Iceberg
2 Au Revoir, Shoshanna
Faço vinte anos hoje. O gosto do bolo de chocolate que minha mãe fez está em minha boca até agora. Pode parecer nojento, eu sei. Eu o comi pela manhã e, pelo relógio do meu quarto, são quatro e meia da tarde. Mas essa é uma coisa sobre mim: eu mal levanto da cama.
Sim, eu tenho higiene. De manhã, logo após acordar, saio do quarto e vou até o banheiro. Escovo os dentes. Volto pra cama. Assisto alguma coisa na TV, mas não o faço por mais de dez minutos. Desligo o aparelho e durmo. Olho para o teto. Como alguma gororoba que minha mãe fez antes de sair. Escovo os dentes (higiene). Assisto TV. Durmo. Tomo banho (higiene). Minha mãe chega e esquenta a gororoba de novo para nós dois. Escovo os dentes (higiene). Dez da noite. Cama.
Dia seguinte, mesma coisa. Ou quase. Tem dias que me masturbo. Uso a imaginação. É bem relaxante. Não que eu tenha muito estresse no meu cotidiano. Mas também não sou um menino de vinte anos normal.
Não saio de casa a quatro anos. Quatro.
Tenho um calendário no meu quarto, da empresa da minha mãe. Bem, não é dela. É onde ela trabalha. Um salário mínimo. Comissão. Classe média-baixa.
Não que ela gaste dinheiro comigo; não é como se eu saísse de casa e tivesse opções para torrar dinheiro. Mas ela acabou de passar por um término de namoro complicado, se é que se pode chamar isso de término. O filho da puta deixou VÁRIAS coisas pra ela pagar. E sumiu. Se foi. Uma noite, ele estava no quarto dela dormindo. Na manhã seguinte, ele tinha ido embora. Não estava na casa dele. Au revoir, Shoshanna.
Isso me faz lembrar que preciso terminar a filmografia do Tarantino. Meu preferido é Django Livre. Falta Bastardos Inglórios apenas. Ainda não o assisti, mas conheço essa fala. Shoshanna. Seria o nome da minha filha, se eu tivesse chances de ter uma. Decido fazer alguma coisa. Me levanto, vou até a sala. Ganhei o dvd de aniversário da minha mãe, o único desde... Enfim. Ligo tudo o que é necessário e apenas deixo Tarantino ser meu presente de aniversário.
O filme começa. Daqui a pouco Shoshanna dará o ar de sua graça. Mas antes...
Antes...
Tiros. Tiros. Tiros. Mais tiros.
Começo a suar. Minhas mãos tremem. Meus pensamentos me levam até aquele dia. Aquele dia horrível.
Desligo o aparelho correndo e corro ao banheiro. Tiro a roupa, abro o chuveiro e pulo na água gelada. Minha mãe não pode me ver assim. NÃO PODE. Ela vai gritar, gritar, gritar, gritar, gritar e eu vou chorar, chorar, chorar, chorar, chorar.
Mas ela não precisa estar aqui, nem precisa gritar para me fazer chorar. Apenas deito no chão do banheiro enquanto minhas lágrimas escorrem pelo meu corpo.
***
Há muito tempo, uma deusa chamada Liberdade comandava a Terra. Não havia ninguém aqui; a deusa era solitária. Ela apenas passeava pela terra seca e rochosa, pensando no momento em que a solidão acabaria. Até que, um dia, enquanto estava sentada em uma pedra muito alta, ela avistou uma figura escura vindo em sua direção. Era como uma sombra, só que muito grande. Essa figura agarrou a Liberdade e a levou para o alto, muito, muito alto. Lá, a prendeu em uma espécie de gaiola imensa. Liberdade tentou sair de lá usando todos os meios que podia, mas não conseguiu. Depois de anos e anos e anos sozinha, Liberdade nunca tinha experimentado um sentimento como aquele. E chorou. Chorou muito. Chorou por dias e noites, por semanas e meses, por anos e décadas.
Foi assim que minha mãe me explicou a origem dos oceanos.
Fale com o autor