I want you...hungry.
8 For the love, I'd fallen on
Notas iniciais
A porta do carro bateu, ele sumiu pelo caminho que seguia para a saída da imponente casa. Marina sentiu o peito apertar enquanto o acompanhava com os olhos.
Era muito forte, quase que conseguia pegar com as mãos. Um dia, só faz um dia, ela pensava enquanto segurava com força o roupão na altura do peito.
Sentiu-se atordoada, estava muito feliz, havia tido a noite mais maravilhosa de sua vida, mas o medo era eminente, machucava e de tão forte a sensação se tornava física.
Sem pensar seguiu hipnotizada em direção a piscina, nos primeiros passos sentiu-se como uma menininha insegura, caminhando reconheceu o gramado sob seus pés, a sensação foi se tornando agradável, ao lado da piscina pegou o controle do speakers, tinha um ipod conectado e escolheu uma música, Towers do Bon Iver começou a tocar, estava alto e ecoava por todo jardim, os primeiros raios de sol começavam a queimar no horizonte, ah essa vista, pensou Marina com o semblante calmo e perdendo mais uma vez o fôlego naquela noite.

O céu queimava enquanto se perdia em seus pensamentos, o dia que nascia era deslumbrante, ela então virou para o colorido em chamas observando o horizonte e deixou o roupão cair em seus pés.
A luz que iluminava seu corpo era uma das mais bonitas que presenciara na vida, lembrava Clara, aquela manhã que nascia se fazia especial.
Cantou alto junto com a música sorrindo:
‘What a mischief you would bring, young darling!’
Fechou os olhos e abriu os braços, sentia a música entrar por seus ouvidos e o calor que brigava com a ainda presente brisa da madrugada passear pelo seu corpo arrepiado, chorou sem perceber.
Estava apaixonada e não havia mais nada que pudesse fazer, foi rápido, foi sem querer, foi completamente inesperado. Quando fechava os olhos tudo o que via era o mesmo sorriso.
Marina era uma mulher intensa, quando se sentia atraída por alguém não poupava esforços, não tinha medo de se entregar, foi assim com todas as paixonites que até então havia vivido.
Mas agora era diferente, estava completamente apaixonada por uma mulher que supostamente não poderia ter. Havia provado o sabor daquela perdição, estava condenada e em seu íntimo não se arrependia, lutaria por Clara, esperaria o tempo que fosse, faria dela a mulher mais feliz do mundo.
Aquele era um momento intrínseco de uma alma que poucos conheciam, era elegante e discreta, por mais que eventos distintos houvessem sido comentados em notas de fofocas, e outros poucos discutiam sobre seu comportamento em situações onde ela como jovem e rica extravasara por ai, Marina impunha respeito, sem grandes esforços.
O choro era confuso, com os olhos fechados via confusão, estava disposta a sentir, não se podaria. Não se identificava como uma destruidora de lares, perdida em suas questões concluiu que se Clara tinha vivido com ela o que viveram era porque não se sentia uma mulher completa, faltava algo.
Começou a dançar com a batida que acelerava, estava nua e viva, sentia-se mais viva do que nunca. Levantava os braços e jogava os pés, a cabeça mexia no ritmo da música com os cabelos caindo sobre o rosto, ali ela era só uma menina alegremente desordenada tentando colocar os pensamentos no lugar.
Caminhou um pouco mais na direção da piscina e mergulhou, sem vacilar, se viu submersa flutuando entre água. O som dá música era abafado, nadou até ela terminar.
Clara chegou em casa e tudo estava silencioso, foi até o quarto do filho que dormia como um anjo, beijou a testa do garoto e sussurrou
–Te amo, cara
O menino não se mexeu, o sono era profundo. Foi para o seu quarto e Cadu também dormia jogado na cama, colocou uma roupa confortável e se deitou. Escreveu uma mensagem de texto para a fotógrafa, já estava segura em casa.
Sentiu-se estranha ali, não era mais confortável. Tentava adormecer, mas a cabeça trabalhava a milhão, tinha um longo caminho pela frente e não sabia nem por onde começar. Estava apavorada.
O marido acordou levemente com a presença recente na cama e perguntou sonolento
–Chegou agora, Clara? Até agora na casa da fotógrafa?
–Foi, é... Acabei esticando, eu, eu, a noite estava divertida, Cadu. Eu nunca saio, raramente tenho esses momentos — Embolou-se.
–Enfim, eu preciso dormir um pouco, descansar! — Disse virando para o lado oposto do Marido.
Cadu fez o mesmo e voltou a dormir.
Os olhos da morena encheram-se de lágrimas e o choro saiu baixinho molhando seu travesseiro. Os soluços eram cuidadosamente controlados, não queria ser percebida daquela forma. Chorou até adormecer.
Marina agora estava submersa em uma água quente e perfumada, o cheiro era relaxante, precisava abrandar-se para conseguir pegar no sono.
Saiu do banho e seguiu nua para a cama que ainda estava bagunçada, deitou-se agarrando um travesseiro impregnado com o cheiro de Clara, adormeceu com ela em seus braços.
–----
A dona de casa estava na cozinha tomando um café preto e forte, Cadu terminava de preparar o almoço. Aos Domingos costumavam comer mais tarde. Ivan brincava no apartamento da tia Helena que ficava no mesmo prédio, o menino amava passar horas por lá se divertindo com o cachorro de seu Benjamim, pai de Virgílio que era marido da irmã da morena.
–Como foi sua noite, Clara? Chegou era de manhã, não me avisou, não disse nada – Questionou Cadu de forma seca.
–Foi boa, Cadu. Foi tudo bem – A dona de casa respondeu tentando não esticar o assunto.
–Por que não me ligou? Podia ter me avisado, poxa.
–Porque achei que estivesse de boa com seus amigos, cara. Não imaginei que deveria ligar no meio da noite pra falar a hora exata que chegaria, ou deveria? – Estava perdendo a paciência.
–Bom, pelo que sei você é uma mulher casada. Não acho normal uma mulher casada passar a noite fora e não comunicar nada para o marido! – O tom ia se elevando.
–Eu sou casada sim, mas não tenho dono. Não vi necessidade de te comunicar nada, Cadu. E outra, se estava preocupado, se esse é o motivo da reclamação, por que não me ligou você? Que saco, pô! – Disse agressiva perdendo sua razão.
–Espero que não mude porque fez novas amizades, Clara.
–Eu mudo todos os dias, cara. Você se tornou incapaz de perceber...
Direcionou-se ao quarto, as lágrimas desciam mais uma vez, não estava dentro da sua razão. Havia traído o marido, se sentia baixa, mentirosa. O desespero tomou conta da morena que entrou debaixo do chuveiro sem ao menos tirar as roupas que vestia.
Cadu apareceu em seguida observando a cena assustado, sem jeito.
–Você esta de TPM, cara? Não é pra tanto vai – Tentou consertar a situação.
–Não, Cadu, eu não estou de TPM – Esbravejou Clara – Me deixa um pouco sozinha, eu preciso ficar sozinha, por favor!
Não querendo continuar a discussão o homem saiu do banheiro.
Clara tirou as roupas e terminou o banho, seguiu para a sala a procura do marido. Cadu estava sentado no sofá com uma lata de cerveja nas mãos, parecia inquieto e fitou a morena assim que ela apareceu.
A dona de casa sentou-se ao seu lado no sofá e começou a falar com uma calma rúptil
–Estamos casados faz mais de dez anos, sempre te amei e respeitei. Um dos meus maiores prazeres sempre foi cuidar de você e do Ivan, da melhor maneira possível – Pausou, o nó na garganta a fez vacilar, mas continuou
–Mas mesmo assim eu não me sinto completa, Cadu. Amo você e amo mais que a mim o maior presente que você me deu, nosso filho, mas eu não me sinto completa – As lágrimas eram mais fortes e caiam.
Cadu escutava a esposa atento e receoso, não sentiu vontade de interromper, imaginou que isso causaria um rompante e preferiu escutar o que Clara tinha pra dizer.
–Eu tenho sonhos, tenho desejos, tenho metas e você nem ao menos imagina. Vive as voltas com seu bistrô, construindo seus sonhos e olhando para o seu mundo, ocupado com os seus desejos, nunca me perguntou quais eram os meus — Deu abertura para o marido se defender.
–Eu achei que você fosse feliz da forma que vivia Clara – Disse sincero, mas ao mesmo tempo culpado, sabia que nesse ponto a esposa tinha razão, havia se tornado um homem comodista.
–Não, eu sou feliz sim, mas não sou como deveria ser. Minha felicidade não é alegre, tenho grandes felicidades, mas poucas alegrias.
–Meu coração não bate mais em descompasso, não me sinto ansiosa com os dias que vão chegar, não durmo pensando nas minhas conquistas de amanhã. Você me entende?
–Não muito, acho que é normal depois de tanto tempo de casamento se sentir assim, não vejo pra que tanto alvoroço em torno disso – Respondeu mais uma vez sendo egoísta sem perceber.
–Pessoas comodistas como você acham isso normal, é muito mais fácil! Mas não, isso não é normal e não é isso que eu quero pra mim. Você não faz nem questão de se esforçar pra entender.
–Onde você está querendo chegar, Clara?
–Eu preciso de um tempo, preciso de um tempo pra avaliar tudo o que estou sentindo, cara. Sério, eu preciso respirar e entender tanto sentimento.
–UM TEMPO? – Alterou-se Cadu – Não somos mais dois adolescentes que namoram pra dar um tempo, cara. Eu te amo e quero fazer o meu melhor do seu lado, não podemos jogar fora dez anos de casamento assim. Pelo amor, eu te amo Clara – As lágrimas do marido eram sinceras e o coração da morena não podia doer mais, não havia mais espaço pra tanto sofrimento.
–Mas eu preciso me entender, Cadu. Eu preciso disso ou nosso casamento termina aqui, antes mesmo que eu possa tentar salvá-lo.
– Você tem outro homem, é isso? Pelo amor, Clara, é isso? Quem é o cara, não mente pra mim, se eu descobrir eu mato o desgraçado — Agora estava visivelmente alterado.
–Não, eu não tenho outro homem – Decretou seca – Eu, eu...
Antes que pudesse terminar foi interrompida pelo marido que se ajoelhou segurando as mãos da esposa
–Então nos dê essa chance, não sai do meu lado, eu nem sei o que faria da minha vida sem você. Tenta se descobrir, se entender, ou seja lá o que for que precise fazer do meu lado, por mim, Clara. Pelo nosso filho – Clamou Cadu em desespero.
–Você não entende, cara..
–Faça o que precisa fazer, mas não sai do meu lado. Eu te espero, por nós.
E como se ouvisse um chamado Ivan entrou esbaforido pela porta
–Pô pai, esse almoço sai ou não sai? To morrendo de fome, tava quase comendo na casa da tia Helena – Falou o menino brincalhão indo em direção a cozinha sem se dar conta do clima que rodeava os pais.
–É pra já filhão – Respondeu enxugando as lágrimas se levantando
Antes que pudesse sair dali a morena o segurou pelo braço e ainda sentada concluiu
–Eu tentei, Cadu. Mas se você prefere assim, tudo bem, podemos testar.
Ele assentiu com a cabeça e seguiu em direção a cozinha deixando a morena sozinha afundada em seus pensamentos.
Foi arrancada deles com o toque do seu celular, o pegou nas mãos e assim que leu o nome no visor, sorriu. Por um momento esqueceu a dura conversa que havia acabado de ter.
Caminhou até o quarto e atendeu
–Alô?
–Oi, Clarinha – Respondeu com a voz levemente sorridente – Quero saber como você está, fiquei preocupada em como poderia estar se sentindo hoje depois de tudo o que aconteceu e... – Pausou — E com medo – Concluiu.
–Com medo do que?
–De perder você nesse mundo, de não escutar mais sua voz – Respondeu Marina bucólica.
–Eu, hum, eu acho que isso não tem mais como acontecer – Declarou Clara sorrindo levemente, enquanto observava a primeira foto das suas, que repousava em uma escrivaninha.
–Ótimo, então tenho uma proposta irrecusável para te fazer!
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