ILHA DOS DESEJOS

22 Capítulo 22 — Aqueles em quem não confiamos


Ninguém falou durante vários segundos depois que a gravação terminou.

O mar batia suavemente contra o casco da embarcação abandonada, produzindo um ruído quase tranquilo demais para o que acabara de acontecer. Paul continuava segurando o telefone com as luvas, Embry observava a mata ao redor da enseada, Edward mantinha os braços cruzados e os olhos baixos, enquanto Quil parecia ter envelhecido alguns anos no espaço de uma única frase.

E não conte a Quil.

Sarah não conseguia parar de ouvir.

Mas não era aquilo que mais a perturbava.

Era outra frase.

E não confie em Jacob apenas porque você o ama.

Ela sentia a mão de Jacob segurando a sua.

Forte.

Quente.

Imóvel.

Nenhum dos dois olhava para o outro.

Embry, talvez percebendo a tensão, pigarreou.

— Acho que deveríamos voltar para casa antes de termos uma reunião familiar completa no meio de uma enseada escura.

Paul assentiu.

— Concordo.

Jacob finalmente falou:

— Leve o telefone.

— Claro.

— E o barco fica exatamente onde está até a perícia terminar.

— Sim.

Jacob olhou para Quil.

— Você vem comigo.

Quil soltou uma respiração curta.

— Imaginei.

— Não imagine nada.

Sarah apertou a mão de Jacob.

Ele olhou para ela.

— Vamos.

Dessa vez foi ela quem disse.


Quarenta minutos depois, estavam novamente na biblioteca.

O telefone permanecia com Paul.

A gravação havia sido copiada para um equipamento isolado, e ninguém tentara ligar ou responder pelo aparelho.

Jacob caminhava de um lado para o outro.

Sarah observava.

Ele estava com raiva.

Não apenas porque alguém havia entrado em Saint Claire outra vez.

Não apenas porque fotografara os dois.

Não apenas porque conhecia Harry.

A frase o atingira.

Ela sabia.

Não confie em Jacob apenas porque você o ama.

Quil permanecia sentado.

— Você conhece Margaret — disse Jacob.

Não era pergunta.

— Conheci.

— Quanto?

— Trabalhamos juntos algumas vezes.

— Não foi isso que perguntei.

Quil passou a mão pelo rosto.

Sarah interferiu:

— Quando foi a última vez que você falou com ela?

— Mais de vinte anos.

— Tem certeza?

— Sim.

— Viu?

— Não.

— Mensagem?

— Não.

— Alguém mencionou o nome?

Quil pensou.

— Harry.

Sarah ficou imóvel.

— Quando?

— Pouco antes de morrer.

Jacob parou de andar.

— E você só está contando agora?

Quil olhou para Sarah.

— Porque até hoje eu não tinha certeza de que a mulher de Nassau era Margaret.

— Isso não responde — disse Sarah.

Ele assentiu.

— Harry me perguntou se eu sabia onde ela estava.

— E você disse?

— Que não.

— Por que ele procurava por ela?

— Não explicou.

Sarah sentiu a irritação crescer.

— Quil, estou ficando cansada de pessoas que tiveram conversas misteriosas vinte anos atrás e convenientemente esqueceram de mencionar.

Embry murmurou:

— Finalmente alguém disse.

Quil aceitou o golpe.

— Eu também.

— Não parece.

— Sarah...

— Meu tio morreu sabendo que havia alguma coisa perigosa o suficiente para esconder documentos numa bússola que deixou para mim. Você estava no funeral. Ele pediu que verificasse se eu e minha mãe estávamos bem. E agora descubro que, pouco antes de morrer, ele procurava justamente a mulher que acabou de me chamar para Nassau.

Sua voz falhou por um segundo.

Jacob se aproximou.

Sarah continuou:

— Então não me dê meias respostas.

Quil assentiu lentamente.

— Harry achava que Margaret tinha documentos originais da Fundação Clearwater.

— Quais?

— Não sei.

— O que ela fazia na fundação?

— Custódia documental e patrimonial.

— Era dona?

— Não.

— Beneficiária?

— Não sei.

— Clearwater era sobrenome verdadeiro?

Quil hesitou.

— Acredito que não.

Sarah franziu a testa.

— Então por que usava?

— Porque pessoas que atuavam formalmente em nome da fundação podiam usar o sobrenome como identificação profissional em determinadas estruturas.

Edward levantou os olhos.

— Como um nome funcional.

— Em alguns casos.

Sarah absorveu aquilo.

— Então isso reduz a possibilidade de parentesco comigo.

Quil respondeu com cautela:

— Reduz. Não elimina.

Ela assentiu.

— Certo.

Jacob voltou ao ponto que o incomodava.

— Por que ela não quer Quil em Nassau?

Sarah olhou para ele.

Quil também.

— Não sei.

— Você espera que eu acredite?

— Não.

— Ótimo.

— Mas é verdade.

Edward, até então calado, falou:

— Talvez ela ache que Quil trabalha para Aro.

Quil virou-se.

— Ela teria motivos.

Sarah percebeu.

— Que motivos?

Quil ficou em silêncio.

Jacob soltou uma risada sem humor.

— Claro.

— Quil — disse Sarah.

Ele respirou fundo.

— Depois que Billy morreu, trabalhei para Aro durante onze meses.

O silêncio foi absoluto.

Jacob se aproximou tão rapidamente que Sarah levantou-se.

— Você fez o quê?

— Trabalhei para ele.

— Depois da morte do meu pai?

— Sim.

— O homem que você diz que Billy temia.

— Sim.

— O homem cujos homens estão entrando na minha ilha.

— Sim.

— O homem que pode estar ligado ao que aconteceu com Isabella.

— Pode.

Jacob agarrou Quil pela camisa.

Paul avançou.

Sarah não gritou.

— Jacob.

Ele continuou segurando.

— Solte.

Jacob olhou para ela.

— Agora.

Ele soltou.

Quil ajeitou a camisa.

— Obrigado.

— Não agradeça a mim — respondeu Sarah. — Explique.

Quil respirou.

— Billy morreu. Eu sabia que Aro tinha alguma participação na estrutura que Billy tentava abandonar, mas não sabia até onde ia.

— Então se infiltrou? — perguntou Edward.

— Não exatamente.

Sarah percebeu.

— Ele sabia que você estava investigando.

Quil assentiu.

— Aro me contratou sabendo exatamente quem eu era.

Jacob riu.

— Isso melhora muito.

— Nunca disse que melhorava.

— O que fazia?

— Segurança. Logística. Recuperação de documentos.

— Para ele?

— Para descobrir o que ele tinha.

— E conseguiu?

Quil ficou em silêncio.

Sarah respondeu por ele:

— Algumas coisas.

— Sim.

— E Margaret descobriu.

Quil olhou para ela.

— Provavelmente.

— E passou a considerar você parte do grupo de Aro.

— Sim.

— Talvez ainda considere.

— Sim.

Sarah assentiu.

Aquilo explicava a instrução.

Não provava que Margaret estivesse certa.

Mas explicava.

— Por que saiu depois de onze meses?

— Porque Aro mandou que eu encontrasse Margaret.

Silêncio.

Sarah sentiu um arrepio.

— Para quê?

— Ele não disse.

— E você recusou?

— Eu disse que não sabia onde ela estava.

— Sabia?

Quil demorou.

— Tinha uma possibilidade.

Jacob fechou os olhos.

— Você mentiu para Aro.

— Sim.

— E depois?

— Desapareci.

Embry soltou uma respiração.

— Sua morte.

Quil assentiu.

— Foi quando comecei a preparar minha própria morte.

Sarah olhou imediatamente.

— Finalmente.

Quil franziu a testa.

— O quê?

— Estamos há dias falando com um homem oficialmente morto sem ninguém explicar como você morreu.

Embry apontou para ela.

— Eu estava pensando nisso.

— Obrigada.

Jacob não achou graça.

— Como?

Quil respondeu:

— Acidente de barco.

— Corpo?

— Nunca encontrado.

Sarah ergueu as sobrancelhas.

— Pelo menos você teve a decência de não usar um cadáver desconhecido.

Quil quase sorriu.

— O padrão estava baixo.

Edward olhou para ele.

— Charlie sabia que você estava vivo?

— Sim.

— Aro?

Quil ficou quieto.

— Suspeitava.

— E Margaret?

— Não sei.

Sarah pensou.

— Se Margaret acredita que você passou onze meses trabalhando para Aro e nunca soube por quê, faz sentido que não confie em você.

— Sim.

Jacob cruzou os braços.

— E eu deveria deixar você aqui enquanto levo Sarah para encontrar uma mulher que ninguém vê há vinte anos?

Quil respondeu:

— Não.

Todos olharam.

— O quê? — perguntou Jacob.

— Eu não acho que você deva ir.

Sarah franziu a testa.

— Por quê?

— Porque Margaret não marca encontros.

— Acabou de marcar.

— Exatamente.

A resposta deixou a sala em silêncio.

Quil olhou para Sarah.

— A mulher que conheci desaparecia ao menor sinal de risco. Se está chamando vocês diretamente, ou está desesperada...

Jacob completou:

— Ou não é ela.

— Exato.

Sarah olhou para o telefone.

A voz conhecia o código.

Mas Harry havia escrito uma coisa muito específica.

Você saberá que encontrou a pessoa certa quando ela disser: “A bússola não aponta para casa.”

A mulher dissera.

E respondera corretamente à resposta de Sarah.

Ou, pelo menos, parecera reconhecer.

— Isso ainda não prova que seja Margaret — disse Sarah.

Quil assentiu.

— Não.

— Prova que conhece o código.

— Sim.

— E Harry.

— Ou alguém que teve acesso ao que Harry sabia.

Sarah ficou imóvel.

Jacob olhou para ela.

— Não vamos sair correndo para Nassau amanhã.

Ela voltou-se.

— Eu não disse que iríamos amanhã.

— Seu rosto disse.

— Meu rosto não fala.

— Fala muito.

Embry tossiu.

— Finalmente.

Sarah apontou para os dois.

— Eu odeio essa casa.


A análise do telefone trouxe pouco.

O áudio fora gravado previamente.

Nenhum metadado útil.

O barco havia sido comprado em dinheiro por um intermediário seis semanas antes.

Mas a fotografia de Sarah e Jacob era daquela tarde.

Isso significava que alguém estivera em Saint Claire horas antes.

E alguém conhecia a ligação entre Sarah e Harry.

Paul aumentou a segurança.

Duas patrulhas passaram a circular pela propriedade.

A pista ficou sob vigilância.

Os barcos foram revisados.

Jacob queria Sarah dentro da casa.

Sarah queria estrangular Jacob.

— Não vou ficar presa.

— Não disse presa.

— Disse “não saia”.

— Temporariamente.

— Isso é prisão com vocabulário caro.

— Sarah.

— Jacob.

Ele fechou a porta do escritório.

Estavam sozinhos.

— Alguém fotografou você a menos de duzentos metros desta casa.

— Fotografou nós dois.

— Não é a mesma coisa.

— É exatamente a mesma coisa.

— Não para mim.

Sarah parou.

— E esse é o problema.

Jacob passou a mão pelos cabelos.

— Não faça isso.

— Isso o quê?

— Transformar minha preocupação em controle.

— Então não transforme preocupação em controle.

Ele respirou fundo.

— Você sabe que não é isso.

— Sei?

— Sim.

— Porque quando você tem medo, sua primeira reação é decidir.

Jacob ficou quieto.

Sarah se aproximou.

— Miami.

Ele desviou os olhos.

— O quê?

— Quando Edward voltou, você quis me mandar para Miami.

— Porque havia perigo.

— Nassau.

— Você foi.

— Depois de discutir.

— E eu estava certo em estar preocupado.

— Nunca disse que não estava.

Sarah tocou o peito dele.

— Estou dizendo que você ainda confunde proteger comigo e proteger de mim.

Jacob fechou os olhos.

A carta de Billy.

Não confunda proteger alguém com esconder dele a verdade.

— Droga.

Sarah quase sorriu.

— Finalmente.

Ele abriu os olhos.

— Não gosto disso.

— Não precisa gostar.

— Tenho medo.

A sinceridade desmontou a discussão.

Sarah ficou quieta.

Jacob segurou sua cintura.

— Não é racional.

— Medo raramente é.

— Quando não sei onde você está, minha cabeça...

Ele parou.

Sarah esperou.

— Vai para aquela noite.

Isabella.

O mar.

A busca.

O corpo.

Sarah tocou seu rosto.

— Eu não sou ela.

— Eu sei.

— Então olhe para mim.

Jacob olhou.

— Eu estou aqui.

— Agora.

— Agora é tudo que você tem.

Ele fechou os olhos por um segundo.

Sarah continuou:

— E eu não vou prometer que nunca vai acontecer nada comigo. Você também não pode prometer isso.

— Odeio essa conversa.

— Eu sei.

— Muito.

— Eu sei.

Jacob apoiou a testa na dela.

— Então me dê alguma coisa.

— O quê?

— Um acordo.

Sarah pensou.

— Não saio sozinha enquanto não soubermos quem esteve na ilha.

— Aceito.

— Informo Paul antes de sair da casa.

— Aceito.

— Não aceito escolta dentro do quarto.

Jacob quase sorriu.

— Negociável.

— Jacob.

— Brincadeira.

— Péssima.

Ele a puxou.

— E Nassau?

Sarah ficou séria.

— Nós vamos.

— Na data das passagens.

— Sim. Daqui a dois dias.

Jacob assentiu.

— Isso nos dá amanhã inteiro para verificar Margaret e preparar a viagem.

— Exatamente.

— E decidir quem vai.

— Você.

— Obviamente.

— Paul.

Sarah pensou.

— Margaret pediu especificamente nós dois.

— E eu especificamente não vou entrar numa casa desconhecida em Nassau sem segurança.

— Concordo.

Jacob pareceu surpreso.

— Sem discussão?

— Paul vai conosco, mas não precisa entrar no encontro se o local estiver seguro. Ele fica próximo.

— Aceito.

— Não Quil.

Sarah demorou.

— No encontro, não.

— Sarah.

— Jacob, isso não significa que confio nela. Significa que quero descobrir por que ela não confia nele.

Ele pensou.

— Certo.

Do corredor, Embry gritou:

— Isso conta como discussão madura?

Sarah abriu a porta.

Embry estava parado com uma maçã na mão.

— Você está ouvindo?

— A parede é fina.

Jacob apontou para o corredor.

— Vai embora.

— Já estou indo.

— Agora.

— Autoritário.

Sarah fechou a porta novamente.

— Sua casa é impossível.

— Você gosta.

— Infelizmente.

Jacob a puxou pela cintura.

— E sobre outra coisa.

Sarah soube imediatamente.

— Não.

— A gravação.

— Não.

— “Porque você o ama.”

— Jacob.

— Ela disse.

— Ela não me conhece.

— Conhece Harry.

— Isso não significa que me conhece.

— Mas você não negou.

Sarah estreitou os olhos.

— Você está escolhendo um momento de ameaça, conspiração financeira e perseguição para discutir relacionamento?

— Sim.

— Péssimo timing.

— Estou há quatro anos atrasado em várias coisas.

Sarah tentou não sorrir.

— Covarde.

— Você também.

— Combinamos isso ontem.

— Estou reconsiderando.

O sorriso dela desapareceu.

Jacob também ficou sério.

— Sarah.

Ela sentiu o coração acelerar.

— Não.

Ele parou.

Atento.

— Não porque eu não queira ouvir — explicou ela.

Jacob esperou.

Sarah colocou a mão sobre o coração dele.

— Porque quando você disser...

Ela respirou.

— Eu quero que seja nosso.

Ele compreendeu.

Não depois de uma gravação.

Não porque uma desconhecida dissera primeiro.

Não em resposta a uma ameaça.

Jacob segurou sua mão e a beijou.

— Certo.

Sarah sorriu.

— Certo.

— Mas você sabe.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Arrogante.

— Você sabe.

— Talvez.

— Sarah.

Ela riu e o beijou.


Edward estava sozinho na varanda quando Jacob apareceu mais tarde.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Quatro anos antes, aquilo teria sido natural.

Dois amigos dividindo silêncio.

Agora era estranho.

Edward olhou para o mar.

— Ela está certa.

Jacob encostou no corrimão.

— Sobre?

— Você.

— Isso não reduz muito.

Edward sorriu brevemente.

— Proteger.

Jacob não respondeu.

— Você fazia isso antes de Isabella morrer.

— O quê?

— Tentava resolver tudo sozinho.

— E você me ajudava.

— Sim.

Edward olhou para ele.

— Até parar.

Jacob ficou tenso.

— Não faça isso.

— Não estou pedindo perdão.

— Ótimo.

— Só estou dizendo que algumas coisas já estavam quebradas antes de eu terminar de quebrar.

Jacob olhou para ele.

Edward não desviou.

— Isabella reclamava disso.

— De mim?

— Sim.

Jacob sentiu a velha dor.

— Ela podia ter me contado.

— Podia.

— Em vez de dormir com você.

Edward fechou os olhos.

— Sim.

Silêncio.

— Não existe frase que torne isso menos nojento — disse Edward.

Jacob concordou.

— Não.

— Então não vou procurar uma.

Aquilo surpreendeu Jacob.

Edward continuou:

— Mas Sarah não é Isabella.

— Eu sei.

— Sabe intelectualmente.

Jacob ficou quieto.

— Seu corpo ainda não sabe.

Jacob olhou para ele.

— Desde quando você virou terapeuta?

— Desde que fui espancado por você duas vezes.

— Uma.

— A segunda foi emocional.

Jacob quase sorriu.

Quase.

Edward percebeu.

— Senti falta disso.

O sorriso desapareceu.

Jacob olhou para o mar.

— Não faça.

— Certo.

Mais silêncio.

Então Jacob perguntou:

— Você acha que Margaret é real?

Edward pensou.

— Acho que a mulher da gravação conhecia Isabella.

— Por quê?

— O jeito como falou.

— Isso não é prova.

Edward sorriu.

— Sarah contaminou você.

Jacob ignorou.

— Isabella nunca falou dela?

— Não.

— Nem Margaret?

— Não.

Edward hesitou.

— Mas falou uma coisa.

Jacob virou-se.

— O quê?

— Uma semana antes de morrer.

— Continue.

— Ela disse que tinha conhecido alguém que fazia Charlie parecer pequeno.

Jacob sentiu um arrepio.

— Aro.

Edward balançou a cabeça.

— Eu achei que sim.

— E agora?

— Não sei.

— R.M.?

Edward olhou para ele.

— Talvez.

Jacob respirou.

— Ela disse homem ou mulher?

Edward ficou imóvel.

— Não.

Aquilo abria uma possibilidade.

Não uma resposta.

Jacob já conseguia ouvir Sarah corrigindo-o.

E, pela primeira vez, fez isso sozinho.

— Então não sabemos.

Edward sorriu.

— Está mesmo contaminado.

Jacob mostrou o dedo do meio.

Edward riu.

Foi a primeira vez em quatro anos que Jacob ouviu aquela risada sem sentir imediatamente vontade de acertá-lo.

E isso, mais do que qualquer pedido de desculpas, o perturbou.


Naquela mesma noite, Paul recebeu uma resposta sobre o carro utilizado pela mulher em Nassau quatro anos antes.

A Meridian Fiduciary Services não existia mais.

Mas seus registros de encerramento ainda existiam.

Havia dois administradores.

Um era uma empresa controlada por Aro.

O outro estava oculto por uma estrutura jurídica.

Paul conseguiu recuperar apenas uma referência:

RM-01.

Sarah ficou olhando.

— Não.

Jacob ergueu as mãos.

— Não disse nada.

— Seu rosto disse.

Embry riu.

Paul continuou:

— Há mais.

Um documento de encerramento exigia autorização de ambas as partes.

A assinatura de Aro estava presente.

A outra não.

Em vez dela, havia uma observação:

Autorização presumida por falecimento do controlador.

Sarah se aproximou.

— Data?

Paul respondeu.

Vinte e três anos antes.

Quil ficou imóvel.

— Isso não pode estar certo.

— Por quê? — perguntou Jacob.

— Porque naquela época a estrutura ainda funcionava.

Sarah compreendeu.

— Alguém declarou R.M. morto para alterar o controle.

— Ou a pessoa realmente morreu — disse Edward.

Sarah assentiu.

— Sim.

Paul abriu outro documento.

— Só que seis meses depois...

Uma transferência.

Autorizada por:

R.M.

Silêncio.

Embry soltou uma risada nervosa.

— Outro morto vivo?

Sarah imediatamente respondeu:

— Não.

Todos olharam.

— Pode ser uma designação transferível. Pode ser outra pessoa usando a autorização. Pode ser falsificação.

Jacob assentiu.

— Ou R.M. não morreu.

Sarah olhou.

— Também.

Quil estava pálido.

— Eu preciso ver a data.

Paul mostrou.

Quil aproximou-se.

— Meu Deus.

— O quê? — perguntou Sarah.

Quil continuou olhando.

— Billy me contou sobre isso.

Jacob ficou imóvel.

— Meu pai sabia quem era R.M.?

— Não.

— Então o quê?

— Ele descobriu que alguém havia sido declarado morto para alterar o controle da estrutura.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Quando?

— Pouco antes de morrer.

— Ele investigou?

— Sim.

— E?

Quil levantou os olhos.

— Foi quando começou a dizer que Northstar não era o problema.

— O que era?

Quil respondeu:

— Northstar era só a ferramenta.

Silêncio.

— Ferramenta de quem? — perguntou Edward.

Quil olhou para as iniciais.

— Era exatamente isso que Billy estava tentando descobrir.


Sarah dormiu pouco naquela noite.

Não por causa de Nassau.

Não apenas.

A frase de Margaret continuava retornando.

E não confie em Jacob apenas porque você o ama.

Sarah estava deitada de lado, olhando para a janela aberta, quando sentiu Jacob se mover atrás dela.

— Você está acordada.

— Não.

— Péssima mentirosa.

— Estou dormindo e conversando.

Ele aproximou o corpo.

O braço passou por sua cintura.

— Está pensando nela?

— Em muitas coisas.

— R.M.?

— Também.

Silêncio.

— Em mim?

Sarah sorriu no escuro.

— Narcisista.

— Não respondeu.

Ela virou-se.

Jacob estava perto demais.

— Você ficou incomodado.

— Com o quê?

— Com a frase.

Ele não fingiu.

— Sim.

— Por quê?

Jacob demorou.

— Porque uma desconhecida falou algo sobre você antes que você falasse.

Sarah ficou quieta.

— Isso incomodou?

— Muito.

— Não porque queira que seja verdade?

Jacob olhou diretamente para ela.

— Justamente porque quero.

O coração de Sarah acelerou.

Ele tocou seu rosto.

— Mas não quero arrancar isso de você.

Sarah fechou os olhos.

Beijou a palma da mão dele.

— Então não arranque.

— Certo.

— Espere.

— Não sou bom nisso.

— Eu percebi.

Ele sorriu.

Sarah aproximou-se.

— Mas você está aprendendo.

— Por você.

Ela o beijou.

Devagar.

Sem pressa.

E naquela noite nenhum dos dois disse as palavras que já estavam começando a existir entre eles.


O dia seguinte inteiro foi dedicado à viagem.

Não houve salto imediato para Nassau.

Não houve impulso.

Sarah fez questão disso.

Paul verificou a residência enviada no convite, levantou plantas públicas da região, rotas de entrada e saída e registros antigos ligados à propriedade. Jacob providenciou transporte próprio, recusando qualquer carro oferecido por Margaret. O avião também seria o de Jacob, não a passagem enviada.

— Então por que ela mandou passagens? — perguntou Embry.

Sarah respondeu:

— Talvez para indicar a data.

— Ou controlar o trajeto — disse Jacob.

— Talvez.

Paul concordou.

— Por isso não vamos usar.

A propriedade em Nassau pertencia oficialmente a uma empresa patrimonial.

Fotografias antigas mostravam Margaret ali onze anos antes.

Era uma ligação concreta.

Não prova de que ela ainda estivesse lá.

Sarah aprovou o plano apenas quando Paul explicou que acompanharia os dois até Nassau, faria a verificação externa da residência e permaneceria próximo durante o encontro. Margaret pedira Sarah e Jacob; Sarah queria respeitar essa condição até entender o motivo, mas não interpretaria aquilo como ordem para dispensar segurança.

Quil não iria.

Edward também não.

Embry ficaria responsável pela ilha com a equipe de Paul.

E durante quase todo aquele dia, Quil contou tudo que dizia lembrar sobre Margaret.

Conhecera-a mais de vinte anos antes.

Ela trabalhava com custódia documental e estruturas patrimoniais ligadas à Fundação Clearwater.

Usava o sobrenome Clearwater profissionalmente.

Quil não sabia seu sobrenome de nascimento.

Harry confiara nela em algum momento.

Depois deixara de falar sobre ela.

Aro a procurara.

Quil escondera uma possível pista sobre sua localização.

Nada disso provava que a mulher esperando em Nassau fosse a mesma pessoa.

No fim da tarde, Sarah fechou o último arquivo.

— Agora esperamos amanhã.

Jacob, sentado do outro lado da mesa, fez uma expressão de sofrimento.

— Odeio esperar.

— Estou percebendo.

— Poderíamos ir hoje.

— Não.

— O avião está pronto.

— Não.

— Sarah.

— A data que ela marcou é amanhã. Se ela estiver testando se seguimos instruções, antecipar pode fazê-la desaparecer.

Jacob ficou quieto.

— Irritantemente lógico.

— Obrigada.

— Não foi elogio.

— Aceito mesmo assim.


Naquela noite, Sarah arrumou uma pequena mala.

Agora a viagem era realmente na manhã seguinte.

Dois dias depois de Margaret enviar o convite, exatamente como indicado nas passagens.

Jacob apareceu na porta.

— Três meses.

Ela olhou.

— O quê?

— Seu contrato.

Sarah parou.

Jacob entrou.

— Faltam menos de dois.

Ela sorriu.

— Está contando?

— Desde que você disse que poderia ir embora.

— Eu ainda posso.

— Eu sei.

Sarah colocou uma blusa na mala.

— Isso assusta você?

— Muito.

Ela olhou.

Jacob não brincava.

Sarah se aproximou.

— Jacob.

— Não vou pedir agora.

— Por quê?

— Porque sua vida acabou de ficar ligada a coisas que você nem sabia que existiam. Não quero que você escolha ficar porque está presa nisso.

Sarah ficou quieta.

Ele continuou:

— Quando isso acabar, se acabar...

— Vai acabar.

— Quando acabar, eu quero perguntar de novo.

Sarah sorriu.

— E se minha tendência mudar?

Jacob segurou sua cintura.

— Vou ser extremamente inconveniente.

— Isso já é.

— Mais.

Ela riu.

— Ameaça?

— Promessa.

Sarah passou os braços pelo pescoço dele.

— Minha tendência não mudou.

Jacob encostou a testa na dela.

— Bom.

Sarah o beijou.

Dessa vez demorou.

Quando se separaram, ela sussurrou:

— E você?

— O quê?

— Sua tendência.

Jacob sorriu.

— Minha tendência é não deixar você ir a lugar nenhum.

Sarah ergueu uma sobrancelha.

— Reformule.

Ele riu.

— Minha tendência é pedir que fique.

— Muito melhor.


Na manhã seguinte — dois dias depois do convite de Margaret — Edward apareceu antes de saírem.

Jacob estranhou.

— O que foi?

Edward entregou um envelope para Sarah.

— Encontrei ontem à noite.

— Onde?

— Nos arquivos que Isabella deixou comigo.

Jacob ficou tenso.

— Você ainda tinha arquivos?

— Um único envelope que eu nunca abri.

— Por quê?

Edward olhou para ele.

— Porque estava escrito que não era para mim.

Sarah pegou.

Na frente:

Para a mulher da bússola.

Sarah sentiu um arrepio.

— Isabella escreveu isso?

— Sim.

— Quando?

— Não sei exatamente. Estava entre coisas que ela me entregou na semana em que morreu.

Sarah olhou para Jacob.

Depois abriu.

Dentro havia apenas uma folha.

A letra de Isabella.

Se você está lendo isto, então eu encontrei você tarde demais ou não consegui chegar até você.

Sarah continuou.

Charlie me contou que a mulher da bússola sabe quem tinha o direito original de impedir Aro.

Sarah levantou os olhos.

R.M.

Voltou à carta.

Mas ele disse que ela nunca me ajudaria depois do que minha família fez.

Edward ficou imóvel.

Jacob também.

Eu não sei se meu pai está dizendo a verdade.

Não sei mais quando ele diz.

Sarah sentiu um aperto no peito.

A última linha:

Pergunte a ela quem morreu para que R.M. pudesse continuar existindo.

Silêncio.

Jacob pegou a folha.

Leu novamente.

Sarah olhou para Edward.

— Por que você não abriu?

— Porque Isabella escreveu “para a mulher da bússola”.

— Você não sabia quem era.

— Não.

— E guardou quatro anos.

Edward assentiu.

— Era uma das poucas coisas dela que eu ainda conseguia respeitar sem tocar.

Jacob olhou para ele.

Por muito tempo.

Então devolveu a carta para Sarah.

— Vamos.


O avião deixou Saint Claire pouco depois das nove.

Sarah estava junto à janela.

Jacob ao lado.

Paul duas fileiras atrás.

Edward ficara na ilha com Embry e Quil.

Quando Saint Claire começou a diminuir sob as nuvens, Sarah sentiu Jacob segurar sua mão.

— Nervoso? — perguntou.

— Não.

Ela olhou.

— Mentiroso.

— Muito.

Sarah sorriu.

— Eu também.

Jacob levou a mão dela aos lábios.

— Não importa o que Margaret diga...

Sarah esperou.

— Você não precisa resolver isso hoje.

Ela sorriu.

— Finalmente aprendeu.

— Tive excelente professora.


Nassau estava quente quando chegaram.

O carro que os esperava no aeroporto não era o que Paul havia providenciado.

Sarah viu Jacob ficar imediatamente tenso.

O motorista segurava uma placa apenas com duas iniciais:

S.C.

— Não — disse Paul.

Jacob concordou.

Sarah também.

Usaram o veículo previamente contratado pela equipe de segurança.

— Margaret vai perceber — comentou Sarah.

— Ótimo — respondeu Jacob. — Ela aprende que não seguimos desconhecidos até carros.

— Estou orgulhosa.

— Pare de dizer isso.

Quarenta minutos depois, chegaram à casa.

Branca.

Antiga.

De frente para o mar.

Exatamente como nas fotografias.

Paul verificou primeiro o perímetro e a entrada.

Depois voltou.

— Não encontrei ninguém do lado de fora. Vou ficar próximo. Qualquer coisa, saiam.

Jacob assentiu.

Sarah olhou para ele.

— Nós dois.

— Eu sei.

Entraram.

A porta da frente estava destrancada.

Sala ampla.

Móveis cobertos.

Janelas abertas.

O som do mar.

Na mesa havia três copos.

E uma fotografia.

Harry.

Muito jovem.

Ao lado dele estava Margaret.

Sarah parou.

— Meu Deus.

Jacob aproximou-se.

Harry parecia ter pouco mais de trinta anos.

Margaret sorria.

E entre os dois havia uma terceira pessoa.

Um homem.

O rosto havia sido cuidadosamente recortado da fotografia.

No verso:

Três pessoas descobriram. Duas tentaram contar. Uma escolheu sobreviver.

Sarah sentiu frio.

Então ouviu uma voz atrás deles.

— Harry sempre odiou essa fotografia.

Jacob virou-se imediatamente.

Uma mulher estava parada na porta que dava para a varanda.

Mais velha do que nas imagens.

Cabelos escuros agora atravessados por fios grisalhos.

A pequena cicatriz junto à sobrancelha.

Margaret.

Ela olhou para Sarah.

Por alguns segundos, ninguém falou.

Então Margaret sorriu tristemente.

— Você tem os olhos dele quando está desconfiada.

Sarah sentiu o coração bater com força.

— Não sei se isso é elogio.

— É.

Margaret deu um passo.

Jacob ficou ao lado de Sarah.

Ela olhou para ele.

— Jacob Black.

— Margaret.

— Você cresceu parecido com Billy.

— Ouço isso demais.

Margaret voltou os olhos para Sarah.

Silêncio.

Sarah não diria a frase primeiro.

Harry fora claro.

Margaret percebeu.

E alguma coisa próxima de aprovação apareceu em seu rosto.

Então falou:

— A bússola não aponta para casa.

Sarah sentiu os olhos arderem.

Mas respondeu:

— Casa é onde alguém espera você voltar.

Margaret fechou os olhos.

Uma lágrima escapou.

— Harry disse que você lembraria.

Sarah respirou fundo.

— Quem é R.M.?

Margaret abriu os olhos.

— Ainda não.

Jacob ficou tenso.

— Foi para isso que viemos.

— Eu sei.

— Então responda.

Margaret olhou para ele.

— Seu pai fazia exatamente isso.

— O quê?

— Achava que exigir uma resposta significava estar preparado para ela.

Sarah tocou o braço de Jacob.

Margaret aproximou-se da mesa.

Pegou a fotografia.

— Antes de R.M., você precisa entender o que essas iniciais representam.

Sarah sentou-se.

— Então explique.

Margaret olhou para ela.

— R.M. não é uma empresa.

Pausa.

— Não é uma conta.

Jacob ficou imóvel.

— É uma pessoa.

Sarah respirou.

— Homem ou mulher?

— Mulher.

— Está viva?

Margaret demorou.

— Essa pergunta é mais complicada do que parece.

Jacob perdeu a paciência.

— Pessoas estão vivas ou mortas.

Margaret olhou para ele.

— Sua experiência recente deveria ter ensinado o contrário.

Charlie.

Quil.

Jacob fechou a boca.

Sarah perguntou:

— Qual é o nome?

Margaret caminhou até um pequeno cofre embutido na parede.

Digitou uma combinação.

Retirou uma pasta.

Colocou diante de Sarah.

— Antes de dizer, quero que veja.

Sarah abriu.

Uma certidão.

Antiga.

Depois outra.

Registros fiduciários.

Uma fotografia.

Sarah ficou olhando para a mulher retratada.

Não conhecia.

Margaret sentou-se à frente dela.

— R.M. foi declarada morta vinte e três anos atrás.

Sarah olhou.

— Mas assinou uma autorização seis meses depois.

Margaret não pareceu surpresa.

— Então Harry encontrou.

— Sim.

— Bom.

— Como alguém morto assinou?

— Porque não estava morta.

Jacob ficou imóvel.

— Outra morte falsa.

— Não exatamente.

Sarah franziu a testa.

— O que significa?

Margaret apontou para a certidão.

— Uma mulher morreu.

Sarah sentiu frio.

— Mas não R.M.

— Não.

— Quem?

Margaret olhou para a fotografia.

— A irmã dela.

Silêncio.

— Usaram a morte de uma irmã para declarar a outra morta?

— Usaram identidades que haviam sido misturadas deliberadamente durante anos.

Sarah sentiu a cabeça acelerar.

— Por quem?

— Aro teve participação.

— Participação não é sozinho.

Margaret olhou para ela.

— Harry realmente criou você.

Sarah sentiu o peito apertar.

— Quem mais?

Margaret olhou para Jacob.

— Ephraim Black assinou parte dos documentos.

Jacob ficou branco.

Sarah imediatamente interveio:

— Isso prova participação documental, não motivo.

Margaret assentiu.

— Exatamente.

Jacob olhou para Sarah.

A mão dela encontrou a dele.

Margaret abriu outra página.

— R.M. era uma das beneficiárias originais dos ativos que depois foram incorporados à Fundação Clearwater e, posteriormente, fragmentados entre estruturas que acabaram sob influência da Northstar.

Sarah perguntou:

— Uma das?

— Sim.

— Quem eram as outras?

Margaret permaneceu olhando para ela.

— É por isso que Harry entrou nessa história.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Meu tio era beneficiário?

— Não.

Sarah soltou o ar.

— Então?

Margaret virou a fotografia.

No verso havia dois sobrenomes.

Um deles parcialmente apagado.

O outro perfeitamente legível.

Clearwater.

Sarah ficou imóvel.

Margaret falou devagar:

— Harry descobriu que a família dele não era proprietária da fundação.

Sarah olhou para ela.

— Então por que o nome?

— Porque os Clearwater foram encarregados de proteger os beneficiários.

— Por quem?

— Pela mulher que todos acreditavam estar morta.

Sarah fechou os olhos por um segundo.

— R.M.

— Sim.

— Nome.

Margaret ficou em silêncio.

Sarah perdeu a paciência pela primeira vez.

— Você me trouxe até Nassau. Usou uma frase que meu tio deixou para mim. Alguém ligado a você entrou em Saint Claire ou conseguiu colocar uma fotografia nossa naquela propriedade. E você interferiu no meu processo de contratação anos depois da morte de Harry. Então pare de decidir quando eu estou pronta.

Margaret a encarou.

Jacob não interferiu.

Sarah aproximou-se.

— Qual é o nome de R.M.?

Margaret respirou fundo.

— Rebecca Morrow.

O nome não significou nada para Sarah.

Nenhuma memória.

Nenhum reconhecimento.

E isso, estranhamente, foi um alívio.

Jacob perguntou:

— Quem era ela?

— Uma herdeira.

— De quê?

— De uma estrutura patrimonial muito anterior à Northstar.

Sarah perguntou:

— E onde está Rebecca Morrow?

Margaret olhou para o mar.

— Foi isso que Harry passou os últimos meses de vida tentando descobrir.

— Encontrou?

Margaret virou lentamente para ela.

— Sim.

— Onde?

— Saint Claire.

Jacob ficou imóvel.

— Quando?

— Dezesseis anos atrás.

Sarah calculou.

Tinha nove anos.

Harry ainda estava vivo.

Billy também.

— O que ela fazia na ilha?

— Tentava recuperar o que havia sido tirado dela.

Jacob perguntou:

— Meu pai sabia?

— Descobriu.

— E Aro?

— Também.

— O que aconteceu?

Margaret olhou para Sarah.

— Rebecca desapareceu.

— Desapareceu como?

— Ninguém encontrou corpo.

Jacob perguntou:

— E você acredita que está viva.

Margaret ficou em silêncio.

Sarah percebeu.

— Você sabe alguma coisa.

Margaret abriu a última parte da pasta.

Uma fotografia recente.

Data de onze dias antes.

Uma mulher idosa entrando em um prédio.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— É Rebecca?

— Acredito que sim.

— Onde?

— Miami.

Jacob aproximou-se.

— Então por que nos trouxe para Nassau?

Margaret olhou para ele.

— Porque precisava ter certeza de que Harry realmente tinha deixado a decisão com Sarah.

Sarah franziu a testa.

— Decisão sobre o quê?

Margaret colocou sobre a mesa uma pequena chave.

Prateada.

Muito antiga.

— Sobre abrir o arquivo original.

Sarah não tocou.

— Harry não me escolheu para continuar o trabalho dele.

Margaret ficou quieta.

— Ele me deu uma saída.

Sarah retirou a carta do tio da bolsa.

— Disse que eu não precisava corrigir os erros dele nem carregar os medos dele.

Margaret olhou para a carta.

Sarah continuou:

— Então não transforme o amor dele por mim numa obrigação.

Jacob ficou absolutamente imóvel.

Margaret também.

Depois de alguns segundos, um sorriso triste apareceu.

— Você está certa.

Sarah respirou.

— O que a chave abre?

— O arquivo original.

— Onde?

Margaret olhou para Jacob.

— Saint Claire.

Ele soltou uma risada incrédula.

— Claro.

Sarah quase sorriu.

— Onde na ilha?

— Na única propriedade que nunca pertenceu legalmente aos Black.

Jacob ficou sério.

Sarah também.

— A praia norte — disse ela.

Margaret assentiu.

A antiga casa de hóspedes.

As ruínas.

O lugar onde Isabella encontrara Edward.

Onde haviam descoberto a primeira caixa.

Onde Harry trabalhara décadas antes.

Sarah sentiu todas as linhas se aproximarem.

— Isabella sabia?

Margaret fechou os olhos.

— Sim.

Edward.

A noite da morte.

A casa.

Procure na casa.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Isabella encontrou o arquivo?

— Encontrou a entrada.

— Entrou?

Margaret demorou.

— Não sei.

Jacob perguntou:

— Charlie sabia?

— Sim.

— Aro?

— Sim.

— Quil?

Margaret olhou para ele.

— Essa é a pergunta que vocês deveriam fazer quando voltarem.

Sarah ficou imóvel.

— Por quê?

Margaret não respondeu imediatamente.

Então disse:

— Porque Quil Mercer esteve na praia norte na noite em que Isabella morreu.

O silêncio foi brutal.

Jacob ficou de pé.

— Ele disse que filmou Isabella e Charlie e foi embora.

— Talvez tenha ido embora.

— Você está dizendo que voltou?

— Estou dizendo que uma câmera registrou o carro dele retornando àquela estrada quarenta e sete minutos depois de ele afirmar ter deixado Isabella viva.

Sarah sentiu o estômago gelar.

— Você tem essa gravação?

Margaret assentiu.

— Tenho.

— Mostre.

Margaret abriu outra pasta.

Sarah levantou a mão antes.

— E antes que alguém conclua qualquer coisa: o carro voltar não prova que Quil estava dirigindo.

Margaret sorriu.

— Harry ficaria orgulhoso de você.

Os olhos de Sarah se encheram.

Ela respirou fundo.

— Mostre a gravação.

Margaret ligou o computador.

Na tela, surgiu a estrada escura da praia norte.

Data.

Hora.

A mesma noite em que Isabella morreu.

23h58.

Faróis.

Um veículo entrou no enquadramento.

Jacob reconheceu imediatamente.

— Era de Quil.

Margaret assentiu.

O carro seguiu em direção à antiga casa de hóspedes.

Sarah prendeu a respiração.

Quarenta e sete minutos depois de Quil afirmar ter deixado Isabella viva.

A imagem desapareceu.

Margaret avançou.

00h04.

Outro veículo.

Um sedã escuro.

Sarah olhou para Jacob.

Margaret congelou a imagem.

— Esse carro estava registrado em nome de Charlie Swan.

Silêncio.

Sarah sentiu o coração bater com força.

Quil.

Charlie.

Isabella.

A praia norte.

A entrada para o arquivo.

E, em algum ponto entre aquela câmera e o amanhecer, Isabella terminara no mar.

Margaret fechou o computador.

— Agora vocês entendem por que eu não queria Quil aqui.

Jacob olhou para Sarah.

Ela segurou a mão dele.

Não porque estivesse com medo de Quil.

Ainda não.

Mas porque, pela primeira vez, tinham uma evidência independente capaz de contradizer parte da história que Quil contara.

E quando voltassem a Saint Claire, ele teria de explicar quarenta e sete minutos que até então nunca haviam existido.