Sanji receberia um amigo na sua casa para fazer um trabalho da escola, era de biologia e haveria apresentação e tudo mais. Porém, estava nervoso quando se lembrava que Zoro não era muito bom em decorar as coisas, uma prova era a sua capacidade de esquecer o caminho por onde acabara de passar, e a coisa piorava quando também se lembrava de que ele não era muito inteligente. Não era como se Sanji fosse um bom aluno, mas pelo menos conseguia ficar acordado para ouvir as explicações dos professores. Já Zoro costumava cair no sono, e deixava de aprender muitas coisas.

De tempo em tempo o acordava, mas não tinha jeito, Zoro voltava a dormir. Sanji terminava dando um suspiro pesado e tentava de novo no dia seguinte. E, bem, foi isso que aconteceu nessa tarde, Sanji explicava a mesma coisa para Zoro mil vezes, mas o marimo — o jeito que Sanji o chamava — não entendia e até coçava seu olho por começar a sentir sono. Em certo momento, ele realmente dormiu.

Os dentes de Sanji trincavam, mas se limitava dando o suspiro pesado. Bater no marimo não resolvia, ele já tentou isso. O jeito era torcer para que a avaliação fosse individual.

Era noite, os dois deitavam lado a lado e em seus respectivos futons, enquanto mexiam na internet pelo celular. Passaram a tarde toda estudando e jantaram a boa comida do tio de Sanji para depois voltarem ao quarto com objetivo de dormir, mas distraiam a mente rindo de memes idiotas, que só os dois achavam graça por serem também idiotas. Nesses momentos, não se distinguiam tanto assim.

Sanji notou as horas no visor do celular, passava da meia-noite. — Ei, marimo, por que não dorme agora que é hora pra isso?

— Não consigo dormir quando tô vendo vídeo de gatos.

— Eu compreendo.

Os dois riram e largaram os celulares, depois se ajeitaram no futon, ficando de lado e no sentido para o amigo.

— Não sei por que se esforçou tanto hoje se vai trocar de escola. — Murmurou Zoro de repente, estava de olhos fechados e sua respiração era leve.

— Minhas notas vão ser transferidas também, idiota. — Sanji abriu os olhos, mesmo não havendo luz. — Sentirá minha falta?

Já haviam conversado sobre a mudança de cidade, mas nenhum dos dois haviam feito essa pergunta ainda, não tão claramente.

Zoro continuava de olhos fechados e sua respiração não se alterou com a pergunta de seu amigo. — Talvez.

Sanji riu. — Não dê uma de durão, tu não consegue sobreviver sem mim!

— Isso é verdade.

Abriu seus olhos castanhos e opacos por já ter se convencido de que o sobrancelha enrolada — apelido que Zoro dera a Sanji — não o acordaria mais durante as aulas. Sanji estava ao lado e assustado por seu amigo, muito teimoso e competitivo, admitir tão fácil.

— Ora, marimo... virei te visitar, meu tio me prometeu deixar dormir na sua casa, lembra?

— Não acredito que vou começar o ensino médio sem você...

— Ei, quando começou a ser tão sentimental assim?

Sanji não o via, mas sentia pela voz de Zoro que ele estava diferente e esquisito. De repente sentiu um toque em seu braço, era a mão de Zoro apertando tão firme o seu pulso, chegando a cravar as unhas na sua pele. Sentia dor e puxou o braço de volta, a mão do marimo se desprendeu.

— Tá doido?! Isso doeu!!

E antes que pudesse organizar suas ideias, um vulto surgiu sobre o seu corpo de menino e que breve entraria na puberdade. Zoro estava sobre si e segurava os dois pulsos dessa vez para imobilizá-lo.

— Zoro, isso não está sendo engraçado!

— E não é pra ser, porque vou te matar!

É claro que não acreditou naquelas palavras, mas voltou a sentir dor e o vulto se tornou mais nítido, um feixe de luz escapava da fresta da porta e pôde ver um olhar enfurecido lhe encarando. O menino parecia um homem, na verdade, quase um monstro.

— Não é minha culpa... — Murmurou sentindo dor.

Zoro o soltou e voltou para o seu futon, deixando Sanji a pensar se pretendia fingir que nada aconteceu. Porém, ele voltou a falar.

— Meu pai me disse que breve darei trabalho para ele... quando entrar no ensino médio... diz ele que não vou admirá-lo com a mesma frequência e que sentirei um vazio... não entendi muito bem, mas ele disse que talvez eu vou achar que estarei desperdiçando tempo... mas ele disse que precisarei e terei um amigo ao meu lado... eu queria que fosse você...

Fungava o nariz e Sanji pôde ouvir, aquela era a primeira vez que via — ou escutava — seu melhor amigo chorar.

— E serei... não vou te deixar, Zoro.

Também começou a chorar e ambos pensavam que deviam estar como dois bebezões, eram orgulhosos demais para chorarem na frente daquele que participava de suas disputas bestas e infantis. Mas mal sabiam eles que na verdade estavam apenas crescendo.

O ensino médio começava agora e talvez o escuro os permitia serem mais sensíveis.

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