*Lucas*

Eu percebi que não estava preparado para aquilo quando vi a expressão de Úrsula no aeroporto. Ver seu rosto fez com que meus olhos se enchessem de lágrimas, eu queria pegar toda a tristeza que ela estava sentindo para mim. Eu ficaria melhor se estivesse tão triste, só precisaria vê-la sorrir e tudo ficaria bem, mas isso não ia acontecer. Eu não conseguiria tirar dela a tristeza, não conseguiria um sorriso.

A primeira lágrima caiu quando ela olhou para mim. A segunda quando ela deu o primeiro passo em minha direção. A terceira caiu quando vi que ela também chorava. A quarta foi quando ela parou na minha frente. A quinta quando ela me abraçou. Até que eu perdi a conta quando ela começou a soluçar nos meus braços.

—Me perdoe. – Falei e, no desespero, fiquei repetindo aquela frase. Naquele momento não importava que algum idiota tinha invadido a casa do sr. Martins, não importava que ele havia pegado uma infecção no hospital. Tudo parecia ser minha culpa. Eu não podia ajudá-la e Mark não estava aqui para fazer isso.

—Obrigada por estar aqui. – Ela disse.

WHAT??

Úrsula se afastou e olhou fundo em meus olhos, tocou em meu rosto como se eu fosse uma criatura quase celestial.

—Obrigada por estar aqui. – Repetiu.

Naquele momento eu vi como a amava, como ela era uma pessoa incrível. Ela havia acabado de perder o pai e lá estava ela me consolando. Isso sequer faz algum sentido?

Não pude me controlar e abracei-a novamente. Dessa vez eu era quem estava soluçando.

*Úrsula*

O velório estava mais do que deprimente e eu estava muito nervosa. Eu sabia que a qualquer momento ele iria chegar, e eu não estava preparada para aquilo.

Alguém tocou meu ombro e meu coração disparou. Dei um pulo e virei assustada.

—Desculpe. – Disse Lucas.

Eu estava tão aliviada por ser ele que meus olhos lacrimejaram.

—Você não tem que estar aqui quando ele chegar. – Ele disse.

—Não vou deixar Jane sozinha.

Lucas ficou do meu lado por todo o tempo, eu não sabia como expressar o quanto eu estava grata por isso.

Eram três horas da manhã quando ele chegou. Estava vestido em um terno super caro feito sob medida, o cabelo estava com um corte elegante e ele andava com um ar de superioridade ridículo e aterrorizante. Eu tinha obrigado Jane a descansar então não precisei me preocupar com ela.

Ele olhou para mim e abriu um sorriso, automaticamente agarrei o braço de Lucas. Ao ver isso o sorriso dele amarelou e ele se virou indo em direção ao corpo.

—Está tudo bem. – Disse Lucas. – Ele não é idiota o suficiente para tentar algo aqui.

Concordei com a cabeça.

Comecei a me sentir sufocada ali dentro, então Lucas me levou para tomar um ar. Não deu dois minutos que saímos e aquele ser desprezível já estava do lado de fora também.

—Antigamente se pedia benção para os tios. – Ele disse enquanto se aproximava.

—Vá a merda. – Lucas se irritou.

Jorge fez menção de ataca-lo, mas mudou de ideia. Ele se aproximou e Lucas me empurrou se colocando entre mim e meu tio.

—Sabe Úrsula, sua mãe também procurou um guarda costas para ela, aposto que você já ouviu falar no famoso Murilo, pobre garoto. – Ele deu uma boa olhada em Lucas, aquilo fez meu estômago revirar. – Rapaz, teve alguém que, assim como você, se meteu onde não devia. Sabe onde ele está agora? Em um caixão, ali dentro. – Ele apontou para a porta. – Acho que vou embora agora, obviamente não sou bem-vindo aqui.

Ele virou as costas e foi embora. Lucas quase foi atrás dele, mas o segurei. Eu mal podia ficar de pé.

XXX

—Quem é Murilo? – Lucas perguntou. Estávamos sentados na escadaria, eu já conseguia falar.

—Ele era um primo da minha mãe. – Contei. Não pude evitar a lágrima que desceu com a lembrança. – Eles eram como unha e carne, pelo o que eu sei.

—E o que aconteceu com ele?

—Ele cometeu suicídio um dia antes do acidente... – Nesse momento não pude me conter mais, comecei a chorar desesperadamente. – Ele... Ele...

Lucas me abraçou quando comecei a tremer. Eu estava desesperada, não podia perde-lo de jeito nenhum.

—Vá embora... – Falei com a voz fraca.

—O que? – Ele perguntou se afastando.

—Vá embora... você não pode se machucar por minha causa... eu não posso deixar que você se machuque.

—Escuta – Ele disse segurando firme meus ombros. – Eu não vou a lugar nenhum, você entendeu? Eu não vou me afastar de você. Nunca.

*Kim Yong Woo (Mark)*

—Com licença, senhor. – Disse o secretário entrando no escritório. – O senhor está recebendo uma ligação.

—Eu não posso atender agora.

—Mas, senhor, já é a quinta ligação desse homem.

Olhei para ele indignado.

—Eu estou cheio de trabalho para fazer, mande-o deixar recado.

Dois minutos e meio depois ele voltou.

—Senhor, eu tentei, mas ele insiste que quer falar somente com o senhor.

—Mas será possível?!

—Tem mais uma coisa, senhor.

—O que?

—Ele disse que se eu informasse o senhor de que é uma ligação do Brasil, o senhor atenderia.

Meu cérebro foi a mil. Faziam duas semanas que eu não tinha uma notícia sequer sobre Úrsula e, embora eu tentasse esquecer, aquilo estava me matando.

—Encaminhe a chamada para a linha seis.

Peguei às pressas o telefone.

—Mark? – A pessoa não parecia muito feliz em me ligar.

Demorei um pouco, mas acabei reconhecendo a voz.

—Lucas? – Talvez eu tenha falado com um tom de desprezo, talvez.

Ouvi-o suspirar do outro lado, provavelmente se arrependendo de ter me ligado.

—Escuta aqui. – Ele começou. – Eu não ligaria se não fosse importante. Preciso da sua ajuda. – Eu quase comecei a rir, mas então ele disse algo assustador: — Úrsula está em perigo.

UMA SEMANA DEPOIS

*Úrsula*

—O que você quer dizer? – Eu estava em choque. Agarrei o braço de Lucas para não acabar caindo.

—Nós temos as provas, mas só você pode fazer a denúncia.

Comecei a tremer.

—Mas..., mas...

Senti que estava a ponto de explodir. Eu olhava do policial para Lucas, e então para o policial de novo.

—Você não precisa se preocupar. – Disse o policial. – Depois que você fizer a denúncia iremos atrás dele. Vamos pegá-lo antes do que você pensa e ele pagará pelos crimes que cometeu.

—Úrsula, esse é o momento pelo qual você tanto esperou. — Disse Lucas. — Você agora vai poder vingar as mortes das pessoas que você amava, você vai estar segura, e Jane também. Mark acha o mesmo.

Aquilo me deu forças. Não o fato de saber que Mark era a favor daquilo, mas sim saber que era o único jeito de proteger Jane e Lucas. E eu necessitava mais do que qualquer coisa protege-los.

—Tudo bem. — Falei já decidida. — Então vamos fazer isso.