I want you...hungry.
17 I remember my first love
Notas iniciais
Clara ouviu o grito sincero ecoar com a música alegre que vibrava, os olhos encheram de lágrima. Aquelas palavras voaram em direção ao céu e vieram de encontro a si com a força e velocidade de uma Águia-Real, atingiram em cheio seu peito fazendo uma corrente elétrica se espalhar até suas extremidades.
Não souberam contar o tempo, tudo pareceu pairar de uma forma nova, a física que conhecemos já não fazia mais sentido, no som começou a ecoar a voz fina de James Vicent McMorrow cantando Cavalier
Os olhos rasgados estavam na direção dos seus, se encontram mesmo no meio de tanta escuridão, se viam, se achavam de qualquer forma, em qualquer lugar.
Marina ainda tinha os braços levemente abertos, a morena os encarou como um convite e imediatamente a alcançou em um abraço apaixonado, os corpos colidiram com força, mas permaneciam em pé, com o choque pareciam ter jogado parte de sua essência no corpo da frente. Os narizes afundaram simultaneamente nos cabelos soltos, aqueles cheiros eram familiares, eram seguros, eram novos e já representavam o mundo.
Permaneceram em silêncio, os corações acelerados, a proximidade permitia que sentissem na outra a emoção transbordar pelas batidas.
O que saiu com facilidade e de forma impensada na boca da fotógrafa ficou preso na garganta de Clara, mas naquele momento nada mais precisava ser dito com palavras, apenas sentiam. Os olhos fechados, o abraço quente, o cheiro do mar, o universo no chão.
Se olharam sorrindo com os olhos, a assistente pegou o rosto delicado com as duas mãos, beijou os lábios tentando sentir cada pedaço que tocava, a boca de Marina era tão macia que a fazia viajar com a suavidade daquele toque. A língua era quente e deslizava com precisão e leveza pela sua. O beijo perfeito terminou em outro abraço de almas.
Pairaram no ar por um tempo que não tiveram condições de contar.
–Vamos tomar esse café que você preparou, coisinha? To faminta! – Lembrou Marina da cesta com comidas
–Nossa, vamos! Eu poderia comer um urso, caraca, que fome é essa? – Gargalhou
–Larica somada ao fato de nossa última refeição ter sido o jantar de ontem e a toda energia que gastamos essa noite – Riu a chefe contando os itens nos dedos enquanto falava.
Sentaram-se no pano branco esticado na areia, Clara abriu a cesta e tirou uma garrafa fechada de suco de laranja, uma térmica com café preto, um potinho com salada de frutas e dois sanduíches de Pão Sírio com queijo branco, presunto de Parma, alface e tomate e uma pasta especial que havia encontrado na geladeira. Apoiou as duas xícaras na superfície no pano e tirou os copos que também havia trazido.
–Uau – Suspirou Marina com os olhos brilhando – Tudo muito perfeito pra ser verdade, que mimo maravilhoso! Não precisava ter tanto trabalho, meu amor – Terminou fitando a morena com um olhar sedutor e carinhoso.
–Ah, só peguei algumas coisas que já estavam prontas pela cozinha, fiz com prazer, não foi trabalho nenhum – Terminou se sentindo acanhada com o olhar que Marina depositava nela, tinha escutado muito bem como havia sido chamada, só não sabia lidar.
O dia começou a apontar no horizonte, parte do céu amanhecia nublado enquanto o outro lado queimava com a luz laranja.
Clara observou o horizonte enquanto comia como um furacão. Estava tudo realmente delicioso e repetiria dez vezes, pensou em como aquela imagem era bonita. Marina também tinha fome, não sabia o que colocava primeiro na boca, na dúvida mordia o sanduíche com um gole de suco em seguida acompanhado por outro de café e uma garfada na salada de frutas, esfomeada e linda.
Se contasse para alguém, se tentasse descrever aquela paisagem, aquela cena, nunca faria jus à tanta beleza.
Marina tinha poesia, era uma poesia, era forte e ao mesmo tempo sutil. Sentia que com ela a chefe podia ser mais leve, não precisava provar nada para ninguém, ela trazia paz para àquela alma que como gratidão fazia o mesmo com a sua.
Terminaram de comer com o dia indeciso, não sabia se brilhava no infindo azul ou se descansava por entre as nuvens cinzas.
–O que você acha de dormirmos mais um pouquinho? Hoje o dia vai ser de trabalho, vamos descansar? – Disse a morena com carinha de sono e voz rouca
–Olha, não é que é uma ideia genial – Exclamou Marina brincando
–Não sei porque a surpresa, eu sempre tenho ideias geniais – Respondeu também brincalhona pausando no final.
Guardaram tudo e caminharam até o final da areia, Marina então caminhou por um braço de madeira do píer até o final e se virou para o mar, Clara a observa de longe, a imagem da mulher com o corpo esguio no vestido branco fazia seus olhos brilharem, sentiu vontade de registrar o momento e a fotografou com o celular sem ser percebida até então. Era uma parte da praia que quase se aproximava da ilha vizinha, uma vista profunda e de tirar o fôlego.

A fotógrafa virou e pegou a assistente no final da ação, tentando disfarçar e ambas gargalharam juntas, a chefe se aproximou falando
–Não vale, eu também quero uma sua! – Sorrindo largo com os olhos apertados de sono
A morena então tirou os óculos escuros, o cabelo cheio e mais ondulado do que o normal pela maresia e vento que vinham do mar, dividido no meio escondendo a franja que ela já decidira deixar crescer. Estava alegre e pousou virada para o lado que o sol iluminava. Marina aplicou um filtro na foto, mas declarou que não mostraria para ninguém, era coisa dela.
Chegaram no quarto, tiraram a areia dos pés em uma torneira que ficava no deck do grande cômodo, despiram-se com pressa, estavam cansadas, as poucas horas que haviam dormido não faziam mais efeito.
Deitaram na cama embaixo dos lençóis, era quentinho ali, cheiroso. Marina abraçou Clara por trás encaixando-se e construindo um formato de concha perfeito. Fecharam os olhos e com o sono as possuindo Marina cantou baixo com a voz rouca, quase inaudível lembrando da música que ouviram mais cedo em um momento tão marcante para elas.
Half waist and high raised arms
Kicking at the slightest form
I remember my first love
I remember my first love
Sorriu e o sono venceu suas forças, Clara estava quase indo, mas ainda teve tempo de escutar a voz doce que a ninava, levando-a para um sono tranquilo e protegido.
Acordaram um pouco antes do almoço, tomaram banho, comeram e se prepararam para a tarde que viria.
A noite anterior foi tão longa que não tinham ressaca e as horas de descanso somadas deixaram as duas bem dispostas para o trabalho, as lembranças dos contatos íntimos colocavam nos rostos um sorriso iluminado e cheio de energia que as acompanhou ao longo da tarde.
Marina como chefe era exigente, o trabalho mostrava o seu lado poderoso sem que fizesse esforço. Era uma líder, gostava que tudo saísse do seu jeito e com perfeição. Clara como assistente não tinha medo dessa pressão, pelo contrário, gostava dela. Gostava de fazer acontecer e realizar parte da construção de algo bonito.
Quando a noite começou a chegar trouxe com ela uma emoção nova, estavam ansiosas, nervosas pelo reencontro com a ‘vida real’. Em dois dias viveram momentos mágicos e marcantes que mudariam para sempre o rumo das duas, mas as incertezas do que viria não podia deixar de abalar o emocional de ambas.
Sem que soubessem, pensavam igual, se perguntavam como seria possível ficarem longe, como dormiriam com aquela paz sem o corpo colado no da outra mulher, sem o cheiro que acalma. Clara agora sentia o desespero tomar conta do seu corpo vendo as bolsas sendo colocadas dentro da aeronave que as levariam de volta.
Dormiria aquela noite em casa, na cama que dividiu durante anos com o marido que havia escolhido. Essa imagem já não fazia o menor sentindo para ela e o medo instalou-se.
Embarcaram juntas e silenciosas, sentaram com as mãos entrelaçadas e viram o pedaço de terra cercado por água se afastar no meio da escuridão. A morena não pensava mais no pavor que tinha de voar, a cabeça já estava completamente ocupada com outras preocupações.
Como quem pudesse escutar toda a confusão que assombrava a mente da assistente e tentando esconder a sua própria Marina disse
–Ei Clarinha, não se preocupa, vai ficar tudo bem – Segurou a mão gelada da morena com suas duas – Eu to com você, não fica com medo, vamos fazer isso juntas.
–Eu to assustada, Marina – Sussurrou sincera – To assustada com toda essa mudança, to assustada com reação do meu filho, com a forma que isso pode atingi-lo. To triste, por não poder dar para o Cadu o que ele merece, acho... – Pausou – Acho que deve ser normal, assim, esse luto, sabe?
–Claro que eu sei e entendo. Vocês tiveram uma história. Mas eu acho que deve olhar por outro ângulo, não é uma história que esta morrendo e sim se transformando. Sempre vão fazer parte da vida um do outro, vocês tem o Ivan que será um elo eterno entre os dois — Respirou olhando a morena nos olhos – Não se sinta culpada por correr atrás do que te alegra, por querer mudar, por querer ir além. Você merece isso, nunca se esqueça – Sorriu carregada de amor.
Aquelas palavras davam força para Clara, sentia-se mais leve. Agora deveria traçar a melhor rota, o melhor plano de ação, como esse anúncio poderia ser feito causando os menores estragos possíveis. Não queria deixar um rastro de tristeza na vida do homem que lhe deu o presente mais lindo do mundo e com quem dividiu momentos especiais.
Chegaram ao Rio e os carros já as esperavam, seguiram até o Leblon para deixar a morena em sua casa, foram o caminho todo abraçadas sentindo e guardando o cheiro uma da outra.
Pararam em frente ao prédio da assistente, que agora tinha o peito completamente apertado e os olhos carregados por lágrimas, se olharam por um momento e se beijaram com um misto de ternura e paixão na segurança dos vidros escuros.
Marina segurou com as duas mãos a cabeça de Clara, fixou os olhos poderosos nos dela, não disse uma palavra, o que era para ser dito foi feito apenas no olhar. A morena colocou suas mãos sobre as dela, as tirou com calma e juntando as duas o máximo que conseguiu as beijou.
Abriu a porta do carro e saiu com pressa, se ficasse muito mais tempo ali não conseguiria. Esperou o motorista entregar sua bolsa enquanto observava a fotógrafa que a fitava de dentro do automóvel.
O homem então fechou a porta que estava aberta cessando o último contato visual.
Clara viu o carro se afastar, o coração encolheu ainda mais. Aquilo doía, uma dor apertada, uma sensação de perda, de vazio, de despedida. Focou no filho, pensou na saudade que estava sentindo daquele garotinho e seguiu em direção ao elevador.
Chegou no apartamento e encontrou silêncio, foi até o quarto do menino que estava vazio e assustou-se com a voz grave do homem atrás de si.
–Oi Clara – Disse Cadu em um tom que não conseguiu identificar.
–Oi Cadu – Respondeu tentando extinguir do rosto o misto de sentimentos que tomavam conta de si naquele momento – Cadê o Ivan?
–Ainda no apartamento da sua irmã, já liguei dizendo que ta tarde, mas ele quando quer saber ser enrolão, né não? – Respondeu com meio sorriso, ainda sim muito bonito.
–É, isso é verdade – Disse Clara lembrando do menino sorridente.
–Sua mãe ligou, disse que quer marcar um almoço no Galpão Cultural, pediu para usar o espaço do Bistrô.
–Jura? E qual o motivo da comemoração? – Perguntou encostando no batente da porta do quarto colorido – Assim, tão fora de qualquer data especial – Terminou rouca.
–Lembra dos sumiços? Dos mistérios que ninguém descobria? – Sorriu o homem – Tudo isso tem um nome, Ricardo! E parece que ela quer apresentar para a família e ele fazer o mesmo.
–Mas... Mas olha só essa D. Chica, fazendo tudo pelas nossas costas. Agora me aparece apaixonada e apresentando o pretendente, essa minha mãe – Sorriu até ser interrompida pelos próprios pensamentos, engoliu seco, viu sua história se refletir naquela. Com a diferença de que a mãe era viúva e não estava se envolvendo com uma mulher. Os olhos se arregalaram sem perceber.
Cadu aproximou-se desatento aos sentimentos que transpareciam confusos pelo olhar da morena
–E você, não sentiu saudade do seu maridão não? – Disse fazendo graça enquanto puxava o corpo dourado para perto do seu depositando um beijo no pescoço.
Clara estava dura, o corpo enrijeceu de uma tal forma que ficou impossível de disfarçar, o toque lhe causou desespero e não iria parar por ali.
–Ei, vem aqui, me da um beijo mozão – Continuou Cadu ao ver que a mulher não reagiu de maneira coerente a puxando ainda mais para si e mirando sua boca.
Os lábios dele encostaram-se aos dela que não responderam, a barba, a pele, o cheiro, nada disso fazia Clara querer corresponder, nem mesmo a história que tiveram fazia. Para ela era um ciclo acabado, já tinha ocorrido o fim antes mesmo daquele momento.
Cadu então forçou a barra, o beijo. Clara começou a sentir-se desesperada, os olhos transbordaram e a boca ainda sim não respondeu. O marido a empurrou para fora do abraço e grunhiu
–Qual o seu problema?
Clara agora chorava em desespero, não conseguia mais segurar
–Eu não quero – Respondeu soluçando
–Não quer o que? – Esbravejou o marido com um semblante carregado de raiva
–Eu só não quero! Me respeita cara – Balbuciava a assistente entre o choro
–Te respeitar? Você não quer beijar o seu marido, começa a chorar sem motivo aparente que nem uma louca e esta me pedindo respeito?
–Cadu, pelo amor de Deus, nos já conversamos antes da minha viagem. Eu pedi um tempo, disse que me sentia confusa, você não quis escutar meus motivo. Só pensava no fato de não conseguir se ver longe de mim e dos meus cuidados.
–Eu estava pensando no nosso filho – Falou quase aos berros
–Você sabe que isso não é verdade – Gritou Clara – O nosso filho pode ser feliz de qualquer forma, com a gente casado ou não, como milhares de outras crianças por ai. Você estava pensando em VOCÊ! – Terminou no meio de um choro agora carregado de irritação
–Onde você ta querendo chegar cara, FALA LOGO – O rapaz perdia a cabeça.
–Cadu, eu vou ser o mais direta possível pra não causar ainda mais dor – Pausou tentando buscar ar – Eu não quero continuar casada com você.
O rosto bem definido do homem alto ficou pálido, sentiu o mundo girar e o chão se abrir sob seus pés. Levou a mão ao peito e sentiu o coração apertar. Clara preocupou-se com o semblante mórbido que tomou conta daquela face e se aproximou para ajudar
–Não encosta em mim – O homem ainda teve forças para uma grosseria – Escuta aqui Clara, se você ta pensando que eu vou pegar minhas coisas agora e sair pela porta como um cão sem dono você ta muito enganada cara.
–Cadu, eu não to pedindo isso, é claro que você tem o tempo que precisar para se organizar. Eu não te odeio, pelo contrário, eu amo você. Só não posso continuar com algo que não me faz mais feliz.
–Amor? Eu não acredito nesse amor que morre do dia pra noite – Resmungou enquanto arriava com as costas na parede sentando-se no chão.
–Se você acha que isso aconteceu do dia para a noite, eu só posso me entristecer, me entristecer pelo fato de você não ter tido tato o suficiente para perceber que faz tempo que tudo vem mudando – Agora o choro estava brando – Enfim, eu durmo na sala o tempo que você precisar.
–Mãeeee – ouviu a voz alegre do menino que veio correndo e deu um salto em sua direção – Que saudade!
–Meu amorinho, que saudade cara! Poxa, você não sabe como faz falta sentir esse cheirinho – Disse fungando o filho – Me deixa tão feliz.
O garoto então observou os rostos vermelhos e transtornados que indicavam choro e franziu a testa
–Que houve? Você e o papai brigaram de novo? – Perguntou com a voz rouca e triste
–Filhão, isso é papo de adulto, pode ficar despreocupado que vai ficar tudo bem – Disse o pai tentando acalmar o menino e disfarçando a tristeza.
–É meu amor, fica tranquilo, a mamãe e o papai vão parar de brigar, eu prometo – Falou a morena depositando um beijo na testa do menino – Agora vai tomar banho e colocar seu pijama porque já esta tarde, hora de dormir.
O menino assentiu sem dizer mais uma palavra, com o semblante confuso se dirigiu para o quarto obedecendo as ordens da mãe.
Clara olhou para o marido sentado no chão e dirigiu-se para o quarto, precisava de um banho quente com urgência. Largou a bolsa sobre a cama e se trancou no banheiro.
Cadu seguiu seus passos e viu que não teria chances de falar qualquer coisa nesse momento, observou a foto da esposa com a fotógrafa que estava em cima da mesinha do quarto com a cabeça vazia. Clara era muito bonita, pensou.
Ouviu um apito de celular vindo da direção da cama e então de maneira impensada mexeu na bolsa da mulher, havia chegado uma mensagem, era de Marina Meirelles. Os olhos estavam curiosos, sentiu-se tentado a abrir e foi exatamente o que fez.
Na mensagem uma frase e uma foto, que em um momento qualquer poderia não significar nada, mas não naquele. Naquele instante dizia tudo, tudo o que Clara ainda viria a dizer
... Meu sangue errou de veia e se perdeu...
Ele sabia de onde vinha aquele trecho, sabia qual era aquela música, mal podia acreditar no que estava pensando, no que estava acontecendo. Sentou com um olhar perdido no colchão, tentando organizar os pensamentos. Clara estava alegre na imagem, um sorriso sincero.
Se sentiu estúpido por durante a discussão que teve com a esposa antes dela viajar não ter feito a pergunta certa, não era 'Quem é o cara?' Pensou.
– Era ela! — A voz engasgou.

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