira, e com mesma precisão que direcionou seu olhar quando foi se sentar, andou até Friedrich.

Olhou por sob a sala. Sorriu sem mostrar os dentes. Dando covinhas um tanto assustadoras a seu rosto harmoniosamente penetrante.

--- Sou Angel Fritzl. Recém-chegada da Alemanha. É um prazer conhecê-los. –Disse.

Olhou-nos, com um sorriso um pouco mais gentil. Mostrou os dentes dessa vez, num gesto que quase me fez tirar a impressão fria que tinha dela.

--- Obrigada. –Disse Friedrich, sério. E continuou a falar, enquanto Angel se direcionava a sua carteira novamente.

--- Seja bem vinda, Angel. – Sam, desafiadora do desconhecido como era, num tom não muito infantil, o que não era costume dela, disse. –Sou Samanta...

--- Senhorita Stranger, hm. –Disse a mulher, num tom desdenhoso. –Você é alguém agitada... –Disse, enquanto ignorava Sam e sentava-se em sua carteira.

Apenas ouvi, com algo de inquietação e algo de calma. Nem sequer virei a cabeça.

Samanta finalmente tinha ficado séria naquele dia.

Enquanto isso, aproveitava o silêncio com que Angel havia me presenteado, para ponderar.

Angel andava olhando a lista de nossos nomes? Ela sabia todos os sobrenomes? Sim, se sabia o de Sam, era porque sabia o de todos. Não daria tanta importância a alguém que não conhece, para ir saber apenas o sobrenome deste...

Mas não me daria hipóteses absurdas, porque eu simplesmente não precisava daquilo. Fechei o livro e fui rabiscar desenhos. Era o que fazia quando algo instigava a minha paciência...

x.x.x

No intervalo, eu sempre via Joe. Mas Sam parecia tomar toda a atenção dele naquele momento.

--- Baker! –Gritou ela, pela primeira vez depois de Angel tê-la repreendido.

--- Você por acaso recebeu algum estudante novo, estranho, em sua classe? –Sam falou com o desprezo que poderia ter sido destinado a Angel, a tal aluna nova, mas que porém ficara entalado no esôfago dela.

--- Bem, depende do que, pra você é estranho, Sam. – Joseph respondeu sem muito interesse, enquanto se debruçava na janela.

--- Estranhamente arrogante.

– Bom, -Disse Joseph pensativo – um cara de olhos azuis penetrantes que chegou hoje... –Parou, resignado. –Ele me parece esquisito. É alemão.

--- Vocês são uns racistas. –Ri, sem muito entusiasmo. –Só porque são de outro pais, acham que eles são radioativos, doentes? –Disse, sorrindo.

--- Calminha, Charllottie. –Sam riu e Joseph a acompanhou. –Radioativos não...

--- Ei, Sam é verdade, não pode descriminá-los só por serem alemães... e viva a liberdade de expressão e Hitler. Porque ele é o Senhor. –Joe levantou a mão para Sam bater nela. Muito sério.

--- Meu Hitler, lindo... –Disse Sam. –É sério, Lottie, não acha ele lindo? –Disse ela, rindo.

E assim eles ficaram falando como vozes ao fundo dos meus pensamentos.

Nunca havia sido ingênua em minha vida. Até mesmo quando criança, certas vezes me perguntava se algumas imposições não podiam ser quebradas por sua falta de aproveitamento prático. Mas suspeitar de pessoas de diferentes não fazia bem o meu programa mental.

Mesmo assim, meu instinto era estranho quando a garota loira se aproximara. Se é que eu tinha realmente um instinto àquela altura. Pois andava meio morta.

Mas a minha curiosidade era instigada por aquela mulher. E agora pelo homem que Joseph havia mencionado. Talvez eu procurasse algo que me fizesse sentir viva. E meu subconsciente me levava a crer que havia algo errado. Mas tudo eram só conjecturas.

E talvez a curiosidade matasse mesmo o gato. Se quando descobrisse já estaria morto, não valia a pena descobrir.