Lá estávamos nós, nos aquecendo, mais uma vez, com os corações palpitantes, prontos para entrar no palco e encarar a multidão, prontos para fazer o que sabíamos fazer de melhor. Os primeiros passos debaixo das luzes, as vozes gritando meu nome, as notas da minha guitarra enchendo o ar, o sangue correndo quente pelas minhas veias, meus olhos fechados, e naquele momento eu era feliz. Toda aquela energia subindo pelos meus pés e correndo por todo meu corpo, uma euforia incontrolável tomando conta do meu ser, eu e minha guitarra como um só, nada mais importava. Nada pagava aqueles aplausos, aquelas vozes em uníssono, o coro emocionado.

Mal havia acabado e eu já estava ansioso pelo próximo. Nós entramos na van, comentando animados e exaustos o show daquela noite. E era isso que me fazia continuar. Mas ainda assim eu desejava ter alguém com quem compartilhar essa alegria, alguém que não fosse nenhum dos meus colegas de banda, alguém que significasse mais do que uma simples companhia, alguém chamada Kiori. Descemos da van e nos dirigimos até o saguão do hotel. Era sempre bom tocar em Mie, minha cidade e também minhas memórias. Eu me sentia mais perto dela quando estava ali.

— Aoi-san! Aoi-san! – um dos rapazes da staff apareceu correndo – Tem uma moça aqui, ela me pediu por você, usou seu nome de verdade, diz ser sua amiga. O que devo fazer?

— Uma moça? – meu coração falhou uma batida. – Qual é o nome dela?

— Não sei. Ela não disse.

— Onde ela está? – meus joelhos tremiam.

— Por aqui. – eu segui o rapaz até o bar do hotel, onde ele me apontou uma mulher de costas. – É ela.

— Tudo bem. Você pode ir agora. – e então ele saiu apressado atrás dos outros membros da banda. – Ãhn... C-com licença...

Chamei sua atenção e então, como que em câmera lenta, ela se virou. Vi seu rosto e senti meus sentidos me deixarem de súbito, meus batimentos cardíacos devem ter caído por aqueles instantes em que ela ficou parada ali sem dizer nada.

— K-kiori... – seu nome saiu como um murmúrio de meus lábios.

— Yuu! – ela suspirou sorrindo e então se abraçou ao meu pescoço, como costumava fazer quando éramos mais jovens.

Aquele mesmo perfume invadiu meus pensamentos, como se o tempo tivesse voltado, como se eu tivesse de novo pouco mais de dezessete anos. O coração dela batia forte contra o meu e eu me esforçava para acreditar que ela realmente estava ali.

— Yuu, nem acredito que consegui te encontrar! – se soltou de mim e me olhou nos olhos.

Ela ainda tinha o mesmo rosto, o mesmo jeito de sorrir, o mesmo jeito de falar. Pude jurar que o tempo não havia passado para ela.

— Eu assisti o show e... Uau! Meu Deus! Quanto tempo faz? Uns dez anos?! Mas você não mudou nada! Bom fora o cabelo, as roupas e a maquiagem eu quis dizer. – ela falava e eu ainda tentava me certificar de que ela não era uma miragem. – Yuu, tá tudo bem? Você tá pálido.

— E-eu tô bem sim. – aquela realidade doce me envolveu aos poucos e me fez sorrir. – Kiori... Nossa, você... Eu... Meu Deus... Faz tanto tempo...

— Eu sei. Me desculpe por não ter mais te ligado, eu comecei a trabalhar feito uma maluca e me esqueci completamente do mundo.

— Tudo bem, eu também não liguei. – sorri sem graça – Mas então, você resolveu voltar pro Japão?

— Não, na verdade não. Eu só tô de férias. – aquela resposta fez o meu peito doer.

— Ah, claro. Mas... Como tão as... coisas? Quer dizer... O que aconteceu nesse tempo todo?

— Nada demais. Passei esses anos todos enfurnada num escritório pra falar bem a verdade. Muito diferente de você, não é mesmo, senhor rock-star? Você conseguiu. E eu que tentei te impedir de deixar a faculdade. – ela riu e eu pensei que se talvez eu tivesse seguido o conselho dela, as coisas seriam bem diferentes agora, talvez eu tivesse tido a coragem de dizer que a amava, talvez tudo tivesse dado certo entre nós.

— Ah, não é nada demais. No fundo... Eu ainda sou o Yuu que você conhece. Isso tudo aqui é só um personagem. – e ela mal sabia o quanto eu realmente quis dizer com isso. – Você... Você não se casou? – eu não sei o que me deu na cabeça de perguntar isso.

— Não. Mal tive tempo pra fazer amizades, que dirá me casar. – ela sorriu e foi como se tivessem tirado metade do peso das minhas costas. – E você?

— Ah, não. Minha esposa é a minha guitarra. – eu ri.

— Tô sabendo.

— Quanto tempo você ainda vai ficar no Japão?

— Na verdade eu vou embarco amanhã à noite em Tokyo, só passei aqui pra te lembrar da minha existência – Tá, claro, como se eu tivesse esquecido em algum momento. – Mas logo eu volto pra cá pra mais férias. Agora eu me prometi que não vou mais passar tempo demais longe daqui. Da próxima vez a gente combina de sair pra conversar, tomar um café e tudo mais.

— Ah, tudo bem. É. Da próxima vez. – e eu percebi que nada iria mudar.

— Agora, deixa eu ir. Você deve estar exausto. Olha, Yuu, foi muito bom te ver, muito mesmo. Parabéns pela sua banda e eu vou torcer por você.

— Obrigado. Se cuida. Vê se não esquece que não é americana.

— Pode deixar. – e me abraçou de novo, fazendo meu pobre ser tremer mais um pouco.

— Então tá. A gente se vê.

— É, a gente se vê. – se soltou de mim, sorriu e saiu em direção ao lobby. – Kiori! – a chamei antes que chegasse à porta – A que horas você embarca pra Tokyo amanhã? Talvez eu possa ir me despedir de você na estação.

— Eu embarco as oito, plataforma seis. Espero que você possa ir. – ela sorriu e acenou um adeus.

— Eu irei. – acenei de volta e fiquei a acompanhando com os olhos até que sumisse do meu campo de visão.