I am the Target
29 Inesperado inimigo
Notas iniciais
Encontrar Mycroft não fora realmente difícil, bastou uma conversa com seu pai, um ataque de fúria no meio dela, algumas ameaças e logo Sherlock encontrara respostas aceitáveis para suas perguntas. Não havia localização exata, aparentemente seu irmão se mudava bastante, mas havia um número de telefone por satélite que nunca mudava e usado apenas para emergências. Portanto não se surpreendeu quando a ligação foi atendida no segundo toque.
― Emergência?
― Se a vida de Joan Watson for uma emergência para você, então sim ― Sherlock disse sem rodeios.
Houve breves segundos de silêncio onde, provavelmente, o Holmes mais velho tentava prever o que estava acontecendo.
― Sherlock? O que aconteceu com Joan?
― Ela está sendo vitima de um velho amigo seu, Hector Holloway.
Mais silêncio e Sherlock soube que sua teoria estava certa. Deveria agradecer a Moriarty depois?
― O que ele fez a ela?
― Ele sumiu junto com ela.
Ouviu um suspiro descontente do outro lado da linha.
― Meu Deus...
― Quero você em Nova York dentro de vinte e quatro horas Mycroft.
― Espera, posso ajudar mesmo sem estar aí também. Qualquer coisa ― Mycroft tentou como ultima esperança.
― Tem alguma ideia de onde Holloway pode se esconder?
― Não tenho certeza, mesmo assim-
Sherlock rosnou impaciente.
― Então não me faça perder tempo Mycroft e volte imediatamente. Estarei esperando no Sobrado.
***
Sherlock fez questão de esperar o irmão entrar para surpreendê-lo com um soco. Não queria interrupções. Mycroft recuou de olhos arregalados, a mão no nariz sangrento enquanto tentava entender a atitude do mais novo, mas Sherlock não estava fazendo nenhum esforço para explicar. Acertou um outro soco e o agarrou pelo sobretudo gasto, em seguida o jogando no chão da sala.
― Posso saber o motivo de tudo isso? ― Mycroft perguntou irritado enquanto tentava se levantar.
Sherlock o impediu e mais uma vez socou o rosto do irmão, seus olhos azuis brilhavam de forma letal, indicando que não estava determinado a manter a calma.
― Vamos Mycroft, sempre diz que é o mais esperto. Prove isso agora.
Mycroft ergueu as mãos em sinal de rendição, mas Sherlock o ignorou e acertou seu estomago, fazendo-o perder o ar.
― É melhor pensar rápido ― Sherlock avisou sarcástico.
― E-eu não sei Sherlock!
O detetive-consultor rosnou entre dentes e o socou mais uma vez, sem se importar com o sangue que manchava as próprias mãos. Em seguida agarrou o pescoço do irmão e bateu sua cabeça contra o piso frio, mantendo as mãos ali como um aviso.
― Deixe-me clarear sua mente querido irmão ― sussurrou gravemente contra o rosto de Mycroft que piscava com dificuldade ― Você, inútil como é, comprou de Moriarty uma senha. A senha do meu cofre. Não satisfeito vendeu a informação para Holloway, o que prova sua total falta de amor à própria vida. E graças a essa sua estupidez agora ele tem o poder do anonimato e pode dá-lo a quem quiser ― seus dedos institivamente se fecharam um pouco mais ao redor do pescoço do mais velho ― Você, Mycroft, deu a poção da invisibilidade para o vilão enlouquecido. E eu, como o idiota que sou, fiquei preso entre a donzela em perigo e plano diabólico, sem perceber que o traidor estava bem ao lado fingindo que nada estava acontecendo.
― Sherlock... por favor ― Mycroft balbuciou com dificuldade ― Não-
― Só que você foi ingênuo irmão. Achou que Holloway era como qualquer outro, nem por um segundo parou para pensar no perigo que ele poderia se tornar e por esse erro estupido, por causa dessa ingenuidade egocêntrica que sempre cega sua mente, Joan e o filho que ela carrega estarão em perigo até que Holloway seja morto. Satisfeito? Hum?
Sherlock escutou passos apressados e um click metálico, fechou os olhos, irritado. Seria interrompido mais cedo do que esperava.
― Eu pedi mais tempo ― lembrou.
― Mais tempo e você o matará ― Capitão Gregson concluiu ― Solte-o.
O detetive hesitou, no momento não se importava muito com as consequências de matar o próprio irmão.
― Holmes! ― Bell gritou o colocando sobre a mira da arma ― Solte o seu irmão!
Revirou os olhos e finalmente o soltou, levantando-se. Mycroft levou as mãos ao pescoço e tossiu, sentando-se. Seu nariz sangrava sem parar e seu olho estava inchado, havia uma abertura preocupante na testa que fez Bell lançar um olhar surpreso para Sherlock que ainda tentava se controlar, abrindo e fechando as mãos.
― Satisfeito? ― Gregson perguntou.
― Nenhum pouco.
― É seu? ― Mycroft perguntou em um fio de voz ― O filho... dela, é seu?
― É ― Sherlock respondeu curtamente, olhando-o com desprezo.
― Nosso pai sabe?
― Há pouco tempo.
― Eu... eu não sabia. Vocês...
― Você não sabe absolutamente nada Mycroft. É um preguiçoso inútil que se quer tem o trabalho de prever as consequências de suas próprias ações.
― Como eu saberia? Como eu poderia saber? Você sempre disse que era incapaz de-
― Isso não tem nada a ver comigo! ― Sherlock o interrompeu, gritando em fúria ― Não seja ridículo. Não importa se sou incapaz de criar laços ou ter uma família, nunca importou. Tudo o que importa é Joan. Joan! Lembra-se dela, não é? A mulher compreensiva e única que foi sequestrada por sua causa. E você não pensou duas vezes! Não analisou a situação! Não parou pra pensar que antes de me acertarem, ela seria o alvo!
Inconsciente Sherlock se aproximou de Mycroft que recuou sentindo a fúria que emanava do irmão, mas Detetive Bell foi mais rápido e ficou entre eles. Era claro que Sherlock seria capaz de matar alguém para sentir alguma paz.
― Forllet disse que Joan está bem, os dois estão bem ― Gregson comunicou cauteloso.
― Ela está bem? ― Mycroft perguntou confuso ― Pensei que estivesse desaparecida. Não é por isso que me chamou? Para ajudar?
― Não, está aqui porque eu tinha que ver seu sangue nas minhas mãos ― Sherlock retorquiu em tom contido ― Nunca pedi sua ajuda para encontra-la. Quando liguei fiz uma única pergunta, se você tinha alguma ideia de onde Holloway pode se esconder. Como eu disse antes você não sabe de nada, então veio aqui apenas apanhar.
― Mas Hector não estava com Joan quando a encontraram?
― Sim, mas não estava sozinho ― Bell respondeu ― O problema é que todo DNA que encontramos nas cenas do crime e na casa onde Joan estava, cabelo, pele, digitais... simplesmente não existem. Foram apagados do sistema.
Mycroft arregalou os olhos, finalmente compreendendo a situação. Portanto que ninguém fosse encontrado – incluindo Holloway, não havia como incriminar ou encontrar provas que o condenasse, Holloway podia estar agora dentro de um prédio do FBI com o nome de James Bond e nenhum DNA o contradiria.
― Entende a posição em que me colocou? ― Sherlock questionou a ele ― Ele será uma ameaça enquanto viver, assim como seus aliados.
O telefone do Capitão Gregson tocou e Sherlock o sentiu se afastando, sua mente estava agitada demais para manter um único foco. Havia a raiva misturada a confusão e que estava transformando sua mente em um caos sem limite, sem rumo. Por mais difícil que fosse já tinha tomado sua decisão final, ficaria longe de Joan, acabaria de vez com aquele maldito plano de Holloway, fosse o que fosse.
— Holmes — Gregson chamou voltando para a sala — O homem que agrediu você já está acordado, caso queira tirar alguma informação.
Momentaneamente houve uma pausa no caos do detetive que o fez lançar um olhar confuso para o Capitão.
— O homem que me agrediu?
— Sim, aquele que invadiu essa casa junto com Holloway. Ele apontou uma arma pra você, lembra?
— Isso foi há semanas, como pode ter acordado só agora?
— Você o fez bater a cabeça na mesa quando o acertou na costela — Gregson respondeu erguendo as sobrancelhas — Ele quase morreu com um traumatismo, não sabia?
Sherlock pensou em negar, mas sua mente já havia voltado para o dia em que abriu a porta para Holloway e fora distraído o suficiente para deixar entrar seu capanga armado com uma arma de um único tiro pela porta dos fundos. Cada detalhe estava vivo. Imobilizou-o depois de decidir agir e tentou atirar em Holloway sem sucesso. Seus olhos disseram que eram os únicos na casa e por isso concluíra que fora o capanga que o acertara na cabeça, mas se o mesmo estava inconsciente no hospital até então... quem o acertara?
— Onde Joan está? — perguntou de repente.
— Em seu apartamento, provavelmente — Bell respondeu confuso — Deve estar arrumando as malas.
Subitamente Sherlock se moveu e, com movimentos perturbados, ajeitou a escada diante da sua estante de livros, escalando-a como se houvesse o seu melhor ouro no topo. Seus dedos rápidos percorreram os livros da parte mais alta até encontrem um de capa verde e núcleo oco, abriu-o e retirou de dentro uma das câmeras que Joan tanto odiava.
— Sherlock? — Mycroft chamou com a voz falha.
Sherlock o ignorou e praticamente correu até seu notebook, segurando a câmera com estrema firmeza. Sentindo-se ser cercado pelos outros presentes da casa e com as mãos trêmulas conectou o fio. Alguns cliques depois o vídeo começou a ser reproduzido na tela pequena do notebook e logo foi retrocedido até Holloway surgir. Deixou que continuasse na velocidade normal e acompanhou sua tentativa falha de assassinato até uma nova – e inesperada pessoa – aparecer e acertar sua cabeça.
― Quero que diga a Joan... ― começou Holloway, em tom indiferente ― Que nada do que ela faça resultará em uma salvação. Quero que ela entenda que está se jogando em um mar cheio de animais pré-históricos que sabem muito bem se proteger e que dentro desse mar ela nem se quer vai conseguir nadar, muito menos sobreviver.
Sherlock engolira em seco e jogou a arma no chão.
― Acha que ela tem medo de você?
― Isso não importa, meu caro Holmes ― Holloway deu de ombros, sorrindo ― Eu sou apenas um e o mar é grande demais para uma única espécie. Tente não se esquecer disso.
As palavras de Holloway, ditas com tanta firmeza no dia em que a filmagem foi feita, voltaram e abateram suas barreiras com força. Destruindo suas certezas. O vídeo foi pausado e seus olhos paralisados, arregalaram-se diante da verdade invariavelmente cruel e estupida que a imagem o proporcionava. Finalmente entendera completamente que Holloway sempre esteve um passo a frente dele, sempre.
***
Joan abriu a porta do apartamento com cautela, há muito tempo não entrava ali. Seus últimos momentos naquele lugar não foram muito bons, havia acabado de acordar depois uma noite turbulenta nas mãos de Holloway, tão mal quanto possível. Havia os olhos preocupados e apreensivos de Sherlock a sua frente e uma bagunça ao seu redor, garrafas vazias, seringa e sangue colocados ali apenas para causar um sentimento pior do que aquele que já existia. Dez minutos depois estava sendo arrastada para o Sobrado.
Oh sim, Sherlock era o maior responsável por isso.
Suas tentativas de se afastar sempre tiveram o efeito contrário, ao menos era assim que observava. Mesmo quando não se falavam ou estavam separados por segredos de ambos os lados, algo sempre os envolvia teimosamente. Era como uma força incontrolável e infinda que os amarrava, por falta de motivos bons, através dos problemas que os cercavam.
Parecia o início de uma maldição que aparentemente não teria fim.
Algo na escuridão do corredor chamou sua atenção, um movimento não natural que com certeza não era necessário depois de tudo o que passara. Olhou furtivamente para a sua bolsa que estava a alguns metros, no sofá, e pensou nos seguranças de Forllet que a esperavam no corredor. Tentou se acalmar com esse ultimo detalhe.
— Joan.
Virou-se com rapidez na direção da porta e encontrou o vazio. A voz parecia vir dali. Engoliu em seco e, decidida, caminhou rapidamente até a porta.
— Você demorou.
Sua mão parou distante demais da porta, a voz a paralisou. Era Holloway. Seus olhos se umedeceram quando o encontrou na janela, quase oculto pela luz externa que não era suficiente para aplacar a escuridão do apartamento. A arma dele estava erguida na sua direção e só isso a impedia de correr ou gritar.
— Por favor, não corra, não grite. Não quero ser forçado a nada.
Joan engoliu em seco novamente e lentamente se virou para ficar frente a frente com ele, tentando não tremer tanto quanto seu corpo exigia. Não tinha ideia de como ele conseguira entrar ali, mas se obteve sucesso então também deveria confiar em seus instintos que apontavam para o corredor, onde segundos antes pensara ter visto alguém. E se realmente viu alguém? Se não era Holloway, quem poderia ser?
Seu telefone tocou, fazendo-a se sobressaltar de susto. A harmonia do violino se espalhou pelo apartamento e a fez fechar os olhos. Era Sherlock. Que não desistira na primeira tentativa, nem na segunda e provavelmente não o faria na terceira.
— Que detetive persistente — uma voz feminina e perigosa soou do corredor.
Joan sentiu sua garganta secar e suprimiu a vontade de gritar, era o que queria, mas não conseguira. Estava perplexa demais para tanto. O choque do salto alto contra seu piso ecoou levemente até seus ouvidos, um perfume levemente familiar chegou até seus ouvidos, mas não precisava de nada disso. Conhecia muito bem aquela voz e sabia o que encontraria a sua frente, seriam cabelos loiros e um olhar divertidamente malicioso que nunca sumia.
Andreia Berns parou diante de si e Joan sentiu um gosto amargo descendo por sua garganta, a traição queimando a boca do seu estomago e fazendo lagrimas brotarem dos olhos castanhos, sendo contidas rapidamente.
― Como pôde? ― acusou entre dentes.
― Como não poderia? ― Andreia respondeu sorridente ― Foi tão fácil Joan, fácil demais. Eu seria louca se perdesse a chance.
― Você é louca! ― Joan rebateu elevando a voz ― Éramos amigas Andreia, desde a faculdade!
― Não, você era minha amiga. É diferente.
Joan recuou alguns passos, atônita, enquanto as lagrimas molhavam suas bochechas, mas Holloway fez um gesto rápido com a arma a fazendo parar.
― Quieta.
― Obedeça Joan, tudo o que Hector não quer é matar sua obsessão ― Andreia pediu em tom provocante ― Mas acredite, ele fará se for necessário.
Joan não conseguia entender o que havia levado Andreia até aquele ponto. Até onde sabia eram amigas desde a faculdade, sempre mantendo contato, sempre uma amizade que parecia reciproca. Nunca havia feito nada com a intenção de feri-la ou magoá-la, nem chegara perto. O que havia perdido?
― Por que? ― perguntou com a voz embargada ― Por que Andreia?
A mulher que pensava ser sua amiga deu de ombros e em seguida esboçou um largo sorriso, um sorriso completamente errado.
― Porque é divertido.
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