I Remember You
2 Capítulo 2
Passadas quatros horas debaixo de um sol quente e ao mesmo tempo sombrio, Laya se levantou do asfalto.
Aquela altura, tudo estava perdido. Ela não sabia o caminho de casa e os pais haviam jogado-a para salvá-la. Haviam salvado ela dos Campos de Concentração.
Laya não sabia o que estava acontecendo. Não sabia de nada. Só sabia que perdera os pais. E não teria a menor chance de encontrá-los.
Ela caminhou sem rumo para qualquer lado. Avistou uma fazendinha ao longe mas não sabia como chegaria lá- para uma garota de sua idade, era muito esperta.
Tinha uma noção da Guerra. Tinha uma noção de que os pais poderiam ter... falecido. Tinha noção de que para sobreviver precisava de abrigo.
Ela já sabia falar frases completas, quase tudo. Não sabia escrever. Não sabia ler. Mas sabia falar e para ela, isso bastava.
Tentou correr mas suas pernas não deixaram. Então caminhava por cinco minutos e deitava no gramado que a cada metro percorrido ia ficando mais e mais verde. Isso significava que talvez um lar para ela estava se aproximando.
Ela caminhou mais e mais. A fazenda estava ficando perto. Quando conseguiu chegar, encostou na cerca de arame que tinha e espetou o dedo.
Sangue escorria pelo pequeno buraquinho. Ela estava sentindo dor, mas não tanto para chorar. Deitou ali no gramado e deu um gritinho assustado:
-Ai!
Tudo estava deserto. Laya sentiu uma brisa boa no rosto, mas nada mais que isso. Parecia que ia desmaiar a qualquer momento.
**
Acordou em uma cama quentinha, colocou o dedo para cima e o fitou. Estava enfaixado e quase curado.
No criado mudo do lado da caminha de palha feita pra ela, havia um copo de água e pão. UM homem estava do outro lado. Laya recuou para a parede quando ele se virou, sorrindo para ela.
-Não se preocupe, criança. Não lhe farei mal. Que tal... me contar sua história?- ele sorriu de um modo que Laya se sentiu agradável e se sentou direito na cama.
-Laya... Eu sou Laya!- ela exclamou mas se lembrou dos pais. Se pôs a chorar- Papai e mamãe mi salvaram...- o homem a abraçou.
-Eu sinto muito. Posso cuidar de você, criança Laya. Meu nome é Simon, mas pode me chamar de Tio Simon...
Laya sorriu para ele com os olhos encharcados de lágrimas. Simon a abraçou de leve, acariciando os cabelos pretos dela.
-Tio Simon... Eu estou com fome...- Laya estava tímida, mas sussurrou a ele. Tio Simon apenas riu.
Ele pegou a bandejinha que estava no criado mudo quando Laya havia acordado minutos antes. Ele pegou o pão e se dirigiu até a mesa. Cortou-o e passou a manteiga. Se virou e deu para ela.
-Brigada...- disse em meio aos barulhos.
Tio Simon sorriu, mostrando covinhas que ele tinha. Ele aparentava ter trinta e poucos anos e tinha rosto de advogado. No entanto usava uma roupa de fazendeiro e as mãos sujas, mas ele havia lavado-as para servir Laya.
Depois que ela correu, Tio Simon a levou para fora. Havia vacas, cavalos, porcos, tudo que havia de animais no mundo- para Laya- estava ali.
-Tem tudo aqui!!!!- Laya exclamou e se pôs a correr até os cavalos, que relincharam quando ela se aproximou.
Tio Simon sorriu e correu até eles, enquanto Laya tentava passar a mão nos cavalos que recuavam para o outro lado com medo da garotinha.
-Não se preocupem!- ele estava cansado- Ela é sua nova dona, rapazes!
Os cavalos se aproximaram tanto que até mesmo aproveitavam o carinho que recebiam da menina. De repente, ela correu a outros lugares e conseguiu finalmente dar um círculo na fazenda inteira do Tio Simon.
-É muito legal, Tio Si!- Laya exclamou olhando para o homem, que soltou uma gargalhada.
-Si? Ótimo, criança. Amanhã vou lhe ensinar a ler e a escrever, o que acha?
-Ótimo, adulto!- os dois soltaram leves gargalhadas ao ouvir a menina imitar o tom de Simon.
Os dois foram até a casa novamente e voltaram com comida e água para os animais. Tio Simon mostrava a Laya como fazia para alimentar cada animal e como cuidar dele.
-Assim- ele limpou as gotas de suor da testa- que se faz quando precisa retirar o leite!
Laya o olhou encantada. O homem sorriu para ela.
-Tudo a seu tempo, criança. Um dia, tudo isso poderá se tornar seu!
A noite começava a cair. Tio Simon disse-lhe:
-Vamos, hora de dormir, não acha? Um bom banho e poderemos jantar. Logo, você escova os dentes e vamos para a cama, criança?- ele piscou brincalhão para ela.
Laya hesitou. Seu cérebro se voltou aos pais. Era exatamente essa a rotina de noite antes daquilo tudo acontecer mais cedo. Ela estava se divertindo tanto que não se lembrou do que aconteceria quando... Quando...
Laya sorriu de leve para Tio Simon, que a pegou no colo e jogou-a no ar. Ela gargalhou enquanto iam se afastando dos animais e iam direto para o poço retirar a água suficiente para que os dois tomassem banho e escovassem os dentes.
Tio Simon foi o primeiro, enquanto Laya assistia a pequena televisão que havia na sala da casinha. Quando terminou, Tio Simon abriu a torneira e ela se banhou com a água quente que ele havia esquentado para ela.
Laya se vestiu e foi para a mesa, onde Tio Simon colocava a comida no prato dos dois com delicadeza para não derramar. Ela subiu na cadeira alta com ajuda dele e começou a tomar a sopa... Quente.
Quando ela escovou os dentes, ele a levou para cama.
-Que tal uma história para fazer alguém dormir mais rápido?- ele sorriu para ela, pegando um livro de história infantis.
-Eba!!!!!!
-Branca de Neve!- escolheu ele, passando o indicador pela página.
Ele narrou como a princesa havia encontrado os sete anões. Narrou o feitiço da bruxa má. Narrou tudo a partir do livro, deixando Laya maravilhada.
-Amanhã, começaremos umas básicas aulas, criança. Você poderá ler livros grossos como esse- apontou para o livro azul na cama- e livros pequenos ou mais grossos ainda. Quando conseguir escrever, poderá criar suas próprias histórias.
Ele a beijou levemente na face.
-Boa noite, criança.
-Boa noite, Tio Si!
Ele riu e se afastou para o quarto vizinho, fechando a porta. Laya se acomodou direitinho na cama.
Quando fechou os olhos, a única coisa que viu foi os pais e ela no parque de diversões antes de tudo aquilo. Viu os melhores e piores momentos da família com ela. Se lembrou de exatamente tudo.
Quando deu por si, lágrimas escorriam discretamente pelo seu rosto delicado, e ela tentava limpá-la inutilmente. Sabia que de certa forma, jamais veria os pais novamente, e eles haviam lançado-a pela janela daquele carro dos guardas para salvá-la do mesmo destino que eles.
Ela lamentou por tudo. Queria estar com os pais. Mas lembrou-se de Tio Simon e reviveu aquelas horas do dia. Eram maravilhosas e estavam recompensando as ruins.
Apenas um aperto no coração instou nela por muitos minutos. Tio Simon era bom, mas ela não sabia como viver sem os pais. Eles eram tão protetores e queriam seu bem. Mais do que o deles.
Adormeceu com os olhos lacrimejando e uma lágrima escorrendo. Uma última lágrima daquela noite.
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