Minha mãe me chama mais uma vez deixando claro o quão atrasada estou e acabo por arrumar as coisas rapidamente, além de colocar a primeira roupa que encontro. Um jeans que comprei em uma loja na parte trouxa da cidade onde vivo, uma camisa preta e um par de sapatos que vi os trouxas usando também, de uma marca chamada Converse.

– Charlotte! – minha mãe grita.

– Estou indo, estou indo. – reviro os olhos mesmo sem saber que ela não pode me ver, aliás é exatamente por esse motivo que o faço e desço as escadas levando meu malão com um feitiço para nossa sala. Minha mãe me encara da cabeça aos pés e sei que não gosta do que vê, as minhas roupas de trouxa, meus cabelos compridos presos em um rabo de cavalo alto um tanto torto.

– Por Merlin, Charlotte! Você precisa usar uma blusa tão transparente? – é meu pai quem entra na sala apressado e me dando o exato olhar de minha mãe. Olho para baixo e reparo que ele tem razão, é possível ver meu sutiã de renda preto através do tecido. Xingo mentalmente. Não tenho tempo de trocar agora, o trem parte a qualquer minuto.

– Coloco o uniforme assim que chegar no trem. – vou para a lareira, sem deixar que eles falem mais alguma coisa.

Saímos em um pub na frente de King Cross e nos apressamos para alcançar a plataforma 9 e ½ à tempo. Nossa despedida é curta, estou atrasada demais.

– Por favor, não se meta em encrencas. É o seu último ano, não seja expulsa agora, está bem? – diz minha mãe me abraçando uma última vez.

– Vou tentar – respondo sorrindo enquanto dou um beijo em meu pai e finalmente embarco. No último minuto, já que assim que coloquei os pés para dentro da locomotiva, ela solta um apito e parte.

Aceno para meus pais e começo a andar pelo trem em busca de Lily. A encontro um tempo depois, com um pouco de dificuldade já que nem todos os alunos se ajeitaram em suas cabines e ficaram nos corredores conversando.

– Pensei que a monitora chefe estaria andando pelo trem e colocando tudo em ordem – digo me jogando nos acentos na frente dela e sorrindo. Não temos muitas novidades para contar uma a outra, passamos boa parte das férias juntas e fora isso, nos falamos praticamente todos os dias.

– Eu deveria mesmo. – ela responde, virando-se para me olhar e retribuindo meu sorriso.

– Está tudo bem? Você está com um daqueles olhares.

– Que olhares?

– Aqueles que você destina apenas ao Potter.

Lily bufa e me conta seu encontro com ele mais cedo.

– Por Merlin, vocês deviam resolver todos seus problemas em um quarto de uma vez! – respondo rindo, enquanto ela me olha furiosa. – Estou falando sério, há um grande problema de tensão sexual aqui.

– Será que você vai me deixar em paz algum dia?

– Nunca. – abro um grande sorriso e ela não resiste e sorri de volta.

– Eu realmente preciso dar uma olhada no trem.

– Eu sei. Prometo não perder nossa cabine. – ela sai, dando um último sorriso e me deixa sozinha.

Observo a paisagem pela janela e penso em ir procurar os marotos, como os meninos chamam a si mesmos, mas desisto. Nos veremos na escola. Em algum momento acabo cochilando com o balanço do trem e acordo quando ouço a porta da cabine abrindo e imagino que seja Lily voltando de sua vistoria no trem. Mas antes que eu possa abrir os olhos, sinto pularem em cima de mim e quase morro esmagada.

– James Potter! Se você não sair de cima nesse exato momento eu juro que lanço uma maldição imperdoável sem nem pensar duas vezes! – grito enquanto sou mais esmagada quando Sirius resolve participar da brincadeira. Ficamos os três embolados por um tempo, quando eles finalmente sentam ao meu lado rindo feito os dois idiotas que são.

– Remus!, digo animada e levanto para abraçar e beijar as bochechas dele.

– Por que apenas Aluado recebe beijos e abraços? – pergunta Sirius apoiando os pés no banco da frente exatamente como eu fiz quando encontrei Lily.

– Porque ele não é um idiota feito vocês dois. – digo sorrindo e um tanto aliviada por notar que Sirius parece ter esquecido nossa briga.

– Aonde está a Evans? – James pergunta olhando ao redor, como se Lily fosse surgir de algum buraco naquela cabine a qualquer momento.

– Se reuniu com os outros monitores, provavelmente deve estar andando pelo trem ou seja lá que os monitores fazem durante a viagem.

Antes que James possa fazer outra pergunta, Sirius se levanta.

– Foi bom te ver, Charlie. Mas tem uma garota do sexto ano que estou muito interessado em encontrar. E ela tem amigas que estão esperando vocês dois também. – ele fala olhando para Remus e James com seu famoso sorriso torto que faz quase todas as garotas de Hogwarts e alguns garotos também se derreterem.

Eles se levantam, James dá um beijo no topo da minha cabeça para me irritar e eu respondo com um soco em seu braço, enquanto Remus sorri dando de ombros. Sirius para na porta da cabine e me olha uma última vez antes de sair.

– Desde quando você tem peitos, Charlie? – ele pergunta me encarando.

– Do que você está falando? – Sirius olha para minha blusa transparente e dá um sorriso malicioso, enquanto eu fico sem graça. Não estou acostumada a receber nenhum desses olhares vindo dele.

– Almofadinhas, qual o seu problema? É a Charlie. Nós não olhamos para os peitos dela, ela é um de nós – James diz dando um tapa na cabeça de Sirius, me deixando ainda mais sem graça.

– E ela não é um cara? Sempre pareceu um. – pergunta uma voz fina, Peter. Não consigo disfarçar a cara de nojo quando ele aparece por trás de Remus e James.

– Só porque uma pessoa chuta sua bunda, Pettigrew, não significa que ela é um cara. Acho que até uma criança poderia fazer isso. – respondo mostrando o dedo do meio para ele. Nós não nos damos bem desde que nos conhecemos.

– As meninas já estão perguntando por vocês – Peter me ignora e se vira para os amigos, reviro meus olhos enquanto Remus e James parecem praticamente sair correndo. Sirius fica por alguns segundos me encarando.

– Você deveria trocar de roupa. – ele fala, me olhando novamente.

– Você é meu pai agora? – pergunto de maneira um tanto irritada.

– Os caras vão ficar olhando pros seus peitos.

– Sorte que apenas poucos já viram realmente, então… – fico vermelha ao me dar conta o que falei, aquilo saiu completamente diferente do que eu tinha imaginado. Ao invés de parecer que eu não saía por aí mostrando os peitos, pareceu o oposto. A reação de Sirius me surpreende, ao invés de rir, ele apenas me encara sério.

– Você…quem?

– Você quer mesmo conversar sobre isso? – cruzo meus braços um tanto embaraçada enquanto ele faz que sim com a cabeça. – Eu não fico perguntando sobre cada menina que você sai, Sirius.

– Com quem você saiu? – ele pergunta novamente, me ignorando.

– Não te interessa, ok? Só porque você nunca se deu conta que eu sou uma menina, não significa que outros não tenham se interessado por mim. Nunca conversei sobre minha vida amorosa com vocês e não vou começar a fazer isso agora. – o assunto está ficando um tanto desconfortável, especialmente porque eu converso com Remus sobre os garotos que saí, apenas não faço isso com Sirius e James, o que é estranho, desde que Remus e eu já nos beijamos algumas vezes durante o quinto ano. Mas as coisas pararam por ali, já que ambos concordamos que somos melhores como amigos do que qualquer outra coisa.

– Você está namorando alguém?

– Por Merlin! Você acha que se eu estivesse em um relacionamento sério, vocês não saberiam? Podemos por favor, deixar esse assunto para lá?

Antes que Sirius possa me responder, ouço uma voz feminina gritando seu nome e ele se vira, voltando a me encarar em seguida.

– Vá. Estão te esperando. – falo me afundando no assento e observo Sirius se afastar para falar com as meninas, mas voltando para me olhar mais uma vez.

– Eu não estou namorando ninguém e nem cheguei a namorar. Foram alguns encontros, com apenas alguns garotos. Apenas isso.

Minha resposta parece agradar e ele vai embora. Ou apenas foi porque a voz da menina foi mais alta e urgente a ponto de parecer uma gata no cio. Olho ao meu redor, notando que estou completamente sozinha e não gosto disso, especialmente por causa da estranha conversa que acabei de ter com Sirius.