I dream I can love...
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Estava a dormir a sono solto quando ouvi a porta do meu quarto bater... Abri os olhos, a Aiko a minha irmã mais nova e com quem, aliás, partilho o quarto andava numa correria louca à procura de algo. Olhei para o meu despertador, eram 07:30, o que andaria ela a fazer acordada a essa hora em plenas férias de verão?
–Então maninha? Relaxa! Estamos de férias, temos imenso tempo para fazer o que quer que seja- eu espreguicei-me, Não entendia a fonte de tanto rebuliço logo de manhã…
–Claro, férias…- ela soltou um risinho e revirou os olhos.
–Pois claro! Féri…- Enquanto ela continuava a arrumar (ou desarrumar, não conseguia perceber muito bem…) coisas numa mochila eu olhei lentamente para o meu despertador e qual não foi o meu espanto quando vi no canto inferior direito “20/08”… COMO PUDERA ESQUECER-ME? Era o primeiro dia de aulas! Levantei-me a correr e peguei no uniforme que eu comprara com a minha mãe à já um mês. Não podia acreditar que já ia para o décimo ano, o tempo passara tão depressa… Bom, não havia tempo para pensar nessas coisas, eu tinha de me despachar!
Depois do uniforme vestido eu peguei num caderno para apontar notas e no meu estojo do ano passado e pus tudo na minha mochi… Oh! Mesmo sabendo o quão desorganizada era eu fiquei surpreendida, a minha mochila do ano passado ainda tinha todos os meus cadernos e livros do último dia de aulas lá dentro e até o meu guarda-chuva… Eu pensei que o tivesse perdido…. Mas, o pior de tudo, tinha lá dentro uma sandes da qual me esquecera, -Oh!, tapei o nariz, aquilo fedia! Coloquei-a dentro de uma das sacas que eu guardava num caixote debaixo da cama para o caso de serem necessárias em alguma emergência e escondi aquela “coisa” com cheiro a rato morto dentro do armário, era mau mas não tão mau como ouvir um sermão da minha mãe logo de manhã, preferia guardá-lo e deitá-lo no caixote do lixo das traseiras quando ninguém estivesse em casa… Talvez a minha mãe tivesse razão, talvez eu precisasse mesmo de arrumar o quarto… Ou talvez não!
Coloquei a mochila ao ombro e desci a correr a escadas onde encontrei a minha mãe e os meu irmãos a tomar o pequeno almoço. Assim que me viu a minha mãe franziu o sobrolho:
–Esqueceste-te que hoje era o primeiro dia de aulas não foi?- Como é que ela sabia? Não me digam que a Aiko tinha dado com a língua nos dentes… Bom, não importava… Organizei-me mentalmente, haviam 3 hipóteses: fazer-me de engraçadinha, admitir e dizer que errara ou fazer-me de amorosa… Escolhi a 3ª opção! Coloquei o meu sorriso mais bonito, estiquei-me o mais que pude e agarrei-me aos pescoços da minha mãe e do meu irmão abraçando-os em simultâneo:
–O que importa é que agora eu estou com a minha família fantástica que eu amo mais que tudo!- eu espetei um beijo na bochecha a cada um o que fez a minha mãe rir e exclamar empurrando-me levemente:
–És uma impostora!
Juntei-me a eles no pequeno-almoço esquecendo completamente que já estava levemente atrasada…
–Mudando de assunto, o meu maninho já vai para a universidade para a semana não é mesmo?- eu perguntei mesmo já sabendo a resposta. Eu adorava o sorriso que ele abria de cada vez que se falava no assunto, custava-me imenso saber que ele teria de ir embora, dali em diante eu só o veria aos fins-de-semana pois a faculdade ainda ficava longe de casa mas ele estava tão orgulhoso que era impossível não se ficar feliz por ele.
–É verdade!- ele sorriu daquela modo que eu adorava- Daqui a uns aninhos vocês já me vão ver como um nutricionista de sucesso a aparecer na televisão com livros escritos por mim!- eu ri, ele era tão engraçado quando mostrava o seu lado sonhador mas eu não podia deixar de exercer o meu papel como irmã mais nova chata e ser realista.
–Mas para já só vendedor de t-shirts- mostrei-lhe o meu sorriso mais irónico, ele arranjara emprego em part-time numa daquelas lojas de t-shirts, canecas, almofadas entre outras coisas personalizadas no meio de um centro comercial e eu adorava brincar com ele sobre este assunto, ele sabia que era uma brincadeira, não levava a mal e eu fazia questão de tirar proveito disso.
–Para já, dizes bem!- ele tocou-me com o indicador no nariz como costumava fazer-me quando eu era pequena- Agora tenho de ir e sinceramente acho melhor despachares-te antes que a pobre da Yumi derreta lá fora!- ele deu um beijo na testa a cada uma de nós e saiu…
Aproveitei ele ter aberto a porta para sair e espreitei para lá para fora, ele tinha razão a Yumi, a minha melhor e única amiga estava sentada na pequena entrada da nossa casa, perto da porta, parecia estar a morrer de calor… Não me admirava! Devia estar com medo de tocar à campainha e interromper alguma coisa… A minha Yumi era mesmo assim, muito tímida e envergonhada, só se liberta com aqueles em quem confia e mesmo assim age como se tivesse medo de os perder mas apesar de tudo eu sei que ela é muito forte, muito mais forte que eu! E nos momentos complicados ela esforça-se sempre por me ajudar, ela é, de certa maneira ,a minha defensora, é a melhor amiga que eu podia ter! Sempre que eu me meto em problemas ela ignora todos os seus receios e enfrenta quem quer que seja para me ajudar, eu adoro-a tanto!
Mal me viu ela levantou-se e abraçou-me carinhosamente, já não nos víamos à uma semana demasiado tempo sabendo que eu só a tenho a ela e ela só me tem a mim. Assim que ela me largou começamos a conversar animadamente sobre o regresso às aulas, eu ansiosa pela lista de clubes de desporto e ela fascinada pela nova matéria de matemática, já começara a falar dos números e da geometria, eu sorri à socapa, ela é realmente um caso à parte mas eu não podia falar muito, era bastante invulgar uma miúda gostar tanto de desportos como eu… A conversa estava interessante até chegarmos ao assunto mais temido:
–Então… Tu não achas que te devias preocupar mais contigo? Isto é… Tu és tão bonita, se te arranjasses ficarias a miúda perfeita… Eu não te quero ofender mas tu sabes o que quero dizer… Em todos os nossos 12 anos como amigas, tirando a do uniforme, eu nunca te vi usar uma saia ou um vestido, até quando te convidei para o casamento da minha prima tu foste calções… Andas sempre de sapatilhas e… Diz-me sinceramente, hoje de manhã penteaste o cabelo?
Senti-me corar, ela tinha razão! Eu não era nada feminina mas porque surgira aquela pergunta logo agora? Bem, eu não penteara o cabelo mas isso fora só porque me atrasara, se bem que de vez em quando acontece de me esquecer… É verdade que eu não usava roupas com folhos e que cor-de-rosa definitivamente não era a minha cor mas isso fazia parte da minha personalidade desmazelada… Nunca usava maquilhagem mas só porque achava que era desnecessário, eu sentia-me bem assim, não me sentia inferior… Porque estava ela a preocupar-se com isso agora?
–É que sabes- Ela baixou a cabeça com o rosto vermelho enquanto abanava o pé, aquele também era um assunto delicado para ela- Eu estive a pensar e nós já temos 15 anos… Não achas estranho nunca termos tido namorado?
Eu paralisei. Namorados? Eu nunca pensara seriamente nesse assunto…
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