I wanted to stay
1 Oneshot
Notas iniciais
A tensão que o homem de cabelos longos e negros exalava era palpável. Seus olhos, que lhe encaravam firmemente, possuíam uma expressão clara de dúvida.
Conhecia bem aquela pose do menor. Defensiva e ao mesmo tempo feroz. Sabia que não havia como fugir daquele assunto e por isso, suspirou. Haviam acabado de acordar, mas por um descuido seu, deu voz ao assusto que tanto tentara adiar.
Com o indicador de uma das mãos contornou o rosto pálido do outro e o segurou levemente pelo maxilar. Tão lindo.
Eu queria poder ficar com você.
— E por algum acaso não pode? — Questionou Orochimaru conforme levantava uma sobrancelha e se afastava, livrando-se do toque em seu rosto.
— Nada é para sempre, meu amor. – Mal terminara de falar e logo recebera um tapa certeiro e carregado em seu rosto. Assistiu o moreno se afastar de si, levantando-se da cama, e viu suas expressões denunciarem a mágoa que ele sentia.
— Não me chame de amor! – A forma como o menor falava era rápida e a pele pálida já começava a mostrar tons avermelhados. – Não quando assim como todos você também vai ir embora.
Se levantou, tentando se aproximar do menor, e falhou já que o outro voltou a se afastar. – Orochimaru, não fuja de mim. – Pediu, sabendo que devia acalmar o outro antes que o mesmo perdesse a cabeça e acabasse com qualquer chance de conversarem.
— Não chegue perto de mim. – Ignorou os protestos do menor e se aproximou novamente. Percebeu que o outro tremia ao toca-lo e passou os braços ao redor da cintura magra.
Notou o olhar perdido do moreno a sua frente e o seguiu, dando de encontro com o pôr do sol que podia ser visto através da janela. A face alheia estava inexpressiva e isso o incomodava profundamente.
Puxou o menor ainda mais para perto e afundou o rosto no pescoço alvo, roçando a ponta do nariz na tez nua da forma que sabia arrepiar o outro. – Me perdoe, não queria te aborrecer. – A pouco tempo conseguira fazer com que o moreno lhe desse a permissão de vê-lo sem todas as armaduras com as quais ele se escondia e não queria perder esse privilégio.
Não queria fazê-lo sofrer, não mesmo.
— Quando essa missão acabar vai tudo voltar ao normal, não vai? – Cada palavra proferida pelo outro carregava consigo uma dor crua e não soube como responder, preferindo se manter em silencio.
Não saberia tão cedo, mas o seu silencio fora a forma mais cruel de se responder à pergunta do menor. Se pudesse ler mentes, quem sabe, teria visto o quanto aquilo machucara o outro.
— Orochimaru? – Percebeu o corpo tenso do menor e buscou em sua mente por uma solução simples para aquela situação. Eram ambos homens e jamais poderiam se relacionar livremente em Konoha. Se continuassem com aquilo, com aquela relação, teriam que viver as escondidas, coisa que nunca o agradara.
Sabia não ser capaz de sustentar uma relação assim, mas mentiria se dissesse que não doía se imaginar sem o moreno pelo qual havia se apaixonado durante os meses que a missão em que estavam durara.
Sentiu o menor escapar de seu toque novamente e escutou um sussurro baixo, quase proferido como um segredo, escapar dos lábios finos.
Nós podemos fugir.
Era loucura, simplesmente. – E sermos considerados nukenins? Nunca teríamos paz e também... – Mordeu o lábio inferior com força ao perceber o que iria dizer e se sentiu ser empurrado calmamente pelo outro que agora se via de costas para si com ambas as mãos no rosto. – O que foi? – Esticou o braço o suficiente para tocar os trêmulos ombros do moreno. Ele está chorando?!
— Você vai voltar para ela. – As palavras sussurradas chegaram a seus ouvidos como uma sentença de morte. Frias e certeiras. – Tsunade, é por causa dela, não é? – Recolheu a mão com a qual tocava-lhe o ombro e apertou as unhas contra a própria palma. Sim.
— Orochimaru, eu realmente gosto de você. – Tentou ser o mais calmo possível em seu dizer, se preparando para os possíveis efeitos que suas palavras causariam no menor. – Gosto de uma forma única, de uma forma que eu nunca experimentei antes. Eu te devo muito mais do que posso te dar, mas não posso abandonar as pessoas que precisam de mim. Você está certo, enfim, eu não posso a abandonar. Eu não consigo.
Assistiu o outro se virar bruscamente, com lágrimas nos olhos, e sentiu o peso do olhar alheio. – E quanto a mim? Acha que depois de tudo isso eu irei aguentar te ver todos os dias? Acha que eu vou aguentar te ver sendo feliz ao lado dela? Acha que eu vou querer viver ao seu lado sabendo que você me negou? – As palavras dele se enrolavam em seu coração como cobras e não conseguia dizer nada, não conseguia faze-lo parar.
— Por favor, fica calmo! Eu sei disso tudo, droga, mas eu não posso fazer nada! Eu não sei o que fazer! – Viu o menor arregalar os olhos e balançar a cabeça em negação conforme se afastava em direção a porta. – Eu quero estar com você! Mas eu não consigo ser frio, Orochimaru. Eu não consigo simplesmente abandonar tudo. Eu viveria o resto da minha vida atormentado pela culpa e isso me faria infeliz... te faria infeliz. – Suspirou, antes de dizer a última frase que reverberava em seu cérebro. – Eu não consigo ser egoísta a ponto de te escolher.
A respiração que se seguiu ao silencio do moreno fora profunda e a voz que lhe abandonara os lábios fora baixa, fria. – Saia. – Os dedos finos se esticaram até a maçaneta da porta, a qual o outro abriu, dando-lhe passagem para o corredor.
Ele olhava para o chão e pode perceber que seu corpo inteiro tremia. – O que você quer que eu faça? – Um suspiro sibilado foi o que precedeu a resposta seca e arrogante.
Some da minha frente.
— Não. – Se aproximou novamente do menor e antes que pudesse toca-lo foi finalmente encarado nos olhos.
Sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha ao notar que as lágrimas haviam sido completamente substituídas por um ódio tão profundo que lhe causava dor. Um sorriso maníaco dançava nos lábios do ninja a sua frente e os olhos brilhavam, como se o outro estivesse se divertindo com sua confusão.
Quem era a pessoa a sua frente?
— Saia agora. – Seus pés lhe desobedeciam e o faziam caminhar em direção ao corredor mesmo que seu coração gritasse que se saísse por aquela porta, jamais voltaria a ver o menor.
Se viu em pé no corredor e escutou, sem conseguir se virar, a porta atrás de si se fechar lentamente. Após o estalo típico da tranca sendo passada, escutou um silvo baixo atravessar a madeira. Uma palavra que lhe atormentaria o resto da vida.
Adeus.
[...]
Havia passado a noite inteira pensativo e agora se via em pé frente a porta do quarto de seu companheiro de equipe. Era o dia de voltarem para Konoha e há alguns minutos estava chamando pelo moreno que não dava sinais de que fosse responde-lo.
— Abre a porta, nós já estamos atrasados. – Bateu novamente os nós dos dedos na madeira da porta e novamente não escutou nada, nem mesmo um mínimo som. Precisamos conversar.
Um lampejo de preocupação passou por sua mente e se viu perder a paciência. Chutou a porta, repetidamente, aumentando a força até que ela cedesse. Imaginou mil e uma fatalidades e se forçou a não dar atenção a nenhuma delas.
Vasculhou cada canto do local, sentindo crescer dentro de si um desespero, e por fim aceitou o fato de que o outro não estava ali. Levou as mãos nervosamente aos cabelos, os quais bagunçou tentando se prender ao mínimo de sanidade. Ele fugiu.
Desceu rapidamente as escadas que davam na recepção do local para perguntar se por um acaso haviam visto o outro sair e foi obrigado a prender uma exclamação de terror ao encontrar três pessoas mortas no saguão. Um alivio percorreu seu corpo ao não perceber o menor entre os mortos, mas logo se arrependeu desse sentimento.
Andou rapidamente para a frente do local onde haviam se hospedado e no caminho teve a atenção presa por um pequeno papel preso na porta de saída. Nele, uma mensagem que claramente era endereçada para si.
Eu queria poder ficar.
Sentiu os olhos arderem e não evitou que as lágrimas rolassem. Algo dentro de si de repente se tornara pesado e por mais uma vez naquele dia se lembrou da última palavra dita pelo outro. Custou aceitar que o outro havia sido responsável pelos corpos espalhados pelo chão, mas não havia como negar.
Havia deixado Orochimaru escapar por entre seus dedos.
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