Não sei quanto tempo se passou desde que deixei o acampamento.

Sei que tive sorte em encontrar uma aldeia pacífica, disposta a me receber. Bem, para ser sincera, foram eles que me encontraram.

Não se passa um dia sem que eu pense em meus amigos, meu povo, aqueles que deixei para trás.

Não se passa uma noite sem que os rostos e os gritos me persigam.

Atom. Tris. Finn. Maya. Dante.

Tantos nomes, tantos rostos, tantas mortes.

Embora eu soubesse não merecer, me mantive viva até o Clã da Lua me encontrar. Eles trataram minhas feridas, nutriram meu corpo e, pouco a pouco, reconstruíam minha alma.

Agora, com cabelo recém trançado, encaro meu reflexo em uma bacia de metal. Minha pele nunca esteve tão bronzeada. A parte inferior dos meus olhos opacos está pintada com faixas negras grossas.

Já estive melhor.

Já estive pior.

- Clarke? — Irina me chama, entrando na cabana. — A Comandante requisita sua presença.

Me levanto em silêncio para seguí-la, enquanto observo as marcas em suas costas. Sei que elas representam cada vida que ela tirou e já me acostumei com a forma que eles as exibem com orgulho.

Por um segundo penso como seria se eu me marcasse também. Quase rio diante da possibilidade. Mais de oitocentas marcas. Não caberiam nas minhas costas.

Observo a clareira conforme caminhamos, com dezenas de tendas e construções de madeiras espalhadas. Sei que nas tendas estão os outros curadores, guerreiros que estão apenas de passagem e artesãos fazendo armas. Posso ouvir as ondas se quebrando na praia a poucos metros e o cheiro de peixe defumado me deixa levemente enjoada.

A cabana da Comandante fica no centro da aldeia. Ao contrário de Lexa, ela não faz jus ao título. Sei que todos são guerreiros, sei que são perigosos, mas, desde que cheguei aqui não vi nenhuma execução. Nenhuma batalha. Uma pacifista, imagino. O título de Rainha lhe cairia melhor.

Quando entro na cabana a Comandante Luna está sentada em uma espécie de trono feito com ossos e couro. De todos os lugares da aldeia esse é o que mais me incomoda. O que mais me lembra de Lexa.

Os cabelos negros dela estão tão impecavelmente trançados quanto o de todos ao redor. A pintura em seu rosto faz movimentos circulares, que contornam seus olhos extremamente azuis e seu nariz. Ela me lembra uma versão mais velha de Octavia. Desde os olhos doces e selvagens até o sorriso irônico. Na forma como ela parece pronta para festejar ou batalhar o tempo todo.

- Clarke, tenho algo que creio te pertencer. — Ela diz na língua dos selvagens, tão alto e claro que as palavras ecoam ao nosso redor.

E então eu os vejo. Dois garotos, amordaçados, sendo carregados pelo mais próximo de guardas que havia ali. Seus rostos possuem cortes superficiais e outros profundos. Um deles está mancando e por sua expressão de dor sei que levará tempo para curar. Seus olhos expressam alívio, desespero e uma felicidade velada, provavelmente por ver que estou viva, que estou bem.

E as memórias que eu tentava reprimir voltam de uma vez.

A nave pousando na terra. Nossa primeira missão exploratória. A lança no peito de Jasper. Dias até ele se recuperar. A nave de Raven caindo. A ponte sendo explodida. Finn e eu prestes a sermos executados. Os braceletes fritando. Eu puxando a alavanca e queimando 300 groudenders.

Vendo Monty através do vidro no Mount Weather. Maya. Anya. Conseguimos escapar.

Matei Finn.

Fiz uma aliança.

Fui traída.

Matei muita gente.

Crianças.

Idosos.

Mas eu os tirei de lá. Sacrifiquei quem eu era por eles, para salvá-los, e aqui estão eles novamente, em perigo.

Olho para Luna e sei que ela pode ler o medo em meus olhos. Sei que ela observa cada movimento, esperando por um deslize.

Mas eu sustento seu olhar.

- Há dois meses eu te dei um voto de confiança, Clarke Griffin. — Ela diz, com toda a determinação que é esperada dela. — Deixei que ficasse contanto que você não prejudicasse meu povo. Você em nenhum momento quebrou minha confiança. Agora, estenderei minha hospitalidade para eles, se você quiser se responsabilizar por eles.

Ela acha que me dá uma escolha. Mal sabe ela que eu jamais negaria proteção a eles. Eu me responsabilizara desde que saímos para aquela primeira missão, cinco de nós.

Assinto com a cabeça, enquanto vejo-a gesticular para que os guardas cortem as cordas.

- Não me desaponte, Clarke Griffin. — Ela diz, nos liberando para sair.

- Jasper, Monty. — Eu os cumprimento apenas com acenos de cabeça. — Sigam-me.

Notas finais
Espero que vocês gostem :3
Se quiserem, me deixem comentários ;)
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.