I don't

2 Capítulo Um – O começo do "nós"


Cerca de dois anos antes

Marina

Os adolescentes são normalmente conhecidos por suas personalidades extremistas: ou amam alguma coisa/alguém com demasiada intensidade ou a detestam com a mesma paixão. Mesmo no auge dos meus 19 anos, prestes a adentrar a fase adulta, eu não divergia muito desse padrão. Ainda que apresentasse uma personalidade dócil e naturalmente obediente aos meus pais, ao contrário da Abby, minha irmã caçula, eu tinha lá meus momentos de rebeldia, especialmente ao que se referia ao meu namoro secreto com Jason Palmer, o vocalista da banda pop inglesa em ascensão, The Feelings.

Nossa história teve início na ocasião em que eu estive de férias em New York, a Grande Maça. A princípio, a ideia dos meus pais era me prender no Alabama, onde meus tios Meiry e Carlos constituíram moradia fixa desde o início da década de 90, após conseguirem o visto permanente no país, e onde minha prima, Carla, nasceu e fora criada.

No entanto, eu possuía outros planos em mente.

Quase todas as férias, minha família traçava esse mesmo destino pelo fato de papai adorar o clima do Alabama, semelhante ao do Brasil, além de nutrir uma admiração especial pelo marco cultural do estado, o country. Abby e eu ficávamos à beira de uma síncope cada vez que saíamos da casa dos nossos tios para um passeio e éramos acompanhadas por papai, com seu chapéu de cowboy, botas de montaria e jaqueta de franjas. Quem o presenciasse nesses trajes, jamais poderia calcular que, no nosso país de origem, ele vivia enfurnado dentro de ternos e pasta de couro nas mãos, sempre ostentando seu ar altivo de advogado.

Nesse ano em questão, porém, eu bati o pé e prometi a mim mesma que não deixaria os USA sem conhecer New York. Meus pais, contrariados com a minha obstinação, embora cientes de que, legalmente, não podiam me proibir de viajar, recorreram ao único recurso tangível a fim de me impedir, ou seja, cortaram os fundos para a minha tão sonhada aventura. Um detalhe com o qual eles não contavam era que eu havia economizado a mesada do último ano para este determinado fim.

Então, depois de enfrentar uma sessão de sermões de ambas as partes e aguentar mais uma coletânea de choramingo da minha irmã, que achava injusto que, por ser menor de idade, não pudesse me fazer companhia sem a autorização dos nossos pais, eu afinal embarquei no Boeing que me conduziria ao meu primeiro destino dos sonhos. Recordo-me com carinho daqueles dias. Foi a primeira vez que, genuinamente, senti o gostinho da independência e, posso dizer, sem sombra de dúvidas, que era um sabor agradável, como degustar um delicioso sorvete de coco em um dia quente.

A lembrança daquela quarta-feira, em especial, salta à memória vividamente. Naquela manhã, eu despertara muito feliz, bem disposta e decidida, como nos dias anteriores, a aproveitar mais um programa de turista pela cidade. Coloquei um vestido salmão, estampado com pequenas flores coloridas, e calcei minhas sandálias baixas de tiras, muito confortáveis e adequadas para longas caminhadas. O cabelo foi preso em um rabo de cavalo alto, deixando minhas costas e nuca livres de suor; apenas alguns fios soltos emolduravam meu rosto de uma forma muito romântica.

Dei uma volta completa diante do amplo espelho do banheiro, sorrindo largamente, satisfeita com a minha aparência e o dia maravilhoso de que esperava desfrutar. Peguei minha pequena bolsa carteiro tiracolo, transpassei-a no ombro, e não esqueci do mapa, minha primeira aquisição numa das lojas de conveniências do aeroporto e meu fiel escudeiro desde então.

Ao passar pela porta giratória do saguão do hotel, sorri ainda mais ao avistar o céu claro, comportando poucas nuvens, e o sol a pino, irradiando seu calor e luz magistral sobre minha pele. Não posso dizer que não consideraria muito melhor ter uma companhia nessa viagem; certamente seria mais divertido ter alguém com quem dividir esses momentos. Mas meus pais não eram exímios apreciadores de metrópoles, embora morássemos no Rio de Janeiro. Vai entender... Talvez, fosse o modo como arranjaram de escapar da correria e do trânsito caótico por pelo menos alguns meses. E na ausência da minha irmã, proibida de embarcar nessa loucura comigo – como muito bem mamãe fez questão de salientar – e da minha prima, que estava inscrita em algum programa de verão da sua universidade, eu impus a mim mesma a resolução de que aquela semana em New York seria bem aproveitada.

Perdida em pensamentos, enquanto andava pela calçada, desviando esporadicamente de um ou outro transeunte apressado, em sua maioria, trajando ternos e com o celular colado à orelha, eu contabilizava os lugares que já havia visitado. No primeiro dia, fui ao Central Park, visitei o zoológico e até embarquei numa charrete, cujo condutor tratava-se de um senhorzinho espanhol muito simpático que me deixou em frente à Catedral de São Patrício. Boquiaberta, averiguei o folheto guia em mãos e quase caí para trás ao constatar que a catedral era muito maior do que supunha.

Algumas pessoas reunidas diante da escada me impediram de prosseguir. Talvez houvesse algum evento importante naquela ocasião, eu não saberia dizer. Portanto, haja vista que também já era final de tarde e meu estômago reclamava por comida, tomei a direção contrária, rumo ao hotel e fiz uma promessa interna de que voltaria em um dia menos cheio.

Nos segundo e terceiro dia de viagem, visitei a Estátua de Liberdade, o Museu de História Natural (aquele que aparece como cenário no filme "Uma noite no Museu" com Ben Stiller), o Planetário, a Universidade de Columbia, e fiquei tão abismada com a beleza do Grand Central Terminal que tive de comprar bilhetes para uma curta viagem até o Brooklin.

Agora, quarta-feira e quarto dia em New York, eu planejara conhecer a Times Square. E, bem, não estava realmente preparada para o que ia encontrar. Quer dizer, vamos lá, é a Times Square! Um largo muito movimentado que me remeteu à sensação de estar no Japão devido aos grandes outdoors eletrônicos (o da Calvin Klein exibia a foto de um modelo seminu que ocupava cinco andares inteiros de uma construção).

Havia cinemas, teatros e as mais variadas redes de fast food espalhados por todos os lados, mas, ao deparar-me com uma simples carrocinha de cachorro-quente, minha boca aguou. Eu e minha estranha atração por salmonelas...

Depois de cruzar a Times Square de cima a baixo e seus pontos auges, percebi que ainda era cedo e, se porventura me apressasse, daria tempo de visitar novamente a Catedral de São Patrício antes do anoitecer e, quem sabe, com muita sorte, entrar e explorar o lugar.

Atenta ao mapa, contornei a esquina do Teatro Palace e segui em frente pela via W48th até desembocar na Quinta Avenida, então virei a leste. Estava orgulhosa de mim. Apesar de estar pela primeira vez na cidade, não me perdi nem uma vez e, em menos de dez minutos, alcancei meu destino pretendido.

Nessa circunstância, a igreja encontrava-se deserta, contudo as portas abertas davam as boas-vindas aos visitantes. Adiantei-me para dentro, sentindo uma emoção indescritível ao pisar o átrio branco perfeitamente lustrado, que refletia as luzes amarelas advindas do teto e de focos laterais. O longo corredor, cruzando de uma ponta a outra do salão, desembocava em um espaçoso altar e separava duas fileiras de bancos. Havia espessas e imensas colunas adornadas de imagens celestiais em ouro culminando num teto abobadado, e as janelas de vitrais mostravam imagens da vida de Cristo.

Suspirei enquanto observava minuciosamente cada pormenor.

De repente, entretanto, ouvi uma confusão de vozes do lado de fora, seguida por uma gritaria incessante não muito perto da minha localização, mas que notoriamente se aproximava. Chequei ao meu redor, subitamente clamando que aparecesse mais alguém por ali, pois até então eu estava sozinha e comecei a ficar apavorada. E se toda aquela comoção fosse consequência de um ataque terrorista ou algo do tipo? Assim que tal ideia emergiu em meus pensamentos, conduzi minhas mãos à cabeça e liberei um riso seco. Que pessimismo era esse? Eu estava parecendo minha mãe quando surtava.

Puxei uma grande quantidade de ar para dentro dos pulmões e, corajosamente, avancei para a entrada da catedral. Do alto da escadaria, primeiramente, olhei na direção de onde eu tinha vindo. Nada. Virei a cabeça para o sentido do Central Park. Foi aí que me deparei com dezenas... Ou seriam centenas? Bom, havia um número consideravelmente grande de mulheres correndo pela calçada e até costurando entre os veículos parados na rua, aguardando o sinal abrir. Meu coração disparou e minhas mãos começaram a suar de medo. O que aquilo significava? Do que elas estavam fugindo?

Com a pulsação zumbindo em meus ouvidos, preparei-me para me esconder em uma das salas que ficavam de cada lado do átrio. Entretanto, conforme aquele mundaréu de gente chegava mais perto, notei que apenas um homem corria esbaforido a ponto de, em determinado ponto, tropeçar nos próprios pés quando lançou um olhar sobre o ombro. Ele achava-se muito mais adiantado em relação aos outros – na verdade, outras – e as mulheres que vinham atrás, no seu encalço, mantinham sorrisos largos nos rostos e expressões de excitação. No meio disso tudo, tive um lampejo de esclarecimento. Elas não corriam de qualquer ameaça iminente, as ditas cujas perseguiam um pobre homem apavorado, do qual seus cachos compridos, por mais que ele os afastasse diante da sua vista, teimavam em cair sobre seus olhos, dificultando ainda mais o progresso da fuga.

— Ei, psiu! Por aqui! — O desconhecido apavorado brecou ao pé da escada e me lançou um olhar atormentado. Em seguida, mirou a direção de onde vinha correndo. Aparentemente, o grupo de perseguidoras tornara-se um tanto maior. Ele voltou a me encarar, incerto se deveria seguir meu conselho. — Venha logo! Tem um lugar para se esconder aqui dentro.

Depois de ter dito isso, ele não mais titubeou. De dois em dois degraus, venceu a pouca distância que nos separava e me encontrou no topo da escada. Seu tórax subia e descia numa busca constante por fôlego. Ele abriu a boca, todavia eu interrompi sua intenção de falar ao puxá-lo pelo pulso até o salão do lado direito, onde há poucos minutos eu planejara me refugiar caso fosse necessário. Logo que atravessamos o limiar, eu fechei a porta e, sem precisarmos de comunicação, ficamos instantaneamente em silêncio. Somente a respiração ruidosa do estranho era ouvida na sala, enquanto que, nos arredores da igreja, a multidão passava trotando no asfalto.

Quando tudo, afinal, se acalmou, eu me virei para o rapaz afogueado.

— Acho que conseguimos despistá-las. — Sorri, satisfeita com meu feito.

— Muito obrigado. — Ele apoiou o quadril na parede e debruçou-se nos joelhos, ainda retomando o ar. — Pensei que seria massacrado!

Ri do seu comentário.

— Você é alguma espécie de celebridade ou... — Senti meus olhos triplicando de tamanho. — Caramba! Eu te reconheço agora! Você é... — Fiz uma pausa para me lembrar do nome dele, mas só havia um branco na minha mente. — Não me recordo muito bem do seu nome, mas você é daquela banda nova da Inglaterra, não é? Minha irmã tem um pôster com sua cara estampada na parede acima da cama dela e... — Parei repentinamente de tagarelar ao reparar no amplo sorriso dirigido a mim, indicando que ele se divertia às minhas custas. — Desculpe. Eu fico meio língua solta quando estou nervosa.

Na referida circunstância, os satélites do Google Earth, provavelmente, foram capazes de capturar minhas bochechas flamejantes. É sério. Caso queira uma confirmação, basta digitar no campo de busca do navegador "catedral de São Patrício + famoso fugitivo + cúmplice sem noção", e então verá surgir na tela do seu computador ou smartphone minhas bochechas da cor de um tomate maduro.

— Sou Jason Palmer, gracinha. — Estendeu a mão, que eu prontamente apertei. — E o nome da banda é The Feelings.

— Desculpe se te ofendi de qualquer maneira.

— Oh, não, absolutamente! — Jason ainda sorria, despreocupado. — Você salvou minha vida, gata. Mas ainda não tive o prazer de ser apresentado à minha salvadora.

Conforme falava, sorrateiramente ele se esgueirava na minha direção até que estava perto o suficiente para postar um dos braços esticados na parede ao lado da minha cabeça. Estávamos tão, mas tão próximos agora que Jason precisou inclinar o queixo para baixo a fim de me encarar com seus olhos de uma qualidade de verde oceânico, uma vez que sua estatura se sobrepunha à minha em uns bons centímetros.

— M- Marina Romano. Este é o meu nome.

"Droga, por que eu tenho que gaguejar justo agora?"

— Hmm... Nome lindo para uma mulher igualmente encantadora. — A vergonha que me afetou, decorrente do elogio inesperado, induziu-me a baixar o olhar para minhas sandálias. Todavia, logo após, Jason ergueu meu queixo a fim de me fitar novamente. — Tem olhos muito bonitos, Marina. Não deveria privar um humilde admirador, como eu, de observá-los.

Excepcionalmente, eu fiquei sem fala. Meus lábios se entreabriram, porém eu não tinha nada em mente para expressar. Notando a oportunidade, ele a agarrou. E assim ocorreu nosso primeiro beijo.

Não precisei de muito tempo a mais para conhecer quem realmente era Jason Palmer. Nenhuma classificação seria mais adequada para designar o vocalista do The Feelings senão um clichê ambulante; clássico popstar: fisicamente atraente, cadência melódica no falar (com um sotaque britânico de arrancar calcinhas), um cabelo meticulosamente arrumado, olhar marcante e uma excelente lábia. Previsível? Sim. Mas ninguém ousaria negar que era tentador. Talvez os clássicos sejam clássicos justamente por isso. Contudo, o que eu não supunha inicialmente era que, nas entrelinhas, Jason possuía uma personalidade de tendências controladora, agressiva e mesquinha por detrás da fachada de conquistador barato. Nesse caso, só as pessoas mais íntimas conheciam o que não se conseguia ver olhando apenas a superfície.

Infelizmente, eu fui uma delas.

Passamos o resto da minha viagem juntos. Encontramo-nos mais duas vezes em lugares privados e longe das câmeras dos paparazzi. Após isso, engatamos um relacionamento — ou dessa forma eu acreditava — durante quase sete meses. No início, era tudo muito divertido e novo para mim. Eu estava deslumbrada com o mundo a que Jason também começava a desbravar em decorrência da sua fama recém conquistada. Ele curtia os grandes momentos da primeira turnê pela terra do Tio Sam com a banda e, mesmo que ainda não tivesse reparado, eu servia como seu chaveirinho decorativo particular, que ele carregava consigo quando conveniente. Para o meu azar, porém, não me contentei apenas com a diversão, e cometi o erro crasso de me apaixonar.

Então, aquela trágica noite aconteceu. Não tão trágica quanto o dia em que minha mãe morreu, mas ainda assim foi uma noite que entrou pro meu TOP 10 das piores noites.

Devido ao meu namoro secreto com Jason, precisei fazer algo do qual não me orgulho: enganar meus pais, dizer-lhes que ia visitar meus tios e prima no Alabama, quando, na verdade, eu escapulia das vistas da tia Meiry e do tio Carlos para seguir Jason por sua turnê americana. Éramos discretos, eu jamais me hospedava no mesmo hotel da banda, e, nos shows, me misturava com a multidão de fãs. O problema é que segredos, principalmente aliados a um cara famoso, não perdura para sempre. Um dia, nosso plano de discrição quase perfeito foi por águas abaixo, uma vez que fomos flagrados por um paparazzo em um beco escuro, atrás de uma boate de Las Vegas.

Saíamos por uma passagem escondida, nos fundos do clube La Bamba. Jason tropeçava nos próprios calcanhares de tão embriagado. Eu, por outro lado, sóbria e no meu pleno estado de juízo perfeito, tentava sustentar parte do seu peso sobre meus ombros, embora eu estivesse claramente desconfortável, detestando vê-lo assim. No meio do nosso trajeto até o carro, porém, Jason resolveu dificultar minha tarefa e cismou com a ideia de que queria explanar nosso relacionamento aos sete ventos. Em seguida, se lançou para mim, procurando avidamente pelos meus lábios, comportamento este que me espantou a princípio, por ser tão díspar do que nos acostumáramos a fazer.

Resisti às investidas calorosas como pude, ciente de que ele se arrependeria disso no momento em que recobrasse a lucidez. Todavia, não é difícil compreender que, numa regra geral, embriagados podem ser mais teimosos que mula empacada, portanto todos os meus esforços foram em vão. Não vendo outra alternativa, afinal eu cedi ao seu desejo e foi nessa hora que, sem que notássemos, fomos clicados.

A foto rodou o mundo, foi parar em todos os meios de comunicação e não levou muito tempo para que meus pais descobrissem esse desastre, apesar do meu empenho em me livrar de quaisquer provas. Em contrapartida, Jason foi insensível aos meus problemas e, sobretudo, teve a audácia de me culpar pelo episódio, mesmo após minhas justificativas. Consequentemente, nós brigamos feio. Segundo seus argumentos, a banda encontrava-se em uma fase tênue de ascensão ao sucesso, onde o menor deslize poderia definir o fim de tudo. Por isso, o que menos precisavam era de uma imagem negativa vinculada a eles. Preferi ignorar essa parte antes que eu explodisse de vez. Quer dizer, ele insinuara que o nosso relacionamento era uma publicidade ruim?

Em resumo, minha vida se encontrava nessa encruzilhada, onde, de um lado, eu era apunhalada pelos comentários e olhares repreensivos dos meus pais e, por outro, tinha que enfrentar a fúria do meu namorado famoso e excêntrico. Não nos víramos nem faláramos um com outro por pelo menos duas semanas, tempo este em que meus pais aproveitaram para embarcar no primeiro avião rumo aos USA e, desse modo, manter seus olhos sobre mim. Abby, minha irmã caçula, estava radiante com a ideia de desfrutar de férias adiantadas. Meus tios, como sempre, nos receberam de braços abertos e ficaram felizes em nos hospedar. Eu fui a única que mantive minha fisionomia fúnebre, em protesto por essa atitude descabida e totalmente arbitrária da parte deles.

E, ainda por cima, existia esse trabalho de fisiologia da minha faculdade, que deveria ser enviado pela internet até o prazo máximo da meia-noite, caso não quisesse conquistar meu primeiro zero. Por um período, eu até pensei em me rebelar e tirar notas baixas de propósito só para abalar meus pais, mas eu sempre fui uma aluna modelo, uma típica CDF, e ter um boletim vermelho me tiraria do sério, então mudei completamente de estratégia. Resolvi mostrar quão madura eu era e, assim, talvez reconquistar a confiança deles e, de quebra, a alforria. E meu plano daria certo, caso meu cérebro não teimasse em desviar os pensamentos para Jason toda vez que eu tentava progredir nas tarefas acadêmicas.

Vi as horas passando, correndo como um papa-léguas, e eu ficando para trás, sem saber como concluir a tempo um trabalho que eu mal havia começado. Minha cabeça latejava, a casa silenciosa acrescia minha agitação. Uma vez que meus tios tinham o costume de dormir cedo, todos se recolhiam aos seus respectivos quartos para assistir à televisão até a chegada do sono. Abby e eu dividíamos o mesmo cômodo, mas, naquela noite, ela fora convidada por uma vizinha, com quem fizera amizade, para uma festa do pijama. Sendo assim, eram apenas eu, meus materiais, livros e laptop. A solidão sempre representou um martírio para mim; decerto meus pais pensaram nesse ponto, porque eu tinha a vívida impressão de que tal estratégia estava incluída no meu castigo.

Cansada de remoer continuamente o mesmo ponto no trabalho, sem progressos por mais de uma hora, decidi que era tempo de uma pequena pausa, apesar de correr contra o tempo. Estiquei as pernas, há muito dobradas em posição de chinês, e tracei o caminho para a pequena e única janela do dormitório, disposta a espairecer um pouco com a vista do quintal. Sentei no parapeito e abri uma fresta, aliviada por sentir a brisa fria da noite. Haja vista que minha mente repassava mil devaneios acerca do meu namorado, encostei o cocuruto na parede e permiti minha mente vagar para longe dali. O que ele estaria fazendo? Onde estaria naquela noite? Ou melhor, com quem estaria? As garras do ciúme queriam se entranhar no meu cerne, porém, ao perceber, tratei de me desvincular dessas hipóteses infundadas. Jason gostava de mim, não tinha dúvidas disso. Mas, o quanto ele gostava?

Chacoalhei a cabeça e prendi-a entre meus joelhos, indignada comigo mesma por tamanha insegurança. Busquei apaziguar minha angústia, ponderando que Jason era perseguido pelos holofotes, portanto, caso pisasse fora da linha, todo mundo ficaria sabendo, não ficaria? Não, claro que não! Com a medida certa de cautela, nós conseguimos esconder nosso envolvimento por meses a fio! Merda. Essa aflição só teria fim quando nos falássemos de novo. Eu necessitava ouvir dele que tudo entre nós ficaria bem, que nada mudara. Ainda assim, não queria demonstrar meu desespero. Por inúmeras vezes, no decorrer daquelas duas semanas, havia pegado e largado o telefone, cheguei a discar o número que já sabia de cor, entretanto desisti no último segundo.

Não pense que eu era uma maníaca pirada, não era isso. Nossa relação ia muito bem antes de todo esse caos acontecer; tinha seus altos e baixos e Jason mostrou-se muito mais excêntrico do que eu previra, mesmo assim conseguíamos acertar nossos ponteiros. Todavia, nosso convívio simbiótico deslanchou morro abaixo quando, poucos dias atrás, surgira na imprensa uma fotografia dele na companhia de uma mulher em uma balada de Nova Iorque. Logo Nova Iorque! O lugar em que nos conhecemos.

Até aí, ele estar acompanhado não era nenhum escândalo, mas diziam as más línguas que os dois estiveram atracados em um tremendo amasso. De fato, a qualidade da imagem era bem ruim, mal dava para reconhecê-lo, pelo menos para quem não o conhecia tão bem quanto eu. Bom, seja como for, eu fiquei com a pulga atrás da orelha. E como seria diferente? Ele sendo uma celebridade, requisitado, lindo de morrer e... um TREMENDO FILHO DA PUTA GALINHA! Argh!

Mais minutos se passaram e eu permanecia nervosa só de imaginá-lo com outra mulher. Afora, quase podia ouvir os ecos das risadas de escárnio dos meus pais e da Abby, e de seus comentários de praxe, nos quais terminariam invariavelmente com o famoso “nós te avisamos”.

Um tempo depois, quando minha cabeça já estava explodindo de tanta dor, deparei-me com um movimento diferente no quintal. A princípio, julguei ser o vento produzindo um efeito meio hipnótico ao agitar as folhas das árvores e, considerando que minha mente encontrava-se turbulenta, não dei importância. No entanto, logo em seguida, algo foi arremessado na minha direção. Desviei do seu percurso, e a amêndoa seca atravessou a abertura, caindo com um baque no chão carpetado. Eu quase caí do parapeito devido ao susto.

Com a mão posicionada sobre o peito, passei os olhos pelo perímetro à volta da casa, constatando que realmente havia a presença de um estranho meio oculto detrás do tronco de uma das amendoeiras. Meu coração subiu à garganta, e eu emudeci de medo. Quis correr, gritando como uma louca até que alguém viesse me socorrer, porém, não achei minha voz e no momento em que me afastei da janela, cambaleando para trás, a pessoa saiu do esconderijo, revelando sua identidade. Foi então que reconheci os contornos do corpo longilíneo, os caracóis despenteados e o brilho da lua cheia refletido naqueles olhos verdes, que me eram tão familiares.

— Jay! — arfei, soando simultaneamente surpresa e aliviada.

Fiquei anestesiada, incrédula de que aquilo fosse real. Jason não podia mesmo estar ali, não é? Ele nem sequer tinha me telefonado durante as últimas duas semanas! A última ideia me remeteu à fotografia tirada na semana anterior e... Não, eu precisava me concentrar no que acontecia naquele instante. Acordei do transe ao que Jason se pôs a escalar a jardineira ao lado da minha janela. Mais que depressa, abri o restante da passagem, deixando o acesso livre a ele. Depois corri para a porta a fim de me certificar de que a maçaneta achava-se devidamente trancada. Caso contrário, poderíamos ficar bem encrencados.

A cada parte revelada do lindo rapaz, eu me dava conta de que sua presença era real; minha memória limitada não seria capaz de reproduzir uma imagem tão fiel do meu namorado. Por isso, mesmo que estivesse relutante em aceitar, eu estava muito contente de revê-lo e, sem querer, abri o mais pleno sorriso de felicidade. Mas, tão logo surgiu, meu sorriso se transformou em uma careta, imitando a dele de dor, quando bateu a cabeça no batente, uma vez que era grande e desajeitado demais para se esgueirar por uma passagem tão precária.

— Puta que pariu! Que azar! — resmungou, rabugento, enquanto esfregava o cocuruto machucado.

Comprimi os lábios, segurando uma gargalhada. Entretanto, engoli o ímpeto ao vê-lo erguer a cabeça, fitando-me de forma nada simpática.

— Espera, deixa eu ver. — Empurrei suas mãos do local injuriado para avaliar a região na qual um calo já se formava. — Er... acho que isso vai ficar feio.

À medida que eu estudava o ferimento, nem por um segundo Jason desviou o olhar do meu rosto. Ele me encarava com o cenho franzido, talvez um reflexo do meu próprio semblante carregado de questionamentos e conflitante entre o desejo de recebê-lo com um beijo apaixonado ou com uns tapas bem merecidos, seja por ter saído com outra mulher ou simplesmente por ter me deixado à espera por duas semanas, sem ao menos uma ínfima notícia a seu respeito.

— Está chateada, não está? — ele perguntou de repente, um tanto desconfiado e confuso.

— O que você acha? — respondi com rispidez.

— Eu nunca sei como responder essa pergunta — Jay aprofundou ainda mais o vinco entre suas sobrancelhas. — Vocês, mulheres, fazem isso de propósito, como uma espécie de pegadinha?

— Então vou te poupar, respondendo diretamente que não, não estou chateada — disse, dando um meio sorriso. Em resposta, ele soltou o ar com alívio. — Na verdade, estou furiosa!

Afundei o dedo no galo em sua cabeça a fim de lhe causar o máximo de desconforto.

— Aaaiii! — ele gemeu e se afastou de mim, olhando-me com estranhamento a metros de distância, julgando-me fora do meu juízo perfeito. — Por que fez isso? Tá louca? Esse treco aqui está doendo!

— Pelo menos agora você sabe como estou me sentindo. Mas, se por acaso, ainda estiver em dúvida, saiba que estou fervilhando de ódio! Você não apareceu nem deu notícias por duas semanas! Além disso, saiu com uma mulherzinha qualquer numa balada em New York. Achou que eu não ia saber? Você é um completo idiota, Jason Palmer!

Ele estreitou as pálpebras depois do meu surto repentino. Por minha vez, eu bufei de raiva ao término do discurso, aliviada por poder descarregar todos os meus demônios em uma só leva.

— É... isso me dá uma boa dica de como você está se sentindo... — Eu abri a boca para despejar mais um montante de ofensas, entretanto ele suspendeu o dedo, sinalizando que não havia terminado. — Mas, suas acusações são bem injustas. Em primeiro lugar, porque eu te liguei umas dez vezes durante todo esse tempo, e você não me atendeu em nenhuma. Em segundo lugar, porque eu não beijei ninguém em nenhuma festa.

— Não se faça de besta, Palmer! Como você me ligou? Eu estive com o celular do meu lado todos os dias e... — Parei de falar abruptamente ao me recordar de um detalhe. — Espera um segundo... — Peguei o aparelho telefônico depositado sobre a cama e o desmontei. Não foi difícil constatar que o chip não era o mesmo. — Eu não acredito que eles fizeram isso! E eu não desconfiei de nada. Que merda! Ah, mas eles vão me ouvir!

Com minha visão nublada e a razão subjugada pelo meu destempero momentâneo, deixe-me levar por tal impulso e marchei até a porta. Já estava a ponto de destrancá-la, quando Jason se interpôs, segurando a minha mão, que girava a maçaneta, e me obrigou a dar um passo para o lado.

— O que é isso, mulher? Onde você pensa que vai assim?

— Vou dar uma de Suzane Von Richthofen! — grunhi, fuzilando a porta como se estivesse encarando meus pais.

— Suzane de quê? Quem é essa? — Jay questionou, confuso.

— Esquece. Sai da frente, Jason. Eu preciso ter uma conversinha com meus pais.

— Ah, essa é uma ótima ideia! — disse, transbordando ironia no seu jeito de falar. — E que tal também informá-los que eu escalei a jardineira e estou escondido aqui no seu quarto? Se você quiser, posso tirar a roupa e estar só de cueca quando eles entrarem.

Fechei minha expressão em uma carranca. Odiava que fizessem chacota de mim, especialmente quando eu estava genuinamente equivocada. Que ideia mais estúpida! Eu perderia totalmente na argumentação se meus pais vissem meu namorado no quarto. Namorado escondido no quarto é igual batom no colarinho da camisa, ou seja, não haveria desculpa convincente que me tirasse dessa encrenca. Suspirei profundamente e bati o pé no piso, tentando retomar o autocontrole. Deveria estar calma na ocasião na qual fosse confrontá-los. Eles não tinham o direito de me manter distante do meu namorado! A propósito... como Jason me encontrou nesse fim de mundo?

Encarei-o novamente.

— O que é? — questionou na defensiva e ergueu as sobrancelhas, nitidamente espantado com meus olhos fixos nele, especulando-o. — Por que está me analisando desse jeito? Não vai me dizer que está remoendo o lance com aquela foto de New York e tudo mais!

— E não deveria? — Cruzei os braços, de forma que julguei ser a pose mais ameaçadora. Entretanto, ele não se intimidou; ao contrário, revirou os olhos para mim. — Mas não estava pensando nisso. Como você me achou?

Um sorriso torto curvou seus lábios carnudos, ao mesmo tempo em que ele se aproximava com passos calculados e absurdamente sexys.

— Tenho meus métodos, bebê. Em outros termos, sou Jason Palmer.

Em companhia da explicação arrogante, ele ocasionalmente deu de ombros. E ao postar-se defronte a mim, fitou meus lábios por um momento e, logo em seguida, transferiu seu olhar arrebatador ao meu, quase entregue aos seus encantos de conquistador barato. Nessa altura, eu já estava familiarizada com o modo dele de agir e sabia que sua intenção era me beijar. E pelos céus! Definitivamente, eu queria ser beijada naquele instante. Os dedos dele, macios e frios por causa do tempo que passara ao relento, deslizaram suavemente pelos meus braços inertes ao lado do corpo e, sem que eu pudesse refrear, um suspiro sôfrego precipitou-se dos meus lábios entreabertos. Jason sorriu, aprovando minha reação, convencido de que o jogo estava ganho e eu acabara de esquecer o assunto da foto.

De fato, a nossa intensa proximidade, assomada do hálito de menta que atingiu em cheio meu rosto, e o perfume masculino que serpenteou para dentro do meu organismo, por pouco não foram motivos suficientes para me demover das minhas convicções. Admito que cheguei a titubear, porém a razão resolveu retornar ao seu devido lugar e, então, a lembrança do episódio da semana anterior caiu como uma bigorna na minha cabeça.

Antes que eu me perdesse de novo naqueles olhos e sorriso, tratei de impor certa distância dele. Jason não aprovou minha atitude, claro. E como protesto, liberou um rugido contrariado entredentes. Contudo, eu permaneci firme no meu propósito de lhe arrancar a verdade.

— Eu só quero entender porque você se importa tanto com o fato de eu ter ou não beijado outra garota.

— Jura, Palmer? Talvez eu me importe porque você é a PORRA DO MEU NAMORADO!

— Ei! Você não pode estar falando sério, né? Quero dizer, nosso suposto namoro é só um rótulo que a gente arranjou para a mídia parar de encher a nossa paciência. Ou estou enganado?

— O nosso relacionamento é uma mentira. Às vezes, estamos juntos, às vezes, nos envolvemos casualmente com outras pessoas. Afinal, o que você quer de verdade?

— O mesmo que você. Me divertir, certo? Não foi por isso que começamos isso tudo?

— Eu não quero mais me divertir. Quero dizer, não quero somente isso.

— Não posso te oferecer mais do que alguns encontros, você sabe, Marina. Por que está desistindo? Eu gosto de você, gosto de como nos damos bem juntos.

— É só que... encontros ocasionais não são suficientes pra mim.

Jason passou as mãos pelo cabelo, um dos seus sinais de inquietude, e me olhou de soslaio. Em seguida, encaixou as mãos no quadril estreito, muito provavelmente processando a proposta implícita que eu havia acabado de lhe lançar. Por ora, devido ao tanto que nos conhecíamos, sabia que ele não estava acostumado com relacionamentos sérios e duradouros, portanto eu não podia ser mais direta, ou certamente iria espantá-lo. Resignei-me a aguardar pacientemente por uma resposta, certa de que, no fim das contas, Jason ouviria a razão. Éramos um casal perfeito, nos entendíamos, estávamos conectados por alguma força invisível do universo. Eu o amava, tinha certeza disso, apenas guardava ressalvas de explicitar todo esse sentimento.

Os segundos se arrastaram, seguidos por minutos e nada mudou. O silêncio perturbador entre nós tornara-se quase palpável. Minha certeza inicial começou a ceder lugar à dúvida e, por conseguinte, ao desespero.

— Tenho a impressão de que nos perdemos em meio a tudo isso — ele falou enfim. — Perdemos nosso objetivo principal.

— Então, você... — não pude concluir a frase, ela ficou inacabada, engasgada na minha garganta.

— Estou indo embora — declarou sem hesitar —; é o melhor para nós dois. Quando você desistir dessa ideia absurda, ligue pra mim.

"Melhor para nós dois? De jeito nenhum! Isso não chega nem perto de ser o melhor para mim!"

Imóvel, assisti-o avançar no meu sentido. Com as mãos segurando cada lado da minha cabeça, pressionou seus lábios quentes e úmidos na minha fronte de maneira casta, nada saudosa ou condizente com nossos encontros calorosos anteriores. Ao inverso disso, parecia temeroso de me tocar. Nunca, nem nas minhas fantasias mais insanas, pude imaginar que isso ocorreria um dia. Eu desejava abraçá-lo, fazê-lo se lembrar de como era bom estar em meus braços. Mas não o fiz. Meus braços permaneceram caídos e sem vida ao lado do meu corpo. Logo, Jason se moveu em direção à janela e, sem custo, atravessou a abertura pela qual havia entrado, caindo com um baque surdo no telhado e, um segundo mais tarde, no gramado do quintal. Eu acompanhei todo esse processo, emudecida, perturbada pela situação e arrependida de cada palavra que saiu da minha enorme boca. Se eu não tivesse dito nada, ele ainda estaria ali comigo.

Depois da partida de Jason, continuei parada no centro do cômodo e esperei por um longo tempo. No fundo, mantinha-me convicta de que ele ia se arrepender e retornaria correndo para me pedir perdão de joelhos. Ensaiei mentalmente como o receberia, talvez com indiferença a princípio. Enfim, após tantos ensaios, estava satisfeita com a minha suposta reação. O único imprevisto no meu plano é que ele não voltaria.

Não voltaria nem naquela noite, nem em noite alguma.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.