SLATE

(algum tempo antes)

Ele foi garoto de ouvir Twenty One Pilots debaixo da escada na hora do intervalo. O cara que fumava escondido e saia na terceira aula com os amigos, disposto a beber antes de voltar pedalando direto para casa. Depois, Gabriel se tornou o elo que ligava Ana ao resto do seu grupo. Consequentemente ela voltava com ele, em pé, na garupa da sua bicicleta, segurando nos ombros, sentindo a brisa morna do começo da noite balançar os cabelos.

— Preciso te apresentar uma pessoa. — Pararam um quarteirão e meio da casa dela porque a mãe de Ana o odiava. Nunca foi nada verbalmente declarado, e nem era preciso, dava para sentir só de olhar: o crispar dos lábios, as sobrancelhas arqueadas, os suspiros profundos e pesados com as mãos na cintura; o jeito expressivo do corpo dela de dizer que “ele não é garoto pra você” assustava Ana além do que gostaria. — Por que toda vez que falo isso você me olha estranho?

Gabriel encostou a bicicleta numa árvore próxima sem dizer nada, afinal ele também não entendia muito o que se passava na própria cabeça, mas tinha a sensação de que Ana sempre tentava esconder, ao máximo, coisas que ele não seria capaz de compreender, talvez.

Ficaram calados.

Gostavam de conversar amenidades, futilidades e bobagens, tanto quanto gostavam de ficar quietos ouvindo a respiração um do outro, os murmúrios que saíam quando a música alta fazia parecer que o mover dos lábios era inaudível. Ana aprendeu a apreciar aqueles momentos porque a vida pedia muito disso. Assim como existiam coisas que imploravam para serem contadas, outras clamavam apenas por quietude e paz.

Gabriel não soube dizer direito quando aconteceu, mas Ana escorreu pelo mesmo tronco que ele alguns minutos depois. Ficaram ombro a ombro, com os pelos do braço todos eriçados; os dedos desenrolando o emaranhado de fios que era os fones de ouvidos. Gabriel não sabia explicar como resistiram depois de tantos anos de uso. "O esquerdo às vezes não funciona" vivia dizendo sempre que insistia em ficar com o lado meio capenga.

The 1975 foi a primeira banda que ela pediu que ouvisse; Somebody Else a música favorita. Robbers, a segunda melhor, mas Ana não teve chance de dizer isso a ele, afinal de contas Gabriel conheceu Larissa.

Gabriel conheceu Larissa dois meses depois daquela conversa, no pátio do colégio às quatro e alguma coisa da tarde de uma terça-feira. Três suco na mesa e quatro mãos ansiosas se encostando involuntariamente. Perguntava qual seria a sensação de Larissa ao tocá-lo tão repentinamente; se sentia os pelos eriçarem também, como uma descarga elétrica muito fraca, mas forte o suficiente para fazer o coração errar as batidas.

— Tenho que admitir, ela até que é legalzinha.

Nesse dia Ana voltou para casa sentada na garupa da bicicleta, o que exigia dele um pouco mais de esforço ao pedalar uma colina íngreme sozinho. Parecia que as palavras saíam atropeladas pelo esforço, que o peito subia e descia demasiado rápido e que lá dentro o ar ardia, machucando os pulmões e arranhando a garganta toda vez que abria a boca para falar. Ana conseguia sentir o diafragma de Gabriel contraindo em cada respirada que dava, afinal de contas seus braços o apertavam com tanta força, não soube dizer naquele momento se era medo de cair ou medo de perdê-lo.

Um pouco dos dois, talvez.