Notas iniciais
Olá ♥ Gente, pensa numa pessoa ligando o computador na surdina, essa sou eu. Seguinte, como tenho passado mto pouco tempo na frente do pc eu escrevo boa parte dos capítulos no celular e vou transferindo aos poucos pro word, só que me embolei toda com as duas últimas cenas e tive que refazer, por isso a demora. Sei que tô mais de 24 horas atrasada, mas pra ninguém querer me matar esse capítulo tá do jeito que vcs gostam: imenso. Não sei se fiz jus a coisa do "vamo ver" do final do capítulo anterior, mas eu tentei. OBS: vcs são todas lindas e me fazem sorrir que nem boba lendo os comentários ♥ Sorry por qualquer erro. *Leiam as notas finais...* Enjoy!

Regina seguiu o som estridente do alarme do celular e deslizou o dedo pela tela ainda de olhos fechados fazendo o barulho cessar.

Abriu os olhos lentamente e piscou algumas vezes para se adaptar com a claridade. O sol passava pelo tecido da cortina que cobria a vidraça e iluminava grande parte do quarto. Olhou as horas no pequeno relógio em cima da cômoda e os ponteiros indicavam sete da manhã. Puxou o lençol, o jogou para o outro lado da cama e levantou.

Foi até a vidraça e abriu as cortinas, observou a vista por alguns segundos até sentir que havia realmente despertado, e quando o fez lembrou que precisava se arrumar para tomar café, e ao lembrar disso também lembrou de Emma, e toda a conversa que tiveram voltou em sua mente. Quando perguntou aquilo sobre como ela conseguia falar com certeza não esperava por palavras tão desconcertantes. Mesmo sabendo que a loira não tinha feito de propósito afinal não a conhecia o bastante para ter alguma ideia do quanto aquele mini discurso poderia mexer com ela, o fato era que quando falou sobre segredos e cicatrizes Regina sentiu como se um nó apertasse sua garganta e entrou numa espécie de transe, repassando cada pequeno detalhe de sua vida no últimos anos em tempo recorde.

Ao fazer isso se sentiu vulnerável, inventou que estava cansada e saiu sem dizer nada, sabendo do risco da loira estranhar sua atitude, mas precisava ficar um pouco sozinha consigo mesma nem que fosse para não fazer absolutamente nada a não ser encarar o teto no escuro. Trocou de roupa e quando foi configurar o alarme do celular viu que tinha uma nova mensagem não lida, era a resposta de Tinker, uma resposta e tanto pra ser exata.

T: Eu te conheço, se disse que não importa como aconteceu é porque importa, e muito, mas tudo bem, falamos disso quando voltar, o que aliás me lembra de que como você mesma disse amanhã é o seu último dia aí, portanto senhorita Regina Mills, mãe, advogada, filha e amiga nas horas vagas... Trate de aproveitar o quanto puder antes de ser jogada de volta na selva, ok? Eu não estou dizendo que é pra fugir pra Las Vegas e casar com essa Emma Swan como se ela fosse o amor da sua vida, só quero que você pare de bloquear cada pequena chance de felicidade que aparece. Pra ser sincera eu preferia ter essa conversa por telefone, mas não vou te dar o gostinho de ficar rebatendo tudo o que eu falo, então só lê isso e pensa. Você é uma mulher linda, inteligente e decidida, e além do mais não tem ninguém aí cuja opinião realmente importe, então o que custa descer do salto um pouquinho? Ok, to chegando no limite de caracteres, vou calar a boca. Caso resolva fazer o que eu disse quero saber o resultado depois, agora é sério, boa noite :)

Tinker sempre teve talento para penetrar no subconsciente da morena, e mesmo que com o tempo tivesse aprendido a lutar contra isso, naquela noite as palavras da amiga encontraram uma brecha na barreira e a invadiram sem pudor.

“Você é uma mulher linda, inteligente e decidida, e além do mais não tem ninguém aí cuja opinião realmente importe, então o que custa descer do salto um pouquinho?”

E logo evoluiu pra uma versão mais curta.

“O que custa descer do salto um pouquinho?” e assim ecoou na mente dela como um mantra enquanto observava a luz da varanda do quarto ao lado acesa, o que significava que Emma ainda estava lá, e o que em questão de segundos a encheu com uma coragem insana fazendo a voltar lá e contar sobre Daniel.

“Está tudo bem, você tem apenas mais vinte e quatro horas nesse lugar, depois disso nunca mais a verá, não tem motivo para se preocupar.” Repetiu isso mentalmente inúmeras vezes antes e durante sua pequena “confissão”, então fora atingida pela espontaneidade da loira convidando-a para tomar café no dia seguinte, e sua boca pareceu perder contato com o cérebro, pois ela aceitou. Embora isso fosse contra tudo aquilo em que estava se esforçando tanto pra acreditar.

“Café, sim, eu posso fazer isso.” Afirmou para si mesma e foi em direção ao banheiro para fazer sua higiene matinal.

Emma chegou ao restaurante por volta das sete e meia, um pouco mais tarde do que o de costume naquela semana inteira, e por isso o lugar que tinha seu horário certo para “lotar” em cada refeição do dia estava relativamente vazio, com apenas duas mesas ocupadas.

– Pensei que não vinha hoje. – Ruby disse ao se aproximar logo que a loira passou pela porta.

– Eu acordei mais tarde... Mas espera, você está falando comigo enquanto ainda estou em pé? Sua avó não vai te matar? – brincou.

– Ela está ocupada na cozinha dando bronca num dos ajudantes, ele queimou alguma coisa que eu não sei bem o que é.

– Você entende algo de comida ou seu negócio é só servir ela mesmo?

– Só servir, quer dizer, minha avó até tentou mas eu nunca me interessei por nada além do suficiente pra não morrer de fome.

Emma riu.

– Melhor do que eu pelo menos.

– Você é do tipo quem não frita nem ovo, né?

– Eu não preciso desde que descobri a maior invenção de todos os tempos: pizza.

– Policiais tem uma academia disponível só pra eles, certo?

– Sim, por quê?

– Porque isso explica como você mantém esse corpinho.

A loira sorriu com comentário e sentou na primeira mesa que encontrou, ao perceber que Ruby esperava por ela para fazer o pedido, avisou.

– Eu não vou pedir agora, estou esperando uma pessoa.

– É quem eu tô pensando?

– Se eu pudesse ler mentes te responderia.

– Ah vamos Emma, é ela não é? A toda poderosa?

– Outro apelido? Você tem um estoque deles?

– Tipo isso. – respondeu sorrindo – Mas você não me respondeu.

– Sim, é ela.

– Ok, tudo bem. – colocou o bloquinho e a caneta no bolso do avental – É seu último dia aqui, divirta-se como achar melhor. – sorriu maliciosamente.

– Ai Deus, pela milésima vez: não é isso o que está acontecendo!

– Não é ou você que ainda não percebeu?

– É por causa disso que ela perguntou sobre você!

– Perguntou o que?

– Se eu te conhecia, porque caso não tenha notado Ruby, você não está fazendo nenhum esforço pra esconder essa malícia toda.

– Eu não quero esconder.

– Exatamente! Mas quer saber? Não importa porque agora ela já sabe que nos conhecemos fora daqui e...

– Você disse pra ela que eu não sou chegada na coisa, né? – interrompeu.

– Hã?

– Mulheres, Emma. Você falou que eu sou hétero, não falou?

– Ah, bom, eu... Acho que esqueci. – confessou.

– Então é melhor eu me preparar pra uma dose tripla de sarcasmo e mau humor.

– Como assim?

– Você disse pra ela que a gente se conheceu fora daqui, eu sou eu particularmente muito sexy, obrigada. – passou a mão pelos cabelos – E te trato com esse entusiasmo todo, é só juntar as coisas... Eu no lugar dela ia pensar que...

– Ow, para. – interrompeu – Ela não vai pensar nada, e mesmo que pense não vai se importar.

– Se é isso em que você quer acreditar...

– Essa é a verdade, para de tentar ler entrelinhas que não existem, ok?

– Ok.

– Interrompo? – Regina perguntou e Emma virou para olhá-la.

– Claro que não, senta aí. – após vê-la acomodada, continuou – Eu estava agorinha contando pra Ruby que você já sabe a verdade.

– Verdade...?

– Que nós nos conhecemos fora daqui, não nenhuma do tipo uma paixão lésbica secreta que temos uma pela outra. – diz Ruby, ganhando um olhar mortal de Regina.

– Ruby! – repreendeu a loira.

– O que? – perguntou, em falsa inocência – Ok desculpa, o bom é que agora não preciso mais ficar te chamando de Srta. Swan quando está com ela, né? – virou para Regina – Posso te chamar pelo primeiro nome também? – perguntou, mesmo já sabendo a resposta.

– Não se quiser manter o seu emprego. – a morena respondeu rispidamente.

– Entendido... – murmurou – Bom já que agora a mesa está completa posso anotar os pedidos? – perguntou olhando diretamente para Emma.

– Claro.

E assim ambas fizeram seus pedidos, e logo que Ruby estava fora de vista, Regina se adiantou.

– Todos os seus amigos são atrevidos assim?

– A maioria sim, mas a Ruby só tá fazendo tipo.

– E por qual motivo?

“Porque ela acha que nós gostamos uma da outra.”

– Também adoraria saber. – mentiu.

A comida chegou e atendendo a orações Ruby não fez nenhum comentário e apenas entregou os pratos e as bebidas e saiu, deixando as duas seguirem a refeição num silêncio surpreendentemente agradável.

Depois de engolir seu último pedaço de panqueca e beber um pouco de suco, Emma resolveu começar.

– Então, como eu disse queria ver se conseguíamos planejar o que fazer pelo resto do dia, lembra?

– Sim, minha memória não se esvai durante o sono, Srta. Swan.

Ignorando a provocação, ela continuou.

– Você já olhou o panfleto todo?

– Sim, por quê?

– Porque tem algumas atividades extras realmente ótimas que eu mesma só não fiz antes porque achei meio estranho ir sozinha.

– E quais seriam?

Emma retirou do bolso o panfleto do SPA, o abriu e colocou em cima da mesa, apontando para as imagens.

– Aqui, tem aula de ginástica, jantares temáticos, sauna e por último porém não menos importante... Cinema interno. – disse animada – Eu sei que parece muito pra um dia e só e talvez seja, não precisamos fazer tudo, podemos analisar e...

– Espere um segundo. – interrompeu – Você sabe que precisa respirar entre as palavras, certo?! – não esperou pela resposta – De fato são mesmo muitas opções... – observou melhor as imagens e informações – O que acha de aula de pintura?

– Não, eu sou péssima com trabalhos manuais.

– E que tal aula de dança?

– Eu não sei dançar.

– Por isso a aula. – disse pausadamente, para dar ênfase.

– Eu sei, só que... Olha, não quero atrapalhar seus planos, se você quiser ir tudo bem, eu arrumo outra coisa pra fazer, acho que tem uma ou duas massagens do catálogo que eu ainda não tentei, então...

– Não seja boba, você me chamou para decidirmos juntas, e é o que iremos fazer.

– Está bem, mas fora isso o que sobrou?

– Sauna, tratamento facial, ginástica e cinema interno.

– Podemos deixar o cinema por último? É que eu prefiro assistir de noite.

– Sabe que isso não faz sentido, não é? Vai estar escuro dentro da sala de qualquer maneira.

– Sim, mas eu vou saber que ainda está claro aqui fora.

Regina suspirou.

– Tanto faz, agora só precisamos estabelecer uma ordem. O que acha de começarmos pelo tratamento facial, depois partimos para sauna e então o cinema?

– Eu concordo, mas... E a ginástica?

– Eu não faço questão.

– Eu também não, eu acho... Sei lá.

– Não sei por que ainda espero por uma afirmação concreta da sua parte.

– É bom alimentar as esperanças. – brincou – Mas enfim, melhor irmos agendar antes que peguem os melhores horários.

Regina assentiu e Emma pediu a conta.

– Vejo aqui que o procedimento foi agendado para duas pessoas, Srta. Mills, isso está certo? — a massagista que usava o uniforme do SPA com o nome April no crachá perguntou, assim que Regina entrou na sala.

– Sim, está.

– A senhorita... – olhou na ficha – Swan está atrasada, houve algum problema?

“Sim, ela é incapaz de ser pontual.”

Elas tinham marcado tudo juntas para que não houvesse discrepâncias com os horários, no entanto ali estava ela e nem sinal da loira.

– Ainda não, mas haverá se ela não aparecer dentro dos próximos dois minutos. – ameaçou em voz baixa, fazendo a moça recuar por um instante.

– O que acha de nos adiantarmos? Coloque o roupão enquanto eu verifico a consistência da máscara, tudo bem? – sugeriu educadamente, apontando para o biombo decorado que ficava num canto da sala.

Regina não esboçou nenhuma reação e apenas fez o que foi dito, e assim que saía detrás do biombo a porta se abriu, revelando Emma com um sorriso pateta nos lábios.

– Desculpa o atraso, eu tive um pequeno problema com a porta do meu quarto. – explicou.

– Tudo bem, Srta. Swan. – a moça sorriu – Meu nome é April e vou aplicar as máscaras que forem de sua preferência.

– Entendi, mas me chama de Emma, ok?

– Como quiser. – e voltou a mexer no líquido cor de rosa que provavelmente era a tal máscara.

– O que aconteceu com a porta do seu quarto? – Regina perguntou.

– Bom... – hesitou já sabendo que a morena não perderia a oportunidade de zombar dela – Eu meio que quebrei a chave na fechadura.

– Você o que? – perguntou com uma leve risada.

– Eu estava com pressa. – encolheu os ombros – Aí tive que ligar pra recepção e levou mais dez minutos pra consertar. – vendo o brilho divertido nos olhos da outra, ela suspirou – Vai nessa, pode rir.

– Eu estou, só que por dentro. Agora vá colocar o roupão antes de abalar todo o cronograma do SPA.

Emma deu outro suspiro e foi para detrás de biombo, alguns segundos se passaram e uns resmungos irritados começaram a vir de lá, fazendo Regina levantar uma sobrancelha em curiosidade, mas foi April quem se manifestou.

– Srta... Emma, — corrigiu – Precisa de ajuda?

– Só se você tiver um jeito de tirar minha calça. – a moça que tinha a pele bem branca enrubesceu imediatamente ao ouvir aquilo, e Swan ao perceber como sua frase havia soado, tentou reformular – Quer dizer... O zíper. – colocou só a cabeça para fora – Ele está meio emperrado, mas eu posso resolver. – sorriu envergonhada e voltou para sua pequena tarefa.

Logo um pequeno som em sinal de vitória foi ouvido, e em poucos segundo a loira saiu detrás do biombo usando o roupão rosa claro com o logotipo do SPA.

– Eu preciso pegar uma espátula maior, fiquem à vontade que eu volto logo. – sorriu e saiu da sala.

Emma viu que Regina já estava deitada sob a cama e fez o mesmo na que havia à esquerda dela.

– Sua tentativa nada sutil de flerte constrangeu a pobre garota, sinceramente estou dividida entre rir ou te parabenizar. – disse a morena olhando para o teto.

– Eu não estava flertando, foi um mal entendido, e além do mais ela não faz o meu tipo.

– E você tem um? – perguntou virando o rosto para olhá-la e arqueando uma sobrancelha.

– Claro... Eu meio que tenho um fraco por morenas, vivo sob a regra de que de loira na minha vida já basta eu. – sorriu debochada.

– Certo. – semicerrou os olhos – Então... Morenas?

– É, quer dizer, elas são fascinantes por si só, eu... – parou ao juntar as peças, e resolveu provocar – Mas não quero que tenha falsas esperanças, Srta. Mills.

– Tarde demais, você partiu meu coração. – brincou levando a mão ao peito e fazendo cara de dor.

Trocaram sorrisos, e antes que o clima pudesse ficar estranho April retornou, já carregando a espátula no tamanho adequado.

– Quem vai primeiro?

– Ela! – apontou para Regina.

– Está com medo, Srta. Swan? – provocou.

– Não, mas nunca se sabe né, eu amo muito meu lindo rostinho pra arriscar ele assim tão rápido, preciso de alguma segurança.

– E o que eu sou? Alguma espécie de boneco de testes?

– O que? Não, eu...

– Olha... – April interrompeu – Não precisa se preocupar, todos os ingredientes são cem por cento naturais. – assegurou.

– Mesmo assim, ela vai primeiro. – insistiu.

– Ah por Deus, ande logo com isso! – exclamou Regina, irritada.

– Está bem... – a moça olhou de novo para a ficha – Aqui consta que optou pela máscara três em um, contra flacidez, para hidratar e recuperar, correto?

– Sim.

– Espera, flacidez? – Emma perguntou – Pra que?

– Eu acho que o nome já diz o suficiente, querida.

– Não eu sei pra que serve, o que não sei é o porquê de você querer passar, já se olhou no espelho por acaso?

– Sua forma de me elogiar é um tanto quanto peculiar.

– Bom peculiar ou não é a verdade, mas ok, vai em frente.

– Não me lembro de ter pedido permissão.

– E nem...

– Senhoritas! – April interrompeu outra vez – Me desculpem, mas a próxima sessão está marcada para daqui a meia hora, precisamos nos apressar.

– Certo, desculpa. – Emma pediu.

– Vou ignorá-la. – afirmou mais para si mesma do que para as duas mulheres ali presentes, e quando com o canto do olho viu que a loira ia comentar, continuou – Silêncio, Srta. Swan.

Emma suspirou exageradamente e voltou a olhar para o teto.

Os minutos se passaram e logo todo o rosto de Regina estava coberto pelo líquido rosado, e após as recomendações de April para que ela não se mexesse, veio em direção a outra com um novo pote contendo um líquido esverdeado.

– O que tem aí?

– A máscara de hidratação, como foi requisitada.

– Tem alguma coisa nojenta no meio?

– Eu não sei qual sua definição de nojenta.

– Você está certa, eu não quero parecer chata. – sorriu – Tudo bem, pode vir. – recostou na cama e então teve uma ideia antes que também tivesse que ficar imóvel – Você tem olhos lindos. – April parou o que estava fazendo e a encarou com as bochechas rosadas e com o canto do olho viu Regina endurecer a postura e olhar para o seu lado como pôde sem comprometer o tratamento na pele – Viu? Isso seria flertar. – brincou – Eu só precisava provar um argumento, pode continuar.

E foi o que ela fez, e assim que ambas estavam com seus rostos cobertos pelas respectivas máscaras, April anunciou que precisariam ficar paradas por mais alguns minutos, e que daria privacidade à elas, e logo em seguida saiu.

Os segundos passaram e se transformaram em minutos, e Emma como sempre estava impaciente.

– Eu não aguento mais. – reclamou e virou para olhar Regina que permanecia como uma estátua, e de olhos fechados – Está dormindo?

– Sim. – respondeu.

– Muito engraçado. – dobrou os joelhos e começou a brincar com a bainha do roupão – Quero me mexer.

– Já está fazendo isso, caso não tenha notado.

– Não, eu quero...

– Será que sua criança interior consegue suportar apenas mais alguns minutos ou entrará em combustão espontânea? – perguntou controlando ao máximo para não mexer muito os músculos faciais.

– Eu fico com a teoria da combustão. – resmungou.

– Só feche os olhos e tente relaxar.

– Ok.

Dois minutos depois e Regina ouviu uma melodia suave preenchendo o ar, e ao abrir os olhos e olhar para o lado viu Emma cantando em voz baixa.

– O que é isso?

– A música que eu toquei ontem, mas pode deixar que eu já parei.

– Não, é bonita.

– Você acha?

– Sim, é desconhecida e... Bonita. – sorriu, esquecendo completamente sobre a máscara em sua pele.

– Obrigada, eu... – mordeu o lábio inferior – Ela é minha.

– Você a escreveu? – perguntou, em tom de surpresa.

– Sim, pode até parecer coisa de adolescente, mas eu gosto então mesmo que ria de mim eu não vou ligar.

– Eu não vou rir.

– Tem certeza? Porque eu to te dando carta branca.

– Sim, tenho certeza.

Seus olhares se encontraram, e por um instante foi como se nada importasse, por mais clichê que pudesse parecer, nada, nem mesmo a atual situação de seus rostos, o ambiente impecavelmente limpo e todo aquele cheiro de óleos e cremes, tudo pareceu simplesmente parar.

Mas como nem tudo é perfeito o momento foi interrompido pelo retorno de April, que retirou a máscara de cada uma com o produto adequado e indicou alguns outros itens para prolongar os benefícios do tratamento.

E as duas saíram já devidamente vestidas.

Emma olhou a hora no seu relógio.

– É quase hora do almoço, se importa em fazer companhia para essa humilde policial e sua pele de bebê recém-adquirida? – perguntou fazendo graça, passando a mão pelo próprio rosto.

– Sim, eu posso sobreviver a isso. – sorriu.

Assim que Ruby colocou os pratos com os respectivos almoços de cada uma em cima da mesa e se retirou, Emma que se preparava para levar a primeira porção até a boca sentiu um par de olhos em cima de si, eram os de Regina.

– O que? Também vai querer saber como mantenho meu corpinho?

– Não, eu estou tentando entender como continua viva se alimentando desse jeito. Faz alguma ideia da quantidade de gordura que esse bacon tem? Isso é um SPA, estamos aqui para nos cuidarmos e eu não vejo como essa comida possa ser útil.

– Eu não preciso que seja útil, sendo gostosa já está bom. – respondeu e colocou um pedaço de carne na boca.

– Não deveria ter acesso a esse... Isso... Essa coisa pegajosa. – disse apontando para o prato da outra.

– Isso é cobertura extra, e digamos que eu tenho minhas fontes.

– Claro, é a garçonete, não é? Ela está traficando alimentos fora do cardápio pra você.

– Ruby? Não, ela... – suspirou e assumiu uma postura derrotada – Ok, sim ela está, mesmo que eu ache a palavra traficando um pouco forte... Mas olha, ela só tá fazendo isso porque é pra mim, não surta, tudo bem? Eu não quero colocá-la em problemas.

– Não se preocupe, tenho coisas mais interessantes pra fazer do que sabotar seu pequeno esquema.

– Eu agradeço por isso, mas me diz, a gente ainda tem um tempinho livre antes da sauna, né? – Regina assentiu – O que você quer fazer?

– Estive pensando em passar na academia.

– Sério? Eu estou mais no clima de deitar numa daquelas esteiras de descanso e dormir um pouco.

– Depois de comer toda essa gordura? Agora sim estou querendo saber como mantém esse corpo.

– Eu me mato quase todo dia na academia do trabalho, e na daqui também já fui algumas vezes, acho que mereço uma folga.

– Bem, faça o que quiser, eu vou manter minha ideia.

– Ok, mas se sentir minha falta já sabe onde vou estar. – provocou.

– Continue sonhando. – comentou e continuou a comer.

Emma estava enrolada numa toalha branca, fazia poucos minutos que havia chegado e após receber as instruções do rapaz que ficava na entrada da sauna ela entrou. Ao ver um pequeno pontinho preto no topo do seio direito quis saber se era alguma sujeira ou apenas uma pinta, então abaixou um pouco a toalha e começou a esfregá-lo com o dedo.

– Srta. Swan.

Ergueu o olhar e apertou a toalha em volta do corpo, com uma expressão assustada, e viu Regina parada um pouco mais a frente, também de toalha.

– Você anda no modo silencioso, só pode.

– Quer que eu me desculpe por interromper sua sessão de auto-descobrimento? – brincou.

– Eu não estava... Ah tanto faz. – resmungou e voltou a encostar-se à parede.

A morena se aproximou e sentou um degrau abaixo de Emma.

Passaram-se alguns minutos no mais completo silêncio, até que pra não perder o hábito a loira se viu inquieta.

– Eu não gosto de ficar parada. – disse olhando para o outro lado da sala.

– Percebe-se. – comentou de olhos fechados.

– Quanto tempo ainda falta?

– Eu não sei, vinte ou trinta minutos.

– Eu quero fazer algo... – pensou por um momento – Qual sua cor favorita? – a morena virou para olhá-la com uma cara de “sério?” – Que foi? É uma pergunta boba.

– Ainda bem que sabe disso.

– Ah vamos, não volte lá pra cima.

– O que quer dizer?

– O seu pedestal particular. Vamos... – sorriu – Depois de ontem pensei que tivesse estendido a bandeira da paz.

– Eu não sabia que estávamos em guerra.

– Vou fingir que acredito, mas ainda assim não respondeu minha pergunta.

Regina suspirou e resolveu ceder.

– Preto.

– Sério?

– Algum problema?

– Não, é que eu te imaginava mais do tipo que prefere vermelho.

– E isso baseado em algum motivo em especial ou só sua excelente intuição?

– Mas você não dá uma trégua, hein? Meu Deus, bom... Eu gosto de verde.

– Como os dos seus olhos?

– Sim eu acho. Anda reparando nos meus olhos Srta. Mills? – provocou.

– Bem, você faz tanta propaganda que fica difícil não reparar.

Emma sentiu que aquela resposta não era totalmente verdade, mas resolveu deixar passar e deitou na sua parte da cabine.

Alguns minutos se passaram e nenhuma das duas disse uma palavra sequer, até que quem se surpreendeu por estar incomodada com o silêncio foi Regina, mas claro que ela encontrou um jeito de resolver isso sem ter que dizer com todas as letras.

– Quase dez minutos e nenhuma reclamação, acho que atingiu seu recorde.

Quando tudo o que ganhou foi mais silêncio, virou o pescoço para olhar para cima, mas antes que conseguisse sentiu algo encostar em seu ombro fazendo uma leve carícia, e ao ver que eram alguns fios duma mecha loira ela voltou a olhar para cima e entendeu o porquê da ausência de resposta.

Emma dormia tranquilamente, com o rosto virado na direção da morena, e seu cabelo espalhado pela superfície de madeira de uma forma quase angelical.

“Ela parece uma obra de arte.” – pensou.

Ela não soube dizer ao certo quanto tempo ficou ali parada apenas olhando, mas acordou de transe quando uma leve batida na porta chegou aos seus ouvidos.

– Com licença, mas o tempo acabou. – uma moça avisou, colocando apenas a cabeça para dentro da cabine – As senhoritas não viram a luz piscando?

– Nos distraímos. – mentiu, escondendo o rosto da loira com o corpo – Pode se retirar querida, já estamos saindo. – e assim que estavam novamente sozinhas a morena levantou – Srta. Swan... – chamou, sem sucesso – Srta. Swan... – repetiu, colocando a mão no ombro dela e chacoalhando delicadamente, mas ainda assim nada, e então resolveu tentar outra vez – Emma... – e finalmente ela começou a despertar.

– O que...? – perguntou sonolenta.

– Acorde, o nosso tempo acabou.

– Tipo o apocalipse? – manteve os olhos fechados.

– Sim, claro, e eu estou calma assim durante o apocalipse. – zombou – Agora ande, temos que sair.

Após alguns resmungos as duas saíram e se dirigiram às duchas.

Regina agradeceu aos deuses que as cabines eram fechadas e tinham uma boa distância entre uma e outra, não saberia o que fazer caso ficasse perto de Emma durante o banho. Sempre soube muito bem controlar seus impulsos, mas levando em consideração tudo o que já havia acontecido naquela semana, não queria correr o risco de passar por alguma situação constrangedora.

– Viu os horários das sessões do cinema? – a loira perguntou quando estavam dentro do elevador voltando para seus quartos.

– Sim, e se formos seguir sua vontade a primeira disponível é a das seis, quando começa a escurecer. – respondeu passando a mão pelos fios do cabelo molhado.

– E quais os filmes?

– Eu pareço um balcão de informações?

As portas abriram deixando-as no corredor.

– Ok, chega de perguntas, entendi. Bom, eu tenho que dar um jeito no meu cabelo antes que a tragédia se complete. A gente se vê lá às seis?

Regina assentiu e disse:

– E se não for pedir muito tente chegar na hora dessa vez. – destrancou a porta do quarto e entrou.

“Sim, Vossa Majestade.”

Emma chegou sala do cinema que era de tamanho médio e possuía um telão pequeno perto do de um cinema de verdade, mas ainda assim pegava quase a parede toda. Passou os olhos pelos assentos procurando por Regina, viu-a sentada na segunda cadeira da terceira fileira, e foi até ela.

– Estou aqui, e... – olhou no relógio – Três minutos adiantada. – sorriu orgulhosa enquanto sentava à esquerda da morena.

– Foi muito difícil pra você? – provocou.

– Não, eu coloquei meu celular pra despertar quinze minutos antes assim tive algum tempo sobrando.

– Estava dormindo de novo?

– Não, só quis ter uma garantia. – explicou, e ao olhar de relance para o telão viu o nome do filme – Romance? – apontou para a tela – Sério? – Regina assentiu – Não tinha nenhum outro mais interessante?

– Não pense que é um dos meus preferidos também, mas as sessões noturnas eram dele.

– Todas elas?! – fechou a cara e afundou na poltrona – Se eu soub...

– Com licença. – um rapaz interrompeu, ele usava o uniforme do SPA, deveria ser algum tipo de lanterninha do cinema improvisado – O filme está começando, gostaria de pedir que fizesse silêncio por favor. – pediu olhando para Emma – Dessa maneira a senhorita e sua companheira poderão aproveitar melhor.

– Minha... – ela começou, mas perdeu a fala e foi Regina quem tomou a frente.

– Não somos um casal, mas sim, ela ficará quieta. – inclinou a cabeça até entrar no campo de visão da loira – Certo, Srta. Swan?

– Sim, claro. – murmurou, ainda ligeiramente irritada pelo gênero do filme.

– Estou te falando, a melhor parte daquela melação toda foi quando o cara pulou a varanda.

A loira comentava ao saírem do cinema quase duas horas depois. A cena em questão era uma onde o homem pula de sua varanda para chegar até a mulher amada e beijá-la.

– Ele foi inconsequente e poderia ter morrido caso pisasse em falso. – comentou – Teria coragem de fazer algo assim?

– Eu? – Emma riu – Não, quer dizer... Não gosto de dizer nunca porque nunca dá certo. – brincou – Mas sei lá, acho que só se valer muito à pena ou se eu estiver muito louca.

– Nesse caso as chances de cair dobram.

– Verdade. – sorriu – Então, vamos jantar ou você já tomou doses suficientes da minha pessoa por hoje?

– Acho que consigo suportar um pouco mais.

– Eu agradeço o sacrifício. – retribuiu a brincadeira.

– Boa noite. Já sabem o que vão pedir? – perguntou uma das garçonetes ao parar em frente à mesa na qual as duas acabavam de se acomodar.

– Eu gostaria do frango grelhado com legumes. – a morena disse enquanto passava os olhos rapidamente pelo cardápio.

– Certo... – a moça anotou – E a senhorita? – virou para a loira.

– Eu... – franziu o cenho olhando para o cardápio – Bom, eu...

– Ela vai querer o mesmo. – Regina interrompeu cansada da demora.

– Tudo bem, e para beber?

– O que acompanhar o prato está bom, agora nos deixe a sós.

Guiada pelo tom autoritário a moça se afastou em direção à cozinha.

– Eu odeio legumes, por que respondeu por mim? – Emma perguntou.

– Porque aparentemente você estava muito ocupada gaguejando.

– Eu estava pensando. – se defendeu.

– Não, estava perdida porque não foi sua amiga que nos atendeu. – afirmou com um sorriso nos lábios.

– O que a Ruby tem a ver com isso?

– É ela quem vem te ajudando a burlar o cardápio, então se não está aqui terá que se contentar com uma refeição comum.

– Eu posso fazer isso. – garantiu, mesmo que no fundo soubesse que não era verdade.

A garçonete voltou com os pedidos, e quando a viu colocando tudo na mesa e reparou na quantidade de legumes no prato, Emma não se aguentou.

– Oi... – olhou para o pequeno crachá que havia no uniforme da moça – Liv. – sorriu – Você sabe da Ruby?

– Ela saiu à tarde, mas já deve estar voltando. – respondeu simpática.

– Tudo bem, obrigada.

– Está sozinha nessa Srta. Swan. – Regina disse triunfante quando a moça saiu – Coma seus legumes.

– Eu sei que eu disse que gostava de verde, só que não desse jeito. – resmungou enquanto mexia numa ervilha com o garfo, fazendo careta, e ao olhar pra cima viu que a morena tinha um pequeno sorriso nos lábios – O que é?

– Esse momento me lembrou meu filho. – confessou, ainda sorrindo.

– Por quê? Você força ele a comer legumes também?

– Não, eu me refiro à teimosia infantil que apesar da diferença de idade vocês dois parecem compartilhar.

– Se isso significa que o garoto luta pelo direito de comer pizza ao invés de alface, eu já gostei dele. – brincou, e Regina revirou os olhos para enfim começar a comer, sem perder as caretas que a loira fazia cada vez que levava o garfo até a boca.

– O que foi? – Emma perguntou ao saírem do restaurante e notar que Regina encarava o celular.

– A bateria está acabando, preciso recarregar.

– Ok, vai lá, eu vou ao jardim andar um pouco. – sorriu – Se quiser depois desce e me encontra, ou não, você que sabe.

Regina olhou-a por mais alguns segundos e então deu meia volta para subir pro quarto.

Assim que chegou pegou o carregador, conectou no celular e plugou na tomada. Ela precisava do aparelho ligado por precaução e também porque planejava ligar para Tinker mais tarde, já que essa nunca dormia cedo.

Enfim se viu parada no meio do quarto contemplando a ideia de descer e encontrar com Emma. As duas haviam passado boa parte do dia juntas, e querendo ou não a morena se sentia confortável na presença da loira, claro que as provocações ainda existiam, mas naquela altura era até agradável.

Uma parte de si dizia para simplesmente vestir sua camisola, pegar um livro e ler até o sono chegar, insistindo que já bastava de concessões por aquele dia, mas a outra parecia empurrá-la em direção à porta, como se implorasse por mais algum tempo fora da “redoma” na qual vivia há tantos anos.

“O que custa descer do salto um pouquinho?” – a frase a guiou novamente e num ímpeto saiu do quarto e voltou ao primeiro andar.

Quando pisou no jardim tratou logo de percorrê-lo com os olhos procurando por Emma, e a encontrou encostada numa das macieiras, mas num ângulo que permitia que apenas a morena a visse, e não o contrário.

Lentamente começou a se aproximar, e quando estava há apenas alguns passos de distância parou para admirar as maçãs que continuavam como no primeiro dia, penduradas nos galhos e com a mesma cor vermelha vibrante.

– Estou confusa, você veio aqui pra me ver ou pra ver a árvore? – a loira perguntou, tirando-a de seu pequeno transe.

– Você, mas depois desse comentário estou começando a reconsiderar. – brincou e deu mais alguns passos até ficar de frente ela.

– Ansiosa pra voltar pra cidade? – perguntou, mudando de assunto.

– Por um lado sim, mas por outro nem tanto. – confessou – Sinto falta do meu filho, mas...

– Mas não seu do seu trabalho. – completou, ganhando um aceno positivo quase imperceptível, e resolveu descontrair – E por que isso? Está fugindo de alguma acusação? Porque se estiver pode ficar tranquila que mesmo sendo a lei por aqui eu estou à paisana então não vou te prender.

– Muito gentil da sua parte, mas minha ficha é tão limpa quanto água cristalina.

– Certo, ah... Vem, vamos andar um pouco. – convidou passando por Regina e esbarrando em seu ombro de leve, como incentivo a segui-la – Tem um lugar legal mais ali na frente.

– É bom que tenha, odiaria pensar que está tentando me sequestrar. – provocou.

– Droga, você estragou meu plano! – retribuiu.

– Tenho que admitir... É realmente lindo. – comentou quando chegaram ao tal lugar sugerido por Emma, que era uma espécie de caminho de pedras, cercado de plantas e pequenas árvores em volta, e todo iluminado por pequenos refletores entre as flores.

Um tanto quanto romântico, diga-se de passagem.

– É sim, só cuidado com esses saltos. – disse apontando para os pés da morena, e ao erguer o olhar viu alguns galhos amontoados que lhe chamaram a atenção – Olha ali. – apontou – Acho que é uma mini macieira.

– Parece que sim. – concordou – Você anda com um canivete no bolso? – perguntou ao ver a loira tirar o pequeno objeto metálico do bolso.

– Quando não estou com a minha arma preciso me garantir como posso, certo?

– Se... – mas parou quando viu a loira se aproximar da árvore com o canivete nas mãos – O que vai fazer?

– Pegar uma maçã.

– Não precisa de um canivete pra isso, basta puxar.

Mas Emma ignorou o comentário, passou a lâmina num pequeno galho e a fruta caiu perdendo-se entre as folhas das outras plantas.

– Droga. – reclamou, e quando ia tentar de novo sentiu seu braço sendo puxado.

– Me dê isso! – Regina pegou o canivete – Você vai machucá-la, se insiste em usar essa coisa deixe-me mostrar o jeito certo.

– Tá bom, vai nessa. – fez sinal de rendição, e não precisou mais do que alguns meros segundos para morena se virar sorrindo vitoriosa com uma maçã na mão – Ok, já entendi que eu sou um desastre, não precisa tripudiar. – mas o sorriso continuou lá, e ao ver a fruta estendida em sua direção, ela se adiantou – Pode ficar, é sua.

– Só por que eu peguei? Vamos, não seja boba. – insistiu oferecendo a maçã.

– Não, eu quero dizer... – coçou a nuca, nervosa – Era pra você que eu ia pegar. – admitiu.

– Por quê?

– Bom, estava toda admirada com aquela outra lá atrás que eu pensei... – olhou melhor para a mão de Regina e viu uma pequena mancha vermelha começando a se formar – Você se cortou. – avisou.

– Não é nada.

– E depois sou eu que não sei manusear um canivete. – provocou, e ao notar uma resposta vindo se apressou e tirou um pequeno lenço branco do bolso interno da jaqueta que usava – Antes que pergunte sim ele está limpo. – garantiu e segurou a mão da morena, colocando o lenço sobre a pequena ferida – Eu tenho uma cicatriz ou duas então não me assusto fácil, mas é melhor prevenir do que remediar. – disse enquanto enrolava o pano como podia passando pelo dedo até encostar na outra ponta, totalmente alheia ao olhar estupefato e ligeiramente sonhador que Regina lhe dava – Pronto, mas é melhor se você lavar.

– Eu... – perdeu a fala ao perceber que a garganta estava seca – Eu tenho um quite de primeiros socorros no quarto.

– Claro que tem, mas afinal, qual a sua com as maçãs hein?

– É uma longa história.

– Eu gosto de longas histórias. – sorriu – Mas... – involuntariamente seus olhos caíram sob os lábios cobertos pelo batom que conseguia ser mais vermelho do que a fruta que ainda tinha em mãos – Acho que posso esperar pra ouvir, é melhor dar uma olhada nisso aí. – e ao tentar apontar para o machucado foi que notou que continuava segurando a mão de Regina, e no mesmo instante soltou-a, um pouco constrangida.

– Eu não vou morrer por causa de um simples corte, Srta. Swan.

– É, mas parece que vai se me chamar de Emma, né? – comentou.

– Algo como isso. – sorriu – Aqui, seu canivete. – devolveu, e começou a caminhar na direção contrária.

– Vai voltar? – perguntou.

– Mas é claro, ainda te devo uma longa história.

E saiu, deixando Emma com o coração batendo mais rápido do que bateria de escola de samba.

“Ainda te devo uma longa história? Céus, o que há comigo?”

Regina pensava enquanto o elevador descia. Ela havia subido, limpado a ferida e colocado uma pequena gaze por cima, não era nada demais, apenas um corte de tamanho médio pouco profundo.

Fazia mais de quinze minutos que tinha deixado Emma no jardim, e seu coração continuava num ritmo descontrolado, por mais que tentasse se acalmar ela não conseguia.

“Quantas vezes vou ter que dizer que isso é ridículo? Eu sou uma mulher adulta, pelo amor de Deus.” Repetia constantemente até se lembrar de novo do que sentiu quando a loira segurou sua mão.

Nunca fora muito fã de clichês, sempre optou por ignorá-los e excluí-los de sua vida. Expressões gastas como sentir todo o corpo “incendiar” de um jeito bom ao tocar alguém lhe davam náuseas. Para ela era completamente estúpido ler, ver e principalmente vivenciar algo do tipo, pelo menos depois de tanto tempo cercada pelo muro que construiu ao redor do próprio coração.

No entanto ali estava a grande e infeliz ironia jogando todos aqueles sentimentos irracionais na direção dela, de maneira sorrateira e intensa, simultaneamente.

Todo o sangue que corria por suas veias se aqueceu, e não queria esfriar de jeito nenhum.

“Bem, já me envolvi com outras mulheres antes, se for pra parar com toda essa loucura posso muito bem flertar um pouco e ver o que acontece, é isso. Desça, converse, sorria e amanhã dê o fora daqui o mais rápido possível.”

Saiu do elevador, passou pelo hall de entrada, chegou no jardim e olhou em volta, mas nem sinal de Emma. Foi até o caminho de pedras onde a tinha visto pela última vez, mas estava vazio.

Andou mais um pouco pisando na grama verdinha e só parou quando viu duas figuras de costas sentadas na beira da piscina, com os pés na água.

Pelas suas contas já eram quase dez horas, ninguém costumava nadar tão tarde, portanto aquela parte do SPA ficava relativamente deserta, mas aparentemente não era o caso naquela noite.

Não precisou chegar muito perto para reconhecer a primeira pessoa, era ela, Emma, e a outra, bem... Essa em particular não agradou nem um pouco a morena.

Era Ruby, garçonete e suposta amiga da loira.

Elas conversavam, mas não dava pra ouvir sobre o que sem ser notada, e isso era a última coisa que ela queria porque naquele momento não tinha certeza se seria capaz de manter a compostura.

Quando Ruby levou a mão até o cabelo de Emma e colocou alguns fios atrás da orelha dela para exibir o rosto e ambas sorriram, foi a gota d’água.

Sentindo uma raiva inexplicável deu meia volta e caminhou a passos largos para dentro do SPA.

“Estúpida, onde eu estava com a cabeça? Em pensar que quase cheguei à...” bufou exasperada e um dos funcionários parou em sua frente impedindo que chegasse aos elevadores.

– A senhorita está bem? Precisa de algo?

– Sim, eu preciso matar alguém, mas já que isso é ilegal uma boa dose de whisky serve, agora saia do meu caminho! – rosnou e passou pelo rapaz.

Toda aquela adrenalina não a deixava ver que não se reage daquela maneira quando tudo que se quer é apenas flertar com alguém.

Naquele caso o “buraco” era bem mais embaixo.

Emma saiu do elevador e estranhou ao ver a porta do quarto de Regina entreaberta.

Depois da conversa que teve com Ruby sentia-se mais confiante, e embora parte de si estivesse decepcionada porque a morena não havia voltado como disse que faria, a outra dizia que ela devia ter tido um bom motivo pra isso.

Bateu três vezes na madeira da porta e colocou a cabeça para dentro.

– Regi... – mas antes de sequer precisar se preocupar em se corrigir viu a morena sentada na cama, com um copo vazio na mão e o olhar perdido em algum ponto do outro lado do quarto – Estou entrando. – avisou – A gente pode conversar? – ao receber um olhar frio parou imediatamente de falar, e assumiu uma expressão preocupada – Está tudo bem?

– Sim, por que não estaria?

– Eu não sei, você disse que voltava pra me encontrar e como isso não aconteceu eu fiquei meio preocupada.

– Por acaso não te ocorreu que talvez eu esteja apenas cansada da sua presença? – levantou para encher o copo de novo, mas Emma segurou seu braço – O que está fazendo?

– Eu que te pergunto, você está bêbada? – olhou melhor para o cabelo levemente desgrenhado e os olhos com um brilho fora de foco, era sutil e até bonito o quanto aquela mulher conseguia ser sexy naquele estado.

– Eu não fico bêbada, agora me solte. – puxou o braço e foi pegar a garrafa de whisky já quase no final, mas antes de conseguir despejar o resto do líquido a loira afastou o copo.

– Acho que já chega por hoje.

– E quem você pensa que é pra determinar isso?

Emma suspirou e decidiu mudar de assunto.

– Como vai a mão? – perguntou enquanto colocava a garrafa de volta no lugar, longe do alcance de Regina no momento.

– Eu vou sobreviver, obrigada. – sentou novamente na cama – Onde está sua amiga? A garçonete.

– Ruby? Dormindo provavelmente, por quê?

– Só curiosidade.

– Você está mentindo.

– Me poupe dessa besteira de super poder.

– Besteira ou não ele funciona, e você está mentindo. – insistiu – O que está acontecendo?

– Nada. – tirou os sapatos e quando encostou a cabeça no travesseiro sentiu o quarto girar – Droga. – murmurou e olhou para Emma que estava em pé ao seu lado – Talvez eu esteja mesmo bêbada porque você está me vendo nesse estado e não consigo encontrar forças pra me importar.

– Acho que o nível ‘soro da verdade’ vai começar. – ao ver a expressão confusa decidiu explicar – É basicamente quando o álcool te faz falar coisas que não diria se estivesse sóbria. – desligou o abajur – Pronto, uma luz a menos pra te incomodar.

– O que queria falar comigo? – perguntou com a voz um pouco sonolenta, cobrindo-se com o edredom.

– Nada que não possa esperar um pouco mais. – sorriu – Você vai ficar bem?

– Eu sempre fico, Srta. Swan.

– Será que vai me chamar de Emma antes do meu cabelo começar a ficar branco? – brincou.

– Talvez no mesmo dia em que você me beijar. – sussurrou, com certeza sem fazer ideia de que estava sendo ouvida.

Se aquilo fosse um desenho animado o queixo de Emma teria caído no chão e o coração saído pela boca.

– O que você disse? – perguntou, sem conseguir controlar os lábios que já formavam um sorriso enorme, mas tudo o que recebeu em resposta foi um suspiro indicando que a morena havia pegado no sono.

Então saiu do quarto e apagou a luz, alimentando a esperança de resolver tudo no dia seguinte.

Ela só esqueceu que ao amanhecer os hóspedes começariam a deixar o SPA, a menos é claro que por obra do tão mencionado destino isso não acontecesse.

Vamos ver.

Notas finais
A ideia do cinema interno eu vi num site e achei bacana. Eu fico meio assim pq tá chegando perto dos "finalmentes" e a paranoia me sobe na cabeça me fazendo achar que tô indo ou mto rápido ou mto devagar. Mas acho importante ressaltar que tudo isso que tá rolando entre elas é o começo de uma paixão, aquela coisa avassaladora que todo mundo já ouviu falar e até sentiu, mas existe uma boa diferença entre paixão e amor, concordam? Eu planejo trabalhar com isso, pq elas se desejam e coisa e tal, mas e depois? Enfim, é isso o que vou tentar passar daqui pra frente. E sim, vou colocar a parte da Emma conversando com a Ruby que é pra não ter ninguém entrando pro time da Regina e pensando que ela é fura-olho hahaha Mas me digam, o que acharam? É de comentários que eu vivo, e de sono também, por isso tô indo nessa, vou tentar postar o próximo entre sábado ou domingo, ok? Beijos ♥