Narrado por Luisa

Não é incomum nos tempos atuais alguém ter sempre um sorriso idiota estampado no rosto, mas por dentro está gritando por ajuda e você não sabe que medida tomar para resolver a situação. Para dizer a verdade, é algo tão comum que eu sou uma prova viva disso. A noite vem e você afunda a cabeça no travesseiro, seu interior grita novamente, e você definitivamente não sabe mais como manter aquela máscara de felicidade que usa muito bem. Pensamos se tomar uma medida drástica é o necessário a ser feito ou continuar do jeito que está é melhor.

Já pensei muitas vezes assim. Digo, já pensei tanto que até hoje sou o que sou.

Eu não precisei tomar medidas drásticas, a vida fez isso por mim.

Eu nunca tirei notas ruins, na verdade, sempre foram as melhores da turma, durante o ginásio pegava todos os dias, antes do Sol nascer um ônibus saindo de Palm Beach com rumo a Orlando por puro capricho da minha mãe, que não queria que eu estudasse nessa pequena vila, sempre quis que eu me destacasse, bem, nisso ela sempre esteve certa; nunca fui de sair para festas, sempre preferi me manter em casa vidrada numa tela de computador ou televisão do que entrar em contato com outros seres humanos. Não é a toa que só tenho duas amigas.

Quando digo que a vida me pregou peças é literalmente.

Agora, cá estou eu, saindo de uma Clinica Psiquiátrica pós visitar minha mãe, que, por um surto agora se mantém internada. Ela não suportou o fato de ver meu pai começando uma vida nova com sua nova mulher bem mais nova agora grávida e dando a mínima para nós.

E agora, por decisão de meus tios e avós eu estou deixando o modesto apartamento que minha mãe podia pagar com o pouco que ganhava fruto de seu emprego como ajudante de dentista, mais o dinheiro que ganhava como pensão do meu pai. Para me juntar a minha nova madrasta, meio-irmão – ou irmã – que está para nascer meu pai comprou uma casa nada modesta a beira da praia de Palm Beach. A casa não é tão ruim, digo, na verdade, ela é maravilhosa e por inteiro banhada a luxo. Mas, viver com meu pai seria o mesmo que viver sozinha, já que agora ele só se importa com a sua nova mulher de vinte e cinco anos e seu novo herdeiro. Eu seria a renegada daquele mar de cobras.

Por sorte, fui aceita na Universidade de Miami e só precisarei frequentar o lugar duas vezes por mês e nada mais.

- Eu que planejei toda a decoração de seu quarto, Luisa. – Andrea, a minha nova madrasta, tentou ser gentil enquanto se curvava com dificuldade – culpa da enorme barriga – do banco do carona para me observar melhor. – Espero que goste.

"Bom, ela não deve ter tido muito trabalho já que é apenas alguns anos mais velha que eu." Pensei.

- Tenho certeza que vou gostar, Andrea. – Tentei ser simpática. – Obrigada.

Andrea não é má pessoa, ela fazia o máximo para tentar ser mais próxima a mim, porém no meu caso era um pouco mais difícil. Digo, como posso ser amiga da mulher que fez o casamento dos meus pais ir por água a baixo? Eu uso a educação dada por minha mãe e sou simpática. Além do mais, não quero causar problemas, e ver mais um casamento em crise.

Saindo do carro ao finalmente meu pai ter estacionado frente a sua casa, não tive chances de tirar minha bagagem do porta-malas, pois ele foi mais rápido.

Já dentro da casa, ele me indicou qual seria meu quarto. Ao entrar, ele não era nada diferente do que eu imaginei que seria. Ele deixou minhas malas num canto do cômodo em seguida dizendo:

- Como a Andrea já disse, foi ela quem decorou tudo.

- Tudo bem. – Respondi sem jeito.

- Creio que não vá desfrutar dele muito bem já que amanhã irá para a faculdade.

- Tem razão.

Não sei se ele iria dizer mais alguma coisa, mas se estava pensando a voz nojenta de Andrea ecoou por toda a casa chamando-o para ajudá-la com algo no quarto do bebê.

Deitando em minha cama, respirei fundo para aliviar a tensão que a altura do campeonato já me dominava totalmente. Senti meu celular vibrar um pouco distante de mim. Era uma mensagem da Amanda.

"Festa na praia, encontro você frente a sua nova casa em dez minutos com a Poliana."

"Não estou muito afim de sair de casa, Amanda. Deixa para a próxima."

"Deixa essa depressão de lado, você vem!"

Acabei cedendo e me arrastei até uma das malas, puxei uns shorts e uma blusa quaisquer que achei e vesti-o sem ânimo algum. Em seguida, pondo a mesma sandália rasteira que usava anteriormente, soltei os cabelos do coque mal feito e saí do quarto.

- Pai, vou à festa da praia bem rápido. Volto logo! – Disse ao encontrá-lo na sala.

Ele assentiu com a cabeça, me despedi dele e de Andrea. Saindo da casa, já dei de cara com Amanda e Poliana me esperando na varanda.

- Como está sua mãe? – Perguntou enquanto caminhávamos na areia

- Aparentemente bem. Mas é claro, quando a vi ela estava dopada. – Disse tentando não expressar emoções.

- Eu sinto muito.

- Não precisa.

- E seu pai? — Perguntou Poliana

- Como já era de se esperar ele é ausente para tudo, menos para Andrea e o bebê. Já Andrea tenta de tudo para ser minha amiga, mas você sabe, será difícil.

- Entendo. Mas, tenta dar uma chance.

Eu iria responder algo mas fomos impedidas pelo som alto que invadia nossos ouvidos, já estávamos próximas do local da festa. Aproximamo-nos da primeira barraca de bebidas, e sem hesitar Amanda pegou três copos de cerveja. Me entregando um, pensei em não beber, mas acabei cedendo. Ah, qual é! Não me julguem eu só tenho dezoito anos!

Ainda bebíamos quando estávamos paradas em algum canto distante da caixa de som enquanto conversávamos sobre o dia de amanhã, quando iríamos juntas para a faculdade.

- Amanda, quem é o cara te observando de longe? – Perguntei maliciosa ao meu olhar se encontrar com um jovem que aparentava ter nossa idade, de cabelos e olhos cor de mel que nos encarava também maliciosamente.

- Me observando? – Levou as mãos ao peito enfatizando o "me". – Ele está te observando, Luisa.

- Pobre Luisa, você continua a mesma ingênua de sempre. — disse Poliana

- Você não sabe quem ele é, não é? – Perguntou Amanda ao ver minha feição de espanto.

- Deveria? – Perguntei confusa.

- Já vi que os dias que passou enfurnada dentro de casa focada num computador fizeram efeito. – Mordi os lábios, envergonhada. – Ele é nada mais e nada menos que Denis Ville.

- Quem?

- Ele comanda a máfia de Miami. – Sussurrou Poliana

- Se ele comanda a máfia de Miami, — Comecei a falar confusa. – o que está fazendo aqui em Palm Beach?

- Não sei, esses caras são estranhos, adoram uma festa, é um lugar onde possam fazer seus negócios. Mas o cara não ta sozinho, se você reparar bem tem seguranças por todo lado.

- Eu deveria me preocupar com os olhares dele? – Perguntei assustada.

- Se você fez algo a ele, sim. — Disse Amanda