I will survive

1 Quem entrevista, o gravador e Penélope.


Notas iniciais
É uma entrevista, quem fala primeiro é o entrevistador, depois Penélope e assim por diante, a ordem não muda.
Aproveite a leitura.

— Certo, eu vou ligar o gravador e começaremos a entrevista, se ficar com sede, tem água na mesinha ao lado. Você quer fazer alguma coisa antes disso?

—Acho que não. Você vai transcrever o que eu disser depois, não é?

—Sim. Mas eu agradeceria se conseguíssemos uma gravação limpa, então vamos tentar evitar interrupções.Vai facilitar meu trabalho.

—Certo.

O gravador é ligado.

—Dia dezesseis de novembro de dois mil e nove. Dezoito horas e vinte e dois minutos. Começamos a entrevista com Marcelo Rochedo da Silva, mais conhecido por seu nome de Drag, Penélope Liberty, que também é como será chamado ao longo da entrevista. A primeira pergunta, como é de se esperar, é por que você deixou de ser Marcelo para se tornar Penélope?

—Eu tinha vinte anos. Isso faz quatorze anos. Bom, desde nova eu admirava pessoas seguras de si, e queria muito ser uma delas, principalmente porque eu acreditava que saber quem você é estava incluso nessa segurança. Um dia, percebi que não era o "saber quem eu era" que me impedia de pertencer a essa segurança, era o fato de eu não ser quem eu era. Então, tornei-me Penélope para encontrar a minha verdadeira eu.

—Você acredita que encontrou?

—Eu não sei. Mudo mais de personalidade do que de peruca. — deu um riso leve.

—Você teve alguém que te encorajou a seguir esse rumo?

—Não no começo. Não foi uma coisa de um dia para o outro, sabe? Eu comecei escondida da família, indo em boates distantes dos lugares que o Marcelo frequentava e só de vez em quando. Foi apenas em São Paulo, dois anos depois que alguém me disse que eu devia ser mais daquilo que eu sentia que era de verdade.

—Como a sua família reagiu quando contou a eles?

—Meu pai largou minha mãe quando eu tinha três anos, então eu nunca senti que devia alguma satisfação a ele, nem mesmo quando o reencontrei há alguns anos atrás. Minha avó levou um tempo para assimilar a informação, ela até tentou me expulsar da família, mas depois mudou de ideia. Minha mãezinha, por outro lado, me fez apenas uma ameaça: "Se você começar a deixar rastros de fios de cabelo colorido, lantejoulas e purpurina pela casa, vai limpar usando salto agulha de bico fino." ela me disse com os olhos estreitos. Elas são minha única família, então é apenas isso.

—Com relação a grupos de Drag Queens, alguns se consideram grupos praticamente familiares. Como você se sente com relação a eles?

—É verdade que somos vários grupos. E, sim, a maioria deles se dão suporte praticamente familiar, mas na minha opinião, não por opção, por necessidade. Graças ao maldito preconceito, pessoas como eu geralmente precisam de um refúgio com semelhantes porque foram abandonados pelos familiares. Eu tive a sorte de ser aceita, o que não é muito frequente, mas por esse motivo, eu não sou tão conectada com os grupos.

—Como é a sua vida amorosa?

—Como você espera que ela seja? — sorriu maliciosamente — Alguns casos aqui e ali, romances de uma noite, às vezes tem um ou outro que conseguem realmente mexer com o meu emocional, mas esses eu faço questão de afastar.

—Quer dizer que você nunca se envolveu realmente com alguém?

—Bom... Não exatamente. Eu já tive alguém, quando eu era nova. — um sorriso surgiu no canto de sua boca. — Eu me lembro o quanto ele era alto, mais alto que eu, mesmo quando eu usava salto. Ele era gentil com todos, tinha um sorriso cativante. Nós saímos por um bom tempo. Eu me lembro de uma vez, nós estávamos andando depois de sair de uma balada, era um bairro um pouco mais chique, nós passamos em frente a um restaurante daqueles com o estilo clássico, com garçons de gravata borboleta e pessoas bem vestidas, por algum motivo eu parei para ver as pessoas comerem lá dentro, pela vitrine. Ele me perguntou se eu queria entrar lá e pedir um prato para dividirmos, eu respondi que era melhor não, por mais que eu quisesse muito, eu sabia que restaurantes como aqueles não iam me deixar entrar. Quando eu expliquei isso a ele, pegou minha mão e me levou para dentro do restaurante, pediu uma mesa para dois, o garçom olhou para ele incrédulo. O que me tocou foi que ele olhou para mim e disse "Você é linda, e pode comer onde quiser. Os outros que se danem." quando fiquei nervosa com as pessoas me encarando, ele sussurrou no meu ouvido "Penélope, imagine que estamos apenas eu e você no mundo, e tudo ficará bem." — uma lágrima escorreu pelo canto de seu olho. — Ele morreu num maldito assalto a mão armada dois dias depois. Foi a última vez que eu me apaixonei, ou me envolvi com alguém. — Limpou a lágrima em seu rosto. — Droga, vou borrar minha maquiagem.

—Se você quiser, podemos deixar essa parte de fora.

—Não, pode deixar. — sorriu amavelmente. — Ele ia gostar de me ver contando nossa história de amor. — respirou fundo. — Qual é a próxima pergunta?

—Como se vê daqui a dez anos?

—Não me vejo. Eu vivo um dia de cada vez. Se me perguntar como me vejo amanhã, vou lhe dar a mesma resposta.

—Você tem uma filosofia de vida?

—O limite é uma coisa criada pela minha cabeça, se é da minha cabeça, eu posso descriar. Porque eu faço o que eu quiser com a minha cabeça.

—Qual foi o seu maior desafio até hoje?

—Conseguir fazer uma maquiagem com dois olhos simétricos.

—Seu maior medo?

—Descobrir qual é o meu maior medo e ter de enfrentá-lo.

—Já pensou em mudar de gênero?

—Sim, várias vezes, isso ia tornar as coisas mais fáceis talvez.

—Pretende mudar de gênero?

—Não sei. Decisões como essas precisam de reflexões longas, e reflexões longas me deixam complicada, eu odeio ser complicada.

—Por que Penélope?

—Porque eu sempre adorei o som desse nome, é pomposo e delicado.

—Por que Liberty?

—Essa história já é mais complicada. Eu não comecei como Penélope Liberty, eu comecei como Penélope Maluca, como uma versão nova da Penélope Charmosa. Mas depois dele, — se reacomodou na cadeira — eu mudei, porque ele sempre disse que eu devia me sentir mais a liberdade de ser quem eu realmente era, segundo porque ele era americano, então queria algo que me lembrasse dele.

—Já estamos acabando.

—Foi até mais rápido do que eu imaginava.

—As próximas perguntas são mais superficiais, mais para a introdução do que para qualquer outra coisa.

—Certo.

—Comida favorita?

—Sorvete de baunilha.

—Tem algum segredo para fazer a maquiagem durar?

—Passar gelo para fechar os poros antes de passar a maquiagem.

—Cor favorita?

—Eu realmente preciso escolher apenas uma? — suspirou. — No momento, acho que é branco, não, azul.

—É a última.

—Que não seja tão difícil quanto a anterior.

—É bem simples, na verdade.

—Qual é?

—Música favorita?

Penélope riu.

— I will survive.

O gravador é desligado.

Notas finais
Espero que tenha gostado. Se quiser, deixe um comentário, se não quiser, vou respeitar sua escolha.
Obrigada por ler.
Senhorita Bela
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!