I killed Graham
1 Capítulo Único
Estava decidido que eles iriam buscar Hook no submundo. Gold ajudaria chamando o Caronte, o barqueiro transportador de almas, e os Charming, Regina, Henry e Emma atravessariam para o submundo mesmo estando vivos. Era uma tarefa muito arriscada, mas Emma faria o necessário para trazer Kilian de volta. E por quê? Pelo fato de que ela se sentia extremamente culpada pela morte dele. Afinal, em vez de ela mesma pegar a Excalibur e absorver as trevas, ela permitiu que Hook o fizesse. E, por isso, agora ele estava morto.
Reunir-se-iam em alguns instantes à frente do lago do Caronte; só que Regina estava tão inquieta em sua mansão andando de um lado para o outro na cozinha que Henry desceu as escadas para ver se tudo estava bem.
— O que aconteceu, momma? — Ele perguntou, parando ao último degrau da escada e se apoiando no corrimão rebuscado.
Regina pareceu ter notado a presença dele somente naquele instante. Levantou o rosto para ele meio assustada e fechou a boca que pendia aberta sem ela perceber.
— Nada, Henry, nada... — Respondeu, incerta. — Já preparou tudo?
O garoto desceu o último degrau e se aproximou dela com aquele sorriso ansioso que só ele era capaz de apresentar.
— Tudo preparado para uma viagem ao submundo. Estou levando muitos chocolates.
A morena soltou um riso e sacudiu a cabeça negativamente por um instante, e levou as mãos à cintura.
— Você está passando muito tempo com a Emma.
— Ela é o problema, não é?
Regina olhou para ele com as sobrancelhas abaixadas, e por isso aquela famosa ruga preocupada apareceu entre elas. Sua expressão era de puro estranhamento.
— O quê? Por que diz isso? — Ela perguntou.
— Porque você só fica andando de um lado para o outro quando o problema é com a Emma.
Os dois trocaram um olhar compreensivo, e as feições de Regina relaxaram a ponto de ela até mesmo exibir vestígios de um sorriso meio envergonhado. Como Henry era perceptivo!
— Eu... Eu estou me lembrando de uma coisa.
— Do quê? — Henry se aproximou dela e sentou-se ao sofá, sem deixar de olhá-la, o que sugeria que ela se sentasse junto a ele.
A prefeita entendeu e caminhou até Henry, sentando-se ao lado dele, e alisou a saia às pernas, um movimento que fazia com certa frequência.
— Quando Emma ainda era the Dark One... — Regina começou, meio cabisbaixa, mas depois viu-se segura para encarar seu filho nos olhos. — Eu a chamei de “Miss Swan”. E ela me disse para eu não chamá-la assim, pois já passamos por muita coisa.
Henry arqueou uma sobrancelha, não entendendo muito bem onde é que essa conversa iria chegar.
— Certo... — Ele murmurou em concordância.
Regina suspirou, e até arqueou os ombros para tal.
— E a questão é que ela tem razão. Nós já passamos por muita coisa. Só que tem uma coisa que ela ainda não sabe que eu fiz. Uma coisa que... Poderia mudar tudo.
— Que coisa?
A anteriormente Rainha Má olhou para Henry com os lábios apertados, daquela forma que ela fazia quando hesitava antes de dizer ou fazer qualquer coisa.
— Uma coisa muito ruim.
O filho dela fez um bico e inclinou a cabeça para o lado, dando de ombros.
— Bem... — Ele entendeu que ela não queria que ele soubesse. — Você acha que isso pode acabar com a amizade, relação, sei lá, de vocês duas?
— Eu acho que sim.
— Mas, mãe... Você fez essa coisa “muito ruim” quando você ainda era... You know... Má?
— Sim.
Henry deu de ombros e se recostou confortavelmente ao sofá.
— Então não tem problema! Ela vai entender e te perdoar.
Regina arqueou as sobrancelhas, aquele olhar de emoção tomando conta do rosto dela.
— Você acha isso mesmo, Henry?
— Momma, ela foi a única que acreditou que você não tinha matado o dr. Hopper. Ela te ajudou com aquele monstro sugador de alma. Ela foi com você buscar o Robin. Ela virou the Dark One para te salvar! É claro que vai perdoar uma coisa que você fez no passado. E nós estaremos, literalmente, no inferno, talvez essa seja sua única oportunidade de falar com ela e resolver tudo.
O olhar confiante de Henry após essas frases instigadoras dele foi o suficiente para que Regina concordasse e sorrisse para seu filho, decidindo que colocaria as cartas na mesa antes que fosse tarde demais e não tivesse outra chance de ser honesta com Emma.
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Regina parou hesitante diante da porta da nova casa de Emma, aquela casa azul e bem arrumada que ela arranjara assim que voltara a Storybrooke. Encarou a porta por alguns instantes. Respirou fundo, ajeitou seu casaco comprido e bege e enfim levou o indicador à campainha para apertá-la. “Ding-dong”.
— Só um minuto! — Veio um grito lá de dentro, era Emma.
Ela devia estar arrumando tudo, bagunçando as coisas, enrolando-se e sendo atrapalhada, e esse pensamento arrancou um ar de riso de Regina por um breve instante. Mas apenas por um instante, pois, no seguinte, já tinha lábios imóveis e olhos buliçosos pelo que viria a seguir.
A porta foi aberta para dentro e uma Emma descabelada e desarrumada apareceu. Regina ficou satisfeita por ver aqueles cabelos soltos, e não presos em um coque sério.
— Regina — Emma exclamou e fez aquele bico tentando entender o porquê da visita da morena. — O que foi? Aconteceu algo? Henry está bem?
— Tudo está bem, Henry está bem — Regina levantou uma mão enluvada e gesticulou com ela por paciência para Emma. — Posso entrar?
— Uh... Claro, fique à vontade — a loira abriu a porta completamente e deu as costas para andar para dentro, dando espaço à morena.
Regina entrou e fechou a porta atrás de si. Então, olhou para dentro e viu que havia caixas e mais caixas cheias daqueles apanhadores de sonhos desfiados e quebrados. Alguns deles jaziam espalhados pelo chão, por cima do sofá; suas penas esmigalhadas pelos cantos, uma delas até mesmo de repente caiu sobre o nariz de Regina, e ela teve de sacudir a cabeça franzindo o nariz para ela sair.
— What the hell are you doing?
— Oh, estou desfazendo esses apanhadores de sonhos — Emma se sentou ao sofá e virou a cabeça por cima do ombro para olhar a morena. — Não quero que voltem a ser usados. Ever. Por ninguém.
A morena se aproximou dela até ficar encostada na parte de trás do sofá, ao lado da figura loira que arrebentava os fios de um apanhador de sonhos vermelho que tinha nas mãos com uma lâmina de canivete.
— Não seria mais fácil incendiar todos? — Ela perguntou, apoiando as mãos no encosto do sofá, observando Emma realizar o trabalho minucioso.
— Tem que ser deste jeito aqui — a loira estava concentrada em cortar fio por fio, por mais que aquilo parecesse uma loucura.
Regina suspirou. Entendia que Emma estava buscando qualquer coisa para ocupar os pensamentos, e até chegou a repensar se deveria ou não contar a ela o que foi lá para contar. Porém, a imagem do casal Charming pipocou na sua mente e ela decidiu que não teria um momento a sós com Emma para que pudessem conversar com calma. E a vida é cheia de surpresas, não? Quem dirá o que poderia acontecer a eles todos no submundo?
— Emma — Regina a chamou, e Emma somente fez um “uhn?” de retorno.
A morena respirou fundo e deu a volta pelo sofá para se sentar ao lado da loira; sequer se importou se sentava em cima de algumas penas desgrenhadas ou fios arrebentados. Ela chutou uma caixa que estava aos seus pés para longe e virou o tronco com a postura impecável como sempre para Emma.
— Eu quero falar com você.
— Ok, pode falar — mas Emma tinha ainda a atenção no apanhador de sonhos que segurava nas mãos.
Regina, impaciente como sempre fora, inclinou-se para frente, pegou o apanhador de sonhos das mãos de Emma e o jogou para o lado, o que arrancou um “Hey!” de Emma e um olhar surpreso e ao mesmo tempo indignado.
— Preciso que você se atente a mim.
Emma cruzou os braços meio emburrada e deixou-se cair de costas ao braço do sofá, olhando para Regina.
— Pois bem, estou atenta a você. O que foi?
Regina fechou as mãos em punhos nas coxas. Olhou para elas, engoliu em seco, e depois encarou Emma, que a olhava de volta com uma sobrancelha arqueada em dúvida.
— Emma, eu... Eu preciso te contar uma coisa. Receio que não teremos mais tempo sozinhas e juntas com o casal Charming sempre aparecendo de repente, como na Terra do Nunca, então eu decidi te contar agora, que temos um pouco de tempo até viajarmos ao submundo.
— Okay...?
— No... Passado... Quando você chegou, eu fiz de tudo para você ir embora.
Emma abriu um sorrisinho meio descrente.
— Eu bem me lembro — ela comentou.
— Eu era... Má... Naquela época. Eu não queria... — Regina fechou os olhos por longos instantes com força, e depois os abriu. — Eu não queria que você ficasse. Então... Eu fiz... Literalmente de TUDO... Para você ir embora.
A loira franziu as sobrancelhas tentando entender aquilo.
— Por que eu tenho a impressão de que esse “tudo” que você enfatizou não se refere somente à torta de maçã envenenada?
Regina mordeu o interior da bochecha, encarando Emma com um pesar nos olhos. O pesar era tanto, e a falta de piscadas também, que eles começaram a marejar de leve.
— Eu matei Graham — a morena disse de uma vez, porque sentiu que, se não o dissesse naquela hora, não o faria mais.
A expressão de Emma não se moveu. Ela ficou atônita, sem saber como reagir. Paralisou. Sua boca entreaberta inspirava e expirava o ar lentamente, e sua testa que estava franzida logo se desenrugou, dando lugar a uma nova expressão, uma expressão fria... Uma expressão de Dark One.
— Isso não é possível, Regina — comentou a loira, e se endireitou no sofá. — Graham morreu de ataque cardíaco.
— Eu o matei, Emma — a Rainha tornou a dizer, como se quisesse incutir essa afirmação na mente da Salvadora.
— Não, Regina — Emma separou as sílabas vagarosamente. — Eu o vi morrer diante de mim.
— Eu tinha o coração dele — a morena decidiu ser direta e contar absolutamente tudo. — No meu cofre... No mausoléu. Eu tinha o coração de quase todos, e, quando vi que ele estava se interessando por você e arruinando minha maldição, eu peguei o coração dele e o apertei até virar pó.
Emma continuava sem reagir. Ela desviou o olhar para o lado, meio aturdida, confusa com as informações; levou as mãos à cabeça, às têmporas e apoiou os cotovelos aos joelhos, encarando o nada diante de si. Os olhos começando a se encher de lágrimas, ficando vermelhos; a boca aberta, as sobrancelhas erguidas em seus inícios. O coração de Regina se partiu ao ver essa cena.
— Emma, eu sinto muito... — Ela disse e colocou uma mão às costas da Salvadora.
Entretanto, a loira se afastou do toque dela como se sua mão tivesse veneno. Regina recolheu a mão de imediato, entendendo a angústia que Emma deveria estar sentindo.
— Não me toque — Emma murmurou com a voz quebrada. — Eu preciso que você vá embora.
Regina demorou um pouco para se levantar. Olhou Emma mais um momento, e depois desviou o olhar para o além, engolindo em seco, engolindo também o choro que dava um nó na sua garganta. Porém, antes de sair da casa, a morena parou com a mão na maçaneta e se virou para Emma.
— Eu realmente sinto muito, Emma — disse. — Eu não sou mais aquela pessoa e você sabe disso. Espero que consiga achar uma forma de... Perdoar-me.
E então saiu.
Emma ficou no sofá, encolhida, chorando abraçando as próprias pernas. Mil possibilidades se passaram pela mente dela, inclusive a possibilidade de encontrar Graham no submundo. Será que foi só por isso que Regina veio se explicar para ela? Por que ela de repente se lembrara desse acontecimento? Será que Regina estava com receio de todas as almas que ela enviara ao submundo? Ou... Regina só estava arrependida. Arrependida o suficiente para vir pedir desculpas a ela. Talvez o fato de Emma ter perdido uma pessoa com quem se importava bastante fez Regina se lembrar de Graham – quem, para ela, manter-se-ia esquecido, já que ele era somente um de milhares. Então isso tudo foi uma grande consideração de Regina. O ápice de sua mudança.
De qualquer modo, isso não impediu Emma de se sentir péssima e chorar até não ter mais lágrimas.
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A hora tinha chegado. A hora de embarcarem no barco de Caronte e passarem ao submundo. Todavia, apenas Emma estava lá, defrontando o lago escuro cuja superfície se via coberta por uma camada grossa de neblina flutuante. Era noite, e o vento gelado obrigava a Salvadora a se agasalhar bem. Ela pegou o celular do bolso traseiro da calça jeans e viu uma SMS de sua mãe: “Henry trouxe as coisas que preparou para levar aqui para vermos, em breve estaremos aí, e o Gold também”. Ela suspirou e guardou o celular, cruzando os braços sob o peito para se aquecer.
Escutou um barulho atrás de si, entre as árvores, e olhou para trás atenta, os olhos arregalados e preparados. A figura de Regina deslizou de lá e se aproximou. Emma suspirou aliviada.
— Mas onde diabos estão todos os outros? — Regina perguntou em seu tom estressado de sempre.
— Estão vindo — Emma respondeu, simplesmente.
O clima ficou muito desagradável. O silêncio pesado era quase palpável entre as duas. Emma se virou de costas e continuou encarando o lago. Regina decidiu ficar ali, quieta, com as mãos enfiadas nos bolsos do seu casaco, aguardando.
A loira fechou os olhos com força, apertou-os, e respirou agudamente.
— Regina — ela chamou a outra.
Regina de imediato olhou para Emma, com os olhos ávidos na figura dela de costas.
— Sim? — Respondeu.
Emma se virou para ela e a encarou.
— Obrigada por ter me contado — havia uma compreensão fora do comum nos olhos verdes dela, uma compreensão que só as duas partilhavam. — Eu sei... Como deve ter sido difícil para você.
Regina assentiu em concordância e os cantos dos seus lábios se curvaram para cima, retribuindo o olhar complacente de Emma.
— Eu te perdoo — a loira então disse as palavras tão esperadas pela morena.
Mais uma vez, Emma impressionou Regina. A Rainha estava atônita, perdida em uma mistura de sentimentos; em arrependimento, tristeza, surpresa, carinho, consideração, e amor. Olhou para Emma como se não acreditasse nela. Porém, o sorrisinho que a loira dirigiu a ela fez com que ela lhe desse crédito.
— Obrigada — Regina murmurou baixinho, e deu um passo adiante meio ansioso, incerto e hesitante; estava prestes a abraçar Emma.
Só que uma imagem se fez presente pigarreando e acabando com o momento inteiro: era o mr. Gold.
— Que cena tocante — ele disse, e as duas mulheres se viraram para ele revirando os olhos. — Mas não temos tempo a perder. Onde estão os outros?
Assim que Emma abriu a boca para responder, uns barulhos de portas de carro se fechando tomaram conta do ambiente. Eram eles. Eles tinham chegado. Agora, iriam ao submundo, com a ajuda de Gold, resgatar Hook. E Regina tinha tirado mais um de seus infinitos pesos do peito. Ao menos ela sentiu o que sempre sentia com Emma, e com mais reforço ainda: confiança. “We’ve got each other”.
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