I See Dead People
6 Capítulo V - Miracle
Notas iniciais
Na hora da janta, meu pai deu as caras, por isso comi na sala de Rosaly, que anteriormente havia passado no meu quarto para perguntar se estou ''me adaptando'' bem.
Sentei na cadeira de Rosaly, e estava tomando um tipo de sopa, que era incrivelmente boa. Meu pai apenas permanecia parado olhando para mim sem saber como conversar comigo.
– Filha, eu...
– Não force uma conversa agradável, pois não vai rolar. Posso estar parecendo uma garota mimada com raivinha do pai, mas tenho meus motivos.
Ele sorriu de forma estranha.
– Você é tão madura, parece tanto com ela, por isso eu tive medo de contar a verdade sobre sua mãe.
– Ajudaria se você contasse o que sabe agora. – Dei de ombros.
– Ela... É uma pessoa complicada porque ela sabe tudo o que os outros pensam dela, isso fez dela uma pessoa solitária e triste. Não quero que você se torne assim, e ela não queria ter uma filha que a odiasse, assim como ela achava que eu tinha raiva dela. – Ele fez uma pausa. – Todos temos pensamentos ruins as vezes, não controlamos esse tipo de coisa, você provavelmente já ficou com raiva de mim e pensou o pior, do seu próprio pai. E em toda vida você escutar tudo o que os outros pensam é horrível, acaba com qualquer um que já é frágil emocionalmente.
– Frágil emocionalmente? Talvez ela fosse apenas incompreendida. – Assumi uma postura decidida. – Quero conhece-la.
– Gostaria te proporcionar essa experiencia, mas as coisas não são assim, não sei onde ela está.
– Você quer recuperar minha confiança? – Perguntei e ele fez que sim com a cabeça. – Então, por favor, me ajuda a acha-la, okay?
– Okay.
Sorri feliz, não sabia bem quanto tempo demoraria, mas algo dentro de mim dizia que eu conheceria minha mãe.
***
Acordei de madrugada, quatro horas da manhã, com o despertador do celular. Estava cansada, porém me levantei da cama antes de pensar em voltar a dormir. Coloquei um casaco por cima do meu pijama e sai do quarto na ponta dos pés. Pode parecer burrice por eu saber que algumas pessoas tem super audição, mas uma hora dessas pensariam que eu só estava indo ao banheiro.
Desci as escadas, e fui em direção a cozinha para sair pelos fundos, mas algo me surpreendeu.
– Onde você está indo? – Sussurrou uma voz que reconheci como a de Robert.
– Invocar um espirito, quer ajudar?
Ele me olhou receoso.
– Eu estava sem sono mesmo.
***
No mesmo local do treinamento, Rob estava sentado no sofá de uma pequena sala, esperando que eu chamasse o tal espirito. Ele suspirava de cinco em cinco segundos.
– Dá para parar com isso? Não consigo me concentrar!
– Isso está demorando. Agora estou ficando com sono.
Fechei os olhos, pensei do rosto da menina, pensei em sua voz, no cheiro do vomito e em seus cortes do pulsos.
Abri os olhos e a garota estava diante de mim com uma expressão confusa.
– V-você vai me ajudar?
– Sim. Mas não vou matar ninguém. – Sorri. – Qual é seu nome? Você falou algo sobre seus pais.
– Caralho, ela está aqui? – Rob arregalou os olhos procurando algum sinal, ignorei ele.
– Sou Cecilia. Eu preciso que você fale com minha mãe, ela acha que a culpa da minha morte foi dela, que ela não soube me criar – Ela começou a chorar enquanto falava. – Se eu pudesse, mudaria tudo isso por ela, ela foi a melhor mãe de todas.
Meus olhos lagrimejavam, eu podia sentia o que Cecilia sentia, talvez por ela se aproveitar da minha energia ou talvez por pura compaixão.
– Não acha que seria estranho eu chegar na casa da sua mãe falando isso para ela?
– Eu posso fazer uma carta! Você entrega para ela dizendo que eu havia te enviado antes de morrer. – Cecilia sugeriu.
– Okay! – Peguei uma folha qualquer e uma caneta em uma gaveta e coloquei sobre a mesa.
– Você precisa me ajudar a escrever, vou segurar sua mão. – Ela avisou e eu concordei com a cabeça.
Segurei a caneta e Cecilia segurou minha mão, escrevendo uma carta com sua caligrafia, eu não estava controlando, e por respeito a ela, eu evitei de ler o que ela escrevia.
– Que legal, agora você também faz psicografia? – Robert chegou perto, ainda com um pouco de receio. – Ela ainda está aqui?
– Sim, está ao meu lado.
Ele se afastou mais, olhando em volta, era até engraçado a forma que ele agia.
– Pronto, eu deixei o endereço da casa em aqui em baixo, fica a algumas quadras daqui. – Cecilia explicou. – Obrigada, mesmo. E continue assim, mas cuidado em quem está ajudando.
Sua figura foi desaparecendo aos poucos, a aparência doentia de quem tinha se matado não estava tão presente, eu confundiria ela com uma garota normal agora.
Algo em meu coração me fez sentir bem em ter ajudado, era como dar comida aos pobres, só que era mais especial, era único.
– Agora vamos a esse endereço! – Falei com Robert.
– Mesmo? De madrugada? Isso é contra as regras daqui, se nos pegarem estamos muito fodidos.
– Se nos pegarem, isso não vai acontecer. Relaxa, Lamp Boy. – Sorri confiante.
– Lamp Boy? Que criativa, hein. Vamos logo.
Corremos até o portão que havia trás da casa para sairmos despercebidos. Andamos em silencio pelas ruas, até que Rob começou a rir.
– Por que você está fazendo isso? Você nem conhece a garota.
Pensei um pouco sobre isso, eu podia estar errada em ajudar ela, já que Lana havia proibido de conversar com espíritos por enquanto, mas eu sentia a necessidade.
– Ela precisa falar isso para mãe. – Apontei para a carta. – Acho que todos devíamos ter oportunidades de conversar com nossas mães pela ultima vez.
– Ou pela primeira vez. – Ele entendeu o que eu quis dizer. – Também não conheci minha mãe, ela morreu no meu parto, mas meu pai me contou que o sonho dela era ter um filho. Meu pai e minha irmã era a família que me bastava, mas sempre quis conhecer minha mãe.
– Sei como é. – Sorri para ele.
– Sinto muito pela sua mãe. – Rob murmurou.
– E eu sinto muito por seus pais. – Parei no meio da rua, fazendo com que Robert se assustasse. – Já sei! Me ajuda a encontrar minha mãe, e eu tento invocar a sua! – Juro que na minha cabeça essa parecia ser uma ideia normal.
Ele riu.
– Serio? Você consegue fazer isso? Ela morreu a muitos anos.
– Acho que consigo, vou tentar.
– Então temos um acordo.
***
Depois de entregarmos as cartas, a mãe da Cecilia ficou tão contente que nem achou estranho dois adolescentes aparecerem na casa dela de madrugada, ela nos levou de volta para casa em seu carro, agradecemos e caminhamos pelo jardim, até que Robert caiu. Tentei controlar minha risada para não sair alta. Ele continuou deitado na grama.
– Vou ficar por aqui mesmo. – Disse ele se virando para ver o céu.
Deitei ao lado dele ainda rindo.
– Obrigada.
Ele virou de lado para me olhar.
– Eu não conseguiria fazer nada disso sozinha. – Continuei. – Ainda tenho medo, e você me ajudou nisso. Isso tudo é muito novo para mim e o que fiz foi errado.
– Para mim pareceu certo, você viu a felicidade na mãe daquela menina?
Sorri sozinha.
– Você sabe que agora que ajudou um, muitos vão mim atrás de você, não é? É assim que as coisas funcionam.
Fiz careta com o comentário dele.
– Vamos sair daqui, ainda dá tempo do cochilar um pouco antes da aula. – Bocejei.
Ele levantou, e me puxou pelas mãos para me ajudar a levantar.
Tentei limpar minha roupa cheia de grama. Entramos na casa de forma mais silenciosa possível, subimos as escadas com mais cuidado ainda, por ficar perto dos quartos.
– Até hoje. – Ele falou baixo.
– Até. – Sussurrei.
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