Narrado por Luisa

Continuei parada no mesmo lugar, ainda estava em estado de choque, não conseguia pensar, me mover, e por mais que eu tentasse meu corpo não respondia as ordens do meu cérebro.

– Você não vem? – Perguntou Denis ríspido.

Sem paciência, Denis se aproximou de mim, abriu os braços e me pendurou em um dos seus ombros. Dando passos largos, ele chegou ao seu carro e em seguida me jogou indelicadamente no banco do carona.

– Não precisava disso tudo! – Resmunguei quando ele adentrou ao veiculo.

Ele nada respondeu e eu também não quis insistir em dizer mais nada.

O medo, o terror, e afins circulavam dentro de mim. Eu estava no carro de um dos maiores criminosos do país, não conseguia parar de pensar coisas ruins que ele poderia fazer já que eu estava tão entregue.

Me afundei no banco com o corpo ainda trêmulo e pensamentos negativos, mas assim que me acomodei não pude conter um gemido devido a dor que me dominou.

– Você está bem? – Perguntou ainda seco. – Tem um kit de primeiros socorros no porta-luvas.

– Você carrega um kit de primeiros socorros no seu carro? – Perguntei confusa.

– Você sabe quem eu sou? – Perguntou óbvio.

Evitando mostrar para ele que eu estava constrangida, me inclinei, abri o compartimento e rapidamente encontrei o kit que ele havia citado. Posicionando-o em meu colo, abri a maletinha e puxei qualquer remédio sem observar o rótulo. Com um pedaço de algodão molhado com o remédio, esfreguei-o no corte no meu supercílio com certa dificuldade.

– Tudo bem, — Ele cedeu. – eu te ajudo.

Tirando o pé do acelerador e a mão do volante sem se importar se haviam mais carros trafegando, Denis se virou para mim. Puxou o algodão da minha mão e passou no corte, que me fez resmungar devido à ardência.

– Eu preciso que você fique quieta. – Ele disse e eu o obedeci. – Você está tremendo. Está com frio?

– Não. – Respondi baixinho.

– Então ainda está em choque. – Sorriu debochado. – Tem mais algum machucado?

– Não. Apenas uma dor nas costas devido ao choque do meu corpo contra o paralelepípedo.

– Então acho que terminei. – Disse e jogou o algodão usado pela janela.

Fechando a maleta, guardei-a novamente no lugar que estava guardada anteriormente. Me afundei no banco encostando minha testa na janela com os olhos focados nas fraternidades que haviam por todo o caminho.

A todo momento o rosto daquele assaltante mais estuprador vinha em minha mente, seus olhares maliciosos e amedrontadores, seu toques nojentos em meu corpo e a vontade que eu tinha de revidar mas não conseguia encontrar forças para o ato.

– Por que me ajudou? – Perguntei.

– Não curto por quês. – Respondeu e eu observei meus pés sem jeito. – Eu acho que, — Voltou a falar. – ver uma garota indefesa prestes a ser estuprada não é uma coisa muito legal de se ver. – Continuou com deboche. – Sem contar que eu te achei uma gata desde que eu te vi pela primeira vez naquela festa. – Rolei os olhos.

– Ah. – Foi tudo que pude responder. – Obrigada. – Disse sem jeito. – Eu acho? – Sorri fraco. – Você também é dessa Universidade?

– Não acha que está querendo saber demais da minha vida?

– Desculpe.

– Você é nova. – Disse com convicção.

– Como sabe?

– Qualquer pessoa já da cidade em sã consciência não falaria tanto comigo como você está fazendo. – Sorriu convencido. – E além do mais você saberia que eu não sou dessa e nem de nenhuma Universidade aos arredores, não posso ficar dando bandeira por aí, tem muito mal comido querendo minha cabeça.

– Por que eu não falaria tanto com você? – Perguntei ignorando suas últimas palavras e me virando para ele com os braços cruzados encarando-o.

– Porque eu sou Denis Ville e você é só uma novata com medo de mim que eu salvei. – Respondeu convencido.

– O que te garante que eu estou com medo de você? – Perguntei mentirosa, estava escrito na minha testa que eu sentia um medo enorme dele.

– Você não para de fazer perguntas? – Gritou impaciente, em seguida puxou um cigarro da carteira, acendo-o e tragando-o, mas eu não deixei de encará-lo.

Cansada das provocações e com medo de qualquer atitude dele se eu continuasse com o "interrogatório", voltei a me afundar no banco agora encarando o teto.

Um silêncio pairou por todo o veículo até que então seu celular tocou, e, sem parar de dirigir ele o atendeu sem um pingo de vontade:

– O que?... Agora?... Eu to ocupado, cara... Mas... Foda-se!... Tudo bem, tudo bem... Me dá uns vinte minutos... Tchau.

– O que aconteceu? – Perguntei sem pensar.

– Você me tira a paciência!

– Desculpe. – Disse antes de abaixar a cabeça envergonhada.

– Eu tenho um compromisso. Te deixo em casa depois.

Narrado por Denis

Parece que o destino está conspirando ao meu favor!

Eu já havia descoberto onde e em qual quarto Luisa estava hospedada e apenas esperava por uma saída da mesmo para iniciar a aventura.

Foi o que aconteceu.

Uma das funcionárias – que eu havia subornado para me manter informado dos passos de Luisa – do prédio da faculdade que ela se encontrava, me informou que ela e suas amigas haviam ido a uma festa no campus, e eu, não ignoraria essa oportunidade.

Observei quando sua amiga se afastou e quando ela a encontrou acompanhada de Thays minutos mais tarde. Estava lá quando Thays levou as mini jovems bêbada para casa, e desesperada Luisa foi atrás da mesma saindo da fraternidade.

Eu só não esperava que ela seria assaltada.

Mas é claro que obviamente, eu e Andrey a livramos do perigo com o intuito de ajudá-la a ter confiança em mim, agora ela está em meu carro.

E mais um imprevisto aconteceu.

Dodo havia me ligado impaciente para que eu o encontrasse e os demais garotos em um endereço distante da cidade para uma das cobranças.

Chegando ao local de nosso encontro, avistei meus seguranças parados distantes e disfarçados.

– Eu não sei quanto tempo vou demorar. – Me dirigi a Luisa. – Mas, aconteça o que acontecer, fique de boca calada e não saia do carro! – Ordenei.

– Você vai me deixar sozinha nesse lugar? – Ela perguntou aflita.

– Te vira. – Respondi impaciente.

Saindo do carro, tranquei-o e acionei os alarmes por precaução.

– Já está ciente de todo o plano, Lucas? – Perguntei ao encontrá-lo.

– Positivo. – Fez sinal com uma das mãos.

Posteriormente os carros de Matheus, Andrey e Dodo estacionaram conquistando nossas atenções.

Fiz um sinal para os seguranças escondidos indicando para que eles continuassem atentos a qualquer movimento suspeito e afins nos arredores. Então, abri uma porta de ferro onde dava a uma escada logo após ter checado a arma na minha cintura. Já no segundo andar, bati a porta de madeira escura com a qual demos de cara. Não demorou muito para que um rapaz baixo, de cabelos ralos e corpo fraco atendesse com uma feição preocupada estampada em sua face.

– Ville. – Ele disse.

– John. — Cumprimentei-o com a cabeça.

– Entre.

– Se eu entrar estarei lhe dando certa intimidade e eu não gosto de manter compromisso com meus clientes. – Respondi ríspido e observei agora sua feição de preocupação piorar. – E então...

– Cadê a grana, John? – Perguntou Lucas impaciente.

– Calma, calma rapazes. Entrem para tomarmos um café e tratarmos dos negócios.

– Eu vou insistir na pergunta dele, John: cadê a grana? – Perguntei irado.

– Deixe-me adivinhar, — Finatti disse por sua vez. – você não tem a grana não é?

– De novo. – Acrescentei.

Desesperado, John tentou fechar a porta mas foi impedido pelo meu pé, que eu posicionei no batente. Uma vez dentro do apartamento, John passou a dar passos para trás querendo fugir de nós, mas obtinha saída.

– Sabe, John, se tem algo que eu... digo, nós! Odiamos são caloteiros. – Eu disse.

Irritado, Dodo pegou-o em seu colarinho e o arrastou escada a baixo seguido de mim e Matheus, que observávamos a cena com um sorriso satisfatório em nossos rostos.

– Nós lhe damos um prazo para pagar sua dívida, John e você não o cumpriu. – Falou Matheus.

Jogando o homem no meio do asfalto, sacamos nossas armas e as miramos em sua cabeça que antes havia se chocado com o chão.

– Agiotagem é crime, cara. – Ele disse tentando se defender.

– Eu sei, e é por isso que vamos acabar com o filho da puta que você é para que não sobre um rastro sequer de merda. – Gritei estressado.

Destravando meu revólver, em seguida ouvi o som dos revólveres de Lucas e Matheus sendo destravados também. Com um sorriso malicioso nos nossos rostos, fiz sinal para os garotos, que juntamente a mim atiraram em cheio na cabeça de John, que agora já tinha seu corpo falecido estirado no chão.

– Limpem a merda. – Ordenei aos seguranças que vieram correndo em minha direção logo após o ocorrido. – Lucas, Matheus! – Chamei-os. – Vamos subir e procurar por qualquer coisa que sirva para quitar a dívida do defunto aí.

Chegando ao apartamento, o reviramos por completo, havíamos encontrado coisas que serviriam para cumprir nosso objetivo, o que me fez sentir mais raiva, já que se ele tivesse nos avisado antes, eu não teria o matado.

Mas agora a merda já está feita.

Narrado por Luisa

Eu ouvi barulhos de armas sendo disparadas e tapei meus ouvidos, apavorada. Em seguida, ouvi passos se aproximando do veículo no qual me encontrava e meu desespero apenas aumentou. Denis rasgou entrando ao carro como se nada tivesse acontecido, e eu não me senti nem um pouco mais segura que antes.

Sem dirigir uma palavra sequer a mim, e muito menos eu a ele, dirigiu calmamente até a Universidade. Chegando na mesma, disse:

– Precisa de um passe para sair ou terei que te carregar até lá em cima?

– Grosso! – Resmunguei e saí do automóvel batendo a porta fortemente.

– Como é que é? – Ele gritou ao sair do carro. – Vamos esclarecer uma coisa, gatinha – Segurou em meus braços forçando-me a encará-lo. – não me insulte, seja grossa ou qualquer porra parecida, ok? – Nada respondi. – Ok? – Insistiu com seu tom de voz mais alto e tudo que pude fazer foi assentir com a cabeça. – Ótimo. – Me soltou. – Não se esqueça que eu sou mil vezes mais perigoso que aqueles babacas dos quais eu te salvei. – Gritou. – E caso você comente com alguém o que presenciou, — Disse antes de se virar para seu carro. – eu acabo com você assim como fiz com aqueles amadores. – Senti meus olhos se arregalarem e meu corpo se arrepiar. – A gente se esbarra por aí. – Disse ao entrar ao carro, em seguida deu partida.

Bufei forte e impaciente, segui em direção ao prédio da Universidade com passos rápidos com medo que mais alguém aparecesse, já que desta vez eu não tinha Denis para me salvar.

Chegando ao meu quarto, encontrei Amanda deitada em sua cama dormindo como um anjo e Poliana dormindo no sofa, sorri aliviada ao ver que ela estava bem. Peguei uma muda de roupas e fui até o banheiro. Me observei no espelho, o machucado e o meu olho esquerdo que estava ficando com um hematoma. Novamente as mesmas cenas vieram em minha cabeça, sacudi a cabeça em negação para me desfazer daquelas imagens, me despi e adentrei ao box.

Já refrescada, voltei ao quarto e me joguei na cama deixando algumas lágrimas escaparem. Eu não acreditava que quase fui estuprada e muito menos que havia sido salva pelo rapaz que eu agora temia. Denis ville me livrou da maior covardia, mas isso ainda não fez com que o medo que eu sentia só de tê-lo próximo a mim.

É estranho, uma hora o medo e temor a Denis me dominavam, mas outra eu não sentia nada a não ser gratificação pelo que ele fez por mim e apenas o tratava como qualquer outro garoto. Mas eu sei que ele não é "qualquer garoto", ele é bem diferente de todos, ele é o medo em pessoa, ele é um criminoso.

Me perdi nos meus pensamentos até adormecer.