I Still Believe
6 Busca pelo desconhecido
Notas iniciais
ATUALIDADE
Emma desceu uma mão para pegar a xícara de chocolate quente lotado de canela e, com a livre, aproveitou para passar a página do jornal. Os olhos correram pelas notícias e ela não encontrou nada interessante, mas precisava folheá-lo um pouco mais. Tinha pegado o jornal na frente da porta da casa de seus pais, onde estava vivendo há dois dias, porque sabia que precisa certificar a data.
Era difícil ainda acreditar no que estava acontecendo. Os pais tinham conseguindo convencê-la a conversar com Dr. Archibald Hopper, o terapeuta da cidade, porque era evidente que ela precisava de uma ajuda psicológica – principalmente após os últimos incidentes.
Nos últimos dias tinha saído com o filho e ouvido a respeito de sua vida. Ele gostava tanto de chocolate quente com canela quanto ela, amava videogames, mas preferia ficar nos livros. Era tão perspectivo e agitado, desafiando-se a encontrar os caminhos certos dentro daquela jornada. O seu sorvete preferido era baunilha e ele também se consultou várias vezes com Archie quando teve idade suficiente para entender o que tinha acontecido com ela.
Nunca tinha se imaginado naquela posição, dividindo a atenção de Henry com a esposa e tendo de viver novamente na casa dos pais. Outrossim jamais tinha se imaginado sendo o centro das atenções outra vez na cidade e tendo de lidar com o fato de seu menininho ter sofrido pela sua não-morte.
Dentro de seu peito, sabia que não podia se perdoar por isso, por mais que entendesse que não era sua culpa. Ela se ocupava em manter esse pensamento todos os dias, mas algo dentro de si a fazia se culpar. Queria compensar o tempo perdido, mas ainda era difícil demais aceitar.
Sentia uma saudade absurda de Regina e queria tê-la de novo nos braços. Queria senti-la por inteira, invadir o seu corpo com os dedos e deliciar do prazer que o contato causava, mas ainda era cedo demais para isso – por mais que ansiava.
Colocou a xícara outrora cheia sobre a pia e guardou cuidadosamente o jornal na pilha em cima de uma mesinha próxima à entrada. Pegou a jaqueta vermelha pendurada contra o suporte da porta e seguiu apressada para a rua.
Tinha prometido ao pai que o visitaria na delegacia e o ajudaria com os assuntos pendentes, porque ela ainda se lembrava perfeitamente como tinha de fazer. Mas ela estava enrolando para aparecer no estabelecimento, porque se sentia abalada demais em surgir ao local sem de fato pertencer ali.
Ela sabia que o emprego podia ser dado de volta, porém ela também entendia que não daria conta naquele momento. Sem contar que o pai fazia um excelente trabalho como xerife e Ruby, a Chapeuzinho Vermelho, era seu braço direito.
Ninguém precisava dela.
No entanto, ali estava ela, adiantando-se para a delegacia. Aproveitou para dar uma olhada nos outros cantos da cidade, relembrando-se dos seus momentos divertidos naquelas ruas. Tinha ido a pé, porque, segundo Regina, o seu fusquinha ainda precisava de uns reparos. Passou pela prefeitura tentada a entrar, mas seguiu sem desviar o seu caminho.
A delegacia continuava do mesmo jeito, exceto pela pintura do lado de fora. O pai usava uma camionete negra como veículo principal de xerife, o qual estava parado perfeitamente em uma das vagas do estacionamento.
Entrou na delegacia esboçando um sorrisinho contente por relembrar tantas memórias ainda quentes dentro dela. Mas o sorriso se desmanchou assim que seus olhos pousaram em Seamus Allen ajeitando uns papéis na mesa.
— O que ele faz aqui? – Emma perguntou ao pai, que tinha se aproximado dela. Ela mantinha uma expressão zangada no rosto.
— Ele também é meu ajudante, Emma – David contou e apressou em tirá-la do ambiente antes que uma briga se iniciasse.
O homem levou sua filha para uma pequena salinha ao lado, passando a mão nos cabelos dourados. Ele soltou um suspiro denso pela boca, parecendo tomar impulso para dizer as palavras certas que não fossem machucar.
— Ele mudou, Emma. Se redimiu pelos erros e a Regina deu o seu perdão – ele tentou explicar. – Há nove anos ele está me ajudando aqui, tanto quanto a Ruby, e eu não posso simplesmente mandá-lo embora sendo que ele faz o seu trabalho corretamente.
Emma hesitou, porque odiava o sujeito com todas suas forças. Ele já tinha sido um idiota com Regina e, claramente, não o perdoava. Ela jamais o perdoaria, talvez, porque não aceitava que ele continuasse perambulando pelos lugares e tomando outras mulheres como vítimas.
Mas ela precisava entender que dez anos tinham se passado e muita coisa tinha mudado. O pai era um homem bom e, com certeza, não confiaria em Seamus caso ele não demonstrasse ser digno disso.
Ela precisava deixar as antigas raivas para trás e aceitar aquela realidade.
— Certo – assentiu levemente.
O pai abriu um sorriso vitorioso.
— Vamos. Precisamos resolver um caso.
Eles saíram do cômodo e direcionaram-se para a sala principal da delegacia, onde uma pequena cela enfeitava um dos lados. A enorme e única janela estava aberta, abrindo brecha para os raios solares invadirem o espaço. Tudo estava muito organizado e decorado, assim como o tom pastel das paredes e quadros expostos nas mesmas.
— Emma – Seamus teve a face iluminada ao vê-la.
Emma se manteve no mesmo ponto, sem saber o que responder. Sem dizer nada, o antigo conhecido estendeu uma das mãos em um cumprimento amigável, e ela a apertou em seguida. Precisava começar suas relações com o pé direito se quisesse manter as dores de cabeça afastadas.
— Seamus – ela falou, tímida.
— Eu fico imensamente feliz que você tenha retornado. De verdade. Ainda não tive a oportunidade de me desculpar pessoalmente com você, mas eu só tenho a agradecer pelo resto – ele parecia sincero. – Você representa muito para essa cidade. Você é especial, Emma.
— Muitos me dizem isso – ela brincou, olhando de relance para o pai, o qual incentivava com a cabeça. – Como vai?
— Ah, eu vou bem. Estou noivo – ele estendeu a mão a fim de mostrar a aliança reluzindo contra a luz. – Com a Kathryn.
Ela ficou realmente surpresa com a notícia. Kathryn tinha sido casada com o seu pai antes da primeira maldição ser quebrada. E, embora eles sequer soubessem do passado naquele período, também tinham sido noivos na Floresta Encantada.
— Parabéns, Seamus! – ela desejou.
— Estamos juntos há dois anos e eu acho que está na hora de juntar a malinha e casar. Me diz você! – ele falou com as bochechas coradas. Abriu um sorrisinho de canto. – Você e Regina estão bem?
— Sim – mentiu de prontidão, como se a palavra tivesse brotado de seus lábios. – Só estou me dando um tempo para encaixar as coisas.
— Compreendo. Bom, desculpa outra vez. Você me inspira bastante – ele piscou. – Mas precisamos seguir trabalho. Certo, xerife?
David, com as mãos na cintura e observando a situação, praticamente acordou e assentiu em seguida.
— Claro, claro. Precisamos encontrar alguém – ele se colocou em frente a sua mesa, abriu uma gavetinha e tirou um envelope amarelado de dentro. – Aqui estão algumas informações.
— Espera. Você está me recrutando para um caso? – Emma achou curioso.
— Bom, você continua sendo a Salvadora – Seamus admitiu.
— E é ótima para encontrar pessoas – o pai respondeu. – Também sei que isso pode ajudá-la a distrair um pouco e voltar à rotina.
— Rotina antiga – ela murmurou, mas pegou o envelope para ler as informações contidas.
De acordo com as anotações, Rainha Elsa de Arendelle tinha desaparecido. A última vez que a mulher tinha sido vista acontecera no seu próprio castelo. Princesa Anna, sua irmã, tinha encontrado o quarto vazio pela manhã e entrado em pedido socorro para todos os reinos, incluindo Storybrooke.
— Parece que a história foi invertida – Emma observou, percebendo que, na última vez, a Princesa Anna que tinha desaparecido. – Como ela desapareceu? Digo, ela tem poderes e sempre foi imbatível. Inclusive para mim!
— É um mistério – o pai suspirou. – Mas eu prometi dar buscas aqui em Storybrooke. Todos precisam fazer sua parte. Assim vamos encontrá-la o mais rápido.
— Storybrooke pode parecer pequena, mas é uma cidade grande – Seamus veio de apoio. – E recrutamos quem sabe melhor fazer esse trabalho. Não vamos perder tempo.
— Temos de esperar a Ruby – o pai alertou.
Como dito, a mulher de longos cabelos negros adentrou a delegacia com ambas mãos ocupadas por copos de cafés. Assim que elas se entreolharam, a Chapeuzinho ficou eufórica e precisou colocar os objetos em cima da mesa para se atirar em seus braços.
Emma retribuiu o contato, tomando cuidado para não cair. Ela estava morrendo de saudades, e esses poucos dias de volta à cidade não tinha dado tempo de rever todo mundo – Sem contar seus demônios soltos precisando ser presos.
— Eu não morro mais! – Ruby riu, afastando-se para enxergar a amiga melhor. – Como você está? Você continua tão linda! Eu agradeci tanto quando soube da sua volta. Eu e vovó estamos muito felizes.
— Todos nós estamos – Seamus sorria abertamente.
— Estou levando – Emma sorriu também. – Estive com saudades. Você está tão… Diferente. Linda, mas diferente.
— Eu me casei com a Dorothy – Ruby riu outra vez. – E eu precisei abandonar minhas roupas curtas e mechas rosas, porque eu quis um novo estilo.
— Parece que todos estão para se casar – ela brincou.
Diferente da Chapeuzinho Vermelho anterior, esta estava bastante comportada no seu vestidinho azulado e meia-calça preta. Os cabelos, tão longos como da última vez, estavam amarrados em uma trança, mas não deixavam de cair em volume sobre os ombros dela.
— Dorothy voltou de Oz? – Emma ficou curiosa.
— Nós voltamos, mas isso faz menos de um ano. Queríamos ficar por aqui – Ruby parecia animada demais com as notícias.
— Podemos colocar os assuntos em dia depois? Agora precisamos encontrar uma rainha! – David as cortou, mas o tom era gentil.
Emma concordou com a cabeça e viu a amiga piscar para ela.
— Sim, claro – ela garantiu, pegando-a pelo braço. – Podemos começar pela floresta.
— Acho uma boa ideia – Seamus concordou e saiu apressado até a saída, abrindo portas para os outros três passarem.
Os quatro entraram na camionete de David Nolan, tendo o próprio como motorista. Emma se posicionou no banco de motorista, enquanto os outros foram atrás. A rádio estava de coro, sendo coberta pela conversa profissional deles.
Conversaram um pouco sobre o caso e seguiram apressados para a floresta de Storybrooke. O tempo estava mais ameno, facilitando a vida deles. Emma se mantinha quietinha, apenas ouvindo o que eles tinham para dizer e concordando nos pontos importantes.
Ela queria voltar aos eixos, mas a verdade era dolorosa: ela sentia medo de se sentir segura e alguém tirar isso dela. Ela não suportaria essa dor nem que a pagassem.
Chegaram na floresta e saíram do carro com cuidado. O pai estacionou o veículo perto de uma enorme árvore de folhagem vermelha, aproveitando para dar uma boa olhada no perímetro e certificar-se que nenhum animal estava próximo o suficiente para causar danos no carro.
— Podemos nos separar – Ruby pensou.
— Eu não acho uma boa ideia – Emma fez uma careta.
Ela sabia exatamente o que acontecia quando um grupo de pessoas se separavam e não queria correr nenhum risco.
— Separar vai facilitar nosso trabalho – o pai concordou.
— Eu vou com o xerife e vocês podem ir juntas – Seamus sugeriu, tomando em mãos uma lanterna.
Embora estivesse de dia, em algumas partes da floresta, por conta do topo das árvores, a luz solar era bloqueada pelos troncos e folhagem densa. Ela se amaldiçoou por ter esquecido um objeto tão importante, mas sequer sabia que estaria ali com eles.
Contra sua vontade, precisou aceitar o fato da separação. Seguiu por outro lado com Ruby na sua cola, enquanto os homens do grupo se distanciaram na direção oposta.
Por sorte, a amiga também tinha uma lanterna, a qual ajudou quando elas adentraram mais afundo a floresta. Caminhavam lado a lado, temendo separar um centímetro. O frio as alcançou naquele ponto e elas estremeceram.
— Fico feliz por podermos fazer isso de novo – Ruby estava levemente rosada por conta do vento lhe roçando a face. – Relembra os bons tempos.
— Para mim, isso aconteceu há poucos dias – Emma falou em tom desanimado. – Mas eu estou feliz de voltar à ativa de novo. Principalmente trabalhando com você.
— O seu pai é um ótimo xerife, confesso, mas sinto saudades de você! – Ruby a abraçou pelos ombros, sorrindo. – Fazíamos ótimos trabalhos juntas e desvendemos muitas pistas.
Emma esboçou um sincero sorriso, lembrando-se dos momentos juntas. Sentia saudades daquilo, porém sabia que nada podia voltar a ser como antes. Ela estava decidida que precisava aceitar isso o mais rápido e voltar aos braços de Regina.
— Logo mais precisarei de um emprego. Meu pai vai precisar da minha magnífica ajuda – ela brincou, o tom levemente emocionado.
Elas ouviram passos desenfreados vindo detrás de algumas árvores. Ruby ligou a lanterna no mesmo instante e apontou-a no sentido do som, mas nada entrou no campo de visão delas.
Emma aquietou-se para ouvir melhor.
— Está próximo – ela sussurrou.
— Devíamos seguir – Chapeuzinho sugeriu.
Emma assentiu e seguiu a mulher, olhando quase todo o segundo para trás e temendo que estivessem sendo seguidas. Ela sentia algo estranho pairando no ar, assim como enormes olhos no topo do céu as encarando como presas fáceis. Ela não gostava do destino daquilo.
Elas chegaram em um ponto no qual nada podia ser ouvido, exceto o chacoalhar das folhas das árvores contra o vento, cujo único objetivo era agitá-las. Emma parou de andar e olhou para todas direções.
— Talvez tenha sido um animal – Emma a encarou.
— Talvez tenha… – Ruby tentou falar, mas uma luz esverdeada trombou com o corpo dela, jogando-a longe.
Emma a ouviu soltar um grito de dor. Levantou a cabeça atrás do culpado, mas não encontrou ninguém. Correu em sentido a amiga e ergueu devagar a cabeça dela, percebendo que esta tinha um corte feio lhe abrindo a testa.
— Você está bem? – perguntou, extremamente desesperada.
— O que… o que aconteceu? – Ruby estava tonta e tentava se levantar.
— E-Eu não sei – Emma se preocupou, ajudando-a suspender o corpo e ficar em pé novamente. – Eu acho que veio daquela direção – Ela apontou.
Ruby colocou a mão na testa e trouxe as pontas dos dedos para olhar o sangue fresco os manchando.
— Não acha melhor voltar?
— Alguém fez isso e eu vou descobrir quem! – Emma falou com confiança. – Fique atrás de mim.
Emma saiu andando em sentido o raio, fechando as mãos em punho. Estava amedrontada com o acontecido e não queria deixar aquilo passar em branco. Pisou com cuidado contra as folhas caídas no chão e rochas atrapalhando o caminho, mas sempre mantendo a atenção em todos os lados com medo de ser surpreendida.
Andaram por cerca de cinco minutos até trombarem sem querer no homem mais rico e perigoso da cidade, Sr. Gold, conhecido também como Senhor das Trevas. Como de costume, ele estava sob um terno negro e gravata azul, cabelos alcançando os ombros e um olhar ansioso perambulando todo o espaço.
— O que você está fazendo aqui? – Emma falou, impaciente. – Não é estranho a gente o encontrar sempre quando alguma coisa errada acontece? E sempre aqui, na floresta?
— Bem-vinda de volta, Emma — Rumplestiltskin saldou, sorrindo de lado.
Ruby apareceu entre eles, parecendo muito fatigada com a busca.
— Foi você?
— Por que vocês gostam de me acusar de tudo? — ele perguntou em tom baixo e calmo. — Eu estou aqui porque algo foi tirado de mim e eu pretendo recuperar.
— Do que você está falando? — Emma quis saber, a desconfiança aumentando dentro do peito.
— Alguém entrou na minha loja e roubou algo que me pertence — ele levou uma mão sobre o peito, tentando controlar o nervosismo. — Eu vim encurralá-lo aqui. Se não forem ajudar, gostaria que me dessem licença.
Ele fez menção de atravessar a passagem, mas a Salvadora se colocou na frente dele. Eles se entreolharam vigorosamente como há muito tempo não faziam.
— Talvez quem você procure seja a mesma pessoa que estamos procurando — ela disse, cautelosa. — Podemos trabalhar juntos.
— O que faz você acreditar que eu gostaria de trabalhar com alguém? — Sr. Gold desafiou.
Um vulto encapuzado surgiu entre as árvores. Antes que pudesse responder o sujeito afrontoso, ela projetou sua magia na frente dele, poupando-o de ser atingido por outro raio de luz verde.
— Isso — ela respondeu.
Ela correu atrás do responsável por aquilo e tropeçou algumas vezes em pedras pelo caminho. Assistia-o atravessar as árvores com facilidade, parecendo ter decorado todos os caminhos. Ela impulsionou o corpo para frente e tomou mais velocidade, erguendo uma mão para lançar sua magia nas costas do sujeito misterioso.
Errou o primeiro tiro, mas tornou a tentar. Dessa vez o acertou em cheio, vendo-o cair em um baque mudo contra o chão. Ela se apressou para imobilizá-lo no solo, conjurando amarras para prendê-lo no mesmo lugar.
— Como ousa? — ela gritou, virando-o para ver de quem se tratava.
O sujeito — ou a criatura — não tinha forma. No lugar de ter um rosto como todos os outros, a face era inteiramente negra, igualmente como uma sombra. Emma se assustou de imediato, tentando entender o que aquilo significava.
Antes que pudesse pronunciar as próximas palavras, a criatura dissolveu no contato, desaparecendo de vista. Ela arregalou os olhos, sem conseguir manter a calma diante do acontecimento.
Emma estava em choque.
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