Iced and Feverish
4 Capítulo 4 - Venio
Notas iniciais
E eu corria.
Corria como se minha vida dependesse disso.
E quem sabe, realmente dependesse.
Tudo estava escuro, mas eu sabia que estava lá. Num corredor de paredes negras, assim como o chão.
E eu sabia que já havia ido lá, reconhecia como reconheço minha casa. Mas minha casa faz parte de minha memória. Aquele lugar, não.
Novamente aquela sensação de familiaridade ao irreconhecível me preencheu.
E eu me perguntava se isso era normal, mesmo sabendo que não. De repente eu parei, vendo como parecia um tanto mais pálida, como que iluminada pela luz do luar.
Olhei para o céu e percebi que ali se estendia, entre a pouca distância de uma parede e outra, um céu mais estrelado do que o normal. Tão lindo que mais parecia uma pintura, que mal parecia verídico.
E se fosse falso?
Com essa pergunta, o chão que parecia a única coisa sólida desapareceu sob meus pés.
E eu estava caindo. Numa velocidade que parecia tão fictícia quanto o céu, que antes estava ali.
Tão perto, porém agora tão longe que chegava a ser invisível. Tudo era negro, e eu estava sendo envolta por aqueles mantos escuros.
Nada se ouvia, nada se via. Mas eu sentia. O mal estava se aproximando, e eu sabia disso. Sabia disso como sentia meu coração bater, rapidamente.
— Venio — sussurrara uma voz masculina ao meu ouvido. Uma voz rouca, sedutora, mas carregada de perversidade, de maldade infinita. — Venio, Kate.
Então eu acordei.
Suada e tremendo, o coração batendo mil vezes por segundo. Era só um pesadelo, mas eu sentia os efeitos de modo verídico.
O ar de meus pulmões parecia sido retirado com uma brutalidade enorme.
Um copo d'água talvez fosse me ajudar.
Fui cambaleando até a cozinha e quando estava prestes a pôr o copo na boca, ele caiu de minha mão trêmula, se espatifando e criando um ruído tremendo, que ressonou em todo o recinto.
— Kate, o que está acontecendo? — minha mãe apareceu, seguida de meu pai, poucos segundos depois.
— Kate, o que foi? – meu pai se pronunciou, os dois pareciam tremendamente preocupados.
Sinceramente eu só queria saber de uma coisa...
O que significa "Venio"?
Mas eu virei e respondi, um pouco tonta:
— Pesadelos. — falei debilmente, me apoiando na pia de mármore da cozinha.
Meus pais trocaram olhares preocupados.
Certo, poderia até ser uma impressão minha.
Sei lá, por causa da tontura e tal. Mas realmente parecia que eles sabiam de alguma coisa.
Eu não sei o quê, não me pergunte. Mas eles sabiam. Ou pelo menos pareciam saber de algo.
Só que como eu estava meio grogue, eu não tive a chance de perguntar. Somente observei eles.
E cara, eu aposto que eu parecia estar meio louca.
Já que, você sabe, quando somos anestesiados o mundo parece dar cambalhotas e você tem dificuldade de se situar, agir e até mesmo pensar. E era essa a sensação, como uma anestesia geral.
Eu estava conseguindo pensar, mas minha boca não queria me obedecer muito bem. Parecia meio que um conflito interno, um conflito que eu não entendi.
— Kate, se estiver precisando de algo, diga. — mamãe olhou para mim com preocupação, assim como meu pai.
— Eu... Eu preciso me deitar. — disse com dificuldade.
A tontura parecia distorcer tudo, até meus pensamentos pareciam embaçados. Era um sensação estranha, torpor com algo a mais. Algo que não consegui distinguir.
Meu pai se aproximou de mim, não se machucando com os cacos de vidro por conta de suas pantufas de sola emborrachada. Ele pegou-me no colo, e ainda pensando sobre o sonho eu adormeci em seus braços.
Senti quando ele me pôs na cama cuidadosamente, e também senti minha mãe me observando depois disso.
Mas depois eu consegui dormir, certo?
Errado.
Faltavam exatos quinze minutos para as seis da manhã. Horário que normalmente acordava para tomar café.
Bem, pelo menos quando eu conseguia ser pontual.
Levantei-me, sentando na cadeira da escrivaninha de mogno e ligando o notebook.
Eu precisava saber o que significava aquela palavra, se é que isso significava alguma coisa ou mesmo era coerente.
Venio, venio, venio. A palavra era repetida por meu subconsciente.
Soava como aramaico, latim ou algo do tipo.
E eu estava certa. Latim. Mas não era nada como eu imaginava. Quero dizer, sonhos significativos, geralmente não são tão... Breves e ameaçadores.
"Eu estou chegando" a tradução brilhava na tela do computador.
Mas o quê estava chegando? Ou melhor, quem?
Tudo bem, poderia não significar nada. Eu admito, nunca acreditei muito no "significado dos sonhos".
Mas e se por acaso esse tivesse um significado?
E se o "estou chegando" fosse para algo que deveria temer?
Eu estava pasma, incrivelmente pasma, assustada e temerosa. Com os olhos arregalados e os pensamentos trabalhando incessantemente, eu ouvi o tão familiar toque do celular soar.
Uma nova mensagem.
"Kate, vê se aparece logo, já estou no ponto de ônibus. Preciso conversar com você sobre a festa.
xx Jane"
Tomei um banho rápido, pus uma blusa preta, meu tênis favorito -de um vermelho vívido- e calças jeans e logo já estava tomando um ótimo gole de café.
— Está melhor, filha? — mamãe olhou-me preocupada.
— Sim, está tudo bem. — ela lançou um olhar um pouco desconfiado para mim.
Okay, não estava tudo exatamente bem.
Mas o que eu poderia fazer? Não acho que se falasse surtiria algum efeito.
O que ela poderia fazer? Contratar um detetive para investigar um de meus sonhos malucos? Fala sério.
— Sério mesmo mãe, tá tudo bem. Foi só um pesadelo. — "só um pesadelo que pode ser significativo" pensei. Mas claro que não falei. Se falasse seria interrogada até abrir o bico e falar tudo. E certamente eu não queria isso.
— Bom dia Kay. — meu pai adentrou o recinto, depositando um beijo no topo de minha cabeça e selando os lábios com os da minha mãe. — bom dia, Lottie.
Comi o último pedaço do sanduíche. Ainda estava com fome, então comi mais alguns biscoitos.
Tomei o último gole de café, me despedi dos meus pais e logo já estava ao lado de Jane.
— Oi, bom dia. — disse um pouco sonolenta. A mochila parecia incrivelmente mais leve.
Puxei o casaco azul petróleo em minha direção, tentando me esquentar. Não fazia uma temperatura muito gélida ou mesmo incômoda, mas todas as manhãs a cidade é invadida por um vento gelado que me faz tremer da cabeça aos pés. Mas a maioria da população já está acostumada, como percebi.
— Hey, bom dia! — Jane se aproximou me abraçando. — então, o que acha de irmos comprar os vestidos da festa depois da escola?
Tinha esquecido totalmente da festa. Totalmente.
Mas no mesmo instante em que lembrei, o pensamento de alguma coisa de ruim acontecer lá me atingiu.
— Então... Jane, eu acho melhor eu não ir. — eu disse, com todo o cuidado.
Primeiro o garoto do ônibus e agora isso. Só podia estar ficando louca.
— De jeito nenhum! — Jane segurou meus ombros. — Meu bem, você vai! Nem que eu tenha que te sequestrar e pôr o vestido em você na marra! — me sacudiu um pouco. Me fuzilando com os olhos.
— Mas Ja...- eu tentei.
Juro pra você que eu tentei. Mas aí ela me interrompeu gritando e eu por fim tive de concordar com ela, depois de milhões de "Kate, não acredito que vai fazer isso comigo!", "Mas eu não posso ir sozinha!", "E se eu sumir? Quem é que vai contar aos meus pais que tipo de gente me sequestrou?", eu finalmente aceitei de que teria de ir.
E teria de ver se por algum acaso, eu deveria temer o que significado de "Estou chegando".
Passei a maior parte do dia pensando nisso.
Nisso e se teria alguma ligação com o dia em que aquele garoto apareceu no ônibus, claro.
Faltavam exatos 4 minutos para o sinal tocar, um milagre aconteceu e o Sr. Walden decidiu nos liberar mais cedo. Dessa vez as escadas estavam mais vazias, só minha turma fora liberada nesse horário. Isso deveria fazer eu me sentir ótima.
Quero dizer, sem o amontoado de pessoas, o burburinho interminável e tal.
Mas parecia que tudo isso fora transferido para o meu cérebro, de modo que sentia minha cabeça latejar de um modo terrível.
— Jane, eu não estou me sentindo muito bem. — disse assim que descemos o último degrau, me apoiando nela.
Estava tonta, e uma ânsia de vômito crescia gradualmente.
Mas eu não falei pra Jane, ela não gostaria de saber que eu poderia vomitar nela. E eu não gostaria de perder meu "pilar de sustentação" atual.
— Quer algum remédio? Aspirina? — ela olhou-me, preocupada.
— Eu... Aceito. — ela mexeu em sua bolsa e segundos depois me entregou a cartela de comprimidos. — Obrigada.
— Pra isso que servem os amigos. — ela piscou para mim, sorrindo gentilmente.
Tomei o remédio, e nós almoçamos num restaurante ali perto. Jane queria comprar o vestido no mesmo dia, mas minha dor de cabeça parecia interminável, não queria colaborar comigo.
Então eu fui para minha casa, me despedindo de Jane e saindo da loja de lindíssimos vestidos que fomos depois do almoço. Ela queria que eu escolhesse algum, mas a única que foi sentar e ver se em algum momento minha cabeça parava de latejar.
— Melhoras Kate! — ouvi Jane dizer assim que virei as costas e saí da loja, a desejando "boas compras".
Quando cheguei em casa, mal parecia real.
Estava tão terrivelmente cansada que a única coisa que pude fazer foi tomar um bom banho e dormir.
E dessa vez sem nenhum pesadelo horrendo para me atrapalhar.
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