I Will Be...
3 Enfermaria
Notas iniciais
POV Mackenzie
Quando meus olhos se abriram, descobri que estava na enfermaria da escola. Um garoto da Franqueza, uma das últimas pessoas que vi antes de meus olhos se fecharem e minha consciência se dissipar, me deixando em um sono profundo, estava sentado em uma cadeira ao lado da minha maca, com um pacote de gelo sobre o olho direito. Em sua outra mão, ele segurava os óculos.
– Ah, você acordou... — a enfermeira falou, se aproximando. — Como está o seu pé?
– Bem — respondi com a voz ligeiramente afetada.
Balancei meu pé e assim que o fiz, uma onda de dor espalhou-se por meu corpo.
Soltei um grito de dor por causa disso.
– É, acho que vou precisar colocar uma tala... — a enfermeira murmurou, dando mais uma olhada no ferimento.
– Obrigada senhora...
– Alicia, só Alicia, por favor.
Alicia virou-se e sumiu por entre o extenso corredor de prateleiras.
– Ei — dirigi-me ao garoto ao meu lado — Obrigada por isso. Te devo uma.
– Ah... Hã... Disponha... — murmurou, tirando o gelo de cima do olho. Uma mancha muito roxa era visível ali.
– E... bom, desculpe por isso. — murmurei, apontando para o hematoma.
– A culpa não foi sua, Mackenzie. — comentou ele. — Foi daqueles imbecis.
– Mas se você não tivesse ido lá...
– Se eu não tivesse ido lá, você estaria em uma situação bem pior do que a soma do meu olho roxo e do seu pé torcido, então por favor... não se culpe.
– Não estou me culpando, é só que... — hesitei — De qualquer forma, o que você fez foi muito nobre, digno de alguém da Audácia — ele envergou os lábios em um sorriso contido — Mas, hum... Como sabe meu nome? — perguntei. Um rubor carmim tingiu suas bochechas quase no mesmo instante.
– Bom, digamos que... na Franqueza é meio difícil não saber o nome de alguém... sabe como é, bando de fofoqueiros... — falou, me fazendo rir.
– E o seu nome? — perguntei, somente nesse momento me lembrando de que não o sabia.
– Ah, sim... desculpe. Meu nome é Charles, mas pode me chamar de Charlie.
– Espera... você não é aquele cara da mesa da frente hoje de manhã?
– Ah... hã... acho que sim... — murmurou ele, voltando a colocar o gelo sobre o olho.
Alicia se aproximou novamente com uma tala na mão, e colocou-a em meu pé.
– Acho melhor você esperar um pouco para voltar pra casa. — falou, com um sorriso discreto.
POV Luisa
– Luisa Matthews, onde a sua irmã foi parar? — Jeanine perguntou pela milésima vez. Ah, por favor... eu sou irmã dela, não babá...
– Droga, mãe, a Mackie tem 15 anos, sabe se virar muito bem! — exclamei, irritada.
– Sabe se virar muito bem? Ela sabia se virar muito bem, até se meter com aquele garoto da Audácia. — pude perceber o asco em sua voz ao falar sobre Jace. Eu também não gostava nem um pouco disso, mas não achava que Mackenzie fosse o tipo de pessoa que poderia ser influenciada facilmente. Ao contrário, na verdade. Ela era uma das pessoas mais teimosas que eu conhecia. E acho que esse era o principal motivo para ela se juntar com aquele garoto: ela queria simplesmente desafiar nossa mãe.
– Confie na garota, mamãe. Desacredito que a Mackie que conhecemos faria alguma bestei... — sou interrompida pelo barulho do telefone.
– Jeanine Matthews falando — ela atendeu.
– Jeanine, aqui é Rose Mitchell. — ao ouvir o nome da diretora, a expressão de mamãe mudou para algo indecifrável, provavelmente tentando adivinhar o que a filha mais nova tinha feito daquela vez. — Bom, é difícil dizer isso, mas a sua filha está na enfermaria no momento. Ela torceu o tornozelo fugindo de alguns garotos e, bom... ela poderia estar morta. — fiquei ouvindo o que a diretora falava, pois o telefone estava com um volume alto o suficiente para isso. — Se for possível para a senhora, venha até a enfermaria o mais rápido possível e... — mamãe desligou o telefone, já pegando a bolsa em cima da mesinha de centro e correndo até o carro. Fui logo atrás, rapidamente.
– Realmente, confiar na sua irmã é sempre a coisa mais prudente a se fazer — ironizou mamãe apertando o volante com tanta força que as pontas de seus dedos empalideceram.
– E eu ia adivinhar? — murmurei, mexendo no meu anel. — Mãe, eu não sou a babá dela. Teoricamente, ela já deveria estar crescida o suficiente para cuidar de si mesma.
– Claro, claro... ela é tão responsável que quase foi morta por um bando de sujeitinhos da Audácia. Francamente, Luisa...
– Mãe...
– Que foi?
– Entre nós duas aqui, se é pra alguém cuidar dela, esse alguém deveria ser você.
Uma veia de irritação pulsou em sua testa. Mordi a língua para não rir.
– Que atrevimento — ela murmurou.
– Atrevimento? Desculpe, mas só estou sendo franca.
– Você não pertence à Franqueza, Luisa. Não tente agir como tal.
Resolvi ficar calada. Enquanto ela não viesse reclamar ainda mais do que ela acha que eu fiz de errado, eu não precisaria me defender.
Chegamos à escola em pouco tempo e eu corri até a enfermaria, enquanto Jeanine ia conversar com a diretora.
Mackenzie repousava na maca, seus olhos fixos do teto de um azul desbotado.
– Mackie — chamei me empenhando em esconder o desapontamento da voz — Você está bem?
– Bom, se desconsiderar o pé torcido, sim, estou ótima. — falou, desanimada.
– O que exatamente aconteceu?
– É uma longa história... resumindo, eu caí do muro, chutei uns caras e apaguei.
– Ah, ótima história... mas acho que é melhor você pensar em algo mais defensivo para dizer para a mamãe... — comentei.
– Droga, ela veio? — perguntou apreensiva.
– O que você acha? — perguntei. — Digamos que ela ficou me xingando o caminho inteiro por causa disso...
Jeanine cruzou o recinto, o barulho dos saltos de grife batendo ritmadamente contra o assoalho, como o cronômetro de uma bomba-relógio.
– É falar no Diabo... — começou Mackie e tive de reprimir meu riso mais uma vez.
– Cuidado com o que fala de mim, Mackenzie. — falou mamãe, com a expressão tão ou mais séria que o normal. — Você já está encrencada o suficiente.
– Ah é? Estou encrencada pelo que? Ter uma vida? — disse ela em tom de desafio.
– Você pode ter uma vida, desde que você saiba cuidar dela, e não tentar se matar um dia sim um dia não. — rebateu ela.
– Eu não... — Mackie bufou e se deu por vencida. Não adiantava discutir com minha mãe.
– Já posso levá-la para casa? — perguntou Jeanine para a enfermeira, que assentiu.
– A garota só precisa repousar. — a enfermeira falou, entregando um remédio. Provavelmente era um anti-inflamatório.
Envolvi os ombros de minha irmãzinha em um abraço afetuoso. Isso bastou para ela suavizar sua expressão de profunda irritação.
Ajudei-a a se levantar e andar até o carro. Durante o caminho, mamãe estava com a expressão mais séria do que eu jamais tinha visto e não falou nada.
Em casa, levei Mackenzie para o quarto e tranquei-o, depois olhei em seus olhos azuis.
– Bem... Jace queria invadir a Abnegação, botar fogo em algumas coisas, pichar uns muros, essas coisas — disse com total indiferença — Então, ele me convidou, mas sabe, não gosto dessas coisas e dá última vez mamãe quase me trancou pra fora de casa — Mackie fez uma pausa — Resumindo, nós estávamos em cima de um muro, ele saltou e eu achei que podia fazer a mesma coisa.
– Não consigo entender como você namora um cara desses — ralhei.
– Isso não vem ao caso! A questão é que um bando de caras idiotas me cercou e eu não podia me defender.
– E como você fugiu? — perguntei.
– Bom, eu pulei do muro e acabei torcendo o pé... então um garoto da Franqueza chegou e me ajudou...
– Aquele bonitinho caladão do seu lado? — perguntei arqueando as sobrancelhas.
– É, acho que é...
– Corajoso ele, heim? — comentei, subitamente.
– Você não presta — disse ela rindo e me dando uma cotovelada nas costelas.
– Ué, não falei nada demais. — falei, rindo. Olhei para o relógio. — Well, sister... vamos dormir? Amanhã é o dia da Cerimônia de Escolha. — minha voz saiu como se aquilo fosse algo péssimo, e Mackenzie percebeu.
– O que aconteceu no seu teste de aptidão, Luisa? — perguntou ela.
Silêncio. Eu não poderia falar para ela que tinha sido classificada para mais que uma facção.
– Você não foi selecionada para a Erudição, né? Está com medo da mamãe? — apenas assenti.
– Deixe-me ver... Franqueza não foi, isso eu tenho certeza. Abnegação também não, você não é o tipo de pessoa que eu consideraria altruísta... Amizade eu duvido, francamente. O máximo que poderia ter sido o resultado é... — sua boca se escancarou e seus olhos se arregalaram. — Audácia?
– Eu já decidi em qual eu ficarei. — falei, ignorando seu comentário. Eu não poderia sair daqui.
– Bom, a escolha é toda sua e te apoio seja qual ela for. Facção antes do sangue, lembra? — ela sorriu e deu um tapinha encorajador em meu ombro.
Sorri para ela.
– Tenho que voltar para meu quarto agora. Vamos levar um tempinho até voltarmos a conviver. — dei uma risadinha nervosa. — Até amanhã, maninha.
– Boa noite.
Andei até o meu quarto, voltando a encarar todo aquele azul. Paredes azuis, cobertores azuis... mas era ali que eu tinha passado toda a minha vida. Não me preocupei em trocar minha calça jeans e minha camiseta azul escura por um pijama. Apenas lancei os meus tênis pelo quarto e coloquei os óculos sobre o criado-mudo, para então me jogar na cama e pensar em como seria a maior decisão de toda a minha vida.
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