I do

1 Capítulo Único


Notas iniciais
O casamento está chegando e todo mundo está arrancando os cabelos da cabeça com isso. Provavelmente vai dar tudo certo, but... eu posso sonhar e compartilhar meus delírios com vocês, certo? Certo!

Boa leitura!

Cause every time before it's been like "maybe yes and maybe no. I could live without it, I could let it go". Ooh, what did I get myself into? (...) Cause every time before it's been like "maybe yes and maybe no". I won't live without it, I won't let us go. Just look at what we got ourselves into. You make me wanna say "I do". I love you.

(Porque todas as outras vezes foram algo como “talvez sim e talvez não. Eu posso viver sem isso, eu posso deixar para lá”. Oh!, no que eu fui me meter? (...) Porque todas as outras vezes foi algo como “talvez sim e talvez não”. Eu não posso viver sem isso, eu não posso deixar para lá. Olhe só no que nos metemos. Você me faz querer dizer “sim”. Eu amo você.)

— Colbie Caillat

Regina observava a parede branca há horas, desde o despertar. Seu estômago reclamava, mas ela não movia um músculo para alimentá-lo. As sombras da parede já perdiam o contraste e ela sabia que o dia estava chegando ao fim e o que isso significava. Cada segundo que corria era um segundo mais próximo do momento em que Emma, sua Emma, subiria ao altar e diria sim ao homem que escolheu.

Regina havia colaborado com o casamento. Ela foi ao submundo buscar o pirata, ela ajudou Snow a escolher o tecido das toalhas de mesa, ela liberou o crédito bancário de Emma para que pudesse pagar pelo aluguel do salão, ela comprou o terno de Henry e aprovou a escolha das alianças quando Hook a consultou. Ela pensou que poderia fazer mais isso, que não seria tão difícil sentar lá diante de Emma e seu noivo e assistir ao “sim”. Ela não precisava fazer nada de fato, era apenas observar. Mas seu corpo se recusou a levantar naquele dia, se recusou a mover-se até o local onde seu coração seria esmagado. Então, o sol já havia se despedido por completo e ela ainda estava em seu pijama cinza, debaixo do grosso edredom com metade do rosto afundado no travesseiro.

Ela viu quando seu celular piscou sobre o criado mudo, ouviu todas as notificações de mensagens até que dois apitos indicaram a falta de bateria e, enfim, ela teve sossego. Poderia ser Snow pedindo ajuda com os últimos detalhes da festa, poderia ser David confirmando o empréstimo da Mercedes, poderia ser Henry questionando seu sumiço, poderia ser Emma pedindo que ela a resgatasse daquele casamento... Não, isso nunca aconteceria, Emma queria aquele casamento como nunca quis algo na vida, queria como se dependesse dele.

Regina gemeu quando ouviu a campainha soar alta. Gemeu mais ainda quando ouviu saltos contra a madeira da escada de quem quer que tivesse invadido sua casa. Afundou o rosto completamente no travesseiro quando os passos aproximaram-se da porta do quarto. Talvez fosse a Fada Negra indo acabar com o sofrimento arrancando o coração rubro-negro e transformando-o em pó. Mas ela não teria tanta sorte. Ela morreria naquele dia, mas não literalmente.

“Sis, você está aí?”

A voz aguda de Zelena invadiu seus ouvidos, irritando-os. Regina levou as mãos à cabeça apertando-a enquanto tentava afundar-se cada vez mais no travesseiro, até desaparecer. Sentiu os dedos da irmã cutucando sua panturrilha coberta e chutou o ar, libertando-se do contato.

“Regina, o que pensa que está fazendo? Não deveria estar pronta?”

A rainha finalmente girou o pescoço e encarou a irmã com o canto dos olhos, dobrou o corpo até estar de lado e trouxe os joelhos para cima, colando-os ao seu peito e os abraçou.

“Eu não vou ao casamento.”

Regina ouviu Zelena suspirar alto e sentiu um peso extra no colchão enquanto as mãos da irmã buscavam pelas suas.

“Você está se sentindo mal?”

Regina fechou os olhos e considerou sua resposta por alguns minutos. Não havia nada de errado com o seu corpo, exceto a fome e, talvez, o mal cheiro pela falta de um banho, mas ainda assim havia uma dor física tão profunda como nunca sentira antes. Uma dor pontuda que saía do seu coração e se espalhava pelo corpo moreno, como uma espécie de veneno fatal correndo junto ao seu sangue, matando-a aos poucos. Um veneno com título, nome e sobrenome. Noivo Killian Jones.

“Eu não posso fazer isso. Eu pensei que sim, mas eu não posso. É a mulher que eu amo se casando com outra pessoa.”

Regina sentiu quando o corpo da irmã pesou contra o seu e os braços magros a rodearam em um abraço apertado. As lágrimas que segurou durante todo o dia escorreram livres por sua bochecha. Zelena não precisou proferir as palavras que rondavam sua mente para que Regina as ouvisse. Por que não disse isso a ela? Não era uma resposta que a rainha possuía. Talvez pelo medo de ser rejeitada, talvez pelo receio de perder uma amiga como Emma, a primeira amiga de toda vida, a única que acreditava nela sem precisar de provas. Independente das razões, ela nunca havia confessado seus sentimentos e naquele momento isso não importava realmente, era tarde demais.

Um soluço escapou pela garganta real, alto o bastante para resultar em mais outro e outro, tantos quanto o choro por um amor unilateral pudesse causar. Os braços de Zelena envolveram o pequeno corpo da rainha mais confortavelmente quando ela se ajeitou na cama e depositou um beijo no ombro da irmã, desejando desesperadamente tomar toda a dor para si. Tanto quanto Regina sabia disso, também entendia que aquela era uma dor só sua. Girando o corpo na cama, a rainha descansou o rosto no pescoço da irmã e deixou que ele fosse molhado pelas lágrimas incessantes que desciam de seus olhos vermelhos.

“Você quer que eu fique aqui?”

Regina afastou o rosto apenas o suficiente para que pudesse enxergar os orbes azulados. Um pequeno e tristonho sorriso dançou em seus lábios.

“Não. Acho que ir a este casamento seria bom para trabalhar a confiança dos Charmings em você.”

Apesar de suas palavras, Regina voltou a espremer o rosto inchado no pescoço pálido da irmã e ofegou sôfrega quando sentiu os dedos de Zelena percorrendo uma caminhada lenta pelos fios de seu cabelo embaraçado.

“A opinião dos Charmings é o que menos me importa no momento.”

Regina passou um braço pela cintura de Zelena apertando-se mais contra a irmã. Sentiu vontade de sorrir para o fato de que, mesmo tendo se conhecido adultas, Zelena ainda fazia o papel de irmã mais velha, aquela que protegia, que cuidava, que defendia de todo o mal, mas, novamente, seus músculos não se moveram. Aquele era um mal do qual nem Zelena poderia protegê-la. Doía mais do Regina imaginou. Ela já havia perdido um amor, a chance de uma vida ao lado do homem que escolheu para si, mas ali, em sua cama na cidade que deveria garantir seu final feliz, ela conhecia uma dor ainda mais profunda. Perder um amor para a morte era algo; nunca ter tido a oportunidade de experimentar um amor e vê-lo entregue a outro, era algo tão mais devastador.

Ela poderia ir até o grande salão enfeitado ao seu gosto e invadir a cerimônia como fizera com a de Snow e David, poderia se ajoelhar diante de Emma e implorar que ela não se casasse ou lançar uma nova maldição que lhe garantiria a companhia de Emma pelos próximos 28 anos ou mais, se o próximo salvador não fosse tão eficiente quando a loira. Mas isso não é o que o amor faz. Amar é deixar que o ser amado faça suas próprias escolhas e ser feliz pela felicidade dele. Amar é estar satisfeito ao ver o sorriso no rosto da mulher amada e sentir-se em paz com o mundo. Ao menos era isso que os nobres e de coração puro faziam.

Regina sentiu o abraço de Zelena afrouxar-se e seu corpo ser abandonado pelo calor da irmã. Novamente sozinha na cama, a rainha levantou os olhos até o rosto da bruxa de Oz e enxergou o sentimento que a desmontou ainda mais: pena. Voltou a afundar o rosto no travesseiro manchando a fronha azul e ouviu os passos de Zelena na direção da porta até que ela fosse fechada.

A próxima hora passou como todas as outras daquele dia. Regina encarava a parede, já escurecida, com os olhos embaçados e a dor dilacerante cortando cada fibra de esperança que seu corpo ousou cultivar nos últimos anos. Ela ouviu o sino do convento badalar uma, duas, três vezes. Havia chegado a hora. Emma já caminhava pelo tapete vermelho escorregadio, em um vestido branco tradicional, buquê verde sem vida em mãos. Mais bonita do que qualquer outra noiva.

O choro cresceu dentro da rainha criando um bolo dolorido em sua garganta, enquanto esforçava-se para contê-lo, o que apenas aumentava a dor que sentia. Inevitavelmente, o choro venceu a batalha e desaguou na pele já tão maltratada por ele. Os soluços voltaram a ecoar pelo quarto escuro. Regina levou o edredom até a boca e o mordeu em vã tentativa de abafar o som. Não havia ninguém ali para ouvi-los, mas ela sequer suportava o som estrangulado que eles possuíam.

Novamente, pode ouvir saltos na escada. Fechou os olhos com força desejando que Zelena tivesse o bom senso de deixá-la a sós naquele momento, embora não estivesse certa de que permanecer só faria mais bem do que mal. Espremeu mais os olhos quando ouviu a porta ranger.

“Zel, eu não sei se quero companhia.”

“Nem a minha?”

Regina abriu os olhos quando a voz suave e baixa chegou aos seus ouvidos. Sentou-se na cama ignorando as pontadas que o corpo lhe dava por permanecer tanto tempo deitada. Encarou a escuridão a sua frente e, cerrando os olhos, vislumbrou a silhueta daquela que nunca deixou seus pensamentos desde que estacionou em sua porta anos atrás trazendo o seu filho de volta para casa.

“Emma?”

A rainha ofegou assustada quando a silhueta deu um passo à frente, atingindo a altura da janela e revelando o vestido branco rendado. Instintivamente levou os dedos até o abajur ao lado da cama e o acendeu, finalmente enxergando o rosto bonito da salvadora, coberto por uma maquiagem leve e tom rosado espalhado pelos lábios que ansiava dia após dia.

“Eu não acredito que você me deixaria fazer isso, Regina.”

A morena esfregou os dedos trêmulos pelos olhos focando a visão e certificando-se de que não se tratava de um truque de sua mente, mas quando afastou os dedos, Emma ainda estava ali, aproximando-se. Regina assistiu a salvadora sentar-se diante dela e buscar por suas mãos entrelaçando seus dedos. Sentiu quão fria estava a pele da loira, talvez tão fria quando a sua própria.

“O que você está fazendo aqui?”

“Estou fazendo o que deveria ter feito no momento em que pisei em Storybrooke.”

Regina abriu a boca, embora não houvesse um único pensamento formado em sua mente para ser proferido. Mas ela não precisou, pois tão repentinamente quando chegou até a mansão, Emma reivindicou os lábios carnudos da rainha. Regina gemeu quando sentiu a língua da loira percorrer seus lábios pedindo passagem. Como se seu corpo estivesse em modo automático, sua boca se abriu um pouco mais, o suficiente para que a língua de Emma entrasse e dançasse com a sua. A morena sentiu quando nuvens formaram-se embaixo de seu corpo levando-a para cima, confortável, embalando-a de prazer e, em um ato de desespero, orou para que quando abrisse os olhos, Emma não desaparecesse, para que, ao menos daquela vez, não fosse apenas mais um sonho.

Os minutos que se seguiram foram preenchidos com o ritmo lento dos lábios roçando-se e as mãos, mesmo tímidas, explorando cinturas, pernas, braços, nuca e tudo que pudessem alcançar. Quando o ar se fez escasso, afastaram-se relutantes. Regina desceu as mãos pelos braços tonificados de Emma e agarrou os dedos ainda com os olhos fechando, apreciando o toque o máximo que pode, apenas para o caso de tudo desaparecer quando abrisse os olhos. Mas então ela finalmente os abriu e, novamente, Emma ainda estava lá, sorrindo, com os olhos cintilando a luz fraca e amarelada do abajur.

“Eu não entendo.”

“Zelena.” O tom de Emma soou óbvio aos ouvidos de Regina, que sentiu seu coração sendo apertado, mas, pela primeira vez nos últimos dias, de uma forma boa e acalentadora. “Eu estava lá, prestes a caminhar até o altar, torcendo para que você interrompesse a cerimônia e me roubasse... Céus, Regina, eu também te amo tanto!”

Lentamente, um sorriso se espalhou pelos lábios de Regina recordando-se do rosto da irmã quando a deixou daquela noite e, finalmente, o interpretando corretamente. Não era pena, era indignação.

“Você fugiu?” Regina assistiu Emma balançar positivamente a cabeça sem que o sorriso se quebrasse. “O que faremos agora?”

“Agora, majestade, seremos felizes.”

Notas finais
Espero que tenham gostado. Me deixem saber. Beijos ♥
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!