ILHA DOS DESEJOS

29 Capítulo 29 — Onde alguém espera você voltar


O último dia do contrato de Sarah chegou quase sem aviso.

Três meses.

Na manhã em que acordou, encontrou Jacob sentado na cama olhando para ela.

— Isso é assustador.

— Bom dia.

— Há quanto tempo está me olhando?

— Não muito.

— Jacob.

— Vinte minutos.

Sarah puxou o travesseiro e acertou nele.

Jacob riu.

— Psicopata.

— Minha namorada é agressiva.

Sarah parou.

— Namorada?

— Alguma objeção?

— Estou avaliando.

Ele a puxou pela cintura.

— Avalie perto.

Sarah caiu sobre ele rindo.

A relação deles havia mudado nas últimas semanas.

Não por causa de uma explosão.

Por rotina.

Café juntos.

Trabalho.

Discussões.

Beijos na cozinha.

Jacob aprendendo a perguntar antes de decidir por ela.

Sarah aprendendo que permitir cuidado não significava perder autonomia.

A investigação continuava nas mãos das autoridades.

Aro e Victoria aguardavam os respectivos processos.

Charlie cooperava em troca de benefícios que Jacob se recusava a discutir.

Quil permanecera em Saint Claire por algumas semanas, prestara depoimentos e depois partira.

Antes de ir, dissera a Jacob:

— Billy estaria orgulhoso.

Jacob respondera:

— Espero que também estivesse envergonhado.

Quil sorrira.

— Estaria.

Era talvez a descrição mais justa de Billy Black.


Jacob iniciou formalmente um processo de revisão dos ativos Black.

Os descendentes dos beneficiários originais foram localizados.

Uma fundação independente seria criada para administrar restituições, indenizações e projetos nas comunidades afetadas.

Rebecca recusou qualquer controle.

Aceitou apenas participar da definição histórica do que havia sido retirado.

A praia norte não seria reconstruída.

Jacob decidiu preservar o arquivo.

Não como segredo.

Como acervo histórico.

Sarah aprovou.

— Isso significa que finalmente concordamos em alguma coisa.

— Não se acostume.


Naquela tarde, Sarah encontrou duas malas sobre a cama.

Jacob ficou pálido.

— Você está indo embora.

Ela olhou.

— Meu contrato terminou.

— Eu sei.

— Então preciso tirar minhas coisas do quarto de hóspedes.

Ele ficou em silêncio.

Sarah quase teve pena.

Quase.

— Sarah.

— Sim?

— Você disse que sua tendência era ficar.

— Disse.

— Depois disse de novo.

— Sim.

— Eu esperei.

— Esperou.

Jacob passou a mão pelos cabelos.

— Isso é vingança por alguma coisa?

Ela sorriu.

— Talvez.

— Você é cruel.

— Já estabelecemos.

Ele se aproximou.

— Fique.

Sarah olhou.

Jacob respirou.

— Não porque tem investigação. Não porque está em perigo. Não porque Harry trouxe você até alguma história que precisava terminar.

Pausa.

— Fique porque eu quero acordar com você amanhã.

Outro passo.

— E depois.

— E depois.

Sarah sentiu os olhos arderem.

— Isso é um pedido profissional?

— Não.

— Ainda bem.

— Sarah Clearwater, você quer ficar comigo?

Ela demorou de propósito.

Jacob estreitou os olhos.

— Não faça isso.

Sarah riu.

— Quero.

Ele a puxou para os braços.

— Você é uma mulher horrível.

— E você me ama.

— Infelizmente.

— Repita.

— Eu amo você.

— Melhor.

Jacob olhou para as malas.

— Então por que isso?

Sarah abriu a primeira.

Vazia.

Jacob ficou imóvel.

Ela começou a rir.

— Você...

— Eu precisava saber se pediria direito.

— Eu quase tive um infarto.

— Dramático.

Jacob a jogou sobre a cama.

Sarah gritou rindo.

— Jacob!

— Três meses suportando você.

— Você pediu para eu ficar!

— Momento de fraqueza.

Ela puxou-o pela camisa.

— Vai se arrepender.

— Já me arrependi.

O beijo encerrou a discussão.

Dessa vez, quando a porta do quarto se fechou, nenhum mistério os interrompeu.

O que aconteceu depois pertenceu apenas aos dois.


A placa na entrada do antigo arquivo da praia norte era discreta.

ARQUIVO HISTÓRICO DE SAINT CLAIRE

Nenhum Black no nome.

Nenhum Morrow.

Nenhum Clearwater.

Sarah insistira.

Jacob concordara.

O acervo agora continha cópias dos documentos recuperados, registros da investigação patrimonial e uma reconstrução histórica auditada por especialistas independentes.

Os originais mais sensíveis permaneciam preservados em local adequado.

Rebecca compareceu à pequena abertura privada.

Margaret também.

Thomas Bennett recebera convite e parecera genuinamente perplexo por ainda fazer parte daquela história.

Edward chegou sozinho.

Embry chegou atrasado.

Paul reclamou.

Nada mudava completamente.


Os processos ainda não haviam terminado.

Victoria respondia pela participação na morte de Isabella e pelos crimes relacionados à perseguição e ocultação.

Aro enfrentava acusações financeiras, conspiração e participação na ordem que levara à perseguição de Isabella.

Charlie cooperava com as autoridades e responderia pelos próprios atos.

Ninguém fora transformado em monstro absoluto para facilitar a história.

Nem em inocente conveniente.

Os documentos falavam.

As testemunhas falavam.

Os tribunais decidiriam o restante.

Billy permanecera complicado.

Ephraim também.

Harry também cometera erros ao esconder coisas.

Quil carregava suas omissões.

Edward carregava sua traição.

Isabella permanecia Isabella.

Não santa.

Não vilã.

Uma mulher que fizera escolhas ruins e, no final, tentara fazer uma escolha melhor.

Para Jacob, isso bastava.


No fim da cerimônia, ele caminhou sozinho até a praia.

Sarah deixou.

Alguns minutos depois, aproximou-se.

Jacob estava olhando para o mar.

— Falei com ela — disse.

Sarah parou ao lado.

— Isabella?

— Sim.

— Ela respondeu?

— Felizmente não. Depois de tudo isso, um fantasma seria excessivo.

Sarah riu.

— O que disse?

Jacob pensou.

— Que fiquei com raiva.

— Justo.

— Que ainda acho que ela foi uma idiota.

— Também justo.

— Que espero que ela soubesse que não precisava ter resolvido tudo antes de falar comigo.

Sarah segurou sua mão.

— E depois?

Jacob olhou para ela.

— Disse que estou bem.

Sarah sorriu.

— Está?

Ele pensou.

— Estou chegando lá.

— Resposta aceitável.


Caminharam pela praia.

A casa principal aparecia ao longe.

A mesma onde Sarah chegara um ano antes disposta a trabalhar três meses para um homem arrogante que criava regras sobre o oceano.

— Ainda não pode nadar sozinha depois do pôr do sol — disse Jacob.

Sarah olhou.

— Um ano e continua com isso?

— Corrente marítima não respeita independência feminina.

— Essa foi provavelmente a coisa mais sensata que você disse desde que conheci você.

— Obrigado.

— Não foi elogio.

— Aceito mesmo assim.

Chegaram ao ponto onde o caminho se dividia.

Jacob parou.

Sarah percebeu imediatamente.

— O quê?

— Nada.

— Jacob.

— Você estraga tudo.

— O que estou estragando?

Ele colocou a mão no bolso.

Sarah ficou imóvel.

— Ah.

Jacob retirou uma pequena caixa.

— Não diga “ah”.

— O que devo dizer?

— Nada por alguns segundos seria histórico.

Sarah levou a mão à boca.

Jacob respirou.

— Eu pensei em fazer discurso.

— Isso me preocupa.

— E pensei em fazer aqui porque foi onde tanta coisa terminou.

— Isso é mórbido.

— Sarah.

Ela começou a rir.

— Desculpe.

Jacob também riu.

— Eu ensaiei.

— Continue.

Ele segurou as duas mãos dela.

— Então percebi que não quero pedir para você casar comigo porque este lugar significa morte, passado ou encerramento.

Pausa.

— Quero porque daqui consigo ver nossa casa.

Sarah olhou.

Ao longe, a casa principal.

— Quando você chegou, aquela casa era onde eu morava.

Ele respirou.

— Agora é onde você está.

Os olhos dela se encheram.

Jacob sorriu.

— Harry escreveu uma coisa para você.

Sarah já sabia.

— “A bússola não aponta para casa.”

— E sua resposta?

Ela sentiu a garganta apertar.

— “Casa é onde alguém espera você voltar.”

Jacob abriu a caixa.

— Então volte para mim pelo resto da vida.

Sarah começou a chorar.

— Isso foi injustamente bom.

— Eu tive um ano para melhorar.

— Ainda é arrogante.

— Sarah.

Ela riu entre lágrimas.

— Sim.

Jacob ficou imóvel.

— Sim?

— Sim, Jacob Black.

Ele colocou o anel em seu dedo.

Sarah puxou-o pela camisa e o beijou antes que pudesse dizer qualquer outra coisa.


Mais tarde, sentaram na varanda.

Caribbean azul diante deles.

Sarah estava com os pés sobre as pernas de Jacob.

Ele brincava distraidamente com o anel em seu dedo.

— Arrependida?

— Faz vinte minutos.

— Tempo suficiente.

— Pergunte daqui a cinquenta anos.

— Vou perguntar.

Sarah olhou para ele.

— Promessa?

— Sim.

Ela encostou a cabeça em seu ombro.

Na mesa havia a velha bússola de Harry.

Sarah a abrira naquela manhã.

Não havia mais microfilme escondido.

Não havia mensagem secreta.

Não havia pista.

Apenas uma bússola.

Finalmente.

Jacob pegou-a.

A agulha oscilou.

Depois encontrou o norte.

— Engraçado.

— O quê?

— Harry dizia que a bússola não aponta para casa.

Sarah sorriu.

— Porque não aponta.

— Então como sabemos onde fica?

Ela olhou para a casa.

Depois para Jacob.

— Alguém espera você voltar.

Ele beijou sua testa.

O sol começou a descer.

E pela primeira vez Saint Claire não pareceu uma ilha construída sobre mortos.

Era apenas uma ilha.

Com passado.

Com cicatrizes.

Com gente viva.

Jacob apertou a mão dela.

Sarah fechou os olhos.

Durante meses procurara respostas em cofres, fitas, documentos, fotografias, nomes apagados e pessoas que haviam escolhido desaparecer.

No final, algumas respostas vieram.

Outras talvez nunca viessem inteiras.

Mas ela aprendera uma coisa que Harry tentara lhe ensinar muito antes de qualquer investigação:

verdade não era uma história perfeita.

Era aquilo que permanecia quando se retiravam as suposições.

Jacob não precisava ser o homem que o pai fora.

Sarah não precisava terminar o trabalho do tio.

Edward não precisava voltar a ser irmão para deixar de ser inimigo.

Isabella não precisava ser inocente para merecer justiça.

E amar alguém não exigia apagar quem existira antes.

Sarah abriu os olhos.

— Jacob?

— Hum?

— Vamos nadar.

Ele olhou para o céu.

— O sol está quase se pondo.

Ela sorriu.

— Então venha comigo.

Jacob levantou.

— Isso muda tudo.

— Eu sabia.

— Você nunca nada sozinha.

— Controlador.

— Vivo.

Sarah riu.

Correu em direção ao mar.

Jacob foi atrás.

E quando os dois entraram juntos na água, Saint Claire já não guardava Sarah como parte de um segredo.

Guardava apenas aquilo que ela escolhera construir ali.

Uma vida.

Uma casa.

E alguém esperando que ela sempre voltasse.

FIM

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.