BLUE

Ana não sabia se Gabriel gostava de café.

Assim como não sabia um monte de outras coisas por estar ocupada demais vivendo todos os momentos com ele para chegar a se preocupar em perguntar qual seria, por exemplo, a sua comida favorita ou a série ou a bebida ou a cor. Ana achava que esses tipos de questionamentos cabiam mais dentro de uma discussão boba do quê como pergunta feita no meio do nada, sem nenhum pretexto para se continuar a conversar. Por essas e outras que ela não conseguia responder qual camisa ficaria melhor nele: uma bege, uma cinza ou uma vermelha, mas sabia que sua vó tinha uma roseira nos fundos de casa e que Gabriel detestava o próprio gato só da boca pra fora, porque no fundo o amava e deixava aquela enorme bola de pelos subir e dormir na cama quando quisesse. Sabia que ele começou a fumar e beber escondido da mãe e que quando surgia qualquer imprevisto, era pra ela que Gabriel sempre corria pedindo conselhos dos quais, obviamente, não seguiria.

Ana abaixou as mangas do casaco. Esfriava entre os dedos um café médio daquelas máquinas de rua. Enquanto olhava de uma ponte suspensa toda a cidade, Gabriel discutia em alto e bom som a alguns metros dali; cada golada era uma longa pausa na conversa dele que andava de um lado para o outro, soltava a risadas nasais e sarcásticas, as mesmas que Ana nunca entendeu se amava ou se odiava, e com raiva desligou o celular. Não só terminou a ligação daquela vez, como enfiou o telefone no silencioso dentro do bolso.

— Sua namorada? — Ana nem desviou os olhos do horizonte que começava a clarear, mas pode sentir todos os músculos do corpo dele enrijecerem — Tudo bem se for.

Gabriel acendeu um cigarro. Tragou uma, duas, três vezes, até sentir o corpo relaxar pouco a pouco. Ofereceu a Ana, mas ela recusou com um sutil aceno de cabeça, tomando mais um gole do café morno e intragável.

Eles odiavam tocar no assunto e Ana até reconhecia os seus motivos para tal, mas nunca descobriu os dele, até porque, Gabriel a amava, certo? Pelo menos era assim que deveria ser, era assim que ele dizia que era.

— Desculpe. — A voz parcialmente rouca e arrastada tinha uma dose de ressentimento e culpa maior que das outras vezes. Mas como em todas elas, Ana não sentiu nada além de uma necessidade cruel de se ver livre de todo aquele peso, de toda aquela culpa. Ela tinha deixado de acreditar nele no momento que Gabriel abriu mão dela por algo que nunca soube se valeria a pena. Até hoje Ana não sabe se vale, mas colocou na cabeça que ela não era responsável por nenhuma daquelas decisões. — A intenção nunca foi machucar você. Mas tudo ficou complicado demais pra dois adolescentes resolverem, sabe?

— Não precisa se explicar agora. Acho que já tá um pouco tarde pra pedir desculpas, né? Não importa mais.