I haven't seen you coming
10 Capítulo 10
Notas iniciais
– Emma! – Mary exclamou assim que Emma passou pela porta do apartamento, e envolveu-a num abraço caloroso.
– Será que o tempo passou diferente aqui? Porque eu podia jurar que fiquei fora só uma semana. – brincou enquanto retribuía o abraço.
– Não posso estar feliz por te ver? – a professora perguntou ao se afastar para olhá-la.
– Não só pode como deve. E pelo visto você usou sua chave. – sorriu – Finalmente!
– Eu não quis esperar você me ligar porque nós sabemos o quanto podia demorar, então resolvi vir direto pra cá.
– Sozinha? – olhou em volta rapidamente depois de colocar a mala e o violão em cima do sofá.
– David saiu pra comprar algo pra beber, eu estava esperando você chegar pra preparar o almoço.
– Mary, não precisa...
– Claro que precisa. – interrompeu – Enquanto eu cozinho você vai me contar tudo. – foi em direção à cozinha.
– Tudo o quê? – perguntou seguindo-a.
– Sobre o SPA. – respondeu enquanto mexia em alguns armários, ainda sabia onde ficava cada coisa, porque mesmo sem morar ali há meses ela aparecia sempre e Emma não havia mudado quase nada de lugar.
– Ah, foi bem... Relaxante. – puxou uma cadeira e sentou.
– Só isso?
– Bom, na verdade...
– Você conheceu alguém, não foi? — interrompeu, sorrindo, e Emma a encarou por alguns segundos um pouco atônita pela percepção da amiga.
– Como sabe disso? – “Será que está escrito na minha testa e eu não percebi?” pensou.
– Eu conheço todas as suas caras, e essa aí... – apontou para ela – É a de quem conheceu alguém, agora fala, quem é ela? O que aconteceu?
– Mary...
– Você sabe que não era exatamente essa a minha intenção quando recomendei aquele lugar, e também sabe o que eu penso sobre esses casos de uma noite, mas tendo em vista o último mês posso até considerar...
– Opa, calma aí. – interrompeu – Primeiro que você não recomendou, aquilo tava mais pra intimação, mas tudo bem, e segundo que não aconteceu nada.
– Mas você conheceu alguém, certo?
– Sim, mas nós não chegamos nessa parte, foi só um beijo, bom... Mais de um na verdade, mas...
– Só um momento. – pediu – Está dizendo que conheceu uma mulher, beijou ela e parou por aí? Eu devo me preocupar? – brincou.
– Muito engraçado. – sorriu – Não vou dizer que eu não quis, porque eu quis, quer dizer, ela é linda... Quem eu estou tentando enganar? Isso não chega nem perto, mas não achei que...
– Você gosta dela. – concluiu, fazendo Emma parar de falar – De verdade, eu quero dizer. – sorriu – Não é?
Emma assentiu timidamente.
– É meio complicado e eu não sei explicar muito bem, mas sim.
– Às vezes as coisas que a gente não consegue explicar ou entender são as mais importantes.
– Tirou essa de qual filme água com açúcar dessa vez?
– Nenhum, é minha mesmo. – sorriu – Mas e então, me fale sobre ela.
– O nome dela é Regina e ela é... – perdeu o olhar por um momento em algum ponto do outro lado da cozinha, lembrando de todos os momentos com Regina naquela semana – Ela é basicamente o meu oposto completo.
– Em que sentido? – perguntou quando voltou a se concentrar na tarefa em mãos.
– Em todos, eu acho.
– Isso não é ruim, você sabe? – começou a cortar alguns temperos – Se relacionar com alguém diferente pode ser bom, talvez até melhor do que com alguém parecido.
– Bom, eu não tenho muita experiência nessa área.
E era verdade, afinal, seu último e único relacionamento estável fora com Mulan, que por sinal era semelhante a ela em muitos aspectos e ainda assim as coisas haviam terminado de maneira não muito tranquila. Mas o ponto é que além da ex, ela teve apenas casos sem importância, de no máximo algumas poucas semanas, e com mulheres com quem jamais se importou o suficiente para reparar se eram ou não parecidas com ela em algo.
No entanto ali estava completando pouco mais de um mês de volta no “mundo” dos solteiros e já interessada por alguém que só de longe e sem sequer precisar abrir a boca já dava pra perceber o quanto era diferente dela.
Será que valia à pena insistir? O que ela queria com tudo aquilo, afinal de contas?
– Emma...? – despertou de seus pensamentos quando viu Mary acenando na frente de seu rosto.
– Sim?
– Você ficou fora por um minuto.
– É, eu... – pigarreou – O que você estava dizendo?
– Que não ia colocar cebola no molho porque sei que você não gosta. – explicou – Eu só vou terminar aqui e aí você continua me contando, está bem? Pode esperar?
– Claro, não é como se eu estivesse doida pra fofocar sobre minha nova paixão, não fiz isso nem quando tinha idade pra fazer. – brincou.
– Paixão é?! – Mary provocou, arqueando a sobrancelha e com um sorriso no canto dos lábios.
– Ah, por favor, se concentre no bendito molho. – revirou os olhos.
– Tudo bem... – ergueu as mãos em sinal de rendição, e virou de costas para voltar ao que estava fazendo – Por enquanto. – completou murmurando, mas Emma ouviu muito bem, e conhecendo a amiga que tinha sabia que ela realmente não deixaria o assunto de lado sem antes despejar um caminhão de perguntas em cima dela.
Suspirou e ficou olhando Mary cozinhar, sem se preocupar em oferecer ajuda, já sabendo que seria recusada devido ao seu “talento” conhecido nessa área.
Decidiu então comer algo enquanto esperava, e ao ver uma bela maçã vermelha se destacando entre as outras frutas, pegou-a sem hesitar, sorrindo sem nem ao menos perceber direito ao dar a primeira mordida, ainda que estivesse bem ciente de em quem estava pensando enquanto fazia isso.
–------------------------ SQ ---------------------------
– Mãe! – Henry exclamou animado ao abrir a porta e ver Regina do outro lado, e a abraçou carinhosamente.
– Oi querido. – ela apoiou o queixo na cabeça dele e sorriu, retribuindo o abraço – Senti saudades.
– Eu também. – disse, e depois abriu passagem para que ela entrasse.
– Como foi tudo? Você se comportou?
– Sim, foi bem legal. — respondeu.
– Devo me preocupar com o comportamento da dona da casa também? — perguntou elevando a voz propositalmente para que Tinker escutasse – Onde está ela, aliás?
– Aqui, sargento. – a loirinha respondeu entrando na sala – E meu comportamento foi exemplar, deixei ele dormir depois da meia noite, se entupir de pizza e acumular o dever de casa, certo Henry? — perguntou olhando para o menino que só riu da cara que Regina fez ao ouvir aquilo, e logo Tinker fez o mesmo – Isso nunca perde a graça.
Regina até tentou parecer irritada, mas no fundo gostava da familiaridade do momento.
– Vá pegar suas coisas, Henry. – disse ao filho que assistia tudo parado perto da porta já fechada.
O menino assentiu e saiu rumo ao quarto, deixando-as sozinhas na sala de estar.
– Não dava pra pelo menos disfarçar essa urgência toda em tirar ele daqui?
– Você sabe que não é nada disso, eu só...
– Está com saudades, eu sei. – sorriu – Pode curtir seu filho à vontade e aproveita pra conferir se ele está inteiro.
– Eu vou, acredite. – notou um quadro novo na parede – Aquilo não estava aqui uma semana atrás.
– Isso porque eu comprei na sexta depois de deixar o Henry na escola, tem uma feira muito interessante naquele bairro, sabia?! – sorriu admirando a pintura – Não é lindo?!
– Eu diria... – analisou as várias cores chamativas e fortes espalhadas pela tela, sem forma, do tipo arte abstrata, algo que ela até apreciava, mas não era o seu favorito – Exótico. – completou.
– O que no seu vocabulário quer dizer horrível.
– Não necessariamente. – sentou na ponta direita de um dos grandes sofás da cor vinho que havia na sala – Só não me vejo gastando dinheiro em algo assim. — e logo sentiu o olhar penetrante de Tinker em cima dela, mas continuou com a postura estoica, alisando uma ruga imaginária na saia que usava.
– Você sabe que eu tenho que te perguntar, não sabe?
– O quê exatamente? – virou para olhá-la com sua melhor expressão impassível.
– Duas palavras: Emma Swan.
– Isso não é uma pergunta.
– Ah vamos, não seja assim! – reclamou, enquanto sentava ao lado dela – Eu estou sentindo alguma coisa diferente em você.
– Eu já disse o que penso sobre esses seus instintos.
– É, e você pode repetir um milhão de vezes se quiser depois, mas agora só me conta logo o que aconteceu!
Soltando um suspiro mais por costume do que por necessidade, Regina enfim fez um resumo de todo o ocorrido no SPA, desde a ameaça de pular varanda até o beijo de despedida temporária na estrada. Vez ou outra precisou parar para conter a euforia de Tinker, mas finalmente conseguiu terminar.
– E você me fala isso assim? Como quem comenta sobre o clima? Por Deus, Regina, ela te deixou parada no meio do nada depois de um beijo que mesmo sem os detalhes eu só posso imaginar que foi de tirar o fôlego! – exclamou, sorrindo.
– Desculpe se eu não gritei o bastante. – zombou, sorrindo – Sinceramente eu acho que você está fazendo muito barulho por nada, querida.
– Mesmo? Vai continuar fingindo que não se importa?
– Quem falou em fingimento? – mas antes que a resposta viesse, resolveu continuar – Agora haja como a boa anfitriã que eu sei que você é e me ofereça algo para beber.
– Se você quisesse algo pra beber já teria revirado minha cozinha e criticado cada coisa que visse pela frente, como sempre faz. Então pode parar de tentar desviar o assunto, porque não vai dar certo.
O bom de ser amiga de alguém durante quase uma vida inteira é que essa pessoa te conhece como ninguém, e o ruim é... Bom, ela te conhece como ninguém.
– O que mais você quer saber? Sim, eu estou atraída por ela, mas isso não...
– Significa nada além do que já é. Sim, conheço a teoria. – completou interrompendo-a – Tudo bem... Então eu acho que você também não vai se importar caso ela não te procure, certo? – perguntou e não fez menor questão de esconder o sorriso quando viu a hesitação de Regina para responder.
– Eu sei o que você está fazendo. – avisou.
– Eu? Eu não estou fazendo nada. – se defendeu – Só considerando as possibilidades, porque você sabe que muita coisa pode acontecer nesses dias. Vai saber se ela já não esbarrou em outra no caminho de casa? – provocou enquanto fingia mexer no celular e só voltou a olhar para a amiga quando notou que o silêncio se estendeu demais, e ao ver Regina concentrada em algum ponto desconhecido do outro lado da sala e com a testa franzida em claro sinal de preocupação, continuou – Imagina se você se importasse, não é? – provocou, e em resposta a morena apenas lhe deu o seu melhor olhar irritado – Bom, você pode ligar pra ela. – sugeriu.
– Sim, certo. – zombou.
– Estou falando sério.
– E eu também quando digo que não vou fazer isso.
– Por que não?
– Porque...
– Pronto mãe. – e a resposta morreu em seus lábios assim que Henry entrou na sala, carregando duas mochilas e seu PSP nas mãos.
– Pegou tudo? – perguntou ao se levantar, e o menino assentiu, já se dirigindo até a porta e abrindo-a.
– Olha que afilhado mais desnaturado! – Tinker reclamou ao também ficar em pé – Não está esquecendo nada? – perguntou com as mãos na cintura.
Henry sorriu e foi até ela, abraçando-a e sorrindo.
– Foi mal, madrinha. – pediu e ergueu o rosto para olhá-la – Obrigado por me aturar.
– Alguns sacrifícios valem à pena. – brincou e ele riu, correndo de volta à saída.
– Obrigada por ficar com ele. – Regina disse enquanto as duas saíam da casa.
– Será que você pode repetir enquanto eu gravo?
– Talvez depois de conferir se ele está realmente intacto. – rebateu, sorrindo.
Tinker riu levemente e viu a amiga passar por ela acenando com a cabeça em sinal de despedida e entrando no carro, onde Henry já estava esperando no banco do carona.
Quando ouviu o barulho do motor ligando, se aproximou da janela.
– Não vai esquecer aquela ligação, Gina. – piscou sugestivamente.
Regina apenas revirou os olhos e saiu, mas antes mesmo de virar a esquina, Henry que ela pensou estar concentrado no jogo, falou:
– Não me diz que você vai ter que trabalhar em pleno domingo, mãe.
– Eu não vou querido, por que está dizendo isso?
– Essa ligação que a Tinker falou não é sobre o seu trabalho?
– Oh não, ela só estava brincando, não é nada importante. – “Se quer mesmo acreditar... Ah pare! Não é importante.” – Não pode ser. – sussurrou sem perceber a última parte.
– O que?
– Nada meu anjo, eu só... – suspirou e continuou dirigindo – Só pensei alto demais.
–------------------------ SQ ---------------------------
Dois dias depois.
Emma colocou arma e distintivo em cima da mesinha de centro da sala ao chegar do trabalho naquela noite de terça-feira. Como morava sozinha não precisava se preocupar em esconder ou guardar nada.
Mal voltou e uma pilha de papelada a esperava em sua mesa, e depois de finalizar o que tinha começado no dia anterior finalmente fora liberada para trabalhar em campo. Mas não restaram mais do que duas horas antes do expediente acabar, e como não apareceu nada ela pôde ir para casa.
Pegou uma cerveja gelada e sentou no sofá, tirou as botas e esticou as pernas, dando um longo suspiro. Ligou a TV e perdeu a noção do tempo, até que ouviu o alerta de mensagem do celular e o tirou do bolso. Ao ver o nome na tela seu coração disparou num misto de ansiedade e medo pelo que poderia encontrar. Desbloqueou a tela e leu.
R: Não vou negar que foi um prazer conhecê-la, mas acho que não deveríamos nos ver mais. Espero que tenha o bom senso de respeitar isso, como disse que faria.
–------------------------ SQ ---------------------------
– Não, não, não... — Regina reclamava em seu escritório pessoal em casa, ao perceber o que tinha feito.
Ela havia escrito a mensagem num momento de impulsividade alguns minutos atrás. A verdade era que mesmo sob os constantes discursos de Tinker sobre como ter conhecido Emma e tudo o que aconteceu desde então ser algo bom, ela ainda oscilava muito em relação a tudo, e ali enquanto organizava alguns documentos resolveu testar para ver o que poderia mandar caso enfim recusasse a aproximação da loira. Estava tudo muito bem, ela gostou do que havia escrito e colocou o aparelho de lado, desbloqueado, mas quando foi mexer em alguns papéis seu dedo esbarrou em cima de “Enviar” e pronto.
Antes que o desespero repentino pudesse dominá-la, as portas do escritório se abriram.
– Eu realmente não entendo como esse menino consegue ganhar... – Tinker entrou falando, ela havia chegado para jantar cerca de meia hora atrás, e estava na sala com Henry até então, depois do garoto desafiá-la a uma partida de videogame – Que cara é essa? – perguntou ao notar a expressão aflita de Regina.
– Eu... Eu enviei.
– Enviou o quê?
– Uma mensagem, para Emma. – explicou.
– E isso lá é motivo pra... – mas parou ao se lembrar do que aquilo significava de acordo com o que Regina havia lhe contado – Espera aí, quer dizer que...
– Sim.
– Regina! – repreendeu.
– Não foi minha intenção. – se defendeu e levantou para dar alguns passos pelo ambiente enquanto falava – Eu toquei no ícone de envio por acidente.
– Mesmo?
– Sim. – confirmou – Escrevi por impulso, e agora...
– Agora que ela deve ter lido e provavelmente não vai mais te procurar, você descobriu que não quer que isso aconteça. – completou – Acertei?
Regina suspirou e cruzou os braços.
– É melhor assim.
– Não é não, agora pega seu celular e manda outra explicando o que aconteceu, aposto que ela vai entender.
– Não. – disse, resignada.
– Sim. – insistiu.
– Não, eu não vou fazer isso. – afirmou – Já disse que é melhor assim, essa história toda foi um absurdo desde o início, não é você quem culpa o destino por tudo? Então faça isso agora e deixe como está. – virou as costas e disse enquanto saía – Estarei na cozinha.
Tinker bufou exasperada pela teimosia sem fim da amiga e guiada por seu atrevimento tão conhecido olhou para o celular que estava tranquilamente em cima da mesa e sorriu quando uma ideia surgiu em sua cabeça.
–------------------------ SQ ---------------------------
Emma saiu do banho com os cabelos molhados e o corpo enrolado numa toalha branca.
Após ler a mensagem de Regina não conseguiu nem nomear o que sentiu, só sabia que os ingredientes eram frustração, raiva e uma boa pitada de decepção.
Claro que havia dado o direito da morena recusar qualquer aproximação sua, mas no fundo esperava que ela não fizesse isso, e embora estivesse perdida em relação ao que realmente queria daquilo tudo, ela pelo menos estava disposta a ver o que aconteceria, e pensou que depois daqueles beijos Regina pudesse finalmente ceder um pouco, mas pelo visto estava totalmente enganada, outra vez.
Vestiu a primeira roupa que achou no armário, secou o cabelo rapidamente e voltou para a sala. Quando pensou em pedir uma pizza percebeu que estava sem fome, o que pra ela era uma raridade, mas antes que pudesse sequer considerar o que fazer a seguir notou que seu celular piscava em cima da mesinha de centro, — onde o havia deixado antes de ir tomar banho — como fazia de dez em dez minutos quando uma mensagem não havia sido lida.
“Será que é ela tripudiando um pouco mais?” – pensou enquanto desbloqueava a tela, guiada pela curiosidade.
R: Você não me conhece, mas vou manter o pensamento positivo e torcer pra que Regina tenha ao menos falado de mim. Sou Tinker, também conhecida como melhor amiga daquela cabeça dura. Preciso ser rápida porque se ela descobrir que estou fazendo isso posso me considerar oficialmente morta. Enfim, sobre a mensagem que você recebeu alguns minutos atrás, foi um acidente. Ela escreveu num impulso, mas nunca quis enviar de verdade. Pode parecer loucura ou que talvez eu esteja apenas querendo forçar uma aproximação, o que pra ser sincera é bem o tipo de coisa que eu faria, mas não é o caso agora. Então... Acho que você sabe o que isso significa.
S: só pra ressaltar, Regina realmente me mata se descobrir que eu fiz isso, portanto só lê e não responde nada, vou encobrir meus rastros por aqui.
Boa noite.
Emma sorriu instantaneamente ao terminar de ler e constatou três coisas:
1 — aquilo mudava tudo.
2 — a amiga de Regina era realmente uma figura.
3 — ela precisava pensar no que fazer, e rápido.
–------------------------ SQ ---------------------------
– Santa mãe de... – Emma murmurou impressionada ao parar em frente a um arranha-céu todo espelhado, no centro de Nova Iorque.
Ergueu a cabeça tentando acompanhar a altura a perder de vista e viu a lua refletida nas janelas, indicando o início da noite.
Conferiu no celular o endereço que havia anotado na noite anterior e viu que estava certo. Aquele era o prédio onde Regina trabalhava.
Não foi difícil encontrar, bastou digitar nome e sobrenome da morena e uma enxurrada de informações apareceu na tela do notebook. Como só queria mesmo saber onde ficava o escritório, resolveu não se deixar levar por qualquer outro link, por mais tentador que fosse. Alguns deles só de passar os olhos viu que falavam da vida pessoal de Regina, e exatamente por isso procurou se manter longe deles. Sempre fora muito curiosa, isso não podia negar, mas decidiu que esperaria para saber o que precisasse saber quando e é claro, se Regina quisesse lhe contar. Ao clicar no site da empresa percebeu que o nome não lhe era estranho, e ao puxar na memória lembrou de um caso ou outro no qual teve que lidar com algum advogado de lá.
Ao entrar no prédio se deparou com um hall igualmente elegante, onde algumas pessoas entravam, outras saíam e assim por diante, como era de praxe em qualquer prédio comercial. Olhando ao redor viu um painel com as informações de cada andar, e nele procurou e logo encontrou o que precisava: Dawson & Mills, 32º andar.
Era alto, bem alto.
“Você já saberia disso se tivesse tido a inteligência de pesquisar a droga do andar junto com o resto, gênio.”
Suspirou e foi em direção aos elevadores, onde antes de sequer pensar em apertar o botão um homem saiu e ela pôde entrar, dando graças por não ter sido barrada pelo rapaz na recepção.
Assim que as portas se abriram e ela pisou finalmente no andar certo, quase esbarrou numa moça, mas dessa vez não por sua culpa, e sim da garota que mal conseguia enxergar devido à pilha de papéis que carregava.
Antes que sequer pudesse pensar em dizer algo a desconhecida continuou andando e Emma se viu parada no meio do que parecia ser o escritório de advocacia mais elegante da cidade. Algumas pessoas passavam pra lá e pra cá, outras esperavam sentadas e havia ainda aqueles trabalhando em suas salas, com as persianas abertas. Mas nenhum daqueles rostos lhe pareceu conhecido, nenhuma daquelas pessoas era Regina.
Viu numa mesa mais adiante uma moça digitando algo no computador enquanto também falava no telefone, e logo presumiu que só poderia ser uma secretária ou algo do tipo. Aproximou-se e enquanto esperava pelo término da chamada, leu o nome numa plaquinha discreta em cima da mesa: Jasmine.
– Olá, posso ajudar? – perguntou simpaticamente, ao colocar o telefone no gancho.
– Espero que sim, eu queria falar com Regina Mills, por favor. – pediu.
– Ela está esperando a senhorita?
– Não, não está. – “Muito pelo contrário.”– pensou.
– Bem, nesse caso eu lamento, mas a Srta. Mills só segue a agenda dela, e a dos próximos três dias já está fechada, mas se puder adiantar o assunto eu posso...
– Escuta, Jasmine. – interrompeu, apontando para a plaquinha – Certo? – a moça assentiu – Acho que isso não vai ser preciso, só diz pra ela que Emma Swan está aqui.
– Eu realmente não posso...
– Garanto que não vai te prejudicar em nada, pode confiar.
Se fosse qualquer outra pessoa aquela frase não surtiria o menor efeito, ou pelo menos não tão rápido, mas desde pequena Emma era dotada de um sorriso digamos... Especial, que aprendeu a usar não só para tirá-la de algumas enrascadas como também persuadir pessoas, principalmente mulheres. Héteros inclusas.
– Está bem, só um momento. – disse enquanto pegava o telefone.
– Boa sorte, sister.
Emma virou para ver o dono da voz e deu de cara com um homem de estatura baixa e barba grossa, usando um macacão na cor cinza e carregando o que parecia ser uma caixa de ferramentas.
Seu primeiro impulso foi perguntar se por acaso ela era filha da mãe e/ou pai dele e não sabia, para ser chamada daquele jeito, mas engoliu o comentário e se limitou a dizer:
– Como é?
– Quer fazer o favor de ficar quieto, Leroy?! – Jasmine repreendeu.
– Tem razão, eu já devia ter me acostumado com o esse festival de loiras burras por aqui.
– Escuta aqui, é melhor o senhor se acalmar e ter cuidado com o que fala. – avisou.
– Cuidado você, não sou em quem quer passagem surpresa pro covil da Rainha Má.
– Rainha... – começou a questionar, confusa.
– Leroy! – Jasmine interrompeu – Qual seu problema? Às vezes eu acho que você não quer manter o seu emprego. – voltou a olhar para a loira e abriu um sorriso envergonhado – Me desculpe por isso, ele é só o cara da manutenção.
– E depois ainda quer que eu goste de um trabalho desses? – Leroy resmungou enquanto se afastava – Bando de gente... – e a voz sumiu conforme ele atingiu uma certa distância.
– O cara mal humorado da manutenção, você quer dizer.
Jasmine sorriu.
– Sim, pode apostar. – voltou a pegar o telefone e discou o número um, sendo atendida rapidamente.
– Sim?
– Srta. Mills, sei que sua agenda de hoje está encerrada, mas tem alguém...
– O que eu disse sobre encaixes de última hora? – interrompeu.
– Que estavam completamente fora de questão...? – perguntou, com cuidado.
– Exato, e ainda assim pelo seu tom eu presumo que esteja prestes a sugerir algo do tipo.
– Eu peço desculpas, mas é que ela insistiu e...
– Ela quem? – Regina perguntou impaciente, enquanto revisava um dos casos mais recentes nessa hora livre que tinha antes de ir para casa. Seja lá quem fosse logo trataria de...
– Emma Swan.
E a folha de papel que segurava escorregou de sua mão e caiu sem jeito em cima da pilha bem organizada sob a mesa.
– Swan? Emma Swan? – perguntou quando finalmente conseguiu encontrar sua voz.
– Isso mesmo.
Regina não soube o que fazer durante alguns segundos. Não esperava por aquilo, principalmente não depois da mensagem acidentalmente enviada na noite anterior. Uma parte de si que ela tentava reprimir mais do que tudo queria que de algum jeito a loira não cumprisse o combinado ou que pelo menos ligasse para discutir por ter sido dispensada, mas nem esse desejo diminuiu o choque daquele momento.
Emma estava lá? Mas...
“Ela disse que te encontraria, qual a grande surpresa?” – seu subconsciente zombou.
– Descreva-a!
– O quê? – Jasmine perguntou, confusa.
“O que estou fazendo? Quais as chances de alguém com o mesmo nome aparecer de surpresa e persuadir minha secretária?”
– Esqueça.
– Certo, ah... E o que eu devo fazer? Dispensá-la? – perguntou olhando para a loira que observava o movimento ao redor, distraidamente.
– Não. – respondeu imediatamente, se auto repreendendo internamente pela maneira desesperada que aquilo soou – Não. – repetiu, reformulando o tom – Mande-a entrar.
– Está bem... – acatou, estranhando a exceção que Regina não costumava fazer para... Bem, ninguém. Ao desligar o telefone o gesto atraiu a atenção de Emma, que voltou a olhá-la – Me acompanhe, por favor. – pediu enquanto levantava e saía de trás da mesa.
Emma assentiu e seguiu-a por um pequeno corredor até chegar à última porta.
Para ela não foi bem uma surpresa ver que a sala de Regina ficava numa área mais afastada e com um ar mais VIP do que as outras, afinal, quando viu que a firma de advocacia carregava seu sobrenome logo deduziu que ela só poderia ser uma das donas ou algo assim.
Voltou a si quando a porta abriu e Jasmine fez sinal com a mão para que ela entrasse.
– Aqui está a Srta. Swan. – anunciou.
– Sim, eu posso ver isso, já pode se retirar. – Regina disse sentada em sua cadeira atrás da mesa.
“Delicada como um coice.” Emma pensou sem conseguir conter um pequeno sorriso, porque mesmo que sentisse pena das “vítimas” do gênio da morena, não podia negar que isso a tornava ainda mais interessante.
Ouviu o clique da porta fechando indicando que Jasmine havia saído.
– Por favor, não aja como a estátua que você não é. – Regina alfinetou, referindo-se ao fato da loira não ter movido um músculo desde os poucos passos que deu para dentro da sala.
– É que demora um pouco pra absorver tanta informação. – rebateu quando finalmente saiu da posição em que estava e parou em frente à mesa – Deve estar se perguntando o que eu estou fazendo aqui depois daquela mensagem.
– Então você leu? – perguntou, e Emma assentiu – E ainda assim está aqui.
– Só porque sei que você não quis enviar de verdade. – disse enquanto andava pelo meio da sala, olhando os quadros nas paredes, perdendo o sorriso sutil que se formou nos lábios de Regina involuntariamente.
– Mesmo? Baseado em quê?
Emma parou e pensou no que Tinker havia dito sobre sua provável morte caso Regina descobrisse o que ela tinha feito, e embora soubesse que mais cedo ou mais tarde ela descobriria, achou melhor não contar no momento.
– Intuição. – mentiu.
– Intuição? – perguntou, sentindo que a loira estava escondendo algo.
– Sim, e pelo visto ela estava certa porque eu estou aqui agora e você não parece irritada com isso.
– Devo admitir que sua confiança me surpreende às vezes. – comentou ao levantar.
– Só às vezes? – sorriu.
– O que você quer, Emma? – apoiou as mãos na mesa de vidro e sentiu seu coração acelerar enquanto esperava a resposta.
– Acho que você já sabe.
Regina respirou fundo e endireitou a postura, saiu de trás da mesa e passou por Emma sem dizer uma palavra. Chegou à porta onde girou a pequena chave na fechadura, trancando-a. Ato esse que nem se quisesse teria passado despercebido, já que a loira observava atentamente cada gesto seu.
– Bem, ao contrário de você eu não tenho o hábito de seguir meus instintos como um cão de caça, então agradeceria se fosse mais clara.
– E eu agradeceria se... – começou enquanto sentava no sofá, mas parou ao sentiu seu corpo afundar na maciez do couro de boa qualidade – Caramba, é como sentar nas nuvens. – comentou em apreciação ao se recostar, e só percebeu que tinha fechado os olhos quando precisou abri-los ao ouvir a voz de Regina.
– Está confortável? – perguntou parada em frente, de braços cruzados, num misto de divertimento e ironia.
Emma apenas murmurou algo desconexo e assentiu, um pouco distraída, afinal, mesmo que ainda não estivesse trabalhando em um caso que se preze desde o retorno do SPA, isso não significava que seus fossem menos cansativos, e aquele sofá parecia implorar por ela.
– Vejo que encontrou o motivo dessa visita.
– É temporário já que o original não consegue parar de retrucar tudo o que eu digo.
– O quê nos leva de volta ao meu pedido, então novamente: o que quer?
– Tudo bem... – ajeitou a postura – Vim fazer um convite.
– Convite? – e lá estava o coração acelerado outra vez, se é que ele sequer tivesse diminuído o ritmo nos últimos minutos de fato – Eu não sei o quê...
– Não. – interrompeu.
– Não o quê?
– Essa coisa que você faz de não saber se pode, se vai, se não vai.
– Eu não...
– Viu? Já ia fazendo de novo.
– Eu agradeceria se parasse de me interromper!
– E eu se parasse de me contrariar, mas acho que nenhuma de nós vai ter o que quer tão cedo, certo?
Regina suspirou e passou a mão pelo cabelo.
– Disse que queria fazer um convite, pois faça.
– Eu esperava um pouco mais animação de alguém que se tranca dentro de uma sala comigo, mas tudo bem. – brincou, fazendo-a perder a fala por alguns instantes.
– Aquilo não foi intencional. – mas sua voz falhou um pouco e a julgar pelo aumento do sorriso de Emma ela soube que o pequeno deslize não passou batido, só que anos e mais anos da mesma atitude não são tão fáceis de abandonar assim – Acabe de uma vez com esse suspense ridículo.
– Ótimo incentivo. – ironizou.
Regina desviou o olhar por um momento, tentando encontrar algo para manter o ritmo da conversa. Não gostava de sentir vulnerável diante de ninguém, e era exatamente isso o que Emma lhe causava, querendo ou não.
Ao virar se deparou com a mão da loira estendida em sua direção, em forma de convite, e ao arquear a sobrancelha questionando em silêncio aquela atitude, tudo o que ganhou foi um sorriso e os dedos balançando para dar ênfase à intenção.
Após um breve segundo de hesitação, colocou sua mão sob a de Emma, que logo a conduziu delicadamente ao espaço ao seu lado no sofá.
– Olha... – começou – Eu tive um dia chato pra caramba e pelo jeito que você falou aqueles dias eu aposto que as coisas não são muito diferentes por aqui, então que tal parar com o bate-bate verbal e ir direto ao ponto?
– Acho que essa é a coisa mais inteligente que você disse desde que chegou.
Emma riu.
– Ok, já vi que não tem jeito. – disse ainda sorrindo, inconscientemente acariciando o dorso da mão da morena com o polegar, e deixou o silêncio se estabelecer durante alguns instantes, até enfim o quebrar – Janta comigo?
Regina que até então estava focada no padrão que o dedo de Emma fazia em sua pele, ergueu o olhar.
– Jantar? – perguntou no tom mais firme que conseguiu – Um... – parou para umedecer os lábios com a língua – Um encontro?
“Não, depois dos beijos e toda essa tensão sexual ela está te convidando porque quer jogar xadrez. Por favor.”
– É, eu acho que sim. – respondeu sorrindo – Ou melhor... Sim, um encontro. – completou tentando transmitir mais confiança, mas logo sentiu necessidade de continuar falando – Vai me dizer que você não vai a encontros? Ou que não esperava por isso? Porque se for, sinceramente eu não sei o que...
– Não é isso. – Regina interrompeu dessa vez.
– Então o que é?
Regina mal registrou a pergunta de tão compenetrada que estava em seus próprios pensamentos, analisando os prós e os contras de toda aquela situação, numa tentativa de como sempre racionalizar tudo ao seu redor.
– Não é nenhuma intimação, sabe? Você pode dizer não se quiser, não tem problema. – Emma disse, interpretando a hesitação de forma negativa e lentamente soltando a mão de Regina e desviando o olhar para frente, porque aquela era uma mentira deslavada. Claro que haveria problema se ela recusasse, isso era mais do que óbvio, e não simplesmente porque seu orgulho seria ferido, mas também porque ela se importava. Sem entender com clareza ainda, mas se importava.
– Bem... Eu acho que posso encontrar uma brecha nos meus... Horários. – disse, enfim.
– Esse é o seu jeito de aceitar? – perguntou.
– Algum problema?
– Não, quer dizer... Não estou pedindo por fogos de artifício, mas um simples sim não faria mal a ninguém. – disse voltando a se recostar no sofá e encarar o teto.
– Sim. – a voz de Regina rompeu o curto silêncio, em tom alto e claro, fazendo com que Emma voltasse a olhá-la imediatamente.
– Sério? – retomou a postura ereta – Certo, pergunta idiota... Ah, então... Ótimo! – sorriu – Eu... – e a fala sumiu sem dar sinais de retorno.
“Você queria um sim ela te deu um sim, agora tenta não agir como uma perfeita idiota se não for pedir demais.”
– Problemas para falar, querida? – provocou sorrindo e ajeitando a barra da saia que havia subido um pouco. Gesto esse que ganhou a atenção de Emma quase que no mesmo segundo, fazendo-a imaginar o que estaria por debaixo daquela... – Meu rosto fica aqui em cima. – Regina chamou, sem conseguir conter o sorriso pelo jeito meio hipnotizado da loira em reação a ela.
– É, eu... – pigarreou quando notou que sua voz estava fraca – Eu sei, é que...
– Deixe-me ver... – interrompeu, fingindo pensar por um instante – Você quer me beijar?
– Parece que alguém está aprendendo a ler meus sinais.
E antes que Regina pudesse pensar numa resposta, sentiu seus lábios firmemente pressionados pelos da loira, no começo de maneira meio desajeitada, mas logo encontraram um ritmo assim como suas mãos encontraram seu lugar uma na outra.
Quando Emma chegou mais perto e encostou seu corpo no dela, Regina sentiu algo duro pressionado contra a lateral de sua coxa, e interrompeu o beijo.
– O que é isso?
– Ah... – Emma seguiu o olhar dela – Minha arma, eu vim do trabalho direto pra cá e esqueci de tirar. – explicou.
– Oh, certo. – “Ela é policial, o que você queria?”.
– Eu vou colocar ela... – vasculhou a sala com os olhos e viu uma mesinha ao lado do sofá com uma luminária em cima – Ali. – apontou – Ok? – perguntou e Regina assentiu, vendo-a retirar a arma do coldre e esticar o corpo sob o sofá para colocá-la no lugar indicado – Pronto, e... – deu uma leve risada ao voltar a olhá-la, como quem acaba de perceber algo – Obrigada.
– Pelo quê? – perguntou confusa.
– Bom, você podia ter feito a velha piada do “tem algo no seu bolso ou você está feliz em me ver?”, mas não fez, e eu agradeço.
– E eu pareço o tipo de mulher que faz um comentário desses? – arqueou a sobrancelha, desafiadoramente.
– Não, mas... Vamos apenas dizer que eu já ouvi muita coisa de muita gente que não parecia ser do tipo que diz essas coisas. – franziu o cenho ao ouvir a própria frase – O que eu quero dizer é que...
– Que ouviu isso muitas vezes?! – completou, em tom de deboche.
– Você nem imagina. – respondeu, perdendo o olhar no tapete no centro da sala – Por alguma razão parece que eu passo a impressão de que me sairia bem com... – parou ao perceber o rumo que aquilo estava tomando – Acho que isso é conversa pra daqui uns dez encontros, provavelmente mais na verdade. – sorriu.
Regina que estava silenciosamente adorando ver a maneira desenfreada com que Emma falava – e que tinha uma leve suspeita de como a frase inacabada terminaria -, percebeu então algo melhor para poder provocá-la.
– Mal conversamos sobre primeiro e já está pensando no décimo? Não acha que está sendo um pouco precipitada?
– Não, não acho. – sorriu presunçosamente, e a morena suspirou.
– Posso ao menos saber aonde iremos?
– Claro, assim que eu souber também. – respondeu, com naturalidade.
– O que? Então você... – parou e respirou fundo antes de continuar – Como pretende fazer isso?
– Você não tem que se preocupar com nada disso, só precisa me dizer quando vai estar livre e o resto é comigo.
Regina piscou algumas vezes tentando assimilar tudo, e enfim conseguiu falar.
– Bem, estamos no meio da semana, então...
– Que tal amanhã? – sugeriu interrompendo-a – Meu trabalho é meio imprevisível então acho melhor não adiar muito porque alguma coisa pode aparecer. – explicou – Só vê qual horário é melhor pra você... – acenou para a mesa perto da janela com vista para a rua, onde estavam os papéis que Regina havia deixado de lado para recebê-la – Eu não quero atrapalhar.
– Depois das sete e meia seria mais conveniente. – disse, tentando fazer parecer que não era grande coisa, atitude essa que não passava despercebida por Emma já fazia algum tempo, e que mesmo a irritando um pouco às vezes, naquele momento só serviu para fazê-la sorrir.
– Está bem, então amanhã eu passo...
– Espere um minuto. – interrompeu ao se dar conta de algo – Me diga que não está pensando em me buscar naquele seu... Carro.
– Ok, eu não digo. – e seu sorriso sumiu ao ver a expressão de desgosto de Regina – O que você tem contra o meu carro? Ele funciona, não é o bastante?
– Nem de longe. – respondeu – Se vamos fazer isso, será com o meu. – afirmou.
– Tudo bem, eu posso dirigir? – perguntou, embora já suspeitasse qual seria a resposta.
– Não. – e ela se confirmou.
– Então não, porque fui eu quem fez o convite, então ou eu levo você ou...
– Ou o quê? – desafiou – Vai cancelar? É isso? Porque se acha que eu... – mas parou de falar ao ver Emma se levantar ao mesmo tempo em que soltava um gemido de frustração.
“Isso parece mais uma guerra do que um convite pra jantar.” – pensou, e apesar daquela conversa testar seus limites ela não conseguia se irritar de verdade, por isso respirou fundo algumas vezes de olhos fechados, e quando os abriu viu Regina encarando-a ainda sentada no mesmo lugar, como se nada tivesse acontecido.
– Vamos ver se eu entendi os fatos: por alguma razão ainda desconhecida por mim, você claramente odeia o meu carro. – começou – E também não vai me deixar dirigir o seu, certo? – perguntou, recebendo um aceno afirmativo – Ótimo, então antes que eu entre em curto circuito aqui, vou sugerir uma última opção. – avisou, calmamente – Que tal se nós só... Nos encontrássemos lá? Você no seu carro, eu no meu e ninguém provoca ninguém até a morte durante o caminho. – sorriu – Pode ser?
– Sim, desde que me diga onde o “lá” fica.
Emma suspirou, aliviada por pelo menos esse obstáculo ter sido superado.
– Ainda estou resolvendo isso, amanhã te aviso por mensagem. – explicou enquanto voltava a se sentar – E sim, será com antecedência, pode relaxar.
– Posso mesmo? Porque sinceramente isso tudo me parece muito... – e ao ver o olhar da loira como se a desafiasse a dizer algo negativo sobre seu “plano”, ela pensou em aceitar e provocá-la um pouco mais, mas após alguns segundos decidiu reformular – Improvisado.
– E é, eu não vou negar, mas... – arrastou a última palavra, fechou o pequeno espaço que havia entre as duas no sofá e lentamente pegou uma mecha do cabelo de Regina e colocou atrás da orelha – Às vezes as coisas improvisadas dão mais certo que as planejadas. – disse sugestivamente – E sim, tudo indica que eu estou fixada em metáforas e filosofias baratas, mas por favor, ignore isso. – brincou, e conseguiu o que queria ao ouvir Regina rir.
– Não posso prometer nada.
– Ok, não é bem uma promessa o que eu quero agora.
– Então o que... – e pela milésima vez teve a fala interrompida por Emma, mais especificamente pelos lábios dela, exigentes e ao mesmo tempo suaves contra os seus, acariciando, pedindo passagem com a língua e logo estavam envolvidas num beijo cheio de desejo. Seu corpo foi deitando aos poucos até sentir sua cabeça encostar no braço sofá e o peso de Emma em cima dela, mas não de maneira desconfortável, e sim num encaixe que naquele momento lhe pareceu “estranhamente” certo.
– Estou amassando sua roupa. – Emma comentou ao afastar o rosto em busca de ar, mas ao notar que Regina não parecia aborrecida e sim um pouco aérea, com o rosto corado e os lábios entreabertos, continuou – Mas acho que você não está ligando muito pra isso no momento, né?
E antes que ela pudesse responder o som do telefone interrompeu o momento, pegando-as de surpresa e fazendo com que se separassem rapidamente.
Regina se apressou e foi atender.
– Sim?... Estou ciente disso, e gostaria que não me interrompesse outra vez. – desligou e olhou para Emma em pé no meio da sala, que arrumava o cabelo e passava a mão ao redor da boca para diminuir os vestígios do batom vermelho deixados por ela, o que a fez perceber que provavelmente precisava fazer o mesmo antes de sair de lá.
– Problemas?
Regina negou com a cabeça.
– Só minha secretária e sua repentina necessidade de me relembrar que estamos quase no fim do expediente. – explicou.
– Certo... Bom, eu vou indo. – pegou a arma de cima da mesinha e devolveu-a ao coldre em sua cintura – Ainda tenho um encontro pra organizar. – sorriu.
– É, acho que tem. – andou até a porta, destrancou-a e voltou a olhar para a loira que se aproximou dela com as mãos no bolso de trás da calça, deixando transparecer certa timidez, por mais estranho que isso pudesse parecer levando em conta a maioria de suas atitudes.
– Vejo você amanhã? – perguntou.
– Acredito que sim. – respondeu segurando-a pela jaqueta, espontaneamente, e ao olhar melhor para a peça teve uma ideia para um último comentário – Só tente não usar isso e eu ficarei grata.
Emma olhou para sua própria jaqueta e franziu o cenho. Ela a tinha comprado com seu primeiro salário e gostou tanto que ao longo dos anos comprou mais três quase idênticas para poder trocar sem ter que ficar sem usar. O vermelho gritante era simplesmente perfeito aos seus olhos.
– Sério? Primeiro meu carro e agora minha jaqueta? – perguntou, embora não estivesse brava de verdade – Mas tudo bem, eu vou atender ao seu desejo, Majestade.
– Isso de novo?
– Quem sabe um dia eu te explico. – deu um selinho rápido nela e se afastou um pouco para deixá-la abrir a porta, e assim que Regina o fez, ela passou devagar – Srta. Mills. – fez graça, acenando com a cabeça.
Regina sorriu.
Chegava a ser desconcertante a facilidade com que Emma conseguia irritá-la e fazê-la sorrir num curto espaço de tempo.
– Srta. Swan. – devolveu, e depois de uma última troca de olhares ela assistiu a loira desaparecer de sua visão e voltou para dentro da sala, fechando a porta em seguida.
Olhou para os papéis em cima da mesa enquanto amenizava as rugas em sua roupa e o estado do cabelo e lábios. Percebeu então que toda sua concentração havia desaparecido e resolveu encerrar o dia e levar a papelada para casa, não seria a primeira vez, mas com certeza seria a primeira que fazia isso por um motivo que andava, falava, e parecia ter um talento especial para tirá-la dos “trilhos” em que vivia há tantos anos.
Embora ela não tivesse usado tal metáfora naquele momento pelo simples fato de insistir na ideia de aquilo não era nada de mais.
Fale com o autor