– Charlotte, acorde. Você precisa terminar de arrumar seu malão e ainda precisamos sair para King Cross, A Rede Flu com certeza estará congestionada e eu não acho que você esteja preparada para aparatrar com tanta coisa ainda… – a voz de minha mãe foi abafada depois que eu coloquei meu travesseiro no rosto. Eu só quero poder dormir mais um pouco. – Estamos esperando apenas você. Temos uma hora para sair de casa e nem um minuto a mais.

Respiro fundo quando ela me deixa sozinha novamente. Estou prestes a começar o sétimo ano em Hogwarts…meu último ano e ainda não sei se isso é bom ou ruim. Por um lado, eu amo a escola e todas as coisas que ela proporciona, por outro, mal espero para começar a vida sem todas as regras que a cercam, quer dizer, não podemos sequer aparatrar nos domínios do castelo. Qual o sentido disso?

Sento na cama, mas depois mudo de ideia e volto a deitar, lembrando dos últimos anos. Então minha mente vaga até esse mesmo dia, quando eu tinha 11 anos de idade e estava prestes a começar meu primeiro ano em Hogwarts. Praticamente posso ver meu eu mais novo, com os cabelos quase prateados cortados de uma maneira que fazia com que eu parecesse um menino – culpa de um feitiço que um dos meus irmãos mais velhos resolveu testar em mim -, praticamente pulando da cama de ansiedade, finalmente iria para Hogwarts. Naquele dia, eu quem acordei meus pais devido a ansiedade e não o contrário.

Mais tarde, quando finalmente entrei no Expresso de Hogwarts – quase no último minuto, desta vez culpa da minha irmã que havia ficado tempo demais no banheiro se arrumando – já não havia cabines livres e acabei parando em uma onde quatro meninos estavam. Estava sozinha à minha sorte porque nenhum dos meus irmãos queria minha companhia.

– Posso sentar com vocês? – perguntei timidamente, enquanto eles me olhavam como se eu fosse um animal curioso.

– Isso depende, você tem algo interessante a agregar à nossa cabine? Sapos de chocolate?

Lembro de encarar o garoto com raiva. Seus cabelos pretos estavam cortados um pouco mais curtos que os meus e ele usava óculos. Os outros ficaram apenas rindo. Já estava prestes a me virar quando notei o menor deles fuçando minha bolsa que eu havia depositado no chão para conseguir abrir a porta da cabine, provavelmente ele queria chamar atenção dos novos amigos.

– Tire as mãos daí! – falei furiosa enquanto o empurrava, fazendo-o cair em cima das nádegas e lhe dava um chute nas costelas. Os meninos começaram a rir, deixando-o extremamente vermelho e irritado. Hoje me arrependo um pouco daquela reação, mas eu era uma garota com três irmãos mais velhos homens e estava acostumada a me defender de formas extremas, o que pareceu ter agradado os outros meninos, já que ainda não haviam me expulsado daquela cabine.

– Qual o seu nome? – perguntou uma das vozes, mas não consegui ver qual dos quatro foi, estava ocupada demais tentando ajeitar a bolsa em meu ombro.

– Charlotte Price – eu respondi, empinando o nariz e ainda irritada.

– Você não se parece nenhum um pouco com sua irmã… – comentou um deles, os cabelos eram pretos e compridos e eu o encarei, sentindo meu rosto ficar quente porque sabia que aquilo não era um elogio.

– Ela sequer parece uma menina – disse o que eu havia chutado com raiva.

Lembro que empinei ainda mais o nariz, não queria mostrar que os comentários deles sobre não parecer minha irmã ou estar parecendo um menino haviam me atingido, especialmente porque eu odiava o fato de Amy e eu sermos as únicas meninas da família e ela sempre ter sido a mais bonita e inteligente, enquanto eu era a desajeitada e feia. Naquele momento então, com aquele cabelo…eu me sentia completamente inferior à Amy. Mais do que de costume, já que eu havia sido o acidente, enquanto ela a menina desejada. Ainda sou constantemente comparada à minha irmã.

– E quem são vocês? – perguntei com o melhor tom de desprezo que consegui fazer olhando para cada um daqueles rostos.

– James Potter – disse o garoto de óculos e arrogante que queria que eu pagasse para sentar com eles.

– Remus Lupin – respondeu o segundo, ele era extremamente magro e com uma péssima aparência, mas tinha um rosto bondoso. Até o momento não havia aberto a boca.

– Peter Pettigrew – era o baixinho e gordinho que eu havia chutado.

– Sirius Black – o dono do comentário sobre eu não parecer minha irmã. Agora fazia sentido porque ele sabia dela, nossas famílias constantemente se encontravam, mas eu quase nunca ia a esses encontros por ser nova demais. Amy, que na época estava no sexto ano ia sempre e ao que parece, Sirius também. Aquilo me deu uma pontinha de raiva, já que ambos estávamos com o uniforme do primeiro ano – totalmente pretos, sem qualquer insígnia de uma das casas — e consequentemente tínhamos a mesma idade.

Fiquei em silêncio por alguns segundos, sem saber o que fazer. Se me sentava ali, ou se virava as costas humilhada e buscava outra cabine. Por sorte, Remus, o que me pareceu o mais simpático de todos me salvou.

– Então, qual é a sua varinha? – ele perguntou, indicando para que eu sentasse ao seu lado, entre ele e Sirius, o que eu fiz antes que qualquer um deles reclamasse, o que não aconteceu, pelo contrário, eles foram mais gentis e conversaram comigo de maneira animada durante o resto da viagem.

Foi daquela maneira que fiz meus primeiros amigos em Hogwarts. Mais tarde, durante as separações das casas, conheci Lily Evans, que eventualmente se tornou minha melhor amiga e Severo Snape, o melhor amigo de infância dela. Nós duas fomos escolhidas para a Grinfinória, juntamente com os meninos enquanto Snape, como eu o chamava, era escolhido para a Sonserina.

Abraço meu travesseiro com mais força, imaginando como serão as coisas daqui para frente. Afinal, este será nosso último ano estudando juntos e nos vendo todos os dias, especialmente Lily, com quem divido o quarto e cada segredo. Sentirei falta de tudo, até mesmo das brigas, já que Lily e Snape não suportam James e Sirius, enquanto Sirius é meu melhor-amigo. Às vezes sinto como se ficasse em meio a um cabo de guerra entre os dois grupos, mas pelo menos ninguém nunca me pediu para tomar partido e sei que jamais pediriam. Diferente da minha família, meus amigos deixam que eu siga meu caminho, faça minhas próprias escolhas e confiam em mim.

Desde o primeiro dia no trem, Sirius e eu nos tornamos muito próximos. Foi ele quem me deu o apelido de Charlie, como todos na escola me chamam. Em casa, sou Charlotte. E por muitos tempo, nos encontrávamos durante as férias por conta de nossas famílias. Nos últimos anos, as coisas tem sido diferentes. Meus pais se afastaram dos Black, afirmando que eles têm se envolvido cada vez mais magia das trevas e apoiado um bruxo que está se tornando poderoso…seu nome é Voldemort. O próprio Sirius tem tido problema com sua família…recentemente foi desonrado e está vivendo com os Potter.

Fico algum tempo pensando em Sirius e como ele estará, já que este verão quase não nos falamos por conta de uma briga no fim do ano letivo. Ele afirmou que eu estava agindo igual sua família, quando afirmei que o tal Voldemort tinha razão, que nós bruxos não deveríamos viver escondidos dos trouxas. Eu não penso em machucar trouxas, como os Black, apenas acho que não há razão para nos escondermos. Nós vivemos perfeitamente com eles, por que eles não podem viver conosco?

Lembrar da briga com Sirius me deixa furiosa e eu levanto da cama pretendendo me arrumar e distrair a cabeça. Nos resolveremos no trem, pelo menos é o que espero.

Notas finais
O primeiro capítulo está postado, comentem o que acharam!! Tentaremos deixar atualizado toda a semana.