Em uma cidade pacata no interior do Texas, a xerife da cidade entrava no saloon pela quinta vez naquela semana.

— Olha se não é a Jenkins mais uma vez — O barman a recepcionou com um sorriso, as mãos ocupadas preparando uma bebida.

— Oi para você também, Vill. — A ruiva segurou na aba do chapéu como cumprimento. Ela se aproximou do bar e se sentou em uma das banquetas disponíveis, deixando o chapéu na bancada. — Quais as novas?

— O senhor Brown estava querendo arrumar outra briga hoje cedo, mas conseguimos mandá-lo para fora. Os turistas que chegaram ontem parecem estar se dando bem por aqui, estão dando uma parada para ir ao circo de Yellowstone. Como foi na busca do cavalo do sr. Roberts?

A xerife assobiou de alívio. — Aquele cavalo sabe arrumar problemas. Ele foi até Narrow River, tive que garantir para Yas que não tinha ido lá para duelar.

Vill a deslizou uma dose de rum na bancada.

— Yas? Já a está chamando por apelidos? — ele fez uma expressão exagerada de dúvida.

— O quê? — ela sentiu suas bochechas enrubescerem. — Não! Somos amigas, só isso. — Farah pegou a dose e virou com tudo.

— É a mesma amizade que nós temos? — Daisy apareceu ao seu lado com uma bandeja vazia. Jenkins nem a tinha visto quando chegou.

— Bem... Não...

— Então não é só amizade — Daisy recolheu as bebidas que Villem preparou na bandeja com agilidade, estava acostumada com o ritmo do estabelecimento. — Devia falar com ela logo, ouvi falar que uma tal de Janna já está ocupando o tempo dela.

— Quem é essa? — Jenkins perguntou.

Vill deslizou mais uma dose para ela, que bebeu num gole.

— É uma caçadora de recompensas, algo assim. Eu acho né, minhas fontes não são lá muito confiáveis. — A garçonete apontou para sra. Bell, uma idosa que passava informações falsas pela cidade por diversão.

Mesmo assim, Jenkins sentiu um sentimento conflitante subir à cabeça.

— E ela me falou mais uma coisa — Day se aproximou da xerife para sussurrar. Vill se aproximou também — Disse que algo caiu do céu lá no pé da colina. Ela não soube dizer o que era, mas tinha certeza de que não era desse mundo.

— Eu posso dar uma olhada. Estou com o resto do dia livre, por enquanto. — A xerife se levantou, recolhendo seu chapéu com uma mão e repousando a outra no revólver que levava, um movimento de costume que fazia quando saía do saloon. — Nos vemos, amigos! — Ela recolocou o chapéu e chamou por seu cavalo, Feather, ao sair.

— Quanto tempo você dá para ela superar a Yasmin? — Vill perguntou.

— Dois meses, no mínimo. — Day respondeu, e os dois riram. Realmente conheciam a amiga que tinham.

***

Farah cavalgava com Feather para o norte, na colina que deu o nome da cidade.

Grave Peaks já existia a três gerações da família Jenkins, e em todas as três os Jenkins eram xerifes. O pai de Farah não se aborreceu por ter uma filha, e a treinou como foi treinado para se tornar uma boa xerife.

Farah se inspirava muito no pai. Nunca tinha chegado a conhece sua mãe, mas seu pai fazia um ótimo papel sendo os dois. Eles iam a aventuras pelas cidades vizinhas juntos e cavalgavam até a cachoeira de Willis ao sul para pescar no rio que desaguava dela até Narrow River. Ele cuidou quando ela adoeceu não uma, mas duas vezes pela pneumonia na adolescência. Na segunda vez, ela quase não sobreviveu.

Depois disso, Shane Jenkins não quis arriscar a vida dela de novo. Pararam com as aventuras e Farah passou a ficar em casa, o que ela não gostou nem um pouco.

Não demorou para Shane adoecer também. O surto de febre amarela era grave, e ele seria uma das doze vítimas fatais da pequena cidade.

Ela esteve presente para ele até seus últimos dias, e tinha prometido ser a xerife que ele sempre quis que ela fosse para a cidade. Três anos depois, e Grave Peaks já a reconhecia como a melhor xerife que já tiveram, mesmo que ela negasse. Para ela, seu pai sempre seria o melhor xerife do mundo.

Feather relinchou. Tinham chegado ao pé da colina. Farah despertou do devaneio e começou a procurar por quaisquer rastros estranhos que pudesse encontrar. Não sabia o que estava procurando, mas qualquer coisa poderia ser uma pista.

Ela descansou as mãos no cinto onde guardava o revólver e a corda de Feather. Seus olhos varriam seu entorno, e pôde encontrar uma luz fraca a alguns metros de si e de seu cavalo.

Começou a se aproximar e a perceber marcas grosseiras no solo arenoso. Nunca tinha visto isso antes, como se algo tivesse caído e se arrastado até que o atrito o parasse. Tinha ouvido falar sobre aviões, mas pelo que sabia não tinham chegado a testar ainda, e mesmo que tivessem, por que voariam em Grave Peaks?

Farah seguiu as marcas que ficavam mais perceptíveis e a luz que piscava mais forte. Dali em diante, um enorme rombo no chão se estendia por metros a frente, onde um objeto estranho estava parado. Era revestido por um material cinza escuro, provavelmente metal ou coisa semelhante, e a luz emanava de uma parte que estava aberta, provavelmente de quando caiu.

Ela sacou a arma e se preparou, se aproximando com cautela. Ela deslizou da fissura para analisar de mais perto, percebendo uma parte da coisa feita com algum tipo de vidro resistente totalmente escancarada. Ali dentro tinha uma poltrona de couro e vários botões e alavancas. Uma ferramenta circular e vazada ficava logo a frente da poltrona. Algo apitava em uma parte daquela coisa, e Farah conseguia ler o que anunciava:

“Trânsito interdimensional impedido. Colisão nível 5. Erro [24501]”

Farah escutou um barulho familiar de pistola carregada.

— Solte o revólver e mãos para cima da cabeça — escutou uma voz dizer atrás de si.

A xerife não tinha muita escolha. Pensou em diversos planos, mas nenhum deles poderia ter um bom fim. Se abaixou devagar e deixou o revólver cair no chão para chutá-lo na direção da voz, para trás. Ela se virou cautelosamente, as mãos para cima e tentando manter a respiração calma.

A luz fraca do objeto lhe deixava ver um pouco da pessoa dona da voz. Além do fato de estar apontando para si uma pistola bem diferente das quais estava acostumada, vestia uma espécie de macacão, uma roupa do pescoço aos tornozelos branca, com alguns detalhes em preto e azul. Tinha um cabelo azul longo, do mesmo tom da roupa, e usava uma bota preta distinta das que a xerife conhecia.

E estava ferida, por algumas manchas de sangue espalhadas no macacão e por estar mancando.

— Quem é você? — a xerife questionou, as mãos ainda acima da cabeça.

A outra figura nada disse. Se abaixou para pegou o revólver do chão e o analisou, a outra arma ainda apontada para Jenkins.

— Escute, xerife Jenkins — o sobrenome estava gravado no revólver — Fazemos assim: você volta para sua cidade e mantém todos os curiosos afastados, e eu me concentro em voltar para casa. Ninguém precisa saber disso, e você dirá que não viu nada por aqui. Fechado?

— Meio difícil não ver nada com todo o estrago que você fez...

Farah escutou um disparo e um calor em sua orelha. A pessoa tinha atirado e passado de raspão. Ela colocou a mão sobre a orelha como reflexo, mas não tinha machucado, mas escutou um zunido irritante pelos próximos minutos.

— Fechado? — a figura repetiu.

— O que eu ganho com isso? Eu nem te conheço. Você pode ser qualquer pessoa de uma das cidades vizinhas só pregando uma peça. Os circos de hoje em dia estão bem criativos...

— Você tem bom humor. Gostei disso. Mas só quero poder arrumar minha nave em paz sem muitos transtornos, entende? — ela se aproximava da xerife, a arma ainda apontada. — Não vou demorar.

Jenkins a olhou de cima a baixo.

— Está machucada. Você pode voltar comigo e ir para a enfermaria, e aí você volta para cá sem problemas. Não vou interferir... — ela olhou para a nave. — Nisso aí.

A figura pareceu analisar a situação por alguns minutos.

— Só alguns curativos e eu volto para cá.

— Fechado.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.