I want you...hungry.
26 Still thinkin 'bout you
Notas iniciais
Clara teve certeza, definitivamente seria inesquecível, tudo que envolvia Marina era assim.
A fotógrafa fora inesquecível para si desde o primeiro instante que a viu. Perdida em seu abraço nesse momento, teve certeza que de alguma forma haviam sido predestinadas uma para a outra. Mesmo ela, sempre romântica e sonhadora, se pegou mexida pela surpresa de existir um sentimento, um amor tão forte quanto aquele.
Puxou o corpo leve e plácido para si tomando cuidado. A castanha já estava em um agudo estágio de sonolência que logo seria substituído por um sono mais profundo. Marina respondeu ao toque encostando seus lábios nos dela, com os olhos fechados, em um beijo que permaneceu. As bocas ficaram coladas, imóveis, as respirações se misturavam, elas sentiam-se em um toque íntimo. Era um momento só delas, um beijo que não precisava ter fim.
O corpo de Clara relaxou, agora era ela que afundava em devaneios que foram se tornando perdidos, espaçados, a letargia não estava distante, queria possuir-se dela. Mas sentiu-se lutar no momento que a fotógrafa quase que inconsciente pegou para si seu lábio inferior, sugando-o como se fosse entregar para si a substância necessária para então adormecer.
Marina estava quase inconsciente, mas a consciência de que possuía a mulher amada, de alguma forma era viva em sua mente. Refletiu que chupar Clara lhe trazia sensações que iam além do prazer carnal, ela preenchia sua alma, mexia com sua psique, a conduta de tê-la em sua boca possuía uma representação e uma influência ainda incógnita para ela. Não poderia, nem que quisesse unir todas as explicações plausíveis para aquilo.
Um pensamento torpe tomou a mente no meio de seu baratino, viu aquela mulher de uma forma tão sua que poderia dormir possuindo seu sexo, não que fosse uma tarefa fácil, mas era um ato poderoso e cheio de amor, assim como ela. Imaginou-se pegando no sono com o clitóris de Clara em sua boca, em sugadas leves e encaixadas, com o gosto dela escorrendo em sua língua de maneira constante.
O sexo molhou, entregando para a morena que tinha uma das pernas levemente encaixada nela sua excitação. Os pensamentos eram só delas, mas pareciam voar ecoando pelo quarto.
Clara não a escutava por palavras, mas lia seus segredos das mais variadas formas. Compartilhava dos mesmos desejos de seu amor, reagia da mesma maneira quando pensava que tudo aquilo agora era seu. Sim era seu, não existiam mais dúvidas, não tinha mais medos, todos iriam aceitar, mais que isso, iriam respeitar sua escolha porque era exatamente o que a fazia feliz. Quem mais para a querer feliz do que as pessoas que a amam de verdade?
A morena desvencilhou-se dos lábios que mamavam nos seus com pesar, mas desejava demasiado algo e só dormiria em paz ao fazê-lo.
A fotógrafa sem despertar, aproveitando a delícia de viver o prazer em todos os estágios de uma vida, sentiu Clara descer para seu colo em um rastejo carinhoso.
Encaixando sua cabeça no braço branco e pintada abocanhou com calma um dos seios perfeitamente delineados de Marina. O movimento de sucção era prazeroso, mas não afoito, a intenção era acalmar e não acordar, a boca úmida envolvia o mamilo pequeno e a língua o acariciava com delicadeza ali dentro. Possuía o pomo de sua mulher.
Sentiu aos poucos uma grande sensação de paz a levar, teve um resto de força para perceber que a fotógrafa segurou no seio carinhosamente sugado oferecendo-o em uma melhor posição para a boca que o dominava. O encaixe foi enriquecido e agora sim, com o nariz afundado nos cabelos de Clara, dormiu.
Dormiram sentindo prazer, dormiram com os sexos encharcados, dormiram se amando, dormiram da maneira que mais as encantava naqueles últimos dias, na entrega.
O despertador tocou cedo, os olhos abriram encapuzados, despertavam com uma calma contrastante com o toque urgente do celular. Era realmente bem cedo. A morena repousou o olhar no da castanha e assim permaneceram assim por deliciosos segundos.
–Bom dia, coisinha – Disse Marina depositando um beijo em uma das vistas que a observavam.
–Bom dia meu amor... – Espreguiçou a morena fechando os braços esticados ao redor do pescoço da fotógrafa – Ainda é muito cedo, volta a dormir. Vou tomar um banho antes de ir, tudo bem?
–Claro – Sorriu tão honesta que os olhos voltaram a fechar – Sinta-se em casa – Disse afundando no cheiro particular e encantador dos cabelos de Clara – Vou mandar uma mensagem pro Seu Pedro, ele te leva.
–Marina, não precisa, eu chamo um táxi... Poxa vida – Sentia-se sinceramente mal em aceitar tais mimos.
–Escuta só, Clarinha – Começou a falar segurando nas mãos o rosto dourado – Se eu não pudesse fazer, não o faria.
Clara franziu a testa tentando entender o significado exato daquela frase e antes que pudesse pedir um detalhamento Marina continuou
–Essa é a vida que eu tenho, isso é quem eu sou. Você faz parte disso agora, não me importo de dividir coisas boas com você, entende? – Beijou a testa que começara a desfranzir
–Não se sinta mal em aceitar que eu cuide de você de todas as formas possíveis. Eu faço com gosto, essas pessoas que trabalham pra mim também fazem com gosto – Sorriu – Acho que sou uma boa patroa, quero ver todos que me rodeiam com uma vida estável e feliz. Seu Pedro vai te receber com o maior sorriso no rosto – Agora divertia-se lembrando do motorista mais antigo que tinha na família e que a acompanhava desde menina em suas passagens pelo Rio
–Fora que o velho já deve estar acordado faz tempo, esse acorda com as galinhas – Terminou de forma carinhosa.
–Bom – Disse um pouco sem graça – Se é assim, tudo bem – Sorriu com um charme característico de sua timidez, sim, ela aparecia às vezes.
–Vou pro banho – Terminou animada dando um beijo carinhoso nos lábios macios de Marina
A fotógrafa ajeitou-se na cama puxando para si o travesseiro que estava sendo usado pela morena, sentiu que o meio de suas pernas ainda estava lambuzado, Clara tinha o poder de excitá-la durante todas as vinte e quatro horas do dia. Mordeu boba os lábios quando passou seu dedo médio por sua intimidade.
O corpo arrepiou e como quem espantasse aquele tesão agarrou-se ainda mais ao travesseiro para dormir mais um pouco. Teria um dia cheio pela frente.
Quando saiu do banho encontrou Marina adormecida, aproximou-se com cuidado enrolada na toalha e vestiu a mesma roupa que usara na noite anterior. Repousou o olhar na figura imaculada, inocente, a fotógrafa possuía esse lado e era lindo. Vê-la frágil embelezava ainda mais sua força, sua magnitude.
Saiu do quarto com cuidado deixando a porta encostada, desceu as escadas e se deparou com a figura já conhecida do senhor simpático de bigode.
–Bom dia Seu Pedro – Sorriu alegre
–Bom dia Dona Clara – Respondeu o homem dando um gole em uma xícara – Café?
–Hum – Suspirou – Tá tão cheiroso, eu vou aceitar sim.
–Então vou na cozinha servir uma xícara pra senhora, a Dona Marina ama o meu café, sabia? Quando sou eu quem durmo aqui ela faz questão que eu faça o café dela. As meninas da cozinha ficam todas uma ‘arara’ – Disse a figura tagarela e orgulhosa enquanto caminhava para fazer o que havia falado.
–Tá bom, mas ó, Seu Pedro – Falou fazendo uma cabaninha com as mãos pra propagar o som – Eu vou ali no jardim – Apontou para o dia lá fora – Já volto pra buscar o café.
Caminhou pela propriedade com pressa, direção certa. O viridário possuía um canteiro lindo cheio de flores amarelas, parecia estar na época delas porque brilhavam tanto quanto o sol que já estava querendo mostrar sua força.
Pegou apenas uma cheirando-a, voltou ligeira subindo as escadas, abriu a porta encostada sem fazer barulho.
Repousou a flor na cama, escrevendo em seguida um bilhete com palavras que não eram suas, mas representavam toda a vastidão de seus sentimentos.
Era um trecho visceral, real de um amor que agora ela entendia tão bem, sem a parte trágica que o cercava. Faria todo o sentido para a mulher que dormia, afinal, Marina tinha imagens de Frida espalhadas por toca a casa...
‘...está na minha urina, na minha boca, no meu coração, na minha loucura, no meu sono, nas paisagens, na comida, no metal, na doença, na imaginação.
Te amo,
Sua Clara’
Depositou um beijo leve na cabeça que repousava tranquila e saiu, agora fechando a porta com cuidado.
Chegou na sala e aceitou com gosto a xícara que Seu Pedro havia lhe servido, tomou o café de pé observando o jardim quando ouviu uma voz que já lhe era familiar.
–Quer dizer que a dona de casa andou escapando dos serviços de esposa pra passar a noite na cama da Marina – O tom era debochado, algo que Vanessa fazia com propriedade.
Clara virou-se para ela com uma paz desestabilizadora
–Tá preocupada com a minha vida, Vanessa? – Sorriu
–Não – Respondeu de imediato – To preocupada com ela – A cabeça apontava para o andar superior da escada – Com o que você não tem para oferecer pra ela, com o que essa sua aventura pode causar. Sinceramente, nunca vi a Marina tão envolvida com alguém assim – Engoliu a seco quando terminou a frase, o sorriso no rosto da morena alargou-se e percebeu ter prestado um desserviço para si.
–Que bom, significa que eu sou especial – Agora Clara devolvia o deboche.
–Significa que você vai machucá-la, o que uma mulher casada e mãe de família poderia oferecer, hein?
–Amor – A palavra atingiu Vanessa pela sua honestidade – Digamos também que eu não presto mais o ‘serviço’ de esposa – Fez aspas com a mão ao repetir o termo usado pela ruiva – E o de mãe não vai ser um problema, tendo em vista que meu filho é uma criança maravilhosa e vai aceitar e entender o que eu e Marina estamos construindo. Café? – Terminou oferecendo a xícara que tomava para a mulher sem atitude. Vanessa sem palavras, sem retrucar, era definitivamente uma cena rara de se ver.
–Bom, agora eu tenho que ir porque vou passar o dia com o meu bichinho, passar bem – Terminou sorrindo incrédula ao perceber que a assistente parecia mais um cão de guarda do que amiga, mesmo assim tinha para si que a ruiva não era de todo o mal.
Aparentava mais uma alma machucada e amarga do que uma pessoa verdadeiramente cruel. Encontrou a figura sorridente de bigode pela passagem e seguiram juntos para o Leblon.
Depois de um caminho de conversa animada entrou no seu prédio seguindo direto para o apartamento da Tia Juliana. Quando tocou foi atendida por Nando que a convidou para entrar.
–O Ivan tá no banho, a Juliana ia levá-lo para a escola já já. Sabe como ela adora criança, né Clara? – Começou a conversa.
–Sei sim... – Concordou – Vem cá Nando, e o Cadu, tá ai? –Perguntou sabendo que o marido havia se abrigado no apartamento deles no dia anterior.
–Não, ele acordou com o dia clareando e já saiu, disse que tinha muitas coisas pra resolver e ia começar respirando um pouco na praia, me pareceu mais calmo hoje – Contou com um certo alívio – Pediu pra Juliana cuidar do Ivan essa manhã, mas no fundo acho que sabia que você apareceria, sabe?
–Uhum – Concordou a morena também sentindo alívio pelas palavras do tio – Eu quero te pedir pra cuidar dos papéis do nosso divórcio, como foi você quem cuidou de tudo quando casamos, sabe... Acho que seria mais fácil – Requisitou a ajuda de maneira sincera.
–Ele me pediu o mesmo, vou dar entrada nos papéis ainda hoje, tava organizando isso agora mesmo. Fica tranquila Clara, tudo vai se acertar – O sorriso do homem demonstrava carinho e compreensão
–Você sabe que o Cadu se tornou um grande amigo pra mim, um irmão na verdade. Mas... Sinceramente? Achei muito corajosa a sua atitude, de verdade. Aqui todos te amam incondicionalmente, o que importa é você correr atrás da sua felicidade – Pausou a declaração para respirar fundo
–Poxa, você não vê? Eu e a Juliana... Brigamos o tempo todo, não conseguimos nos acertar e estamos ai, dois verdadeiros covardes.
–Mas vocês se amam, Nando – Tentou ajudar.
–E você sabe mais do que ninguém, que amor não é tudo – Estava coberto de razão.
–Mãeeeeeee – Ouviu o grito de felicidade demasiada ecoar pela sala.
–Filhote!– Exclamou no mesmo tom agarrando o menino em seus braços – Que saudade – Enchia o garoto de beijos
–Para mãe, vai me melecar inteiro assim – Brincou com a voz rouca que puxara da mãe.
–Nem vem, hein? Tá ficando rapazinho e agora não quer mais o carinho da mãe coruja? Olha eu que te agarro na frente de todos os seus amiguinhos garoto – Continuou beijando a cria em uma brincadeira muito característica da morena.
–Ih, sai fora mãe, eles vão achar que eu ainda sou um bebê – Agora disse retribuindo o carinho da mãe com amor.
–Você sempre vai ser o meu bebê, até depois de burro velho – Riram juntos com a expressão – Bom, agora vamos que você já está atrasado, cadê a tia Ju?
–Ela esta vindo, foi buscar minha mochila no nosso apartamento e disse que ia passar na Tia Helena pra pegar uma corres... – Gaguejou tentando acertar a palavra – Correspondência – Riu.
–Mas é um homenzinho mesmo, ta vendo só Nando? Como passa rápido... – Fez uma careta ao lembrar-se que ele e a tia sempre tentaram ter um filho mas nunca haviam conseguido. Talvez não tivesse sido o comentário mais adequado, Clara sempre fazendo suas Clarisses, pensou. Logo relaxou quando viu o Tio emprestado sorrir com o afeto para os dois.
Juliana entrou no apartamento com a mochila de Ivan nas mãos já com o material do dia, adorava exercer esse papel cuidadoso e maternal. Ficou feliz ao avistar a sobrinha com o semblante leve. Abraçaram-se apertado, então Clara ouviu Juliana sussurrar em seu ouvido com certo companheirismo
–Quero saber dessa história todinha, ouviu? – Afastou-se com um sorriso afável e completou em voz alta – Bom, o bichinho está entregue... Vou dar uma corrida na praia então, beijo meu gatinho – Apontava para a bochecha.
O menino atendeu de imediato abraçando e beijando a tia com carinho, era uma família extremamente afetuosa. Isso facilitava muito as coisas, pensou a morena. Definitivamente era cercada de amor, até os amores tortos eram grandes amores.
Levou o filho para escola sem se preocupar com o horário, o menino já havia perdido a entrada da primeira aula e isso acontecer uma vez ou outra na vida não representava uma grande tragédia.
Parou o carro, problemático por sinal, um pouco afastado e continuaram o trajeto a pé. Compraram um picolé de fruta natural que o menino amava e caminharam conversando, matando a saudade causada por aqueles últimos dias turbulentos.
–Mãe... – Falou o menino em meio as lambidas desajeitadas no picolé – Você e o papai vão se separar? – Aquela perguntou fez os joelhos da morena vacilarem, óbvio que o assunto seria tratado com Ivan, mas ver o menino tomando a iniciativa a fez ficar sem reação.
Pensou rapidamente nas palavras certas a dizer, quando se deu conta que as palavras mais corretas seriam àquelas que correspondessem à verdade
–Vamos meu amor, eu e o seu pai vamos nos separar – Abaixou na frente do filho olhando com afeto em seus olhos – E eu quero que você saiba que independente disso você sempre vai ter os dois por perto, sempre, ouviu? Vamos nos separar porque não nos amamos mais da forma que marido e mulher se amam, só que logo logo, seremos amigos de verdade. O amor, vai se transformar – Tentou explicar da melhor maneira possível para o menino que ouvia atento com a boca ligeiramente lambuzada de sorvete e os olhos claros bem abertos e expressivos.
–Eu sei... – Pegou a mãe mais uma vez de surpresa – Eu tenho um monte de colega na escola que tem os pais se amando de forma de amigos – Falou fofo com a pureza de uma criança – Eles gostam até, tem dois quartos, dois videogame, mais um monte de amigos, os pais não brigam mais – Sorriu sincero junto com a mãe que achou graça, a se os problemas da vida fossem todos esses pensou se divertindo, videogames.
–Então, as vezes essas coisas acontecem pra movimentar as nossas vidas, assim olhamos pra ela com outra perspectiva – Viu o menino torcer o cenho com a palavra – De outras formas, por outros ângulos – Explicou.
–É, acho que é isso – Concordou com uma lambida no doce.
–A mamãe que te apresentar uma pessoa e o meu novo trabalho – Começou observando o olhar curioso do filho – O que acha de passar um dia com a gente na piscina, nos três.
–Eu vou me amarrar, mãe – Exclamou feliz – Mas a piscina fica dentro do seu trabalho? – A fitou ainda mais curioso.
–Fica, é um lugar muito bonito, cheio de verde. Você vai amar – Tinha certeza disso – E a Marina... – Pausou – A Marina é muito legal, ela vai adorar te conhecer.
–Tá bom – Respondeu com aquele jeito de criança, sem muita expressão.
–Agora vamos, nada de perder mais uma aula – Levantou apressando o passo e puxando o garotinho consigo.
Deixou Ivan na escola e voltou caminhando com uma leveza descomunal. Os papéis já iam ser organizados para o seu divórcio, sabia agora depois que Nando a contou que foi por iniciativa de Cadu que ele já estava preparando tudo, ficou ainda mais amena.
O marido não tinha intenção de travar uma briga. Muitas coisas ainda haveriam de ser tratadas, mas saber que Cadu mostrou-se disposto tirou uma tonelada de seus ombros.
A conversa com o filho também havia sido boa, o menino realmente era uma criança especial e inteligente. Era prático, sempre fora, muito mais do que os adultos por sinal. Mesmo assim não deixava de se surpreender.
Voltou para casa e arrumou algumas coisas, cuidou do espaço que querendo ou não pertencia também a seu filho, queria deixar tudo o mais limpo e confortável para o menino. Preparou o prato favorito de Ivan e quando viu já era hora de buscá-lo.
Estava dentro do carro quando sentiu o celular vibrar, era uma mensagem, de Marina. Sorriu a alegria de uma adolescente boba e apaixonada enquanto abria o texto
‘Onde não puderes amar, não te demores.
Amo você o tanto para demorar a eternidade.
Sua Marina.’
Apertou o aparelho no peito com a resposta do seu bilhete, o coração acelerava e o frio percorria sem pedir licença por toda a sua espinha.
Respondeu de imediato com uma mensagem de voz enquanto ligava o carro
–Por onde anda minha fotógrafa preferida?
A resposta veio logo em seguida com a voz delicioso e uma foto encantadora

–Nesse momento? No carro indo para uma reunião ouvindo um senhor muito animado de bigode declarar toda a sua admiração por sua mais nova amiga – Riu fofa e rouquinha.
–Seu Pedro, um beeeeeijo! – Respondeu fazendo dois estalos no final
–Tá mandando outro, parece que ganhou mais um fã.
–E vem cá, dona Marina Meirelles, indo pra uma reunião linda assim? Desse jeito eu vou querer ir junto – Agora o tom da brincadeira era safado.
–Faz parte do meu approach, afinal de contas eu sou uma artista – Gargalhou do outro lado.
Clara começou a gravar a mensagem de voz já com a risada solta
–Você é uma bandida mesmo! – Exclamou – Boa reunião meu amor, to chegando na escola do Ivan pra buscá-lo, conversei sobre a separação com ele hoje e... – Fez uma pausa dramática proposital – E ele foi super compreensivo, meu bichinho é muito especial mesmo. O que acha... – Outra pausa dramática, sabia que Marina esperava por esse momento ansiosamente – O que acha de uma piscina com ele no sábado?
–Jura? Clarinha! Jura mesmo? Nossa, que maravilhoso, claro amor. Sábado! – Exclamou – Nossa! Um dia e meio todo ainda pela frente. Vou ter que me ocupar pra não sofrer com essa ansiedade – Parecia uma menina. Quem conhecesse Marina Meirelles e visse agora toda aquela animação por causa de uma piscina e um menino certamente ficaria impressionado. Assim como Seu Pedro que a fitou com um sorriso curioso no rosto pelo retrovisor.
–Vou começar preparando tudo para as suas fotos – Sorriu charmosa na mensagem que mandou em seguida da outra que estava quase histérica – Sei que não vai recusar o meu convite.
–Ai ai ai Marina, e eu consigo dizer não pra você? – Estava derretida – Mas depois conversamos melhor sobre isso – Beijos meu amor.
–Beijos minha coisinha – Ouviu a despedida de Marina com um sorriso nos lábios avistando de longe o filho correr em sua direção sorrindo.
Foi um dia delicioso, depois de tantas brincadeiras, jogos, deveres de casa, comidinhas feitas pela mãe o menino tinha apagado esparramado já com o seu pijama no sofá, enquanto ela terminava de assistir o filme infantil que havia colocado para os dois.
Riu quando se pegou cantando uma das músicas temas que tocava no final, perdera a conta de quantas vezes tinha assistido aquele DVD com o filho. Havia falado com Marina mais um tanto naquele dia, trocaram palavras sobre a rotina, coisas comuns, arte, saudade.
Eram definitivamente companheiras. Pensava nisso quando sentiu o celular vibrar novamente, mas dessa vez o nome que iluminou o visor não fez o sorriso largo aparecer, era uma mensagem de Cadu.
Sentiu o coração acelerar ao abrir, mas teve o desespero acalmado quando percebeu que o homem que ela havia conhecido e passado todos esses anos poderia estar de volta
‘Oi Clara, tudo bem? O Nando me disse que se falaram pela manhã sobre os papéis. Tomei a liberdade de pedir para que ele desse entrada no divórcio. Não que eu esteja feliz, não que fosse assim que eu gostaria que nosso casamento terminasse, mas quero que tudo fique bem logo, quero que a mágoa instalada em nossos peitos se dissipe o mais rápido possível. Por tudo que vivemos e pelo nosso filhão. Cadu’
O tom era mais formal do que estava acostumada a ver no marido, que sempre carregou consigo o ar de eterno garotão, mas independente disso era tudo que ela esperava não ler em tão pouco tempo.
O choro desceu leve pelo rosto sem pedir licença, havia ficado assustada com a figura que a raiva fez Cadu expor. Sabia que aquele não era o pai de seu filho, tinha certeza.
Sentiu-se ainda mais feliz, se aquilo era possível. A alegria era tanta que causava medo, assustava. Como se ninguém merecesse ser tão feliz assim na vida, como se algo ruim estivesse prestes a acontecer.
Afastou de si os pensamentos ruins respondendo a mensagem de maneira compreensiva e carinhosa, queria que o homem soubesse que apesar de tudo poderiam ser companheiros e amigos na criação do filho.
Pegou o menino no colo e o colocou na cama com delicadeza e amor incondicional de mãe, beijou o cabelo que tinha um cheiro muito bom de banho e o deixou ali, entregue ao sono puro de criança.
Deitou-se na cama refletindo profundamente, o dia já virava, era 00h de sexta-feira.
–Uma semana – Suspirou continuando em pensamentos. Uma semana havia sido tempo suficiente para mudar toda a trajetória de várias vidas, ponto que partiu na noite daquela exposição.
Lembrou-se da primeira vez que viu o sorriso de Marina, da primeira vez que a avistou, de quando os olhos felinos a devoraram, a despiram, a desejaram. Que mulher, como era maravilhosa, como tinha força.
Uma força que de tão arrebatadora a atingiu antes mesmo de conhecê-la, como se algo nela avistasse toda a potência que a prescindia. Lembrou de um trecho da música que havia escutado no dia da exposição, naquele dia especial em que Marina invadiu deliciosamente a sua vida.
‘A tornado flew around my room before you came, excuse the mess it made’
Sentiu uma vontade imensa de ouvir novamente, digitou o trecho no computador e colocou Frank Ocean no repeat.
As intenções já eram maliciosas, o sexo já estava molhado. Bastava uma lembrança, bastava um encontro em seus pensamentos para Marina lhe proporcionar tamanho prazer, mesmo distante.
Os dedos passeavam por entre os grandes lábios maravilhosamente molhados, pressionou o clitóris trazendo consigo um gemido baixo. Agarrou em um de seus seios fechando os olhos, sentiu vontade de oferecê-lo da boca da castanha, lembrou-se então de como ela os chupava com maestria, de como mordia com precisão seus mamilos despertando a medida exata do prazer e dar dor.
Olhou para a cena da mão invadindo a própria calcinha e mordeu os lábios em uma ideia safada. Pegou o telefone e fotografou, sem expor o ambiente nem sua imagem, era apenas a mão dourada dentro de uma calcinha leve de algodão. Enviou imediatamente para a causadora de tanto deleite
‘Thinkin 'bout you’
O celular vibrou despertando Marina daquele momento de prazer absoluto, não tirou o dedo que a invadia enquanto via a foto que acabara de receber, o que já estava delicioso transformou-se em gozo quando o dedo acelerou em estocadas, como sempre haviam sido, deliciosamente precisas...
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