Notas iniciais
Oi ♥ Peço desculpas pela demora, mas tive uns problemas e isso meio que me desacelerou, aí percebi que escrever ajudava e fui montando o capítulo aos poucos. O Nyah recomenda que os capítulos tenham no máximo 4.000 palavras, e eu até pensei em dividir em duas partes pq deu mto mais do que isso, só que como já fiquei sumida por dias resolvi dar esse "bônus" pq pelo que parece vcs gostam de capítulos assim ♥ Paula Luize, sua linda, eu entrei na minha conta pra postar e quando vi sua recomendação fiquei eufórica hahaha Você mencionou algo que eu queria mesmo esclarecer: a história não acaba no SPA, tenho mais coisas em mente para o nosso casal 20 ;) Enfim, seu entusiasmo me contagia, de verdade, mto obrigada por tudo o que disse, eu fico feliz que esteja gostando tanto, e claro, esse capítulo vai pra você ♥ Ok, vou calar a boca. Sorry por qualquer erro. *Leiam as notas finais...* Enjoy!

Frio. Era isso o que Regina sentia, no entanto não conseguia encontrar razões para voltar para a cama e se enrolar nas cobertas. Já havia tomado banho e o remédio para enxaqueca, mas quando colocou a cabeça no travesseiro o sono se recusou a dar o ar da graça.

Revirou nos lençóis por quase uma hora, trocou de posição, se livrou das cobertas pra depois as colocar de volta, e repetiu o ciclo várias vezes até se dar por vencida e decidir levantar. A escuridão do céu misturada com os refletores ligados no jardim chamaram sua atenção, então ali estava ela há quase meia hora, sentada na cadeira na varanda, usando um de seus diversos hobby’s de cor escura e olhando para o nada.

O vento nem estava tão forte assim, mas batia nas árvores e isso o impulsionava fazendo com que chegasse mais rápido e gelado em sua pele.

Por mais que tentasse ignorar, algo a incomodava, e ela sabia exatamente o que era: Emma.

Ela não entendia o porquê, e apesar de grande parte de si achar ridículo perder o sono por alguém que mal conhecia, ela não era burra para não reconhecer o que sentia.

O fato era que a pequena discussão que tiveram no corredor torceu algo dentro dela, e as palavras ditas pela loira impregnaram sua mente, gostando ou não.

Enquanto tentava descobrir o que fazer, ou ainda se sequer precisava fazer alguma coisa, ouviu um barulho à sua esquerda, e ao olhar viu a causa de sua insônia sem sentido caminhar tranquilamente e apoiar os braços na borda da varanda.

Emma olhava para baixo, o que fazia seus cabelos soltos caírem como uma cortina sob o rosto, bloqueando qualquer possível vista, e Regina se irritou com isso, pensando que seria útil poder ver a expressão da loira e procurar por algum vestígio de raiva e/ou mágoa.

Seu orgulho a manteve parada e sem abrir a boca, revezando olhares entre o céu, as árvores e Emma repetidamente, até que enfim o silêncio cortante se quebrou, mas não por ela.

– Acho que te devo um pedido de desculpas. – a voz era calma, alta apenas o suficiente para ser ouvida.

– O que? – perguntou, em leve descrença.

Emma ergueu a cabeça e olhou para ela, tirando alguns fios loiros que cobriam os olhos.

– Você sabe... Meu pequeno discurso no corredor.

– Ah, aquilo... Bem, eu também não fui um poço de gentileza. – admitiu.

– É, mas acho que consigo ser adulta o bastante pra reconhecer quando algo é minha culpa.

– Como assim?

– Eu sei que às vezes sou meio invasiva, e não posso nem dizer que é coisa de policial, porque sempre fui assim, sabe? Querendo conhecer e entender tudo e todos à minha volta...

– Srta. Swan...

– Só me deixa terminar, tudo bem? – com um aceno positivo, continuou – Eu não quis em momento algum forçar uma convivência e nem estava esperando que você falasse comigo como se fôssemos amigas de infância, mas acho que esse é o meu problema... – virou novamente para encarar o jardim – Eu nunca sei quando ultrapasso os limites porque na maior parte do tempo vou com muita sede ao pote, que é o que meus amigos dizem, então... Sinto muito por ter dito aquelas coisas.

Regina que até então ouvia tudo em silêncio e balançava a perna esquerda cruzada sob a direita, num gesto inconscientemente nervoso, se viu ainda pior quando a loira parou de falar, mas deu o seu melhor para encontrar as palavras.

– Você estava nervosa, é compreensível, mas em todo caso desculpas aceitas.

Emma deu uma pequena risada.

– Você faz tudo parecer tão automático. – comentou e em resposta ganhou um semblante confuso – É que você é toda organizada e cheia de compostura, sinceramente não sei como consegue ficar mais do que dois minutos falando comigo.

– Sabe que eu me faço a mesma pergunta?! – brincou.

– Eu poderia dizer que é por causa do meu charme irresistível, mas não quero parecer convencida.

– Jamais pensaria tal coisa.

Trocaram sorrisos até que a tensão se intensificou, e a morena desviou o olhar para o tampo de vidro da mesa à sua frente.

– Então... – ao som da voz de Emma outra vez quebrando o silêncio, voltou a olhar para cima – Eu queria deixar claro que não saio despejando meu drama pessoal em todo mundo que aparece na minha frente... Pelo menos não estando sóbria, mas já que comecei se importa se eu terminar?

– Quer me contar sua história? – arqueou uma sobrancelha.

– Sim, quer dizer, não... Não toda, só um resumo. – ao notar a hesitação de Regina, continuou – Eu vou entender se você não quiser ouvir, sei que...

– Não é isso. – interrompeu.

E realmente não era, porque ela estava sem sono, sua dor de cabeça havia passado, e aparentemente a situação com Emma estava resolvida, mas ainda assim a ideia de compartilhar informações era...

– Isso não é uma troca, relaxa. Eu vou falar, mas você não tem que fazer o mesmo.

“Parece que ela pode ler minha mente... Bobagem!”

– Vá em frente. – encorajou.

Emma esfregou uma mão na outra e virou até pressionar as costas na barra do muro e encarar a vidraça enquanto falava.

– Não é nenhum drama mexicano... Eu cresci num orfanato chique no centro da cidade, cercada de meninas iguais a mim, fui adotada algumas vezes...

– Algumas? No plural?

– Sim, parece que ninguém dava conta do pequeno furacão. – sorriu com a lembrança – Aliás, esse foi meu apelido durante um bom tempo.

– Hum, apropriado.

Emma revirou os olhos, e prosseguiu.

– Bom, eu saí quando fiz dezoito, arrumei emprego, conheci Mary Margaret, ela veio morar comigo quando minha colega mudou de cidade, me inscrevi pra prova da polícia, passei, e estou aqui. – colocou a mão no peito e fez cara de dor – Deixa eu respirar... – ofegou.

– Essa Mary Margaret é a amiga de quem falou ontem?

– Ela mesma, ela é como uma irmã pra mim, embora às vezes aja como minha mãe. – fez careta – Você tem alguém assim na sua vida? – perguntou sem pensar – Não precisa responder.

– Não, eu quero. — e ela queria, para sua total surpresa, ela queria. Era como se ao ouvir um pouco sobre Emma algo dentro de si tivesse se acalmado. – Tenho uma relação parecida com minha amiga Tinker, tirando a parte de agir como mãe, ela... – sorriu ao lembrar os momentos vividos – Ela não tem a estabilidade pra isso, na verdade sou eu quem estabelece os limites na maioria das vezes.

– Então você tem uma amiga maluquinha? – Regina assentiu – Interessante... Deve dar um contraste bom. – comentou – Mas espera, o nome dela é Tinker? Tipo, Tinker Bell?

– Não. – Regina riu internamente, aquela era a reação da maioria das pessoas ao ouvirem isso – Por haver certa semelhança o apelido surgiu quando éramos crianças, e como já adorava a personagem, ela aceitou, e continua até hoje. Não usa o verdadeiro nome desde os sete anos.

– E como é?

– Não estou autorizada a dizer.

Emma riu.

– Entendi, ah... Está ficando tarde, você não vai dormir? – perguntou gentilmente.

– Eu não estou... – e sua frase foi bruscamente interrompida por um bocejo, que a fez levar a mão até a boca para abafar.

– Com sono? Percebi. – sorriu.

– Eu não estava, mas pelo visto isso mudou.

– Provavelmente devido a minha agradável presença. – deu uma piscada e se moveu para entrar no quarto, parando no limiar entre a vidraça e a varanda – Boa noite.

– Boa noite. – respondeu ao se levantar.

E então logo cada uma entrou em seu próprio quarto, e ao deitar na cama e sentir suas pálpebras pesarem Regina não poderia imaginar o quão certa Emma estava com sua última frase.

O dia no SPA começava cedo, cada pessoa escolhia a hora em que queria iniciar suas atividades, e como maioria era bem disposta logo que o sol nascia já era possível ver alguns hóspedes circulando.

Regina tomava café no restaurante, e viu uma loira já não mais tão desconhecida assim entrar no lugar com cara de sono, mas sem abandonar o sorriso nos lábios.

Passou por uma das garçonetes Judy ou algo assim, Regina não lembrava e nem fazia questão de lembrar, o que importa foi o bom dia animado que Emma dirigiu a ela.

A morena franziu o cenho diante da cena, não era a primeira vez que sentia como se as duas se conhecessem, e aquilo a incomodou, pena que ela ainda não estava ciente disso o bastante para sequer pensar em admitir.

Seus pensamentos foram atraídos de volta para o presente quando Emma parou em frente sua mesa.

– Srta. Mills. – cumprimentou sorrindo.

– Srta. Swan. – sorriu de volta.

– Dormiu bem?

– Maravilhosamente.

– Não precisa me agradecer. – brincou e virou para procurar um lugar para sentar e logo encontrou uma mesa vazia ali perto – Até depois. – deu as costas.

Regina já tinha perdido a conta dos ataques de impulsividade que teve desde que havia entrado naquele SPA, no entanto lá estava mais um.

– Espere! – pediu apressada e a loira virou para olhá-la – Por que não me faz companhia?

– Ok, tudo bem. – puxou a cadeira e se sentou.

Emma fez sinal para a garçonete e como era de se esperar Ruby veio praticamente correndo pronta para anotar o pedido, e assim que o trouxe o colocou na frente da loira.

– Bom apetite, Srta. Swan. – sorriu maliciosamente e foi embora.

“Você me paga, Ruby.”

Regina que havia presenciado tudo tinha uma sobrancelha arqueada e os lábios unidos formando uma linha fina.

– Você a conhece? – perguntou.

– Ah, claro, é a Ruby, ela trabalha aqui. – falou como se fosse a coisa mais óbvia do mundo.

– Você me entendeu.

Emma suspirou.

– Sim, eu conheço, mas não no sentido bíblico se é o que você quer saber. – cortou um pedaço da panqueca, espetou com o garfo e colocou na boca.

– Impressão minha ou isso te decepciona?

– Impressão sua. – respondeu com a boca cheia.

– Seus modos são realmente encantadores.

Em resposta Emma apenas fez careta e continuou comendo.

Quando terminaram se dirigiram para a saída do restaurante, e após uma rápida despedida cada uma seguiu para um lado.

Regina por mais que não quisesse admitir sentiu falta do jeito mais atrevido da loira durante o café, era bom ter alguém que a desafiasse para sair um pouco da rotina, mas desde o ocorrido na noite anterior era como Emma estivesse retraída, e ela não fazia ideia do quanto estava certa sobre isso.

Swan tinha pensado muito depois da pequena discussão no corredor, e decidiu ser racional e parar de se deixar levar por impulsos quando se tratava de Regina. Resolveu que não faria mais perguntas pessoais, e que manteria tudo na superfície.

“Desse jeito é mais seguro.” – era o seu mais novo mantra.

Então ali estava ela, horas depois, no jardim junto com mais algumas pessoas esperando o guia dizer a hora em que sairiam.

Ela havia se inscrito numa caminhada nos arredores do SPA, para ver a natureza e conhecer a história sobre as montanhas que cercavam o lugar, e tudo o que não esperava no momento era ver ninguém mais ninguém menos do que Regina caminhando a passos firmes em direção ao pequeno grupo.

“Mas que diabos...?”

– Agora eu começo a achar que é você que está me seguindo. – a morena disse ao parar ao seu lado.

– Eu cheguei primeiro, e além do mais não sabia que gostava de caminhadas.

– Mais uma prova de que não me conhece tão bem quanto pensa.

– Eu não penso nada.

Regina se preparou para responder, mas o guia apareceu e avisou que estavam de saída, passou algumas instruções básicas e cada um começou a andar.

As duas fizeram boa parte do caminho em silêncio, até que Emma como sempre não aguentou.

– Me admira você não ter vindo de salto alto e vestido. – comentou olhando para a calça de malha preta, blusa de alça cinza escura e tênis que a outra usava.

– Sei muito bem que tipo de roupa usar em cada ocasião.

– Nunca duvidei disso. – sorriu e continuou caminhando.

O tempo passou, segundo o relógio que Emma usava no pulso esquerdo já fazia quase uma hora que estavam andando, entre informações, histórias e curiosidades, todos pararam diante de uma grande pedra, que segundo o guia possuía uma lenda: quem conseguisse permanecer em cima dela por mais de dez segundos era porque estava destinado a encontrar tudo aquilo que jamais pensou que pudesse ter de novo, respectivamente de acordo com a história de vida da pessoa.

“Que idiotice.” – Emma pensou enquanto via todos tentando e não conseguindo alcançar o tempo necessário “O que tem nessa pedra? Um botão de ejetar?” – zombou.

– Você não vai tentar, minha jovem? – perguntou uma senhora de cabelos grisalhos que fez a loira perguntar a si mesma qual o limite de idade para fazer o que eles estavam fazendo.

– Não é a minha praia.

– E quanto a você? – perguntou para Regina.

– Acho que não é a dela também. – respondeu por ela, sem pensar.

– Eu vou. – passou a frente parando apenas para falar em tom de reprimenda – Nunca responda algo por mim, querida. – sorriu em foi em direção a tal pedra.

Poucas pessoas prestavam atenção enquanto Regina subia, e nenhuma delas estava tão vidrada naquela cena quanto Emma.

A morena graciosamente colocou o pé direito e depois o esquerdo, parando bem em cima da pedra e sorrindo triunfalmente.

O guia manteve os olhos no cronômetro, — enquanto as duas não quebraram o contato visual -, então quando os dez segundos foram alcançados alguns aplaudiram rapidamente, outros apenas sorriram e ainda tiveram aqueles que não esboçaram nenhuma reação. No entanto, ao descer Regina escorregou numa parte mais lisa e quando tinha certeza que iria cair no meio daquele monte de folhas e terra, um braço firme envolveu sua cintura e a estabilizou no lugar.

– Você está bem? – Emma perguntou, preocupada.

– Sim, eu só escorreguei.

– Eu sabia que de inofensiva essa pedra não tinha nada. – abriu um sorriso gentil.

Seus olhos se conectaram e Regina não sabia quanto a Emma, mas seu corpo naquele momento parecia querer lhe enviar todos os tipos de sinais.

Seu coração estava acelerado, e algo lhe dizia que não era devido a sua quase queda. A respiração pesada, boca seca e todo um conjunto assustadoramente tentador.

“Deve ser adrenalina, nada mais. Eu posso controlar, claro que posso, só preciso...”.

– Você já pode me soltar. – disse com toda confiança que conseguiu reunir.

– Claro, desculpa. — um movimento rápido e seus corpos estavam separados – Eu não sabia que você acreditava nessas coisas. – apontou para a pedra logo atrás da morena.

– Não acredito. – afirmou e apertou o passo em direção ao resto do grupo.

Acreditando ou não, ao menos daquela vez a lenda tinha seu fundo de verdade, ainda que nenhuma das duas pudesse enxergar.

Assim que a caminhada acabou e o grupo voltou para o SPA Regina procurou se manter ocupada. Agendou duas massagens seguidas e durante cada uma delas tentou ao máximo não pensar em nada, o que logo se mostrou impossível.

“Isso é ridículo, simplesmente ridículo. Eu não sou nenhuma adolescente e não vim aqui pra isso. São só... Hormônios, sim é isso. Ela é bonita e de certa forma me desafia, então talvez esteja atraída por ela, o que não necessariamente quer dizer que tenho que fazer algo a respeito. Há dezenas de outras pessoas muito mais interessantes por aí.”

De monólogo em monólogo ela subiu para o quarto no final da tarde, tomou banho, trocou de roupa e quando pensou em ligar seu iPod para ouvir um pouco de música e relaxar, uma batida na porta interrompeu seus planos.

Ao abrir se deparou com um rapaz jovem usando o uniforme do SPA, e com um sorriso nos lábios.

“Pra que sorrir tanto? Chega a ser patético.”

– Boa noite... – ele olhou para o que parecia ser uma ficha que tinha em mãos – Srta. Mills. – esperou por um cumprimento em resposta, e quando tudo o que ganhou foi uma expressão em branco, continuou – Meu nome é Tyler, vim aqui para avisar formalmente que faremos uma festa de pré-despedida, hoje às nove horas, no salão de festas.

– E...?

– Bem... – começou, nervoso, o que não era novidade já que a morena estava mais do que acostumada a causar esse efeito nas pessoas – Haverá música, comida e bebida. A presença não é obrigatória, mas será muito apreciada.

– Eu vou pensar. Mais alguma coisa? – o rapaz negou com a cabeça – Ótimo. – e ela fechou a porta.

Não demorou muito para decidir comparecer a tal festa, cerimônia ou o que quer que fosse. Afinal buscava por alguma distração que não envolvesse Emma Swan.

Mais tarde ao se arrumar, optou por um vestido vinho escuro, justo como de costume, e saiu.

Esperava pelo elevador e quando as portas se abriram a Emma saiu de dentro dele assumindo uma expressão de surpresa ao ver Regina, mas logo tratou de esconder.

– Oi, ah... – percorreu o corpo da morena com os olhos – Tudo isso pra jantar?

– Não Srta. Swan, haverá uma festa daqui a pouco, e estou indo pra lá.

– Festa? Aqui? Por que ninguém me avisou?

– Talvez não tenham te encontrado. – observou-a por um momento – Não parece ter passado as últimas horas no seu quarto. – gesticulou para o corpo da outra que só então percebeu que continuava dentro do elevador, encostada na porta impedindo que fechasse.

– Ah é. – rapidamente saiu e parou do lado de Regina – Eu estava... Você sabe, andando, explorando... Me mantendo ocupada. – sorriu – Mas me diz, onde vai ser essa tal festa?

– No salão de festas. – apertou o botão para chamar o elevador.

– Certo... Eu andei tentando decorar a planta desse lugar, então acho que consigo chegar lá sem meu guia. Nos vemos lá em baixo?

– Parece que sim.

As portas se abriram e ela entrou, sorriu discretamente para Emma que logo sumiu em direção ao quarto.

“Perfeito. Isso era tudo o que eu precisava, realmente.” – suspirou frustrada enquanto o elevador descia.

Não foi difícil encontrar o tal salão, porque além de não ser estúpida pra estar a quatro dias hospedada ali e não conseguir ao menos se localizar quando necessário, o som da música também ecoava pelos corredores. Não de maneira estridente, apenas o bastante para que Regina o seguisse.

A decoração era delicada, em tons claros. Havia algumas pessoas em pé segurando taças de champanhe e conversando, outras distribuídas pelas mesas que ocupavam o lugar, e também um e outro se arriscando a dar alguns passos no ritmo da música que tocava ao fundo.

A morena encontrou lugar numa mesa no canto e se sentou, logo vieram lhe servir e ela concordou com uma simples taça de champanhe por hora. Não pretendia comer pois não estava com fome.

Os minutos passaram, alguns hóspedes a olhavam como se estivessem criando coragem para se aproximar e puxar conversa, mas nenhum deles saiu disso.

Regina retirou o celular da pequena bolsa preta que carregava para verificar qualquer notificação, e logo se deparou com uma mensagem de Tinker.

T: Hey Gina (não adianta revirar os olhos pelo apelido), só to mandando isso pra te manter informada como você pediu trezentas vezes. Sim, o Henry está bem, se alimentando, estudando e dormindo na hora certa. Você não está aqui, mas a terra continua girando. Me liga quando puder pra falar sobre o tempo, a vida, e claro o mais novo sinal que o universo colocou no seu caminho, que também atende pelo nome de Emma... Pensou que eu tivesse esquecido? ;)

Boa noite.

Regina não conseguiu conter uma leve risada ao ler aquilo.

Tinker continuava com a ideia absurda de que ter conhecido Emma não foi um simples acidente ou acaso, mas sim algum tipo de sinal, mensagem ou coisa do tipo, enviado pelo destino, universo e outra infinidade de termos que pra ela não significavam nada além de perda de tempo.

Se ela imaginava trocar mais do que duas palavras com a loira depois do ocorrido no primeiro dia no jardim? Com certeza não, mas aconteceu, porém isso não significava nada mais do que era.

Ou pelo menos ela repetia isso para si mesma mais vezes do que podia contar, ainda que sem ter plena consciência disso, por enquanto.

R: Não há nada para falar relacionado a Srta. Swan. E sim, eu descobri o sobrenome dela, e não importa como isso aconteceu. Por favor, concentre-se apenas em cuidar do Henry por mim, depois de amanhã estarei de volta e quero meu filho inteiro.

Boa noite :)

Clicou em enviar e guardou o celular.

Percorreu o salão todo com os olhos, até que seu foco parou na entrada, onde Emma estava parada olhando em volta e com a postura um pouco tensa.

Ela usava um vestido rosa claro, tomara que caia justo e um pouco acima dos joelhos, com os cabelos soltos caindo sob os ombros.

Ela podia não estar totalmente ciente, mas seu olhar estava vidrado na loira, quase não piscava e qualquer som ou cena que não fosse ela, deixou de ser importante por alguns instantes.

“Isso é errado e inconsequente. Sim, ela está usando um vestido, grande coisa. Não importa o quão linda esteja, você não está aqui pra isso, você nem sequer quis isso, então pare.” Fechou os olhos por um momento “Esses malditos monólogos internos estão se tornando frequentes... Preciso de outra bebida.”

Quando abriu os olhos viu Emma andando devagar em sua direção, mas antes de permitir que a ansiedade alastrasse em seu peito sua visão foi bloqueada por alguém de vestido florido, e ao olhar para cima deu de cara com uma senhora sorrindo para ela.

– Olá, desculpe incomodar, mas eu tive a sensação de que te conhecia de algum lugar e não conseguia lembrar de onde, até agora. – sorriu gentilmente – Você é Regina Mills, certo? Do caso Williams?

Sim, ela lembrava muito bem desse caso em particular.

Ela tinha representado Charles Williams, um magnata dono de uma rede de shoppings espalhados por todo o EUA, envolvido num escândalo milionário com um de seus sócios e que mentiu para ela o tempo todo sobre fatos cruciais, fazendo com que ganhasse o caso, mas não de forma justa, o que Regina só descobriu após o veredito, e por mais que tivesse aprendido muito sobre cada parte obscura do mundo da advocacia, ainda assim isso não aliviava em nada o modo como se sentiu suja.

Já haviam se passado mais de um ano, porém como a mídia fez de tudo um grande circo, seu rosto que já era conhecido se tornou quase um símbolo, o que foi bom para seu escritório, mas não tão bom para seus princípios, embora ela fizesse o máximo para disfarçar.

– Sim, sou eu. – respondeu com seu sorriso reservado somente para uso profissional.

E toda uma conversa extremamente previsível começou.

Enquanto isso, Emma estava agora parada perto da mesa dos petiscos, se perguntando o que diabos tinha na cabeça para ir naquela festa quando havia passado quase quatro horas se revezando entre ioga, academia e massagens. Tudo isso numa busca frenética e talvez nem tão inconsciente assim para não dar brechas ao turbilhão de reações que seu corpo teve quando impediu que Regina caísse na floresta.

Segurá-la tão perto foi... Foi... Alguma coisa.

E o que era aquela cicatriz no lábio superior? Nunca pensou que uma pequena imperfeição pudesse ser tão sexy em alguém.

E ao invés de passar por todo um monólogo sobre como era normal achar Regina atraente, resolveu se manter ocupada.

Ela sabia que o mais sensato seria apenas tomar banho e cair na cama, no entanto ali estava num vestido que havia comprado há meses e nunca usou, e que não se lembrava de ter colocado na mala.

“Só pode ser coisa da Mary.” – pensou.

Para piorar não conhecia ninguém ali, alguns ela cumprimentava sempre que os via pelos corredores ou no jardim, mas só por educação e até mesmo costume, nada além disso. Não havia uma só pessoa naquele salão com quem pudesse iniciar uma conversa que não envolvesse futilidades.

Bem, na verdade havia uma pessoa, mas quando num impulso decidiu ir até ela uma mulher apareceu na frente e toda sua repentina coragem desapareceu, colocando-a ali onde estava, experimentando petiscos que não davam nem pra tapar o buraco do dente, e ela como sempre estava faminta.

Entre uma mordida aqui e outra ali, tentava enganar seu estômago como podia e ao mesmo tempo pensava no que fazer. As opções eram duas: ir embora imediatamente, ou ficar e passar mais uma hora ou duas dando voltas em torno de algo que ela ainda nem sequer entendia direito.

Mas aparentemente não foi rápida o bastante e quando sentiu uma presença ao seu lado se virou e deu de cara com seu pequeno pesadelo daquela semana: George.

– Está linda essa noite, Srta. Swan. – sorriu galanteador – Ou melhor, é linda sempre.

“Ah claro, ele não estava na aula de ioga mais cedo e eu me deixei ficar feliz por isso, devia saber que o universo ia me sacanear depois.”

– Obrigada... – perdeu a fala e amaldiçoou a si mesma por isso.

– George Thompson. – completou, por pensar que ela havia esquecido – Cirurgião plástico e tenista nas horas vagas, nos conhecemos na aula de ioga.

– Eu sei, quer dizer... Seu primeiro nome, não o resto. Eu...

“Isso, gagueje mais assim ele vai achar que te deixa nervosa, o que pode até ser verdade, só que não pelos motivos tradicionais.”

– Você está bem, Emma? Posso te chamar de Emma? – aquilo estava mais pra pergunta retórica.

“Não.”

– Escuta George...

– Você quer sair daqui? – interrompeu.

– O que?

– Sair daqui. – repetiu – Eu realmente gostaria de conversar com você em um lugar mais reservado.

“Ah não, não vai rolar meu querido, não essa noite e principalmente não comigo.”

– Na verdade tem uma coisa que você precisa saber, eu sou...

– Aí está você! – disse uma voz que naquela altura ela já conseguia reconhecer sem o menor esforço, e não precisou nem virar o rosto como logo Regina entrou em seu campo de visão e parou entre ela e George com um brilho divertido nos olhos – Eu estava te procurando, amor. – se aproximou e colocou a mão delicadamente na sua cintura.

“Amor? Espera, ela... Amor? Ok respire.”

– Estava? – perguntou com a voz fraca.

– Mas é claro, você disse que me encontraria aqui e quando demorou fiquei preocupada. – sorriu gentilmente e por um segundo Emma quase acreditou que era verdade, e isso em vez de assustá-la só serviu para colocá-la numa neblina como se estivesse envolvida por anestésicos, era bom e ao mesmo tempo sufocante – Eu encontrei uma mesa disponível, vamos? – finalmente olhou para George, e só um idiota não perceberia que ela o tinha visto ali desde o início – Olá, seu nome é George, da aula de ioga, não é? – ele apenas assentiu – Eu sou Regina, peço desculpas, mas terei que roubá-la de você.

Ele piscou algumas vezes e percorreu as duas mulheres com os olhos.

– Vocês duas são... Estão...

– Sim, algum problema com isso? – a morena perguntou de maneira sutil e ameaçadora, como só ela sabia fazer.

– Não, claro que não, eu só... – tomou um gole da taça de champanhe que até aquele momento Emma não tinha reparado que ele estava segurando – Só acho que vocês poderiam ter me dito, sabe? No primeiro dia.

– Bem, eu quis fazer uma pequena brincadeira com ela, mas tem razão, não deveria ter te colocado no meio.

– Ah...

– Espero ter esclarecido tudo, aproveite a festa.

Puxou Emma pelo braço e saiu.

Quando já estavam a uma distância segura Regina soltou-a discretamente caso George ainda estivesse olhando.

– “Eu quis fazer uma pequena brincadeira com ela, mas tem razão, não deveria ter te colocado no meio?” – a loira disse imitando a voz da outra quando chegaram na mesa onde Regina estava anteriormente – Tem alguma ideia do quão pervertida essa frase soou? Ainda mais nos ouvidos daquele cara?

– É sempre um prazer ajudá-la, Srta. Swan. – sentou numa das cadeiras.

– Você seria uma ótima atriz, já te disseram isso?! – perguntou animada enquanto se sentava também.

– Não, mas pelas minhas contas essa é quarta ou quinta profissão alternativa que eu poderia ter segundo sua opinião. Vou manter em mente caso precise algum dia.

Emma riu.

– Sério, você não precisava ter feito aquilo, acho que te devo uma.

– Sua linguagem corporal estava praticamente lançando um sinalizador em pedido de socorro. – brincou – Mas aceitarei a divida.

– Você viu a cara dele?!

– Sim, eu vi. – sorriu – Ouça...

E novamente outra interrupção surgiu, dessa vez um homem e duas mulheres, entre elas a que tinha mencionado o caso Williams, e que com muito custo Regina havia conseguido se esquivar para ir “salvar” Emma.

Os três logo se apresentaram e pediram para sentar com elas, que não tiveram como negar, e uma conversa extremamente chata começou.

A loira passava as unhas pela toalha da mesa formando desenhos abstratos e se lhe perguntassem algo apenas sorria ou dava respostas curtas. Quando o assunto mudou drasticamente de escândalos jurídicos para decoração de interiores ela se deu por vencida.

– Bom eu vou indo, estou meio cansada então... Boa noite.

– Boa noite. – os três responderam quase que ao mesmo tempo.

– Eu vou com você. – Regina disse.

– Não precisa, fique e aproveite a noite. – sorriu e saiu.

“Claro que nós não teríamos um momento sozinhas, e pensando bem, é até melhor assim.”

Continuou andando e passou pela porta do salão.

Regina abriu a porta do quarto, mas antes de entrar parou quando o som de um violão chegou aos seus ouvidos. Era um pouco abafado, provavelmente pelas paredes, mas conforme entrou e fechou a porta ele se tornou um pouco mais alto.

“Mas quem...” – e logo se lembrou da única pessoa naquele SPA que ela sabia que havia trazido tal instrumento “Emma.”.

Colocou a bolsa em cima da cama e seguiu a melodia. Abriu a vidraça com cuidado e assim que pisou na varanda e olhou para a esquerda viu a loira sentada no muro da lateral que dava para o seu próprio quarto, encostada na parede, ainda de vestido, descalça e completamente absorta no que fazia, tocando notas suaves e murmurando algumas palavras que Regina não conseguiu identificar como sendo de nenhuma música que conhecesse.

Ficou parada observando, tão distraída que nem se deu conta de quando a música acabou.

– Gostou do show?

– Bem, ajudaria muito se eu soubesse que música é essa.

– Nenhuma que você conheça, pode acreditar. – colocou o violão no chão – A propósito, é meio perigoso ficar observando alguém que está distraído sentado na beira de uma varanda há mais de vinte metros de altura, eu poderia me assustar e cair. – disse, brincando.

– Sim, mas isso não aconteceu. – puxou uma cadeira e sentou de frente para Emma – O que está fazendo aí pra começar?

– Tocando. – disse, como se a pergunta fosse idiota – Não sei se reparou no violão... – se inclinou um pouco para tocar o instrumento com a ponta dos dedos – É essa coisa de madeira aqui.

– Está enganada se acha que esse é o jeito certo de me agradecer por salvá-la.

– Me salvar? Também não é pra tanto, né? Mas eu vou ser legal, o que você quer? Uma reverência? – brincou.

– Não querida, um simples obrigada bastaria, mas diante dessa situação sugiro que comece descendo daí.

– Por quê?

– Porque como você mesma disse está a mais de vinte metros de altura, e eu não tenho a menor vontade de ver essa sua cabecinha de vento se estatelando lá embaixo.

– Eu podia dizer que estou acostumada com grandes alturas e que meu equilíbrio é uma maravilha, mas sei que você discordaria da última parte... – jogou as pernas para dentro da varanda e desceu – Feliz?

– Não está esquecendo nada?

– Obrigada. – murmurou.

– Muito baixo, mas vou deixar passar.

– Poxa, eu não mereço tamanha misericórdia. – colocou a mão no peito e fingiu emoção – Acho que estamos quites agora.

Puxou uma cadeira e sentou de frente para Regina. As varandas eram relativamente perto uma da outra, e seus muros não muito altos permitiam que as duas se vissem perfeitamente, mesmo sem estarem em pé.

– Achou errado, ainda me deve uma. – a morena provocou com um sorriso e descruzou as pernas para depois cruzá-las de novo ao contrário.

– Srta. Mills, se eu não te conhecesse diria que está começando a gostar da minha companhia.

– Então ainda bem que não me conhece. – ao perceber como aquilo havia soado, tentou reformular – Iluda-se o quanto quiser.

“Porque raios falei aquilo? Não posso contar com a aparente lentidão dela para assimilar. Com certeza não vai deixar por isso mesmo.”

– Espera, o que...

“E aí está. Ok, só mude de assunto.”

– Aliás, gostaria de agradecer por ter me deixado naquela festa em tão boa companhia. – disse sarcástica.

– Você queria ir embora? – Regina respondeu com um olhar que dizia “o que você acha?” – E como eu ia saber?

– Oh desculpe, a culpa foi minha, eu pensei que o “eu vou com você” tivesse sido claro o bastante. – ironizou.

– Ok, tudo bem, mas em minha defesa você parecia bem à vontade.

– Aquilo se chama educação. Francamente Srta. Swan, sua percepção me impressiona cada vez mais. Deve ser uma ótima policial. – provocou.

– Essa semana eu dei off no modo policial, essa sou só... Eu.

– E isso deveria ajudar de alguma maneira?

– Você é impossível.

– E você demora para entender algumas noções sociais básicas, e não me vê reclamando disso.

– Na verdade sim, eu vejo, mas tudo bem, melhor eu ir deitar.

Levantou, fazendo com quem uma onda de adrenalina corresse pelas veias de Regina. Ela ainda não estava pronta para dizer boa noite.

– Não, espere. – engoliu em seco e procurou não se concentrar no quão desesperado aquilo havia soado – Fique. – disse, em voz baixa.

Emma que no fundo havia dito aquilo apenas por impulso e nem com sono estava, hesitou por alguns segundos até decidir falar.

– Está bem, mas já que pelo que eu vi é meio impossível ter uma conversa sem que você insulte minha inteligência e eu queira te esganar... Posso tocar um pouco? – apontou com o indicador para o violão que continuava encostado no muro – Seus ouvidos não vão sangrar, eu prometo.

Regina revirou os olhos, mas se limitou a dizer.

– Fique à vontade.

Emma sentou novamente na cadeira, pegou o instrumento e o posicionou em seu colo e começou a tocar, deslizando a ponta dos dedos pelas cordas e cantarolando uma melodia suave e lenta.

Embora ainda não reconhecesse a origem da música, ou se ao menos era realmente uma, Regina se perdeu naquele momento.

Quando criança ao demonstrar interesse pela música além das aulas de balé que fazia, sua mãe a matriculou imediatamente na aula de piano, alegando que meninas deveriam tocar instrumentos delicados, e que jamais permitiria que Regina aprendesse a tocar algo que tivesse cordas, pois para ela do violão para a guitarra era um pulo, e se recusava a ter uma filha guitarrista. Como tudo o que queria era mexer com música, a morena não se importou e frequentou todas as aulas durante anos e em momento algum se arrependeu disso, a única coisa que ainda girava em sua cabeça era o que a Cora de agora diria sobre a Cora de quase trinta anos atrás, cheia de paradigmas e opiniões retrógradas e egoístas. Ela não sabia dizer ao certo quando sua mãe havia mudado tanto, e mesmo que sua versão antiga tivesse lhe rendido algumas discussões acaloradas – principalmente na adolescência -, também havia ajudado a moldar seu caráter. Por vezes não de um jeito muito normal, mas ainda assim...

– Ei! – Emma estalou os dedos em sua direção, despertando-a de suas lembranças – Como estão as coisas lá em cima? – perguntou.

Regina piscou algumas vezes para retomar a concentração e só então percebeu que a loira havia parado de tocar e segurava o violão no colo. Assim que ouviu a pergunta franziu o cenho.

– O que?

– No mundo da lua, que pelo visto era onde você estava enquanto eu tocava. – sorriu.

– Eu só estava me perguntando onde aprendeu a tocar tão bem. – mentiu, bom, pelo menos sobre estar pensando nisso, porque mesmo que não tivesse prestado muita atenção dessa vez e na primeira mal teve tempo de analisar, ainda assim tinha que admitir que Emma sabia o que estava fazendo.

– Vou aceitar o elogio antes que você o retire... E respondendo sua pergunta eu aprendi boa parte no orfanato e o resto com um dos meus pais adotivos, ele era um músico meio doido, mas ainda um músico. – colocou o violão de volta encostado no muro – Sabe tocar alguma coisa?

– Piano. – respondeu naturalmente.

– Verdade? Viu aquele do salão de festas?

– Sim.

– E por que não tocou?

– Porque até onde eu me saiba não estou na folha de pagamento do SPA, portanto não é meu dever fazer isso.

– E quem falou em dever? Eu estou falando de diversão. Não acredito que teve um piano há alguns metros de distância e preferiu ficar falando sobre vasos e tapetes com aquelas pessoas.

– Não foi nenhum mar de rosas para mim também, Srta. Swan.

– Sem mais Srta. Swan, ok? Eu toquei violão na sua frente, você ouviu um resumo da minha vida, faça o favor de me chamar pelo primeiro nome. Repete comigo: Emma.

– Eu sei pronunciar muito bem, mas minha resposta ainda é não.

– Mas por que isso?

– Um pouco de formalidade não faz mal a ninguém, deveria experimentar.

– Não, obrigada. Nem os funcionários daqui me chamam pelo sobrenome.

– Isso porque dá muita liberdade a eles, em especial àquela garçonete Trudy, Judy...

– Ruby. – Emma corrigiu.

– Essa mesma.

– Ruby é diferente.

“Diferente? O que... Por que eu me importo?”

– Sim, isso não ficou muito claro, disse que a conhecia mas não entrou em detalhes.

– Pra quem não queria fazer amizade você anda querendo saber demais, não acha?

– Se estava desconfortável deveria ter dito antes, e não...

– Não, tudo bem. – interrompeu, não querendo voltar à estaca zero – Isso não me incomoda, na verdade acho que sou uma das poucas no meu ramo que gostam de responder perguntas, e não só fazer, mas enfim... – suspirou – Conheci a Ruby num bar da cidade um tempo atrás, estava passando por uma fase meio complicada, ela precisou de ajuda com um bêbado tarado e eu ajudei, então nós conversamos. – ao ganhar um olhar incrédulo, continuou – E conversamos. Eu... – parou, tentando encontrar as palavras certas – Eu tinha terminado um relacionamento fazia alguns dias e minha cabeça estava meio confusa, queria alguém pra me ouvir, alguém novo, sei lá... Aí ela apareceu.

– Eu não quis...

– Está tudo bem. – interrompeu – No começo eu queria bater em todo casal feliz que aparecia na minha frente, mas depois passou. Faz mais de um mês e pode até não ser normal encarar tudo assim, mas ela está por aí, não é como se estivesse morta. – colocou a mão na boca assim que percebeu o que havia dito – Desculpa, eu não quis...

– Tudo bem.

– Tem certeza?

– Sim e, por favor, não insista no contrário, não queremos repetir o que aconteceu na noite anterior, certo?

– Certo.

Emma sorriu ainda um pouco envergonhada por sua falta de jeito e abaixou a cabeça, de repente muito interessada na costura da barra do vestido que usava.

– Como você faz isso? – Regina perguntou, e ela levantou o rosto.

– Isso o que?

– Isso... Falar.

– Se refere a minha mania de não calar a boca? – brincou – Eu não sei, é meio involuntário, eu só... Eu acredito que quanto mais transparente a gente for, menos pesada a vida fica, sabe? – mudou o foco para o jardim ao longe – Não tô dizendo que é pra sair falando tudo pra todo mundo, todos nós temos nossos segredos e cicatrizes, eu só me recuso a me esconder atrás de uma máscara. – voltou a olhar para a morena – Tento não deixar que o mundo a minha volta mude quem eu sou, e olha que oportunidade não falta, mas gosto de ter controle sobre isso pelo menos, já que a maior parte da porcaria toda não dá pra evitar. – sorriu – Foi mal, acho que filosofei demais, né? – quando tudo o que recebeu em resposta foi silêncio e o olhar de Regina perdido em algum ponto atrás de seu corpo ela olhou por cima do ombro e franziu o cenho ao não ver nada lá, e voltou a olhar para a morena – O que foi? – inclinou a cabeça para o lado até entrar no campo de visão dela, que ao notá-la aos poucos recuperou o foco – Parece que você fez outra visita ao mundo da lua.

– Só estou um pouco cansada. – disse visivelmente nervosa, e levantou, colocando a cadeira de volta no lugar.

Ela estava mentindo, Emma sabia disso, e aquela não era a primeira vez naquela noite, mas como não queria forçar nada resolveu fingir que acreditava.

– Ok, eu vou ficar mais um pouco, ar puro ajuda a relaxar.

Regina assentiu e entrou no quarto sem dizer uma única palavra.

“Ok Emma, pode começar a pensar em que besteira você disse dessa vez, ela não ia sair sem falar nada se não tivesse um motivo. Também quem mandou inventar esse discurso todo? Caramba, preciso aprender a resumir minhas ideias... Ah, mas quer saber? Ela perguntou e eu respondi.” – suspirou e abaixou a cabeça, segurando-a entre as mãos “Você veio aqui pra relaxar, não pra ficar pisando em ovos com uma mulher que acabou de conhecer...” respirou fundo algumas vezes tentando se convencer de que não se importava, mas ainda assim tudo o que conseguia pensar era no comportamento estranho de Regina. Ergueu a cabeça e olhou para o céu, procurando se distrair com as estrelas, e então ouviu o barulho da porta de vidro do quarto ao lado se abrir, e Regina sair de dentro dele já trocada, usando um hobby azul escuro de seda por cima do que deveria ser uma camisola do mesmo material.

Ela caminhou lentamente olhando para frente, e apoiou os braços no muro, olhando para as arvores ao longe, iluminadas pelos refletores. O silêncio durou vários segundos, e quando Emma estava prestes a perguntar se havia feito algo errado...

– O nome dele era Daniel. – Regina disse.

– De quem?

– Meu marido. – continuava olhando para frente – Ele morreu oito anos atrás.

– Oh... Você não precisava...

– Sim, eu sei. – passou a mão pelas mechas escuras do cabelo – Mas aparentemente eu quis, então fique quieta e aceite.

“Até baixando a guarda ela arruma um jeito de me dar bronca. Não sei se fico com medo ou impressionada.”

– Ok. – murmurou.

Mais alguns segundos em silêncio, novamente quebrado pela morena.

– Já que você tem falado tanto sobre si mesma, eu achei que...

– Não era pra te fazer sentir como se tivesse alguma obrigação. – interrompeu – Eu entenderia se não me contasse nada, mas fico feliz que tenha feito. – disse, e Regina balançou a cabeça com um sorriso nos lábios – O que foi? – Emma perguntou.

– Sua tentativa de ser gentil é quase cômica.

– Eu realmente não sei se devo me sentir ofendida com isso, mas em todo caso vou fingir que não ouvi. – brincou, e então resolveu mudar de assunto, para não deixar o clima pesado – Grandes planos pra amanhã?

– O que terá amanhã?

– É o último dia aqui, esqueceu?

– E eu deveria fazer disso um grande evento?

Emma revirou os olhos.

– Vou ignorar pela milésima vez essa sua mania de me responder com perguntas, antes que eu enlouqueça, então... – limpou a garganta – Toma café comigo amanhã.

– Isso não soou como uma pergunta.

– Porque não foi uma, olha... Me encontra no restaurante de manhã e a gente vê o que vai fazer pelo resto do dia, quem sabe você não tem alguma massagem pra me recomendar, né? – sorriu – E aí, topa?

– Acho que posso fazer isso.

– Fala como se fosse um sacrifício, a minha companhia é incrível, ok?

– Continue dizendo isso a si mesma, querida. – provocou – Agora eu realmente vou pra cama. – deu as costas e foi em direção à porta de vidro.

– Regina? – chamou e a morena parou para olhá-la – Até amanhã. – sorriu.

– Até. – respondeu e entrou no quarto.

Emma recolheu o violão e foi deitar, e quando encostou a cabeça no travesseiro finalmente se deu conta de que havia chamado Regina pelo primeiro nome, e ela não tinha reclamado. Embora soubesse que provavelmente foi apenas por não ter reparado, ela não pôde impedir a parte em si que encarou aquilo como uma pequena conquista.

Então até fechar os olhos naquela noite só conseguiu pensar no quanto aquele nome de repente parecia natural nos seus lábios.

Notas finais
Reparem que em momento algum a Emma diz pra Regina que a Ruby é hétero, pretendo usar isso. Viajei no lance da pedra, né? hahaha Já falei demais lá em cima, aqui serei rápida. Estão gostando do ritmo das coisas? E do tamanho do capítulo? Calma que no próximo o "vamo ver" começa ;) Volto com o capítulo sete no domingo ou segunda ♥ Bjs.