Uma sensação de Déjà Vu me atinge quando, novamente, procuro Max em meio à multidão, ao lado de Nathan. Meu olhar corre desesperado, varrendo o local várias e várias vezes, mas sem obter sucesso com meu alvo.

– Ali! — Nathan fala apontando para um ponto distante á frente. Procuro mais uma vez, seguindo a direção apontada e então o avisto. Parado, em meio a várias pessoas lá estava ele.

Me esquivo em meio à multidão tentando alcançá-lo e seus olhos encontram os meus. Um sorriso teimoso se forma em meus lábios. Deveria estar brava com sua atitude, mas também estou feliz em vê-lo inteiro. Bem ali na minha frente.

Avanço em meio a acotoveladas e quando o alcanço faço algo impensado. Lhe dou um tapa no braço esquerdo.

– Isso é por mentir pra mim.

Então depois o abraço. Ele sorri.

– Imagino que isso seja por eu ter conseguido o Soro.

Estaco com a menção ao Soro. Até agora nada daquilo parecia real. Uma parte de mim havia pensado que nunca conseguiriam recuperá-lo. E o fato de terem conseguido significa que em breve terei minhas lembranças de volta. O que, por sua vez, me assusta um pouco.

– Conseguiram? — Digo saindo de meu torpor. Ele assente. — Isso é... Ótimo. Quando vamos... Você sabe.

– Não se preocupe. Não será agora. Precisamos de um tempo para preparar tudo. Desde a equipe médica até ao Soro. Deve demorar uma semana até tudo estar pronto e então você poderá ter sua memória de volta. E nós poderemos finalmente invadir aquele local novamente.

Ele para e olha para mim, notando minha expressão de surpresa.

– Desculpe, só... Não consigo aceitar o fato de terem feito isso com você. — Assinto, concordando. — Já está tarde, é melhor você ir descansar. Prometo que não vou fugir de novo.

Ele brinca e se afasta.

– Preciso falar com Helena. — Completa e some novamente no meio da multidão antes que eu possa dizer mais qualquer coisa. Sinto uma mão em meu ombro e me viro. É Nathan. Não tinha percebido que ele estava ali até o momento. Ele me puxa num abraço de lado enquanto caminha em direção aos dormitórios.

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– America. — Uma voz me chama ao longe, indescritível. — America.

– De novo não. — Cubro o rosto com o travesseiro, então uma voz reverbera em minha mente.

"Ou você levanta agora ou eu mesmo faço você levantar e te levo lá pra fora exatamente como está."

Forço-me a tirar o travesseiro de meu rosto. Estreito os olhos por causa da claridade.

– Helena? — Pergunto num sussurro.

– Não é Helena. Sou eu, Nathan. Agora... Vai levantar ou não?

– Acho que vocês devem parar de me acordar todas as manhãs. Os dois.

– Certo, certo. Vai levantar ou eu terei que te tirar da cama à força?

Ele me encara com um olhar desafiador, um tanto divertido.

– Vou levantar... Só mais alguns minutos.

– Tempo esgotado. — Ele puxa meu cobertor e pula na cama, rindo.

– O que...? E se eu estivesse nua?

– Seria uma visão ótima. — Ele brinca e solta uma gargalhada.

– É melhor que você saia. Já! — Grito, mas ele não obedece, continua lá, me encarando. Por um momento sinto algo. Um resquício de lembrança do passado. De quem Nathan era. Mas tão rápido quanto veio ele se vai e não importa o quanto force minha mente não consigo me lembrar.

Depois de alguns segundos ele se levanta e se encaminha para a porta.

– Cinco minutos. Estarei te esperando no telhado.

Ele olha mais uma vez para mim e ri. Sai e fecha a porta atrás de si.

Cinco minutos depois estou caminhando em direção ao telhado. Uma parte de mim quer se atrasar, apenas por birra. Mas outra parte quer estar com o garoto que me acorda aos gritos num sábado de manhã.

– É melhor que tenha trazido comida, já que não me deu tempo para isso. — Digo ao passar pela pequena porta que dá acesso ao telhado.

Avisto Nathan a alguns metros de distância, sentado no chão.

– Achei que fazer algo de nossa antiga rotina ajudaria a... Você sabe.

Estava cansada das pessoas se recusando a falar sobre minha memória.

– Relembrar o passado? Está tudo bem, você pode dizer isso.

Ele assente com relutância e faz sinal para que me aproxime. À sua frente pousava uma toalha de mesa, jarras com suco e água e ainda alguns pães e bolachas.

– Ah, você trouxe comida. — Me sento à sua frente, já pegando algo para comer. Não havia percebido o quanto estava faminta.

– Ah, oi America. Você pode comer, se quiser. — Ele ironiza. Eu apenas rio lhe lanço um olhar irônico.

Ele come junto comigo e quando terminamos ele se levanta e se dirige á grade de proteção. Eu o sigo, apoiando os braços na mesma.

– Me disseram para te contar mais sobre sua vida. — Ele diz depois de um longo momento se silêncio.

– Então... Conte.

– Você faz parecer simples.

– Talvez seja.

Outro momento de silêncio.

– Querem que eu fale sobre mim... Nós. — Ele faz uma pausa e suspira. — Nos conhecemos ainda pequenos. Viramos bons amigos. Éramos só eu, você, Helena e Max. Sempre... Só não sei como isso pode ajudar.

Ele tem razão, não ajuda. Eu já sabia disso. Pelas fotos em minha sala e por me dar tão bem com os três.

Então decido fazer uma pergunta que vêm me assombrando há algum tempo. Não sobre ele ou os outros. Sobre mim.

– Porquê eu fiz isso? Esse lugar? Porquê reuni todas essas pessoas?

– Você dizia que acreditava poder dar uma chance a essas pessoas. Não somos aceitos lá fora, mas aqui é como se fosse um novo mundo. Todos iguais... Nós acreditávamos em você.

Outro momento de silêncio se segue. Ele leva uma de suas mãos de encontro à minha e a aperta.

– Sinto falta de você, America.

De início não entendo o que ele quer dizer, então ele se vira, ficando em minha frente e me encara por alguns segundos, como se quizesse me jogar por cima da grade de proteção e fazer uma troca. Eu pela sua antiga America. Então ele faz algo que me surpreende. Ele desliza uma de suas mãos pela minha nuca e aproxima seus lábios dos meus. Então ele me beija. E toda a tensão em meu corpo se desfaz. Eu retribuo. Em meio ao beijo um flash do passado atravessa minha mente.

– Você mentiu. — Digo quando nossos lábios se separam. Ele me olha, confuso. — Disse que éramos apenas amigos antes, mas você mentiu. Eu me lembro.

Ele sorri e me beija novamente.

– Eu tinha certeza de que se lembraria.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.