Notas iniciais
Oi, liguei o pc rapidinho só pra postar antes de me enrolar mais ainda. Vocês tem sido tão incríveis nos comentários e eu ainda nem consegui responder os do último capítulo (mas vou, prometo), e isso tudo só me deixa ainda mais culpada pela demora, logo agora que tava feliz por conseguir postar um certo número de vezes dentro do combinado :( Deixo já avisado que esse capítulo é o meu bebê, eu editei ele até não poder mais e quase fiquei doida, espero realmente que gostem. Sorry por qualquer erro, de tanto mexer posso ter misturado uma frase ou duas, nada que atrapalhe mto eu espero. *Leiam as notas finais...* Enjoy!

Emma andou pelo jardim perdida em pensamentos até chegar na piscina, retirou as botas e sentou na borda, colocando os pés na água.

Ainda podia sentir o toque suave da pele de Regina, e olha que tinha apenas segurado a mão dela, e aquela boca...

Deus, o que era aquilo?!

A mulher por si só era um espetáculo, isso a loira nunca duvidou, então seria normal sentir atração por ela, certo?

Seria completamente aceitável querer beijá-la, tocá-la e...

“Foco Emma, caramba.”

Mas aquilo não era só atração e no fundo ela sabia disso.

Seu coração nunca bateu tão rápido e tão forte por uma simples resposta física a um corpo bonito, mesmo que bonito não chegasse nem perto da definição perfeita.

A coisa toda ia muito além, e era isso o que a assustava.

– Dá pra te ouvir pensando de longe, loira. – disse Ruby enquanto tirava os próprios sapatos e sentava ao lado dela, imitando sua posição.

– Foi mal, vou tentar abaixar o volume. – sorriu – Fiquei que você tinha saído, está tudo bem?

– Sim, eu fui até o banco resolver umas coisas. Te contei que minha avó e eu estamos planejando abrir um restaurante na cidade?

– Não.

– A gente já tem o lugar perfeito e o dinheiro pra reforma, só falta ajeitar os últimos detalhes pra conseguir o empréstimo e poder comprar.

– Poxa, isso é muito bacana Ruby! – disse animada – Eu tô torcendo por vocês.

– Claro né, tá achando que vai comer de graça. – brincou.

– Não sei do que você tá falando.

– Aham... Mas e aí, o que estava ocupando essa cabecinha antes de eu chegar?

– Nada.

– Ah, por favor, você sabe mentir melhor que isso, Emma.

– Eu... – resolveu falar de uma vez, afinal àquela hora Mary já estaria dormindo e ela precisava desabafar, mesmo que não admitisse – Você estava certa.

– Sobre o que?

– Regina.

No mesmo instante Ruby abriu um sorriso convencido e malicioso.

– O que aconteceu? Você beijou ela? Não, espera, ela te beijou?!

– Ninguém beijou ninguém. – explicou.

– Então vai ver esse é que é o problema né?!

– Não, quer dizer, não sei... Eu... Eu gosto dela. – admitiu.

– Sim, eu percebi, por isso tem que...

– Não, Ruby. – interrompeu – Eu realmente gosto dela. – repetiu.

– Bom, então é ainda melhor.

– Você acha? Porque eu já posso ver a placa gigante me mandando correr na direção contrária.

– Ignora ela. – sorriu – Sei que todo esse papo de seguir o coração já tá muito usado, mas é o que eu sempre fiz e ainda faço.

– E você não tem medo de se machucar?

– Claro que tenho, mas todo mundo se machuca de um jeito ou de outro, não é pulando os obstáculos que a gente se livra disso.

– E as metáforas continuam me perseguindo. – murmurou.

– O que?

– Nada, é só que... Eu a conheço não faz nem uma semana.

– E daí? Vai me dizer que nunca ficou com mulheres que conhecia há menos tempo ainda?

– Isso é diferente, eu não sei explicar direito, mas é.

– Nesse caso então... – colocou alguns fios de cabelo da loira atrás da orelha – Não deixa escapar.

Emma abriu um sorriso que logo foi refletido nos lábios de Ruby.

– Até que você é boa conselheira quando não está sendo maliciosa. Obrigada.

– Tô aqui pra isso, mas agora vou dar o fora antes que alguém me veja. — levantou. Vai ficar?

– Sim, Regina disse que voltava pra me encontrar.

– Ok, e pensa no que eu falei, hein? – disse se afastando com os sapatos nas mãos.

– Pode deixar. – acenou e voltou a encarar a água da piscina.

Depois de pensar por mais alguns minutos resolveu seguir sua tão conhecida impulsividade e falar com Regina quando ela voltasse.

“O pior que pode acontecer é ela dizer não... E provavelmente rir da sua cara, mas é melhor correr o risco do que surtar com esses monólogos internos.” – suspirou “Eu vou fazer isso, eu posso fazer isso.”.

Ficou repetindo isso para si mesma até olhar no relógio e se dar conta de que sua companhia desejada não viria. Levantou e caminhou até a entrada do SPA segurando as botas, as calçou quando chegou na porta e entrou decidida a resolver esse assunto de uma vez por todas, afinal não estava ali para passar nervoso. E com aquilo nenhuma massagem terapêutica poderia ajudar.

–------------- SQ ---------------

Durante sua juventude Regina sempre se policiava ao beber pra não exceder os limites e acordar depois com a memória parecendo um queijo suíço cheio de lacunas, mas ainda assim não conseguia escapar da dor de cabeça chatinha que durava algumas horas, e naquele dia não foi diferente.

Ela acordou por conta própria, aos poucos, e ao sentir sua cabeça pesar e um gosto amargo lhe subir à boca lembrou imediatamente de suas várias doses de whisky para inibir o que estava sentindo na noite anterior.

Nunca gostou de procurar consolo na bebida porque sabia que era apenas uma solução temporária.

Quando Daniel morreu ela passou mais de um mês fazendo todo dia a mesma coisa: esperava Henry dormir e bebia até não lembrar o próprio nome, mas quando amanhecia a dor sempre voltava com mais força. Demorou um pouco, mas ela entendeu que aquele não era o caminho certo.

A claridade que entrava no quarto atacou seus olhos mesmo ainda fechados, sentou na cama e afundou o rosto nas mãos, soltando um gemido frustrado.

Enquanto “curtia” o atual estado em que estava ouviu o barulho da porta abrindo e levantou a cabeça, abriu os olhos e piscou até que a imagem entrasse em foco.

E ali estava ela, Emma, com uma postura hesitante e um sorriso ameaçando se formar, o que só serviu para aumentar a carranca de Regina.

– O que está fazendo aqui?

– Vim te acordar. – explicou – As pessoas já estão começando a ir embora, eu não sabia se as suas malas já estavam prontas e imaginei que não ia querer se atrasar.

Apertou o lençol em volta do corpo e só aí notou que usava sua roupa normal e não a camisola.

– Como entrou aqui? – passou a mão nos cabelos tentando parecer o mais apresentável possível.

– É que eu não tranquei a porta quando saí ontem. – ao perceber a confusão no rosto da morena, continuou – Do que exatamente você lembra?

– Bem... – umedeceu os lábios com a língua – Lembro de vê-la aqui e de termos conversado, se é isso o que você quer saber, e então deitei e...

– E...?

– Nada.

– Nada? – e a decepção não foi perdida por Regina.

– Sim, por quê? Há algo mais que eu deveria lembrar?

– Não, não é isso... Quer que eu pegue uma aspirina ou algo? – mudou de assunto.

– Eu ficarei bem, agora se não se importa... – apontou para a saída.

– Claro... – parou no limiar da porta e voltou a olhar para dentro – Será que depois a gente pode conversar?

Ela assentiu e assim que a porta fechou e se viu novamente sozinha deu um longe suspiro e levantou da cama. Tomou um bom banho relaxante, ao sair tomou um comprimido para aliviar a dor de cabeça, secou os cabelos e trocou de roupa.

Quando pegou a primeira mala para arrumar uma mensagem no celular chamou sua atenção.

T: Skype, agora!

Pensou em argumentar ou adiar, afinal estava com pressa, mas poderia ser algo com Henry e seu instinto materno falou mais alto.

Pegou o notebook de cima da outra cômoda e logo abriu o programa, fez a chamada e em alguns segundos Tinker apareceu na tela, pelo fundo parecia estar na cozinha da casa.

– O que aconteceu? Henry está bem?

– Sim, fica calma, ele está dormindo.

– Ainda?

– É sábado Regina, eu mesma disse pra ele aproveitar as últimas horinhas de folga antes do sargento voltar pra base.

– Fico muito feliz em saber a imagem que passa de mim quando não estou por perto.

– Ah, mas eu passo quando você está também. – brincou – Mas e aí, não esqueceu nada?

– Como o que?

– Como uma ligação que foi confirmada dez vezes graças a sua paranoia e que no final das contas não aconteceu.

– Bem, eu tive um imprevisto e a culpa é sua.

– Minha? O que eu fiz agora?

– Veio com aquela metáfora barata sobre descer do salto e... – suspirou – Por favor, me lembre de não seguir seus conselhos novamente.

– Por quê? O que aconteceu?

– Aconteceu que eu fiz o que você disse, até cheguei a pensar que... Bem, não importa.

– Como assim não... O que você não está me contando? – sem resposta – Regina!

– Eu a vi na piscina com alguém ontem. – contou.

– Emma? – a morena assentiu – O que estavam fazendo?

– Conversando, mas...

– E ela sabe que você viu isso? – interrompeu.

– Não, eu saí de lá antes que ela me visse, provavelmente não faz ideia do por que de eu não ter aparecido.

– Então vocês tinham combinado de se encontrar? E como é que você me esconde uma coisa dessas?!

– Pra evitar esse tipo de reação, não é óbvio?! Além de que claramente seria perda de tempo, ela parecia muito bem com...

– Opa, parou. – interrompeu de novo – Até onde você sabe era só uma conversa, então não surta, ou melhor, surta sim, talvez assim acorde pra vida.

– De qualquer maneira daqui a pouco estou saindo daqui e nada disso vai importar.

– Será?

– Será o que?

– Deixa pra lá, vai arrumar suas malas que eu sei que você precisa, qualquer coisa me liga, tchau. – jogou um beijo e desconectou a chamada, sem deixar chance para protestos.

Regina suspirou e se concentrou na bagagem que não ia se arrumar sozinha.

–-------------- SQ ---------------

– Quer uma ajuda aí? – Emma perguntou assim que viu a morena chegar ao jardim carregando três malas.

– Não, se quisesse teria pedido a algum funcionário. – na verdade ela via na dificuldade de se revezar entre as malas uma forma de manter a mente ocupada, “você só precisa sair desse lugar, Regina” repetia para si mesma – O que ainda está fazendo aqui, Srta. Swan?

– Estava esperando pra falar com você.

– Agora não é um bom momento. – tentou passar, mas a loira bloqueou a passagem com o corpo, fazendo com que a raiva que fora camuflada pela bebida na noite passada voltasse a correr por suas veias.

– E quando será?

– Eu não sei, por que não pergunta pra sua amiga garçonete?

– Você cismou com ela, que coisa. Ruby não está aqui e é com você que eu quero falar.

– Não parecia ter a mesma opinião ontem à noite, na piscina. – a frase praticamente jorrou pelos lábios antes que ela pudesse pensar.

– Espera, você acha que... Nós não...

Mas Emma não teve tempo de explicar porque logo um aglomerado de pessoas começou a se formar no portão principal do SPA chamando a atenção de quem ainda circulava por lá. Vários carros entravam e os motoristas que estacionavam e desciam pareciam muito irritados.

As duas estavam a uma boa distância, por isso não conseguiam ouvir do que se tratava toda aquela confusão, mas viram quando o diretor do lugar saiu praticamente correndo de encontro às pessoas, tentando acalmá-las.

– Os novos hóspedes não deveriam chegar só na segunda? – a loira perguntou, franzindo a testa.

– Sim, aqueles são os que acabaram de sair eu suponho, aliás, como pôde não reconhecer seu namorado? – apontou para George que discutia e gesticulava com algumas outras pessoas, e sorriu maldosamente quando viu a expressão de desagrado de Emma.

– Tenta não dizer isso perto dele, afinal graças a sua brilhante ideia ele pensa que você é que é minha namorada. – rebateu.

– Minha brilhante ideia te tirou de uma saia justa! – exclamou.

– Até parec...

E outra vez foram interrompidas quando uma senhora usando um casaco de pele chamativo começou a gritar com o diretor, e quando ela tentou partir pra cima dele Swan suspirou e endireitou a postura.

– Lá vou eu. – murmurou e saiu a passos largos em direção ao tumulto.

– O que você vai fazer? – Regina perguntou seguindo-a e carregando as malas ao mesmo tempo.

– Lembra quando eu disse que tinha dado off no modo policial? Pois bem, acho que acabei de dar on de novo. – disse ainda andando.

– Você não está entendendo, seu inútil, eu tenho uma festa importante para organizar, não posso ficar aqui parada! – a mulher gritava.

“Pra uma madame eu não vejo muita classe agora.”

– Sra. Rizz, por favor, acalme-se.

– Não, acalme-se você que tem tempo pra isso já que está com a conta bancária recheada com o meu dinheiro! Eu quero que resolva isso!

– Estou fazendo tudo o que posso, já mandei um dos meus funcionários de confiança até lá para verificar, ele conhece a polícia local e logo iremos...

– Isso pode levar horas! Eu não tenho... – e levou a mão até o colarinho do homem.

– Com licença, o que está acontecendo aqui? – Emma perguntou, ao se aproximar.

– Srta. Swan – ele sorriu como tudo estivesse normal – Parece que há um pequeno problema com... – tentou explicar, mas foi interrompido.

– Cale a boca! – e voltou o olhar para a loira – E você mocinha, se quiser saber o que houve pegue seu carro e descubra!

– Senhora, eu vou ter que pedir que se acalme. – disse, tentando ao máximo evitar que aquilo ficasse maior do que já estava, com todos em volta olhando.

– Não vai me pedir nada, só porque lhe cumprimentei vez ou outra isso não nos faz íntimas, quem você pensa que é? – soltou o colarinho do homem e quando virou furiosa para Emma deu de cara com um distintivo brilhando em sua direção.

– Policia de Nova Iorque, e a senhora, quem é? – ela até que tentou não demonstrar o quanto curtiu aquele momento, mas não deu muito certo, e ao notar o choque no rosto da mulher, continuou – Qual seu nome?

– Martha Rizz. – respondeu num tom mais brando.

– Ótimo. – sorriu e deu alguns passos para trás pra que todos pudessem vê-la melhor – Agora será que alguém pode me dizer o que diabos está acontecendo? – e o tumulto ameaçou reiniciar – Você. – apontou para uma moça jovem que parecia estar mais calma do que o resto – Pode falar.

– A estrada principal está bloqueada, nós só podemos ir até o começo com nossos carros, há várias viaturas e os policiais nos mandaram voltar, mas se recusaram a dizer o motivo. – explicou.

– Havia algum buraco ou qualquer outra coisa suspeita?

– Não, nada que pudesse ser visto de onde estávamos.

– Ok, obrigada. – virou para o diretor – Eu ouvi dizer que mandou um dos seus funcionários pra lá, isso está certo?

– Sim, mas ele acabou de me mandar uma mensagem dizendo que foi barrado também e quase preso ao tentar argumentar. – sussurrou – Desculpe, eu não li sua ficha por inteiro, não sabia que era...

– Está tudo bem. – tranquilizou em voz baixa – Eu poderia ver o que consigo indo até lá, mas pelo visto tem muita gente esquentadinha por aqui. – acenou discretamente na direção da madame do casaco de pele – Então vou ver o que posso fazer daqui mesmo.

– Isso seria ótimo.

Retirou o celular do bolso e tomou certa distância enquanto digitava os números, não demorou muito e foi atendida.

– Hey Emma! – a voz de David soou do outro lado.

– Oi.

– Você está voltando? – perguntou animado.

– Eu achei que estivesse, mas agora já não tenho tanta certeza.

– Por quê? O que aconteceu?

– Preciso de uma informação, você sabe se houve algum problema aqui pro lado onde eu estou?

– Eu ouvi sobre um chamado no interior, mas não sei direito o que era, por quê? Qual o problema?

– Pelo que parece a estrada que liga o SPA com a cidade foi bloqueada, está lotada de viaturas e ninguém explica nada, só manda as pessoas de volta e bom... Vamos dizer que a coisa tá meio complicada.

– Vou ver o que consigo aqui, daqui a pouco retorno.

– Tá bom.

Desligou e olhou em volta para as pessoas agitadas na entrada do SPA.

– Emma? – Ruby chamou – O que aconteceu? Por que está todo mundo voltando?

– Eu não sei direito ainda, parece que foi alguma coisa com a estrada.

– Entendi... Mas ei, você falou com a toda poderosa?

– Não, ontem quando eu subi ela tava meio bêbada então achei melhor deixar pra hoje, só que...

– Só que o que?

– Eu acho que ela viu a gente na piscina e talvez esteja pensando...

– Ai caramba. – interrompeu – Você tem que resolver isso, eu não quero perder meu emprego.

– E você não vai, relaxa, ela não vai fazer nada.

– Sério? Então por que eu sinto como ela tivesse me incinerando com os olhos? – acenou com a cabeça na direção da morena que mal piscava de tão concentrada nas duas, falhando completamente na tentativa de disfarçar.

– Eu vou dar um jeito nisso.

– Ok, e eu vou voltar lá pra dentro antes que o ciclope versão feminina ali me transforme em pó. – e saiu deixando a loira cismada.

Regina não faria nada, certo?

–-------------- SQ ---------------

Ver Ruby falando com Emma foi o mesmo que jogar gasolina num lugar e acender o fósforo, e quando acenou em sua direção foi como atear fogo.

Estaria a garçonete falando dela? Mas o que?

Só que a resposta não foi necessária já que a simples pergunta foi motivo o bastante para sua próxima atitude.

– Tem um minuto, Sr. Monteir? – chamou o diretor do SPA que virou para ela.

– Claro Srta. Mills, algum problema?

– Sim, mas creio que esse seja bem simples de resolver.

– Prossiga. –incentivou.

– Eu presumo que preze pelo profissionalismo de seus funcionários, estou certa?

– Mas é claro, todo são muito bem instruídos de acordo com suas funções. A senhorita tem alguma queixa?

– Tenho, mas não foi comigo, na verdade vi uma das garçonetes na beira da piscina ontem à noite. Ela me parecia estar incomodando uma hóspede, sem mencionar o fato de estar numa área a qual não deveria frequentar.

– Saberia me dizer o nome dela?

– Ruby ou algo assim.

– Lamento o desconforto que isso lhe causou, mas fique tranquila que tomarei providências, só gostaria de resolver esse tumulto primeiro.

– Eu entendo. – sorriu falsamente e ao ver o homem voltar para perto dos hóspedes ainda revoltados mudou novamente o foco para Emma, que agora estava sozinha e falava no celular.

“Eu não seria eu se não fizesse alguém perder o emprego.”

–-------------- SQ ---------------

Emma desligou o celular.

David tinha retornado explicando o ocorrido, aparentemente um caminhão com carga química havia tombado na estrada de manhã bem cedo, e a pista precisou ser interditada. Ela pediu para ser informada no instante em que tudo fosse resolvido, pra poder tranquilizar as pessoas, e ele garantiu que falaria com alguém envolvido no caso e passaria o número dela para contato imediato.

– E então? – o diretor perguntou em voz baixa quando ela se aproximou.

– Eu não quero ter que explicar duas vezes, então só preciso que o senhor saiba que provavelmente vai ter que abrigar essas pessoas até tudo se ajeitar, está de acordo com isso?

– Está falando sério?

– Sim.

– Bem... – olhou em volta e depois para ela – Eu tenho outra escolha?

– Só se quiser arrumar mais confusão, e eu não sei se vou poder ajudá-lo com outra madame enfurecida. – vendo a hesitação do homem, continuou – Pense nisso como um ponto positivo, o SPA será conhecido por ter acolhido os hóspedes depois do período remunerado quando um imprevisto surgiu. Ganhará ótimas recomendações.

Um sorriso movido à ambição se formou nos lábios dele.

– Tem razão, isso pode ser bom.

– Claro, agora poderia me dizer se estão todos aqui?

– De acordo com a contagem sim.

– E quanto aos funcionários? Acho que eles merecem saber da mudança na carga horária.

– Posso comunicá-los depois, minha prioridade no momento é o bem estar dos meus hóspedes.

“Sim, e eu sou o coelhinho da páscoa.”

– Está bem. – se posicionou na frente das pessoas – Com licença. – chamou, mas continuavam conversando – Com licença! – aumentou o tom, mas nada, então levou os indicadores até os lábios e produziu um assovio, imediatamente ganhando a atenção de todos – Finalmente! – exclamou – Eu vou explicar e depois se alguém tiver alguma pergunta pode fazer, ok? – alguns assentiram outro disseram “sim” e ela continuou – Um caminhão com carga química tombou hoje cedo, por isso a estrada foi interditada. Ainda não sabem a extensão dos danos, mas por enquanto o asfalto ainda não pode ser liberado pro uso, então teremos que ficar aqui até que tudo se resolva.

– Está dizendo que estamos presos aqui? – um homem perguntou.

– É por aí. – respondeu.

– Mas eu tenho compromissos! – reclamou uma mulher.

– Eu imagino, todos nós temos, mas não há nada que se possa fazer. Eu...

– Tem que dar um jeito nisso! – outra interrompeu Você é a da polícia, não é? Não tem ninguém com quem possa falar pra acelerar as coisas?

– Infelizmente não, o máximo que posso fazer é garantir que serei a primeira a saber quando a estrada for liberada, e assim que souber aviso vocês. – garantiu.

E todo o tumulto se reiniciou, algumas pessoas discutiam entre si, outras faziam ligações, e ainda havia aqueles poucos que aceitavam o ocorrido e se acalmavam.

Mas Emma quis se ver livre daquela balbúrdia.

– Escutem! – chamou, e diferente de antes todos se calaram logo na primeira vez – Eu vim aqui pra descansar assim como todos vocês, e também planejava ir pra casa hoje, mas não vai dar, ok?! Vocês tem todo o direito de ficarem revoltados, só que eu já fiz a minha parte. Se é uma droga? Sim é, mas não tem outro jeito. Então a partir de agora quem tiver qualquer outra duvida, e eu digo duvida, não chilique. – olhou para a senhora do casaco de pele – Ficarei mais do que feliz em esclarecer, fora isso sugiro que vocês tomem suas próprias providências como avisar suas famílias ou que quer que seja.

Enfim as pessoas pareceram aceitar e aos poucos foram dispersando.

– Então essa é a sua versão profissional? – a voz de Regina soou logo atrás da loira e ela virou para olhá-la.

– Sexy demais pra você? – provocou.

– Nada que eu não possa resistir. – rebateu e então assumiu uma expressão preocupada – Quão grave é tudo isso? Há alguma previsão?

– Não, nenhuma. Só podemos esperar.

– E se você for até lá? Não conseguiria mais informações?

– Pode até ser, mas precisa ter alguém aqui pra impor um pouco de respeito.

– E acha que consegue fazer isso? – arqueou uma sobrancelha.

– Com licença, você estava aqui nos últimos cinco minutos?! – olhou para a bagagem que a morena ainda mantinha perto de si – Precisa levar isso de volta pro quarto.

– Obrigada por apontar o óbvio.

Ignorando o comentário Emma começou a olhar em volta.

– Ei, você! – chamou um funcionário que logo se aproximou – Poderia levar as malas da Srta. Mills de volta ao quarto dela, por favor? – pediu.

– Claro. – sorriu – Qual o número e andar?

– Por que não pergunta isso na recepção? Afinal já tem o meu nome. – respondeu severamente.

– Custa responder a pergunta? – a loira interferiu.

– Quarto quarenta e três, terceiro andar. – respondeu impaciente, entregou a mala que estava em sua mão e saiu de perto para que ele pegasse as outras – Pegue a chave reserva na recepção. – ele assentiu e saiu carregando as malas – E tenha cuidado com isso! – virou para olhar para Emma que tinha um sorriso nos lábios – O que?

– Você não desce do salto, né?!

Uma simples frase inofensiva aos ouvidos da loira, mas que atingiram Regina fazendo-a se lembrar do conselho de Tinker, e do que aconteceu quando tentou continuar seguindo ele, trazendo à memória as mãos de Ruby mexendo no cabelo de Emma, e sua expressão ganhou um misto de raiva e mágoa.

– Acredite em mim, eu tentei. – passou por ela, mas não conseguiu dar mais do que cinco passos pois logo sentiu uma mão segurando seu braço, e um par de olhos verdes que pareciam penetrar sua alma.

– Espera, eu preciso te falar uma coisa.

– Seja lá o que for Srta. Swan, acredito que possa esperar.

– Eu não sei não, você é meio instável então não dá pra saber quando vai ser a próxima vez que vai me ignorar. – quando viu um argumento pronto a sair, se apressou – É sobre a Ruby, sobre o que você viu ontem... Ou o que acha que viu.

– A única coisa que eu acho é que se planejava mesmo que ninguém soubesse poderia ter sido mais inteligente e escolher outro lugar para... Para... O que quer que estavam fazendo.

– Nós não estávamos fazendo nada! – afirmou – Ela é hétero.

– O que?

– Hétero, você sabe... Não joga no meu time, não brinca no meu playground, não...

– Pode parar com as metáforas. – interrompeu – Só não me culpe por não acreditar.

– Mas é verdade, ok?! Ela estava... – engoliu em seco – Ela estava me ajudando.

– Mesmo? Com o que? – perguntou, em tom de desafio.

– Antes de dizer eu quero deixar isso bem claro, porque ela estava com medo de que você a denunciasse ou algo do tipo. – sorriu como se a ideia fosse absurda, mas ao ver Regina perder a pose por alguns segundos ela percebeu que talvez não era tão absurda assim – Você não fez isso, fez?

– O que você queria? Eu vi uma funcionária não respeitar os limites, então...

– O que? Faz ela perder o emprego? – interrompeu – Foi um mal entendido, nós estávamos conversando, Regina!

– Não me...

– Sim, eu te chamei de Regina, encare isso: Regina, Regina, Regina! – zombou – Agora se me dá licença preciso arrumar a sua bagunça. – virou e começou a andar em direção ao hall de entrada.

– Quem pensa que é pra falar comigo dessa maneira? – esbravejou, seguindo-a – Foi você quem se esqueceu de que eu voltaria pra encontrá-la e não perdeu tempo pra arrumar companhia. Que assunto poderia ser tão importante ao ponto de não poder...

– Você! – Emma virou rapidamente, fazendo com que seus corpos quase se chocassem, mas o reflexo da morena a fez dar um passo para trás – O assunto era você!

– Como...? Eu? – franziu a testa.

– É, você. – abaixou o tom de voz – Você mexeu com a minha cabeça, ok? E a Ruby me viu lá sozinha e foi falar comigo, ela me encorajou a... – mas não terminou.

– A o que? – perguntou, sem conseguir esconder a ansiedade.

– Não importa, ela está prestes a perder o emprego por causa disso.

– Eu...

– Não, tudo bem, eu dou um jeito nisso. – e saiu.

–-------------- SQ ---------------

Regina nunca foi mulher de se arrepender de uma decisão tomada, e nas raras vezes em que isso acontecia ela sabia muito bem como contornar a situação, mas não naquele momento.

“Você mexeu com a minha cabeça, ok?” Essa frase ecoou pelas “paredes” de seu subconsciente e num ímpeto saiu apressadamente para reparar um erro que em outro tempos não se daria ao trabalho de considerar como tal.

Encontrou Ruby no exato momento em que entrava no escritório do diretor e conseguiu inventar uma desculpa dizendo que havia cometido um engano por não estar muito bem na noite anterior, e após uma leve reprimenda pelo transtorno – a qual teve que se esforçar muito para não rebater com coisa muito pior – ela também saiu, mas ao fechar a porta e virar viu a garçonete encostada na parede do corredor, esperando-a.

– Emma sabe que fez isso? – perguntou, mas não esperou a resposta – Foi por ela, não foi? Aposto que descobriu e ficou brava.

– Deve adorar saber que ela se importa tanto assim com a sua pessoa.

– O que eu posso dizer? Sim, me deixa feliz saber que minha amiga não quer ferrar comigo, porque é isso o que nós somos, amigas.

– Eu pareço me importar?

– Parece, e muito. Caso contrário não teria me dedurado.

– Ouça garota...

– Eu não sou nenhuma garota Srta. Mills, mas tudo bem, só me responde uma coisa: gosta dela?

– Estou começando a me arrepender de ter interrompido sua quase demissão.

– Acho que isso responde minha pergunta. – sorriu presunçosamente – Mas pensando bem não tem com o que se preocupar. Continue não fazendo nada que em breve quando toda essa confusão acabar e ela for embora tenho certeza de que não vai vê-la, tipo... Nunca mais. – finalizou – Agora se me der licença preciso ajudar com os cardápios extras, tenha um bom dia. – saiu.

“Não deixe ela entrar na sua mente.”

– Droga. – murmurou para si mesma e saiu rumo ao jardim, em busca de ar.

–-------------- SQ ---------------

Estava sentada num dos bancos do jardim, presa num redemoinho de pensamentos e duvidas, até que se lembrou de que precisava ligar para Tinker e avisar sobre o ocorrido.

Pegou o celular e fez a chamada, em menos de três toques ela atendeu.

– Diga. – saudou do outro lado da linha.

– Estou me perguntando se você teria meios de tombar um caminhão apenas para provar um argumento.

– O que?

– A estrada principal foi interditada, estou presa aqui por tempo indeterminado. – explicou.

– No SPA?

– Sim.

– O que aconteceu?

– Como eu disse um caminhão tombou e a carga comprometeu a estrada. A polícia ainda não sabe dizer se o asfalto está apto para o uso, tenho certeza de que logo estará nos noticiários.

– E quando eu falo de destino você acha que eu sou maluca.

– Não pense que isso mudou, mas ouça, não sei quanto tempo isso vai durar então avise ao Henry por mim, diga que eu ligo pra ele mais tarde.

– Tudo bem, mas e ela? Também está aí?

– Ela quem?

– Você sabe muito bem.

– Mas é claro que está, afinal é hóspede também.

– E o que você pretende fazer?

– Eu não... – mas a frase morreu em sua garganta quando viu Emma parada em sua frente, com uma expressão em branco no rosto – Tinker, preciso desligar.

– Por quê? Ela apareceu, não foi? O sinal está piscando na sua cara!

– Pare com isso, e não se esqueça de avisar ao Henry, tchau. – desligou.

– Sua amiga maluquinha? – a loira perguntou e ela assentiu – Posso? – apontou para o lugar vago no banco e ganhou outro assentimento – Ruby me contou o que você fez. – disse após sentar.

– Eu imaginei que contaria.

– Ela também disse que acha que você fez isso por minha causa.

– Sua amiga tem muitas teorias.

– É, tem sim. – mordeu o lábio inferior e olhou para o horizonte – Mas enfim... – redirecionou deixando a questão no ar por ainda não saber se podia lidar com a resposta – Já almoçou?

– Ainda está cedo.

– Não está não. – mostrou o relógio de pulso que indicava quase uma hora da tarde – O tempo passa muito rápido nesse lugar, mas e aí, quer vir comigo?

– Tenho escolha? – provocou.

– Até tem, só que seria bom ter alguém por perto pra me salvar caso queiram me fazer de balcão de informações.

– E o que eu ganho com isso?

– A minha adorável companhia, por quê? Quer mais? — brincou.

“Estou começando a achar que não.”

– Ainda não sei, mas pensarei durante o almoço.

–-------------- SQ ---------------

Ruby trouxe os pedidos, mas não saiu de perto da mesa e ficou olhando para as duas com expectativa.

– O que foi? – Emma perguntou.

– Só estava aqui pensando no quanto é bom ainda ter meu emprego.

– Ruby...

– É, eu sei, não vou ficar batendo na mesma tecla, mas também tenho novidades. Na verdade vão passar nos quartos e caçar os hóspedes por aí pra falar, mas como vocês são VIP’s ficam sabendo primeiro. – sorriu – Vai ter um jantar temático tailandês hoje à noite, pra tirar um pouco o foco de todo esse problema com a estrada. Começa às sete.

– Aqui?

– Sim, quando o horário de almoço acabar vamos começar a arrumar a decoração. Era só isso, bom apetite. – e saiu.

– Você ouviu? Ela disse que somos VIP’s. – a loira brincou.

– Estou gritando por dentro. – ironizou – Vai vir a esse jantar?

– Eu não sei, não sou muito fã de comida tailandesa.

– Já experimentou?

– Não, mas...

– Então como pode saber que não gosta?

– Porque eu não como nada que tenha lesmas ou caramujos.

– O cardápio vai muito além disso, querida.

– Quero só ver.

–-------------- SQ ---------------

Regina subiu para o quarto depois do almoço, por volta das duas da tarde e se viu numa completa falta do que fazer.

Devido todo o ocorrido de manhã os horários das atividades estavam bagunçados, pois o SPA não era programado para exceder a estadia nos dias na em que deveria se preparar para receber os hóspedes da próxima semana, então agendar algo estava fora de questão.

Ligou a TV para procurar por notícias sobre o andamento da liberação da estrada, mas após zapear pelos canais e não encontrar nada resolveu desligar, pegou um dos livros que havia trazido e deitou para ler um pouco.

–-------------- SQ ---------------

Abriu os olhos e quando a visão entrou em foco notou que havia adormecido com o livro repousando em seu colo, o pescoço doía um pouco pela posição desconfortável e enquanto o massageava para liberar a tensão percebeu que a luz do sol parecia mais fraca, e o relógio indicava mais de cinco e meia da tarde.

Lembrou-se do jantar que aconteceria logo mais, e mesmo sabendo que não tinha a menor obrigação de ir, ela queria. Só que não pelo evento em si, ainda que não admitisse.

Quinze minutos depois saiu do banheiro enrolada numa toalha branca e felpuda, trocou de roupa, optando por uma saia preta e blusa social de seda na cor vinho, calçou os sapatos de salto, passou uma base no rosto, rímel e seu inconfundível batom vermelho.

Antes de sair ligou para casa de Tinker e falou com Henry, explicou o ocorrido e quando perguntou pela amiga ele disse que ela estava no banho, assim se despediram e ela pôde descer para o tal jantar temático.

Quando chegou a decoração logo chamou a atenção, o SPA não pecava pela dedicação aos detalhes. Cada pequena coisa remetia a cultura tailandesa, desde os enfeites nas paredes até a organização das mesas.

Algumas pessoas já estavam sentadas e comendo, outras apenas conversavam, e havia também aquelas em pé perto do bar, e entre elas estava Emma, usando uma calça jeans escura quase preta, botas de cano longo e uma blusa justa de manga curta na cor azul marinho, com o cabelo puxado em uma única trança jogada sob o ombro esquerdo.

Como se estivesse no piloto automático Regina se aproximou.

– Vejo que sua pontualidade está apresentando melhoras.

– Então melhor eu não dizer que coloquei meu celular pra despertar que nem ontem – sorriu – O que achou disso tudo? – perguntou gesticulando em volta.

– Bem fiel à realidade.

– Já esteve na Tailândia?

– Uma vez, há alguns anos atrás.

– Agora eu sei por que defendeu as lesmas e os caramujos. – brincou – Vamos pedir logo antes que eu me arrependa.

Encontraram uma mesa disponível no centro do salão e fizeram os pedidos, na verdade Regina fez, pois para Emma tudo era muito nojento e nada se salvava no cardápio.

– Isso queima! – exclamou ao provar um dos molhos que acompanhava o prato.

– É porque não foi feito para comer sozinho, tem que distribuí-lo sob o camarão. – explicou sem conter a diversão na voz.

– Você está adorando isso, né?!

– Está tão evidente? – perguntou num tom de falsa inocência.

– Que tal isso: eu como sem reclamar e em troca você me deixa te ouvir tocar piano.

– O que?

– Você me ouviu, eu como isso tudo sem fazer careta, igual uma verdadeira dama, e depois você toca. A não ser é claro que tenha medo de plateia de uma pessoa só... – provocou – Se for isso, eu...

– Fechado. – interrompeu – Mas primeiro cumpra a sua parte, ou pelo menos tente. – recostou na cadeira para apreciar o momento, duvidando que a loira com seus modos desastrados conseguisse lidar com a comida estrangeira.

O que ela ainda não sabia é que diante de um desafio Emma fica cega e não para até vencer, principalmente quando motivada por algo, e naquele momento nada e nem ninguém tirava da cabeça dela que precisava ouvir Regina tocar.

Sem saber de onde o súbito desejo vinha, mas sem a menor vontade de negá-lo, ela terminou a refeição driblando cada gosto estranho e porção que escapava dos pauzinhos usados para pegá-las.

No final tinha um sorriso vitorioso nos lábios.

– Acho que me deve uma música, Srta. Mills.

– Está bem. E eu presumo que o piano em questão seja o do salão de festas, certo?

– O próprio. – confirmou.

– E como pretende nos colocar perto dele? Se é que me permite saber.

– Eu dou meu jeito. – garantiu sorrindo presunçosamente.

–-------------- SQ ---------------

– Quando disse que daria “o seu jeito”. – fez as aspas no ar – Não pensei que estivesse falando em invadir. – disse enquanto entravam no salão de festas, escondidas.

– Está vendo alguma porta? Eu arrombei alguma coisa? Não, então não é invasão. – sussurrou enquanto procurava por um interruptor e só encontrou um que acendia uma parte do palco e deixava o piano à meia luz, destacando a cor escura da madeira de maneira sutil e bonita.

– Pra uma representante da lei sua definição de invasão é um pouco deturpada.

– Só concentra no piano, tá bom? – apontou para o instrumento – Você tem uma aposta pra pagar.

– Sabe que eu posso simplesmente ir embora e deixá-la aqui, não sabe?

– Sim, mas não acho que você vai fazer isso.

– E por que não?

– Porque eu sou uma espectadora muito interessada. – cruzou os braços – Vai lá, encante meus ouvidos.

Regina suspirou e se deu por vencida, sentou no pequeno banco, levantou a tampa que cobria as teclas e voltou a olhar para Emma.

– Algum pedido especial?

– O que você quiser está ótimo.

Com outro suspiro e uma breve ideia do que poderia tocar ela deslizou os dedos pelas teclas e uma melodia lenta começou a ecoar pelo lugar, colocando instantaneamente um sorriso nos lábios da loira encostada numa das extremidades do instrumento.

Não durou mais do que dois minutos, mas para cada uma delas pareceu a eternidade mais deliciosa que poderiam vivenciar.

Emma prestando atenção em cada nota e Regina fechando os olhos vez ou outra, já tendo tudo mais do que decorado em sua cabeça.

Quando a música acabou o silêncio se instalou por alguns segundos, até ser quebrado.

– Acho que isso entra pra sua lista de talentos naturais.

– Fiz muitas aulas durante muito tempo, não tem nada de natural nisso.

– Mesmo assim, foi... Lindo.

– Esse é o segundo elogio que me faz hoje, estamos em alguma ocasião especial? – brincou.

– Não sei ainda, não depende só de mim. – respondeu olhando dentro dos olhos da morena.

– Acho melhor irmos embora. – abaixou a madeira para cobrir as teclas e levantou saindo do salão sem mais conseguir controlar seus batimentos cardíacos acelerados, novamente.

–-------------- SQ ---------------

– Alguma novidade a respeito da estrada? – Regina perguntou enquanto o elevador subia, evitando ao máximo entrar em algum território mais íntimo.

– Ainda não. – respondeu – Que sorte a nossa, né? Vir pra cá e acontecer isso.

– Minha amiga diz que é o destino. – as portas abriram e elas saíram.

– Acho que eu vou concordar com ela.

– Também acredita nisso?

– Não sou nenhuma fanática, mas acho que de vez em quando as coisas não acontecem por acaso. – sorriu e procurou concentrar toda sua coragem – Escuta, eu...

– Estou um pouco cansada. – interrompeu, colocando a chave na fechadura e desviando o olhar.

– Eu vou ser rápida.

– Srta. Swan, por favor...

– Você é meio bipolar, sabia?! – deu meia volta e entrou no próprio quarto, deixando-a para trás.

“Você não quer saber o que ela ia dizer, você não quer.” Repetiu para si mesma enquanto passava por todo o processo de tirar a roupa, colocar a camisola, hobby e retirar a maquiagem.

Era por volta das nove da noite quando atravessava o quarto e viu a lua cheia agraciando o céu com sua beleza. Devido à rotina atarefada mal tinha tempo para apreciar pequenas coisas como essa, por isso naquele momento abriu a vidraça e deixou a brisa da noite entrar enquanto saía na varanda, com os olhos perdidos na imensidão escura acima de sua cabeça.

Só notou que não estava totalmente sozinha quando viu de relance algumas mechas loiras balançarem com o vento, e lá estava Emma do outro lado, também trocada, com uma camiseta cinza comprida e folgada, um short preto de malha que cobria só metade das coxas, o cabelo solto com as ondas mais marcadas devido à trança havia feito, e o olhar perdido no céu.

Segundos e mais segundos se arrastaram e nenhuma das duas disse nada, como se quisessem fingir que não sabiam da presença uma da outra.

– Desculpa ter te chamado de bipolar. – a voz da loira rompeu o silêncio.

– Não se preocupe, já ouvi coisa muito pior.

Emma sorriu e deixou o silêncio permanecer por mais um pouco, até que se viu farta de toda aquela agonia dentro si.

– Eu detesto joguinhos, Regina. – disse, ganhando novamente a atenção da outra – Pode brigar comigo por ter usado seu primeiro nome depois, porque agora eu só preciso saber se você sente isso também, antes que eu fique doida.

– Srta. Swan...

– Ótimo, continua com o tratamento formal se funcionar pra você, mas eu não aguento mais. – interrompeu e desencostou do muro para ficar de frente para Regina – Não vim aqui pra passar por isso, na verdade a intenção era relaxar, só que não tem sido nada relaxante ficar com isso entalado na garganta e ser barrada toda vez que tento falar. – parou para tomar fôlego – Lembra quando eu disse que você mexeu com a minha cabeça? Então, acho que não consigo ser mais clara.

– Isso é... – fechou mais o hobby sob o corpo, como se também reforçasse o muro que lutava para manter ao seu redor – Isso é um absurdo, nós mal nos conhecemos. – argumentou com a voz baixa, já que no fundo nem para ela aquilo era relevante de verdade.

– Eu sei, mas no momento não poderia me importar menos. – afirmou – Juro que estou tentando evitar o clichê dessa situação só que tá ficando difícil, e você não olhar pra mim enquanto eu falo não ajuda em nada. – andou até chegar ao limite da varanda, e automaticamente Regina ergueu o olhar até então perdido no concreto do muro e se viu numa completa perca de palavras, onde só o silêncio fez companhia as duas e que não demorou a frustrar Emma – Quer saber? Tem razão, é um absurdo. – sorriu para mascarar a decepção – Eu sou mesmo uma idiota. – murmurou e começou a se afastar preparada para bater a cabeça na parede por ter sequer pensado que...

– Emma. – o som alcançou seus ouvidos e a fez parar imediatamente, era suave e alto apenas o suficiente para ser escutado e nem se quisesse ela poderia negar o quão bom era finalmente ouvir o próprio nome na voz da morena.

– Será que tenho autoridade pra declarar esse momento como um milagre? – disse ao virar para olhá-la.

– Não consegue ficar sem fazer piada, não é? – perguntou com um pequeno sorriso.

– E você pelo que parece vai tentar mudar de assunto e ignorar tudo o que eu disse.

– Eu... – suspirou – Eu não sei o que dizer.

– Isso sim é um acontecimento. – sorriu, e em seguida ficou séria de novo para dar ênfase à próxima sentença – Abre a porta do seu quarto.

– Por quê? – franziu o cenho, confusa e levemente atordoada pela aparente mudança de assunto.

– Porque eu quero beijar você. – mas ela sabia que ainda assim a outra continuava hesitante, então decidiu apelar – Abre ou eu vou até aí. – avisou.

– Como? Pulando? – zombou, mas viu pelo semblante da loira que na verdade estava certa, e assumiu uma expressão incrédula – Você não faria isso. – afirmou.

– Esse é o lado bom da gente se conhecer a pouco tempo, você ainda não sabe com o que pode me desafiar. – apoiou as duas mãos no muro e quando fez menção de erguer o corpo, Regina se adiantou.

– Está bem, pare com isso. – pediu – Eu vou abrir.

Emma sorriu e em passos largos atravessou o quarto, abriu a porta e saiu no corredor ao tempo de ver a outra porta se abrir também e Regina sair de lá visivelmente agitada.

– Nós precisamos conv...

– Depois. – interrompeu quando parou em frente a ela, envolveu-a pela cintura com o braço e puxou-a para si fazendo-a ofegar com o baque dos corpos. Levou a mão livre até os cabelos negros e entrelaçou os dedos pelos fios, trazendo o rosto de Regina até o seu e selando seus lábios num beijo “duro” e marcante que durou poucos segundos e foi separado com um estalo – Ainda quer falar? – perguntou sorrindo.

Regina não se preocupou em responder e apenas agarrou a manga direita da camiseta de Emma e com a outra envolveu-a pela nuca e puxou-a de volta de encontro à sua boca, querendo saciar urgentemente a necessidade de algo que quase não lembrava mais quando havia sentido pela última vez.

Notas finais
Olha o beijo aí minha gente! Quem tá feliz? hahaha Eu sempre tive essa cena pronta na minha cabeça, só sofri um pouco pra achar um diálogo que se encaixasse direitinho. Ah sim, queria saber a opinião de vcs numa coisa: querem cena hot no próximo capítulo ou dá pra esperar mais um ou dois? Sinceramente não mudaria nada os meus planos, mas como eu sei que vcs gostam de interagir e tudo mais quis fazer essa pequena "enquete". Desde já aviso que só escrevi cena hot uma vez e nem foi Swan Queen, mas pra tudo nessa vida tem uma primeira vez, né? Enfim, o que acharam? Vivo de comentários e consequentemente essa fic também, mesmo com esses atrasos chatos. E quanto ao próximo vou deixar pra domingo ou comecinho da semana que vem, ainda preciso organizar minhas ideias. E é isso, beijos ♥