ILHA DOS DESEJOS

23 Capítulo 23 — Quarenta e sete minutos



Sarah não tirava os olhos da tela.

23h58.

O carro que pertencera a Quil desaparecia pela estrada que levava à praia norte.

00h04.

O sedã registrado em nome de Charlie Swan fazia o mesmo percurso.

Margaret mantinha o vídeo pausado.

Jacob estava ao lado de Sarah, tão imóvel que ela sabia exatamente o que estava acontecendo dentro dele.

Raiva.

Outra vez.

Não apenas de Quil.

De todos.

Billy escondera coisas.

Charlie escondera coisas.

Isabella escondera coisas.

Edward escondera coisas.

Quil escondera coisas.

E Jacob passara quatro anos acreditando que a pior verdade daquela noite era ter deixado Isabella sozinha.

Sarah segurou sua mão.

Ele olhou.

— Não — disse ela.

— Não o quê?

— Não faça isso antes da hora.

— O carro dele voltou.

— O carro.

— Sarah...

— O carro.

Jacob apertou o maxilar.

Ela apontou para a tela.

— Não vemos motorista. Não vemos passageiros. Não sabemos quem estava dentro. Não sabemos por quanto tempo ficou. Nem se Quil estava nele.

Margaret observava.

— Harry fazia isso.

Sarah virou-se.

— O quê?

— Ficava irritado quando eu transformava uma pista em conclusão.

Sarah respirou.

— Parece que ele tinha muito trabalho.

Margaret sorriu tristemente.

Jacob não.

— Quero o arquivo inteiro.

Margaret olhou para ele.

— Você terá uma cópia.

— Não. Quero o original.

— Não.

Jacob se levantou.

— Margaret...

Sarah segurou seu pulso.

— Ela não precisa entregar o original.

Ele virou-se.

— Precisamos verificar autenticidade.

— E podemos fazer isso com cópia forense, metadados e acesso ao equipamento original, se ainda existir.

Margaret assentiu.

— Existe.

Sarah olhou.

— Onde?

— Guardado.

— Isso não é endereço.

— Ainda não confio em vocês o suficiente.

Jacob soltou uma risada incrédula.

— Você nos chamou.

— Chamar alguém e confiar nele são coisas diferentes.

Sarah perguntou:

— E por que deveríamos confiar em você?

Margaret sustentou o olhar.

— Não deveriam.

Sarah assentiu.

— Ótimo.

Jacob olhou para as duas.

— Isso está ficando irritante.

— Está ficando responsável — respondeu Sarah.

— Prefiro irritante.

Margaret fechou o computador.

— Vocês terão a cópia. E Paul pode verificar o arquivo antes de saírem.

Sarah notou.

— Você sabe o nome dele.

— Sei quem veio com vocês.

Jacob ficou tenso novamente.

— Como?

— Eu seria estúpida se não soubesse.

— Você está nos seguindo?

— Não hoje.

Sarah percebeu a escolha das palavras.

— Hoje.

Margaret olhou para ela.

— Não fui eu quem tirou a fotografia de vocês em Saint Claire.

Silêncio.

Jacob se inclinou sobre a mesa.

— Mas foi você quem mandou.

Margaret hesitou.

— Pedi que entregassem uma mensagem.

— Isso não responde.

— Não pedi fotografia alguma.

Sarah sentiu um arrepio.

— Então alguém que trabalhava para você decidiu nos fotografar.

— Ou alguém percebeu que eu estava tentando falar com você e acrescentou a fotografia.

Jacob ficou rígido.

— Quem entregou o envelope?

— Um intermediário.

— Nome.

— Não tenho.

— Como contratou alguém sem nome?

— Não contratei diretamente.

Sarah fechou os olhos.

— Margaret.

— Eu sei como soa.

— Parece que todos vocês construíram sistemas tão secretos que agora ninguém sabe quem está obedecendo a quem.

Margaret ficou quieta.

— Isso é bastante preciso.

Sarah olhou para Jacob.

— E significa que aquela fotografia não pode ser atribuída a Margaret.

— Ainda.

— Exatamente.


Margaret serviu café.

Ninguém bebeu imediatamente.

Sarah continuava olhando para a chave prateada sobre a mesa.

O arquivo original.

Saint Claire.

Praia norte.

Tudo voltava para aquela casa que já não existia.

— Quero entender uma coisa — disse ela.

Margaret sentou-se.

— Qual?

— Você interferiu na minha contratação.

Jacob voltou os olhos para ela.

— Quero a resposta também.

— Sim.

Sarah manteve a voz controlada.

— Por quê?

— Porque eu precisava colocar alguém em Saint Claire.

— Então me usou.

— Sim.

Jacob deu um passo.

Sarah levantou a mão.

— Deixe.

— Sarah...

— Eu perguntei.

Jacob recuou.

Margaret continuou:

— Eu não sabia se o arquivo ainda existia. Não podia entrar na ilha sem chamar atenção.

— E eu podia.

— Sim.

— Porque não tinha ligação conhecida com os Black.

— Sim.

— Exatamente como escreveu no e-mail.

Margaret assentiu.

Sarah sentiu a raiva crescer.

— Então você encontrou a sobrinha de Harry e decidiu colocá-la numa ilha cercada de pessoas que ele considerava perigosas.

— Não foi assim.

— Foi exatamente assim.

— Sarah...

— Você não me conhecia.

— Eu sabia bastante.

— Isso piora.

Margaret ficou quieta.

Sarah continuou:

— Sabia onde eu trabalhava?

— Sim.

— Onde morava?

— Sim.

— Sobre minha mãe?

— O necessário.

Sarah se levantou.

Jacob imediatamente ficou ao lado dela.

— Não fale da minha mãe.

Margaret percebeu a mudança.

— Eu nunca me aproximei dela.

— Ótimo.

— Nem pretendo.

— Melhor ainda.

Sarah respirou.

— Por que eu?

Margaret olhou para ela.

— Porque Harry confiava em você.

Sarah riu, incrédula.

— Eu tinha dezesseis anos quando ele morreu.

— Eu sei.

— Ele confiava em mim para não destruir a cozinha quando fazia jantar. Isso não é autorização para me colocar numa conspiração internacional.

— Não.

A resposta surpreendeu.

Margaret baixou os olhos.

— Não é.

Sarah permaneceu parada.

— Então por quê?

Margaret demorou.

— Porque eu estava ficando sem tempo.

— Isso é problema seu.

— Sim.

— Não meu.

— Sim.

Sarah ficou em silêncio.

Margaret continuou:

— E eu estava errada.

Jacob olhou para ela.

— Isso é uma desculpa?

— Não. É admissão.

Sarah sentiu parte da raiva perder força.

Não porque perdoasse.

Porque Margaret não estava tentando transformar manipulação em proteção.

— Eu encontrei seu currículo porque procurei por Harry — continuou Margaret. — Procurei familiares. Você apareceu. Vi sua experiência profissional. Quando soube da contratação para a obra em Saint Claire, empurrei seu nome para dentro do processo.

Sarah franziu a testa.

— Espere.

— O quê?

— Você não criou a vaga.

— Não.

— Não fez Jacob procurar alguém.

— Não.

— A contratação já existia.

— Sim.

Sarah olhou para Jacob.

Depois para Margaret.

— Então você não me colocou na ilha.

— Não sozinha.

— Você garantiu que meu currículo fosse considerado.

— Sim.

— E depois não controlou a decisão.

— Não.

Jacob respondeu:

— Eu escolhi você.

Sarah olhou para ele.

— Depois de reclamar que esperava um homem.

Jacob fechou os olhos.

— Vamos carregar isso até os oitenta?

— No mínimo.

Margaret quase sorriu.

Sarah voltou-se para ela.

— Isso não torna aceitável.

— Eu sei.

— Mas torna diferente.

— Sim.

Sarah sentou-se.

— Continue.


— Harry nunca quis que você se envolvesse — disse Margaret. — Nisso ele foi muito claro.

— A carta também.

— Ele deixou a bússola como contingência, não como missão.

Sarah assentiu.

— Então por que você ignorou isso?

Margaret olhou para a janela.

— Porque Isabella morreu.

O nome alterou a sala.

Jacob ficou imóvel.

— Explique.

— Depois da morte de Harry, parei de procurar o arquivo. Acreditei que seria mais seguro deixá-lo enterrado. Anos depois, Isabella me encontrou.

Sarah se inclinou.

— Como?

— Charlie.

Jacob franziu a testa.

— Charlie apresentou vocês?

— Não.

— Então?

— Isabella encontrou meu nome entre documentos dele.

— Margaret Clearwater?

— Um dos nomes.

— Helen Moore?

Margaret sorriu.

— Também.

Sarah lembrou da fotografia do aeroporto.

— Foi por isso que ela foi a Nassau.

— Sim.

— Dois dias antes de morrer.

— Sim.

— Embry viu uma mulher sair com ela de Saint Claire. Mas as câmeras de Nassau mostram você encontrando Isabella já lá.

Margaret ficou quieta.

Sarah percebeu.

— Então não era você no helicóptero.

— Não.

Silêncio.

Jacob imediatamente se inclinou.

— Quem era?

— Não sei.

Sarah sentiu um choque.

— Embry identificou você pela fotografia.

— Embry viu uma mulher de longe, anos atrás, e depois viu uma fotografia minha. Ele pode ter se enganado.

Sarah fechou os olhos.

Outra suposição que se tornara quase fato pela repetição.

— Então precisamos separar isso.

Ela enumerou com os dedos.

— Uma mulher morena saiu de Saint Claire com Isabella. Embry acredita que era você. Mas as imagens de Nassau mostram você chegando separadamente.

— Correto.

— Portanto a mulher do helicóptero continua sem identificação.

— Sim.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Mais uma pessoa.

— Possivelmente — corrigiu Sarah.

Ele olhou.

— Certo. Possivelmente.

Margaret observou.

— Harry teria gostado de você, Jacob.

— Não comece.

Sarah quase sorriu.


Margaret abriu outra pasta.

— Isabella chegou assustada.

— Por Charlie? — perguntou Sarah.

— Por tudo.

— Isso é amplo.

— Porque era amplo.

Sarah esperou.

— Ela havia descoberto que o pai estava vivo.

Jacob baixou os olhos.

— Já sabemos.

— Descobriu movimentações feitas em nome dela.

— Também.

— E descobriu que a casa de hóspedes em Saint Claire havia sido construída sobre uma estrutura anterior.

Sarah ficou imóvel.

— O arquivo.

— Sim.

— Ela entrou?

— Não antes de vir me encontrar.

— E o que queria de você?

Margaret olhou para Jacob.

— Saber se Billy era responsável.

Jacob ficou tenso.

— E o que você disse?

— Que Billy havia participado de uma fase posterior da estrutura, mas não da origem.

Sarah sentiu algo se encaixar.

— “Billy não começou.”

— Exatamente.

— Isabella escreveu isso.

— Porque eu disse a ela.

Jacob respirou fundo.

— E Charlie?

— Entrou depois de Billy em algumas estruturas e antes dele em outras. Vocês estão procurando uma linha reta onde havia dezenas de empresas sobrepostas.

Sarah assentiu.

— Isso explica as contradições.

— Algumas.

— E “nós quatro começamos”?

Margaret franziu a testa.

— O quê?

Jacob explicou a fotografia de Billy, Charlie, Quil e Aro e a anotação no verso.

Margaret ficou pensativa.

— Não se refere à Northstar original.

Sarah olhou para Jacob.

Era exatamente a hipótese que levantara.

— Tem certeza?

— Sim.

— Como?

— Porque Charlie ainda era jovem demais quando a primeira estrutura foi criada e Billy não controlava os ativos Black.

— Então o que os quatro começaram?

Margaret balançou a cabeça.

— Não sei.

Sarah assentiu.

— Ótimo.

Margaret ergueu uma sobrancelha.

— Ótimo?

— Uma pessoa que admite não saber.

Jacob soltou uma risada.


Sarah pegou a fotografia recente de Rebecca Morrow.

— Agora ela.

Margaret ficou séria.

— Rebecca era uma das beneficiárias originais.

— Você disse “uma das”.

— Sim.

— Quantas?

— Três.

— Nomes?

— Rebecca Morrow era a única que chegou à idade adulta com identidade preservada.

— O que aconteceu com as outras?

Margaret olhou para ela.

— Uma morreu jovem.

— E a terceira?

— A identidade foi alterada.

Sarah sentiu imediatamente a direção perigosa da conversa.

— Não faça isso.

Margaret franziu a testa.

— O quê?

— Não olhe para mim desse jeito antes de dizer alguma coisa sobre Clearwater.

Jacob tocou discretamente suas costas.

Margaret respondeu:

— Não vou dizer que você é herdeira secreta de nada.

Sarah soltou o ar.

— Obrigada.

— Porque eu não sei.

— Melhor ainda.

Margaret abriu um registro.

— Os Clearwater não eram os beneficiários. Eram custodiante de documentos e, em determinadas gerações, representantes legais dos beneficiários.

— Harry herdou essa função?

— Não formalmente.

— Então?

— Encontrou os registros por acidente durante a avaliação da praia norte.

Sarah pensou no tio.

Mapas.

Documentos.

Trabalho.

Uma descoberta que o arrastara para aquilo.

— E Rebecca?

— Descobriu que ainda possuía direitos sobre alguns ativos. Tentou recuperá-los.

— Aro impediu.

— Aro participou da tentativa de impedir.

Sarah assentiu.

Margaret sorriu.

— Você realmente não deixa ninguém simplificar.

— Simplificar matou muita gente nessa história.

O sorriso desapareceu.

— Sim.

Sarah percebeu.

— Inclusive Harry?

Margaret ficou imóvel.

— Não sei.

— Você suspeita.

— Suspeito.

— Prova?

— Nenhuma.

Sarah sentiu dor, mas assentiu.

— Então continua ataque cardíaco.

— Sim.

Jacob apertou seu ombro.


A pergunta de Isabella permanecia.

Quem morreu para que R.M. pudesse continuar existindo?

Sarah colocou a carta sobre a mesa.

— Explique isso.

Margaret olhou para a letra de Isabella.

Demorou alguns segundos.

— Rebecca tinha uma irmã mais velha chamada Miriam.

— Morrow?

— Sim.

— Miriam Morrow.

— Sim.

— As duas tinham iniciais M.M.

— Sim.

Sarah franziu a testa.

— Então como chegamos a R.M.?

— Rebecca usava o primeiro nome da mãe em algumas estruturas: Rebecca Marianne Morrow. Em documentos fiduciários, ela foi registrada como Rebecca M.

Sarah esperou.

Margaret continuou:

— Quando Miriam morreu, alguém alterou registros para fazer parecer que a beneficiária registrada como R.M. era a mulher morta.

— Mas as iniciais não batiam perfeitamente.

— Não precisavam. Os documentos públicos e fiduciários não tinham o mesmo nome completo.

Jacob perguntou:

— Quem fez?

— Aro assinou parte.

— Ephraim também?

— Ephraim assinou um reconhecimento posterior.

Sarah olhou para Jacob.

— Posterior.

Margaret assentiu.

— Não posso afirmar que ele participou da falsificação original.

Jacob respirou melhor.

Não aliviado.

Apenas com uma acusação a menos transformada em certeza.

— E Rebecca continuou assinando como R.M. depois de oficialmente morta — disse Sarah.

— Sim.

— Por quê?

— Porque aquela era a única identidade sob a qual ainda mantinha poder sobre os ativos.

Sarah entendeu.

— Se aparecesse como Rebecca Morrow viva, revelaria a fraude.

— E colocaria a própria vida em risco.

— Então ela continuou existindo juridicamente como uma pessoa que oficialmente estava morta.

— Exatamente.

Jacob passou a mão pelo rosto.

— Esta história tem gente morta demais trabalhando.

Sarah quase riu.


A tarde avançou.

Paul entrou apenas uma vez, depois de Sarah chamá-lo, para verificar a cópia do vídeo e recolher os arquivos digitais. Margaret não se opôs.

A gravação parecia antiga.

Ainda precisaria de perícia.

Nada seria tratado como fato definitivo.

Quando Paul saiu novamente, Jacob voltou ao ponto principal.

— Quil.

Margaret ficou séria.

— Sim.

— Você tem apenas o carro?

— Tenho mais uma coisa.

Sarah imediatamente ficou alerta.

— O quê?

Margaret retirou uma folha transparente de uma pasta.

Uma fotografia.

Ruim.

Noturna.

Um homem junto à lateral da antiga casa de hóspedes.

O rosto quase invisível.

Mas a postura...

Jacob se aproximou.

— Parece Quil.

Sarah olhou para ele.

— Parece.

Margaret assentiu.

— Não posso provar que seja.

Sarah ficou surpresa.

— Obrigada.

— Aprendo rápido.

A fotografia tinha horário.

00h12.

— Oito minutos depois de Charlie — disse Jacob.

Sarah olhou.

— Se os relógios das duas câmeras estavam sincronizados.

Margaret assentiu.

— Precisamos verificar.

— Sim.

Sarah estudou a imagem.

Havia outra coisa.

No fundo.

Uma segunda silhueta.

Menor.

— Aqui.

Margaret aproximou.

Jacob também.

— Outra pessoa.

— Sim.

— Homem ou mulher?

— Não dá para saber.

Sarah olhou para Margaret.

— E depois?

— A câmera perdeu sinal às 00h17.

Jacob congelou.

— Por quanto tempo?

— Trinta e quatro minutos.

Sarah sentiu frio.

— 00h17 até 00h51.

— Sim.

— E Isabella?

Margaret demorou.

— À 01h06 uma câmera mais próxima da estrada registrou alguém correndo.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Quem?

Margaret abriu o arquivo.

Imagem ruim.

Uma pessoa correndo pela lateral da estrada.

Roupas claras.

Cabelos.

Sarah se aproximou.

Jacob parou de respirar.

— Isabella.

Margaret respondeu:

— Acredito que sim.

Sarah olhou para ele.

— Isso muda tudo.

Jacob parecia incapaz de falar.

Se fosse Isabella...

Ela estava viva à 01h06.

Muito depois de Edward deixá-la.

Depois do primeiro confronto com Charlie.

Depois do retorno do carro de Quil.

Depois da chegada do carro de Charlie.

Depois do apagão da câmera.

— Para onde ela estava correndo? — perguntou Sarah.

Margaret mostrou o mapa.

Não para o mar.

Para o interior da ilha.

Jacob ficou imóvel.

— Ela não estava indo para a praia.

— Não.

Sarah sentiu a mente acelerar.

— Então o momento em que ela foi parar na água ocorreu depois.

— Sim.

— Quanto depois?

— O corpo foi encontrado pela manhã. Não temos registro entre 01h06 e isso.

Jacob sentou-se.

Sarah imediatamente ficou ao lado.

Ele passou as mãos pelo rosto.

— Quatro anos.

Sarah tocou suas costas.

— Jacob.

— Quatro anos achando que ela entrou naquele mar depois que eu...

— Não.

Ele olhou.

— Não termine essa frase.

— Sarah...

— Você não sabe quando ela entrou na água. Não sabe como. Não sabe com quem estava.

— Eu deveria ter...

— Não.

A voz dela ficou firme.

— Não use uma pista nova para inventar uma culpa nova.

Jacob fechou os olhos.

Sarah segurou seu rosto.

— Olhe para mim.

Ele abriu.

— Isabella estava viva à uma da manhã, se a imagem for realmente dela.

— Sim.

— Isso é o que sabemos.

— Sim.

— O resto descobrimos.

Jacob assentiu lentamente.

Margaret observava.

Havia tristeza em seus olhos.

— Ela queria voltar para você.

Jacob olhou.

Sarah imediatamente ficou alerta.

— Como sabe?

Margaret percebeu.

— Ela me disse.

Jacob não respirou.

— O quê?

— Em Nassau.

Margaret olhou para ele.

— Isabella disse que tinha destruído a única coisa boa da vida dela porque era covarde demais para admitir que tinha errado.

Edward.

O caso.

A mentira.

Jacob baixou os olhos.

— Não preciso ouvir isso.

Margaret assentiu.

— Certo.

Sarah agradeceu silenciosamente por ela parar.

Isabella não precisava ser transformada em santa para que sua morte importasse.

Nem o arrependimento apagava o que fizera.


Já anoitecia quando Sarah finalmente perguntou:

— Você conheceu Charlie depois da morte falsa?

Margaret ficou imóvel.

— Sim.

Jacob virou-se.

— Quando?

— Duas vezes.

— Onde?

— Nassau.

— Antes ou depois da morte de Isabella?

— Uma antes. Uma depois.

O ar mudou.

— Depois? — perguntou Sarah.

— Três dias depois.

Edward desaparecera três dias depois do funeral, mas a reunião de Margaret com Charlie ocorrera três dias depois da morte de Isabella — antes do funeral.

— O que ele queria?

— Encontrar uma coisa que Isabella havia tirado do cofre.

Sarah lembrou.

Quil dissera que Isabella retirara provas do cofre dois dias antes da morte.

— O quê?

— Charlie não sabia.

— Você sabia?

— Não.

— Sabe agora?

Margaret olhou para a chave sobre a mesa.

— Acho que sim.

Sarah seguiu o olhar.

— A chave do arquivo.

— Não.

— Então?

— Um livro.

Jacob franziu a testa.

— Livro?

— Livro-caixa. Original. Manuscrito. O registro anterior à Northstar.

Sarah sentiu um arrepio.

— Onde está?

— Se Isabella conseguiu escondê-lo...

Margaret olhou para ela.

— Saint Claire.

— Na praia norte?

— Provavelmente.

Sarah ficou em silêncio.

A casa.

Outra vez a casa.

Procure na casa.

Talvez Isabella não estivesse falando apenas da caixa encontrada nas fundações.

Talvez ainda houvesse algo abaixo delas.


Voltaram para o hotel pouco depois das nove.

Paul ocupava o quarto ao lado.

Jacob fechou a porta.

Sarah deixou a bolsa sobre uma cadeira.

Nenhum dos dois falou.

Ela tirou os sapatos.

Jacob afrouxou os primeiros botões da camisa.

Sarah olhou.

— Você está quieto.

— Estou pensando.

— Perigoso.

Ele quase sorriu.

Sarah se aproximou.

— Está pensando em Isabella.

— Sim.

Ela assentiu.

Sem ciúme.

Sem desconforto.

Apenas esperou.

— Se aquela imagem for dela...

— Sim.

— Ela estava viva depois de tudo que eu imaginava.

— Sim.

— E correndo para longe do mar.

— Sim.

Jacob fechou os olhos.

— Não sei o que fazer com isso.

Sarah segurou suas mãos.

— Nada hoje.

Ele abriu os olhos.

— Nada?

— Você não precisa resolver quatro anos de luto numa noite.

Jacob respirou.

— Você fica?

Sarah sorriu suavemente.

— Onde eu iria?

— Não sei.

— Então pare de perguntar coisas idiotas.

Ele puxou-a.

Sarah envolveu os braços em sua cintura.

Ficaram assim.

Sem beijo.

Sem provocação.

Apenas juntos.

Depois de algum tempo, Jacob falou:

— Quando ela disse que você me ama...

Sarah gemeu.

— Meu Deus.

Ele riu contra seus cabelos.

— Melhorou meu dia.

— Seu dia foi péssimo.

— Exatamente.

Sarah ergueu o rosto.

— Você não desiste.

— Não.

Ela ficou olhando para ele.

Depois sorriu.

— Ainda quero que seja nosso.

Jacob ficou sério.

— Eu sei.

— E quando acontecer...

— Sim?

— Você não vai poder usar Margaret como testemunha.

Ele sorriu.

— Vou expulsar todo mundo da ilha.

— Isso parece excessivo.

— Embry principalmente.

Sarah riu.

Jacob a beijou.

Calmo.

Sem urgência.

Quando se afastaram, ela apoiou a cabeça em seu peito.

— Amanhã voltamos.

— Sim.

— E falamos com Quil.

O corpo de Jacob ficou tenso.

— Sim.

Sarah levantou o rosto.

— Sem bater nele.

— Não prometo.

— Jacob.

— Vou tentar.

— Isso não foi convincente.

— É o máximo que consigo hoje.

Ela beijou seu queixo.

— Aceito.


Na manhã seguinte, antes de deixarem Nassau, Margaret entregou a chave para Sarah.

— Não para Jacob.

Sarah franziu a testa.

— Por quê?

— Porque Harry deixou a bússola para você.

— Isso não torna a praia minha.

— Não.

Margaret colocou a chave na palma dela.

— Mas significa que a decisão de usá-la precisa ser sua.

Sarah fechou os dedos.

— Não gosto de pessoas decidindo que coisas são minhas responsabilidades.

Margaret sorriu tristemente.

— Eu sei.

— Então entenda: vou abrir porque escolhi abrir.

— Era exatamente isso que Harry queria.

Sarah sentiu os olhos arderem.

Margaret recuou.

Jacob esperava perto da porta.

Antes de Sarah sair, Margaret falou:

— Há mais uma coisa.

Sarah virou.

— Sobre Quil?

— Não.

— Charlie?

— Também não.

Margaret olhou para Jacob.

Depois para Sarah.

— A mulher que saiu de Saint Claire com Isabella dois dias antes da morte.

Sarah parou.

— A que Embry confundiu com você.

— Sim.

— O que tem?

— Depois que vocês saíram ontem, procurei nos arquivos antigos de Isabella.

Sarah sentiu o coração acelerar.

— Encontrou?

Margaret colocou uma fotografia sobre a mesa.

A imagem mostrava Isabella entrando no helicóptero em Saint Claire.

Ao lado dela, a mulher desconhecida.

Dessa vez de perfil.

Mais nítida.

Sarah aproximou-se.

Não reconheceu.

Jacob também não.

— Quem é?

— Não sei.

Sarah soltou o ar.

Margaret continuou:

— Mas reconheço o colar.

No pescoço da mulher havia um pequeno pingente circular.

Margaret colocou ao lado uma fotografia antiga.

Harry.

Quil.

Billy.

E outra pessoa parcialmente escondida.

No pescoço daquela pessoa:

o mesmo pingente.

Sarah ficou imóvel.

— Quem está nessa fotografia?

Margaret respondeu:

— Essa foto foi tirada por mim.

— Quem é a mulher?

— Não é mulher.

Sarah olhou novamente.

Cabelos compridos.

Corpo parcialmente oculto.

O rosto fora da imagem.

— Então quem?

Margaret respirou fundo.

— Charlie.

Silêncio.

Jacob se aproximou.

— Está dizendo que Charlie usava esse colar?

— Sim.

Sarah olhou para a mulher do helicóptero.

— Isso não significa que seja dele.

— Não.

— Pode haver mais de um.

— Pode.

— Pode ser símbolo de grupo.

— Pode.

Margaret assentiu.

— Mas há uma coisa que vocês podem verificar.

— O quê?

— Charlie nunca tirava aquele pingente.

Jacob franziu a testa.

— E?

Margaret apontou para a gravação da praia.

A imagem de Charlie confrontando Isabella.

Sarah compreendeu antes.

— Ele não está usando.

Margaret assentiu.

Sarah sentiu um arrepio.

O colar estava no pescoço da mulher que saíra com Isabella dois dias antes.

E não estava com Charlie na noite da morte.

Aquilo não provava roubo.

Não provava entrega.

Não provava parentesco.

Não provava sequer que fosse o mesmo objeto.

Mas criava uma pergunta.

Mais uma.

Sarah guardou a fotografia.

— Vamos verificar.

Margaret sorriu.

— Harry estaria...

Sarah levantou a mão.

— Não.

Margaret parou.

— Não me diga o que Harry sentiria sobre mim.

O sorriso desapareceu.

Sarah continuou, mais suave:

— Eu prefiro lembrar do que ele realmente disse.

Margaret assentiu.

— Justo.

Sarah virou-se.

Jacob abriu a porta.

Quando saíram, ele segurou sua mão.


O avião pousou em Saint Claire no início da tarde.

Embry esperava perto do hangar.

Edward estava ao lado dele.

Quil não.

Jacob desceu primeiro.

Sarah logo atrás.

Embry aproximou-se.

— Antes que perguntem...

Jacob ficou tenso.

— Onde está Quil?

Embry levantou as mãos.

— Na casa.

— Por quê não veio?

Embry olhou para Sarah.

Depois para Jacob.

— Porque aconteceu uma coisa.

Sarah sentiu o estômago apertar.

— O quê?

Edward respondeu:

— Quil recebeu uma mensagem ontem à noite.

— De quem?

— Não sabemos.

— O que dizia?

Edward entregou o celular.

Uma única linha:

Eles descobriram os quarenta e sete minutos.

Sarah ficou imóvel.

Jacob ergueu os olhos.

— Quil contou alguma coisa?

Edward assentiu.

— Disse que explicaria quando vocês voltassem.

Sarah sentiu a chave de Margaret dentro da bolsa.

— Então vamos ouvir.

Embry não se moveu.

Jacob percebeu.

— O que mais?

Embry respirou.

— Quil também disse que mentiu.

Silêncio.

— Sobre o quê? — perguntou Sarah.

Embry olhou para Jacob.

— Sobre ter deixado Isabella sozinha naquela noite.

O rosto de Jacob endureceu.

Sarah segurou sua mão.

Embry continuou:

— Quil disse que quando foi embora da primeira vez, havia outra pessoa com Isabella.

Sarah sentiu o coração disparar.

— Quem?

Embry respondeu:

— Ele não quis dizer sem vocês aqui.

Jacob começou a andar.

Sarah o acompanhou.

Dessa vez ninguém tentou impedi-lo.

Porque quarenta e sete minutos haviam deixado de ser apenas uma lacuna numa câmera antiga.

Quil sabia o que havia acontecido naquele intervalo.

Sabia quem estava com Isabella.

E escondera essa pessoa por quatro anos.