I Still Believe
7 Manto de escuridão
Notas iniciais
Floresta Encantada – Antes de tudo
David Nolan estava deitado com as costas viradas sobre uma enorme e nojenta poça de lama, enquanto tentava se rastejar para longe. A cabeça pesava e ele não conseguia entender o que estava se passando. Levantou devagar ambos olhos e encarou sua volta, na tentativa quase inútil de reconhecer o local onde estava preso.
O suor descia sua testa e pingava contra a camiseta branca. Ele tinha os braços feridos e o coração estava fora de ritmo, desesperado para achar uma saída. Encontrava-se enclausurado em uma cela com poucas higienes, onde se via apenas uma cama de palha no canto, uma vasilha de alumínio para as necessidades físicas e ratos perambulando pelo espaço, além da poça em que fazia de colchão.
Tomou impulso para se atirar contras as grades que o mantinham ali, batendo com força contra o metal enferrujado e gélido. Soltou um forte grito e esperou que fosse atendido, mas ninguém surgiu para resgatá-lo no enorme corredor que se estendia à frente.
Sentou de novo no chão, mas dessa vez bem longe da sujeira. Passou a mão nos cabelos embaraçados e tentou concentrar os pensamentos a fim de entender como tinha sido capturado. Lembrava-se de estar envolvido em uma batalha e ouvir o grito de Branca de Neve ao longe, pedindo que ele recuasse. Mas a cabeça estava uma confusão e ele tinha medo da mesma explodir com tanto esforço.
Um vulto rápido surgiu diante de seus olhos. A silhueta feminina parou frente a frente das grades, o único objeto os separando. Ele precisou se erguer outra vez, curioso com a nova alma o fazendo companhia.
— Quem é você? – David sentiu a voz áspera.
A mulher sorria debochadamente.
— Uma amiga. Vim aqui ajudá-lo.
— Qual o seu nome? – ele insistiu.
— Você não cansa? – ela bufou. – Aceite minha ajuda para sair daqui e não precisamos mais falar sobre isso. O que acha?
Ele tentou decifrar as formas dela. Ela estava estranhamente embaçada e pouco dava para entender os traços de seu rosto. Mas ele sabia que ela era bonita e tinha olhos redondos cor de avelã. A desconhecida usava um vestido cheio de recortes, deixando à mostra uma das pernas, mas era impossível visualizar todo resto.
— E o que eu vou precisar fazer em troca?
— Não sei… – ela fingiu pensar, mesmo que já tivesse em mente o que desejava. – Talvez um fio de cabelo?
Ele recuou um pouco, pensando a respeito. Por que a mulher queria um fio do seu cabelo? Se não fosse tão importante quanto sua liberdade, ela simplesmente não teria feito a proposta. Pensando a respeito, isso significava que ela planejava algo doentio.
— Como posso confiar em você?
— Olhe a sua volta! Eu sou a única que veio resgatá-lo – ela abriu os braços. – Mas precisamos fazer um acordo.
Ele riu sem humor nenhum, passando a mão pelos cabelos dourados. Soltou um suspiro pesado e pensou a respeito.
— A única pessoa que eu conheço que gosta de fazer tratos se chama Rumplestiltskin.
— Rumple! – ela riu, animada. – Querido, Rumple. Bom, ele não veio lhe ajudar. Não é? Resta aceitar a minha proposta.
Ele apertou as barras de metal, ganhando tempo para analisar a situação.
— Por que você quer um fio de cabelo?
— Digamos que pequenas coisas trazem grandes resultados – ela falou alto, dando efeito à sua fala.
— E como você pretende fazer isso? Aqui deve ser uma fortaleza. Devem ter guardas ou algo assim – ele parecia preocupando e tratou de olhar sobre os ombros dela.
— Por isso eu trouxe isso – ela levantou um colar com duas pérolas penduradas.
David ficou encantado com o brilho do objeto, mas ainda não fazia ideia do que aquilo significava.
— O que é isso?
— Eu achava que o Príncipe Encantado era mais esperto – a mulher bufou, dando meia volta.
Ela levantou a mão na qual segurava o colar e estourou as pérolas com um simples aperto. Uma fumaça esbranquiçada saiu dos destroços do objeto e preencheu o ar. No fundo, dava para ver os olhos da desconhecida brilhando de admiração.
David tossiu freneticamente, sentindo-se enjoado. Piscou algumas vezes e fitou duas novas figuras se aproximando. Eram homens encapuzados, mas, assim como a mulher, era impossível distinguir suas características físicas.
— Quem são?
— Ainda não são ninguém, mas podem se tornar – ela se ajeitou entre as criaturas. – Para eles ganharem resistência e habilidades, preciso tirar o poder de alguém e passar para os seus lindos corpinhos. Então: quem vamos matar?
Ele arregalou os olhos, claramente assustado com as informações. Mordiscou os lábios e negou com a cabeça no mesmo instante. Afastou-se das grades, tentando evitar que fosse tocado.
— Eu não vou matar ninguém.
— Se você não escolher quem vai morrer, então serei obrigada a decidir sozinha. E vou fazer isso aleatoriamente, Encantado. Posso escolher qualquer pessoa, incluindo aquelas que você gosta – ela se adiantou contra as grades, tomando impulso para continuar a falar. – Como vai ser?
— Eu não vou matar ninguém! – ele falou, gesticulando raivosamente com as mãos.
— Mas você só vai escolher – a desconhecida falou naturalmente.
— Não!
Ele a viu se irritar, caminhando para perto dos encapuzados. A mulher pronunciou algumas palavras muito rápido, impossibilitando-o de entender o que dizia. Assim que ela terminou, ele percebeu que as pupilas dela tinham ganhado um tom esbranquiçado, assemelhando-se com olhos de cego.
Ele tornou a bater contra o metal gélido, resmungando alto. Definitivamente não queria que alguém sofresse por causa dele – muito menos morresse. Ele era o Príncipe Encantado e devia protegê-los, não o contrário.
Segundos mais tarde, os olhos da mulher voltaram a cor natural. Ela sorriu de canto a canto, parecendo muito satisfeita com o que tinha acabado de fazer.
— Quem você matou? Quem, sua bruxa? – David gritou, irritado.
— Não interessa – ela deu de ombros, afastando-se um pouco. – Meninos?
As criaturas se aproximaram das grades e, com uma rápida e única pancada, quebrou uma parte da cela. David recuou, mas não conseguiu deixar de ser arrastado por um deles. Eles eram fortes, e odiava imaginar quem tinha sido morto para dar vida àquilo.
Algo passou pela sua mente: por que a mulher o estava libertando? Ficou furioso por fazer parte de um plano maligno do qual ele sequer sabia das coordenadas.
Antes que as criaturas pudessem movê-lo novamente, ele sacou uma das espadas presas no coldre da mulher, empurrando-a para trás. Os encapuzados grunhiram alto, machucando os seus ouvidos. Ele desviou de um ataque e, com precisão, acertou-o bem na face.
Pensou que sangue voaria, mas, no lugar disso, uma outra fumaça saiu do corpo dele. A criatura caiu no chão, debatendo-se. Ele a viu se dissolver diante de seus olhos.
Queria ficar para ver o resto, mas a mulher se preparava para atacá-lo. Segurou firmemente a espada e passou correndo entre eles, tentando achar uma saída mais rápida daquele lugar e encontrar Branca de Neve, certificando-se que ela ainda estava viva.
ATUALMENTE
Emma segurava o curativo contra a testa de Ruby e pressionava com atenção a fim de não deixá-lo escorregar de seus dedos, enquanto assistia Seamus Allen prendê-lo com seus devidos cuidados.
Eles tinham retornado para o centro da cidade e aproveitado o dia não produtivo para recuperar as forças no hospital. Emma continuava apavorada com o que tinha acontecido, a cabeça trabalhando incessantemente para encontrar uma resposta decente para o fenômeno de uma hora atrás.
Obviamente ela tinha enfrentado diversos tipos de seres diferentes em muitos reinos, mas nenhum se assemelhava à criatura de mais cedo. Ele não parecia real, aparentando que tinha sido projetado para a tarefa em especial. Ainda não sabia o objetivo da entidade, mas por conta do ataque, sabia que ele não tinha surgido apenas para cumprimentá-los.
— Prontinho – Seamus terminou o seu trabalho. – Sente-se melhor?
Ruby abriu uma careta em resposta.
— Nem um pouco. Ma pelo menos não estou sangrando. Obrigada.
David Nolan estava de frente a poltrona na qual a menina de cabelos negros estava sentada. Ele carregava uma expressão preocupada na face, claramente em tensão com o estado da amiga.
— Então vocês foram atacadas – o pai parecia não entender. – E depois o Sr. Gold apareceu.
— Suspeito – Seamus soltou um suspiro, sentando-se ao lado. – Eu nunca gostei daquele cara.
— Ele não está envolvido nisso – Emma cruzou os braços. – Porque a criatura apareceu depois e eu precisei defendê-lo também. O que estamos lidando é muito diferente das loucuras dele.
— Quem me atacou desapareceu? – Ruby estava debatendo mentalmente sobre a informação de minutos atrás. – Teleportou-se ou algo assim?
Emma sentia uma forte dor se alastrando pela sua cabeça. Colocou uma mão na testa e pensou no que poderia dizer para finalmente convencê-los que eles lidavam com algo muito pior e diferente.
— Não – cortou, segundos mais tarde. Ela se depositou em uma poltrona. – Ele se dissolveu nos meus braços.
— Isso não faz o mínimo de sentido – Seamus interveio. – Como algo simplesmente se dissolve? Algo vivo?
— Talvez ele não estivesse vivo – David piscou algumas vezes, parecendo se decidir se falava ou não. Ele temia os próprios pensamentos. – Eu já enfrentei algo parecido antes. Se procurarmos a informações certas, pode ser que a criatura seja a mesma. Ou uma forma igual.
— Como assim? – Emma sentiu-se esperançosa. Talvez não estivesse completamente louca.
— Antes de Storybrooke, entrei em uma batalha em um reino vizinho do meu. A Floresta Encantada, como o nome já diz, traz diversas magias diferentes. Eu perdi a batalha e, em uma dessas magias, uma bruxa apareceu dizendo que me ajudaria – ele colocou as mãos sobre a cintura, deixando o distintivo de xerife reluzindo acima do cinto. – Mas eu não sabia o preço. Toda magia tem um. Ela invocou duas criaturas encapuzadas sem formas e pediu para eu escolher quem morreria para dar vida a elas. Obviamente eu não o fiz, mas ela escolheu no meu lugar.
— Isso é horrível – Ruby abraçou a si mesma.
— Eu tentei fugir deles, e, assim que eu acertei um, ele se dissolveu – o pai estava muito sério. – Morreu ou algo assim.
— Se for isso que estamos enfrentando, significa que alguém morreu para dar forma a criatura – Seamus concluiu.
— E quem o invocou não vai parar tão cedo – Emma ficou ainda mais preocupada.
— Gold disse que alguém roubo algo da loja dele – Ruby lembrou. – Você sabe algo sobre isso?
— Sim! – o pai se animou com a informação. – Precisava de uma pérola para invocá-lo. Talvez se rastrearmos os destroços, podemos cair de cara com o culpado.
Emma se levantou, sentindo a pressão diminuindo.
— É muito para mim.
— Não se preocupe. Nós podemos fazer isso – Seamus veio na ajuda, sorrindo carinhosamente.
Ela o encarou e quis acreditar naquilo, mas sabia que ninguém, além da própria Salvadora, podia resolver os problemas malignos da cidade. Ninguém daquele grupo tinha magia, exceto ela e Ruby, mas esta apenas conseguia se transformar em lobo e obviamente um animal, por mais feroz que fosse, não conseguiria parar magia negra.
Eles precisavam dela. Novamente. Mas ela sabia o preço que sua ajuda podia causar, principalmente depois de se sacrificar tanto. Ela não queria se envolver, mas podia ser algo egoísta de se fazer.
— Eu preciso ver Regina – ela admitiu.
Na verdade ela precisava de um tempo sozinha para pensar. Assistiu os amigos assentindo, porque eles também sabiam que não podiam cobrar muito da Salvadora, sendo que ela tinha acabado de voltar à cidade.
Ela deu meia volta no pequeno quarto e saiu apressada. Assistiu as árvores próximas do hospital balançarem rapidamente contra o vento, causando um leve arrepio na sua nuca. O céu cada vez ficava mais cinza e anunciava que uma tempestade estava prestes a cair na cabeça deles.
Podia voltar andando e encontrar a esposa na prefeitura, porque o lugar ficava próximo dali, mas pegou um táxi. Ela estava tão cansada mental e fisicamente que esquecia de mover os músculos para caminhar.
Chegou em poucos minutos no seu destino, sentindo um calafrio ainda maior. O lugar parecia abandonado, o vento cortando todos os polos de ar e deixando uma comoção de poeira para trás. Aproximou-se da porta a tempo de ouvir um grito abafado. Tentou abri-la, mas percebeu que a mesma estava trancada.
Emma girou os calcanhares e correu para a porta dos fundos, a fim de não ser percebida na hora de entrar. Ela sentia o corpo formigar e um forte desespero dominou sua mente. Ela bateu com força contra a maçaneta, mas esta continuava intacta.
Fechou os punhos e deixou a magia escorrer de suas veias, concentrando-se na fechadura. No segundo seguinte, a porta estava aberta, convidando-a para entrar. Ela pulou para dentro e olhou aos arredores, sem encontrar ninguém. Continuou a sua jornada atrás do grito até ouvi-lo de novo.
Regina.
Saiu desenfreada, agora sem se importar de ser vista ou não. Chegou no escritório e encontrou Regina atirada no chão, um corte descendo a cabeça dela e manchando o chão com o sangue.
Um bolo se formou na sua garganta e ela se apressou para agachar ao lado de mulher, tomando-a nos braços.
— Regina? – o choro a consumiu. Ela a chacoalhou levemente. – Regina, por favor, me responda.
Mas a mulher estava desacordada. Pela pulsação, sabia que ela estava viva. Emma girou a cabeça ao ouvir passos, encontrando outra criatura encapuzada. Ela travou no mesmo ponto e pensou rapidamente no que deveria fazer; ela não queria soltar sua esposa.
Assim que a criatura avançou na sua direção, entendeu que não podia ficar parada. Uma névoa brilhante surgiu em uma de suas mãos e ela não perdeu tempo ao atirar no inimigo. Assistiu a entidade se debater, queimando-se inteira.
Queimando.
Assustou-se, porque sequer tinha lançado fogo. Ela se aproximou da criatura e acompanhou a não-vida esvaecer de seu corpo. O coração palpitava fora de controle e ela sentiu vontade de vomitar.
Aproximou-se novamente da esposa, percebendo que a mulher estava acordando da batida. Ela deixou o restante das lágrimas escorrerem pela face, preocupada demais para conseguir falar. Logo em seguida já estava soluçando.
— Regina? – chamou de novo.
Regina abriu totalmente os olhos, encarou-a por alguns segundos e girou a cabeça a procura de alguma coisa. Então ela viu uma das capas sem dono atirada no chão, relaxando um pouco mais.
A prefeita encolheu-se no colo da outra.
— O que era aquilo?
— Não se preocupe, ok? Eu estou aqui – Emma prometeu. – Eu vou ficar com você.
— Tinha duas. Cadê a outra? – Regina estava muito aflita.
— E-Eu não sei – Emma soluçou. – Mas eu vou proteger você.
Era engraçado dizer que protegeria a Rainha Má, porque a própria sabia se defender sozinha. No entanto, Regina estava com a testa ferida e completamente confusa com o rumo da situação.
Mas, naquele instante, sabia que não podia deixá-la de novo. Elas precisavam ficar juntas, porque apenas assim conseguiriam derrotar contra o inimigo em comum. E, dentro de seu peito, entendia a importância de fortalecer o amor delas.
Afinal, amor verdadeiro era a maior das magias.
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