"To be popular

I'll help you be popular!

You'll hang with the right cohorts

You'll be good at sports

Know the slang you've got to know

So let's start

'Cause you've got an awfully long way to go"

— Você precisa parar de escrever essas fanfics. Elas são horríveis.

Esse, por incrível que pareça, é meu único amigo no mundo inteiro aparecendo furtivamente ao meu lado, abraçado com seus livros para a aula de hoje, no exato momento em que ainda procuro os meus com a cabeça enfiada no meu armário.

— Primeiramente, obrigada pela crítica construtiva. É muito bom ser incentivada dessa maneira pelo seu melhor amigo. Em segundo lugar, eu já disse pra você parar de
ler minhas fanfics. Você não é o público-alvo delas, então nunca vai ficar satisfeito. Apenas para de ler, ok?

Não consigo ver seu rosto, mas apostaria os últimos 5 dólares que tenho no meu bolso na certeza de que ele está revirando seus olhos de maneira sarcástica, como alguém
que está tendo uma convulsão.

— Duuuuh. Não é uma crítica às histórias diretamente, ok? Você escreve bem, elas são legais, eu acho. Não sou uma lésbica de 15 anos apaixonada por animes coreanos para poder julgar com propriedade, mas elas parecem cumprir bem o papel. Não estou falando disso. Estou falando que você precisa sair de dentro daquele quarto um pouco, parar de alimentar os fetiches de adolescentes lésbicas do outro lado do mundo e ir... Sei lá. Alimentar os seus. Num mundo paralelo onde eles existem, claro.

Ele para de falar e emenda uma gargalhada, agora sou eu que estou revirando os olhos com tanta força que temo que eles não voltem à sua posição normal nunca mais.

— JK, sabe qual é o meu fetiche nesse momento? Que essa conversa pare imediatamente e possamos fingir que ela nunca aconteceu, seguindo em frente com as nossas vidas.

Bato a porta do armário para reforçar meu ponto, mas como sempre acontece quando tento ser bad ass, acabo machucando a mim mesma. Meu dedinho bate de mal jeito no armário e eu vejo estrelinhas de dor saindo da minha mão como em um desenho animado. Estou ignorando a dor e o JK numa tacada só enquanto sigo para a aula que infelizmente compartilharemos, mas ele não desiste.

— Sério, Babs, aquela hora eu estava brincando, mas agora falando sério...Vamos sair nesse final de semana? A gente podia ir naquele bar maravilhoso que eu vivo
te chamando. Vamos? Por favor? Por favorzinho? Diz que sim?

— Sim.

— Sério?

— Não!


JK continua falando, mas eu entro na sala com ele na minha cola transformando suas lamentações em um ruído de televisão com interferência. Sentamos lado a lado no
mesmo lugar de sempre, perto da janela, como temos feito nos últimos três anos e eu faço nosso gesto universal de ''assunto encerrado''. Ele cruza os braços e bufa, mas fica em silêncio. Sei que a discussão está só pausada, mas aceito a trégua. JK não vai largar o osso tão cedo. Essa é uma das piores e melhores coisas sobre ele.

Estou divagando sobre como seria ser outra pessoa, uma dessas que realmente sai de casa e vai a lugares descolados, entrando no tal bar, bebendo, falando com as
pessoas e o quão assustador isso tudo parece, quando alguém me acotovela na costela enquanto tenta passar pelo corredor estreito de carteiras. Me viro pra olhar quem
foi e consigo ver apenas uma nuca coberta de cabelos compridos e loiros, daqueles que a gente só vê em comerciais de shampoo, e já sei que não ouvirei um pedido de desculpas ainda nessa encarnação, deve ter sido até de propósito. Maldita Laurel. A garota mais popular da classe e da escola inteira. Loira, magra, linda. Só não é
líder de torcida para completar a lista de clichês porque nosso colégio é tão pequeno, que vive fora dos grandes campeonatos estaduais de futebol. Ninguém liga pro
nosso time, logo ninguém precisa de animadoras de torcida chamando atenção para a nossa insignificância. Mas nada disso importa para a Laurel, que se comporta como se
realmente mandasse em todo mundo apenas por ter se dado bem na loteria genética, ao contrário de nós, reles mortais. Ela me maltrata sempre que estou ao seu alcance e foi a responsável por fazer o meu primeiro ano aqui na escola ser parecido com um daqueles filmes educativos sobre bullying, mas sem os castigos físicos. Só a humilhação diária, os apelidos, a tiração de sarro e o dobro de chatice, obrigada. Vaca.

Para minha sorte, não tenho muito tempo para remoer sobre a Laurel e seus problemas de autoafirmação no colegial, porque a minha professora favorita acaba de entrar na sala. Mrs. Menzel, ou Georgie, como ela pediu para a chamarmos, leciona Literatura e Drama para nossa turma e eu sou sua maior groupie. Georgie entende minha paixão por musicais e sempre tem ideias fantásticas ou megalomaníacas que nem sempre cabem no nosso cenário feito de papelão e guache. Mas eu e JK admiramos seu espírito e sempre embarcamos em todos os seus planos malucos. Eu, por não entender porque mais pessoas nesse planeta se recusam a admirar o charme do teatro musical e o JK, bom, pelo espetáculo em si. Ele adora trabalhar com figurinos, maquiagem e cabelos. Sim, eu sei. Somos todos um grande conjunto de clichês por aqui.

A aula inteira passa voando porque eu só consigo esperar pelo tal momento em que a Georgie finalmente vai anunciar qual peça representará a nota final da matéria nesse semestre. Esse anúncio vai ser o ponto alto da minha semana e quando chego o relógio grande pendurado do outro lado da sala, não consigo controlar a expectativa, como a grande nerd que eu sou, ansiosa por lição de casa. Então, um minuto antes do sinal tocar para o almoço, Georgie fecha o livro, senta na mesa e nos olha com um
sorrisinho secreto colado no rosto.

— Muito bem. Tenho certeza que vocês estão ansiosos para saber que peça produziremos e apresentaremos para o final do semestre, certo? Vou acabar com o seu sofrimento e revelar que preparei uma surpresa. Finalmente realizaremos uma produção com muito potencial para ser agraciada com a visão criativa e jovem que só vocês podem proporcionar. Estou feliz em anunciar que a peça escolhida é um sucesso da Broadway escrita por Gregory Maguire. Faremos Wicked!

Olho pra JK sorrindo como um gato que planeja a dominação mundial e ele devolve minha empolgação com um high five. Wicked é uma das minhas peças favoritas de todos os tempos, sua trilha sonora não sai do meu celular e eu sempre quis adaptá-la. Mesmo com nosso baixo orçamento e talentos musicais que só cantam bêbados em noites de karaokê, estou animada. Feliz até, eu diria. O resto da sala se divide entre os preguiçosos ou indiferentes à peça, mas eu não estou mais aqui. Estou dentro da minha cabeça, ouvindo Glinda e Elphaba fazendo duetos enquanto fogem da população de Oz em uma vassoura. Mas sou interrompida por Georgie, que continua a falar por cima do barulho.

— Como não se deve mexer em time que está ganhando, posso contar com vocês, JK e B., para produção e direção da peça? O restante da sala pode ir falar com os dois para decidir como deve participar, nos bastidores ou na realização do projeto. Lembrando que participarei das audições para escolher o elenco, claro. E espero nada menos que 100% de comprometimento de todos vocês, ok? Quebrem a perna!

Antes que eu possa me movimentar, JK já pulou da cadeira segurando duas folhas de papel branco.

— Ok, meninos e meninas. Nesta folha, com o título 'AUDIÇÕES', escrevam seus nomes para concorrer a papéis no elenco principal, elenco de apoio e substitutos. Nesta
outra, com o título 'PRODUÇÃO', escrevam seus nomes para ajudar no cenário, figurinos, maquiagem, iluminação e bastidores em geral, ok? Ambas estarão coladas no quadro
de avisos ao lado da sala. Para quem não está familiarizado com a história, aqui vai um spoiler: é INCRÍVEL. Ei, Tom, não vai se inscrever para participar das
audições? Você ficaria incrível todo pintado de verde.

As pessoas já estão saindo da sala, sem dar muita bola para a peça, como sempre acontece. Eu me levanto e arranco a folha com o título Produção da sua mão e vou até o quadro de avisos, para ajudá-lo a fixar as listas com tachinhas. Enquanto discutimos sobre as nossas ideias para a peça, tudo que queremos fazer e como nada pode estragar isso, alguém se aproxima com confiança e antes mesmos de ouvir sua voz, mesmo estando de costas, já sei o que está acontecendo. Mas não pode ser o que eu
estou pensando. Devo estar errada. Deve ser qualquer outra coisa no mundo, menos isso. Por favor, não. Apenas, se existe um Deus e ele de vez em quando se ocupa de
intrigas em pequenas escolas de ensino médio, eu só peço que por favor, não estrague isso pra mim. Não deixe que isso aconteça. Sério. Não pode ser.

Ela se aproxima devagar, desfilando, provavelmente achando que a minha cara horrorizada e a expressão enojada do JK são um bom incentivo, e assina em câmera lenta seu nome floreado logo embaixo do título AUDIÇÕES. Dá meia volta, tira os cabelos loiros do ombro e sorri com uma cara que só posso descrever como diabólica.

— Tchau, meninos. Vejo vocês no auditório.


Agora, o que uma pobre garota nerd que só busca a felicidade como qualquer outra pessoa no mundo, pode fazer quando Satã, em pessoa, decide participar da sua
peça?

Notas finais
Teremos um capítulo por dia! Por favor comentem se gostaram :)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.