Três batidas calmas na porta, mesmo que não tivesse nem um pouco de paciência seja lá quem fosse que estava na porta.

Quatro batidas. Estava ficando furioso.

Cinco.

A porta foi arrancada violentamente para trás, atingindo a Sra. Alwanse, que cozinhava para a filha com lágrimas nos olhos.

O Sr. Alwanse, dono da casa, surgiu furioso com o rosto vermelho de raiva na porta da cozinha, onde sua mulher estava deitada de costas no chão suportando o peso da porta que havia sido arrancada do portal de entrada. Marchando, guardas entravam na casa com um papel na mão.

Ao vê-los, o Sr. Alwanse empalideceu.

Laya ainda tentava tirar a porta de cima da mãe. Não conseguia mas os guardas a ajudaram. Levantaram Margarida e a levaram para um carro. Um casso de Guerra.

O Sr. Rodrigo Alwanse recuperou a raiva, antes que todos pudessem reagir. Pegou Laya nos braços e gritou com todas as forças para os guardas:

-NÃO TOQUEM NA MINHA FILHA! ESTÃO LEVANDO UM DOS MEUS BENS MAIS PRECIOSOS, MINHA ESPOSA, MAS A MINHA FILHA, NÃO!

Os guardas tinham um tom sério. Um deles se colocou na frente. Tinha cabelos e bigode brancos, e um tom brincalhão mas ao mesmo tempo sério e carrancudo.

-Senhor. Não queremos machucar ninguém. Entregue-nos a criança e ao senhor. Precisamos...- o guarda sorriu quando foi interrompido por Rodrigo.

-Não! Não minha filha! Vão embora, vão!- o guarda abriu outro sorriso.

"Muita paciência", pensou Laya.

O guarda foi arrastado para trás. No lugar onde ele se encontrava, um homem muito mais novo apareceu com o olhar sério, carrancudo e autoritário no rosto.

-ENTREGUE-SE!- berrou.- TODOS MORRERÃO! A GUERRA ESTÁ PERDIDA! SE ENTREGUEM!

Ao ouvir o grito grosso do guarda, Laya se encolheu mais no colo do pai, que agora olhava sem explicação ou sem consolo para o guarda. Para todos.

-Menos Laya. Ela é meu orgulho. Não...

-Entreguem-se. Você e a criança.

Rodrigo parou de lutar. Estendeu a mão para filha, mas pela primeira vez ela recuou para a parede.

-Estamos juntos, Laya. Não se preocupe. Papai vai ficar com você, aqui.

-Mã...Mamãe?- Laya disse quase num sussurro, chorando.

-Sim. Mamãe também.- o tom de Rodrigo não era calmo, era de pânico.

Laya tinha cinco anos. Não conseguia distinguir direito um tom para o outro- ou realmente não notava que o pai estava à beira do desespero.

Os guardas formaram uma fila. Dez de cada lado, como um tapete vermelho deixando os dois passarem. Pai e filha avançaram lentamente por eles até avistarem o rosto pálido e obscuro de Margarida Alwanse.

Laya olhou para a casa. Não sabia se era a última vez ou não, mas pressentia algo ruim, que estava para acontecer.

Entraram no carro. Sem ninguém perceber, a garotinha acenou para a casa, pressentindo que jamais voltaria para aquele local que considerava seu lugar mais seguro. O único lugar que confiava.

Estava tudo perdido para ela.

Deitou nos braços aconchegantes da mãe. Ela lhe acariciava os cabelos com um tom de calma, dizendo que tudo estava bem. Laya fechou os olhos, queria chorar mas não podia. Daria tudo para que aquilo acabasse logo e que ela voltasse para aquele local. Era tudo o que ela queria. Tudo.

Rodrigo colocou os cabelos curtos da filha para trás e sussurrou que tudo estava bem. Não exatamente isso. Ele disse que tudo ficaria bem. Mas não ficou.

Em um ato de desespero, Rodrigo pegou a filha dos braços da mãe. Disse-lhe para que desse um último beijo nos dois. A menina obedeceu agora chorando de verdade. Mas os guardas não olhavam para trás- estavam preocupados com a direção que seguiam e não para simples choros de uma garotinha assustada e indefesa.

Rodrigo acariciou a bochecha da garotinha. Margarida fez o mesmo, agora entendendo o plano do marido. Deu-lhe uma correntinha de ouro, que era sua, e prometeu que cedo ou tarde ela chegaria. Chegaria e ficariam juntos.

Rodrigo abriu a janela do carro. Era baixo. Ele calculou mentalmente o que aconteceria, como faria e etc. conseguiu calcular certo. Laya deu um último beijo de despedida nos pais.

-Nós amamos você!- Margarida lhe disse por fim, chorando.

E nesse ato, Rodrigo abriu mais e mais a janela. Quando percebeu que não dava mais, colocou Laya entre o interior do carro e o lado de fora onde o vento batia furiosamente.

-Boa sorte, filha...- murmurou. Ele a soltou delicadamente e só deu tempo de Laya ver uma última lágrima descer pelas faces dos pais.

O carro partia cada vez mais rápido. Laya não conseguia enxergar mais nada. Só restava chorar.

Ela não se levantou. Permaneceu no chão, chorando. Suas lágrimas faziam os machucados do joelho, perna e braço arderem.

Ela estava sozinha. Era uma garotinha de cinco anos.