Notas iniciais
Meu primeiro capítulo de um texto que desconfio que vá ficar grande, espero que gostem e não se esqueçam desfrutem.

“Se me perguntarem se ele é meu irmão de sangue eu direi que não, no entanto se ele precisar do meu sangue eu dar-lho-ei”

A vida muitas vezes mostra-nos o desconhecido, leva-nos para o mal, prende-nos a algo inseguro, mas antes de fazer tudo isto, antes de virar o teu mundo ao contrário ela faz-te conhecer aqueles que sempre estarão lá, aqueles que te amam incondicionalmente aqueles que depois de um dia mau ainda são capazes de sorrir e contagiar-te aqueles que por muito que digas que estás bem eles irão sempre dizer eu sei que não.

Começa assim um novo dia, será um dia igual a todos os outros? Oh eu espero que não, farta de futilidades e ignorância estou eu. A escola vai começar em menos de uma semana, já tentei descontrair e meter na cabeça que o nono ano vai ser como todos os outros o único problema é o nono ano ser no lado oposto do mundo (talvez não seja bem assim). Já fiz as malas e amanhã bem cedo sairemos de Lisboa a caminho do Porto, novas pessoas, novos hábitos, NOVA ESCOLA que irei fazer eu agora? Se pensarmos bem isto é o mesmo que abandonar um pequeno cachorro e esperar que ele consiga ser feliz novamente, ai que raiva, não podiam esperar ate que eu queira fazer isto, provavelmente iriam esperar durante muito tempo mas algum dia iria acontecer, ou pelo menos eu acho que sim:

- Inês, já acabas-te? Eu e o teu pai pensamos em ir comer fora – a minha mãe vai gritando do piso inferior na esperança que eu ouça e se não ouvir ela pode sempre dar-me um sermão mais tarde e alegar que não ligo ao que ela diz embora todos saibamos que, se ela realmente me quisesse dizer algo importante viria à minha beira.

- Sim mãe, as minhas malas estão prontas, deixa-me só pegar no telemóvel e já desço! – após isto ela continuou com as suas implicâncias devido ao facto de eu não largar o telemóvel, mas eu não posso fazer nada preciso dele como o peixe precisa da água.

Desci as escadas sem muita pressa na verdade não tinha vontade nenhuma de sair, não naquela noite, muito menos com os meus pais. Se há algo que eu não gosto é de passeios familiares em que fingimos que tudo corre na normalidade quando na verdade a normalidade na minha família resume-se a um pai bêbado quase todas as noites, a uma mãe que implora por liberdade (não sei bem em que) e como consequência disto a uma irmã que sofre, a uma criança que carrega o peso do mundo sobre os ombros. Ela é o meu alguém, é quem me dá forças para encarar cada dia como se fosse o último, mas eu não suporto a ideia de ela, sendo apenas uma criança, ter de cuidar de mim, nem que ela apenas o tente fazer.

Ainda me lembro quando a minha menina tinha apenas quatro aninhos, numa noite ela foi até o meu quarto e deitou-se ao pé de mim a chorar. Eu acordei e fiquei preocupada, ela nem tinha chamado por mim apenas deitou-se e chorou. Como devem calcular eu perguntei o que se passava e ela respondeu que estava tudo bem, apenas iria chorar muito naquela noite pois todas as lágrimas que ela derramasse ali seriam sorrisos que ela me faria esboçar para o resto da vida! Não pude fazer mais nada, só me aconcheguei a ela, eu sabia que naquela noite não a faria sorrir, mas também não a deixaria chorar sozinha.

- Mãe, a Leonor não vai? – Pergunto eu quando chego à sala e deparo-me com os meus pais, ambos prontos para sair no entanto nenhum segurava a mão de Leonor.

- Não filha, ela preferiu ficar na avó hoje a prima Marta ia lá dormir, sabes como são as crianças – pois eu acho é que ela queria fugir deles assim como eu, fico contente por ela não ter de nos acompanhar neste falso jantar de família só tenho pena de não a poder deitar e dar-lhe um beijo de boa noite.

- Pois – respondi secamente, não valia de nada alongar aquela conversa, afinal de contas não nos levaria a lado nenhum e eu queria é que tudo aquilo acabasse o mais depressa possível.

A viagem decorre com normalidade, no restaurante comemos arroz de frango, o que era a comida preferida da Leonor, precisava dela lá mais do que nunca queria que ela sorrisse para mim, era irresistível e impossível não sorrir de volta. No regresso a casa paramos no supermercado para a minha mãe poder comprar algumas coisas em falta e eu aproveitei para levar algum material escolar.

- Mãe, achas que a avó já está a dormir? – eu questiono-a durante a viagem de regresso a casa.

- Não sei, mas provavelmente sim – eu liberto um suspiro aborrecido, se a minha mãe tivesse respondido que não eu iria logo pedir para ficar com a Leonor, inventaria uma desculpa qualquer que de manhã quando a vesti ela estava um pouco melancólica, no entanto a resposta da minha mãe foi o oposto do que eu queria ouvir.

Mal cheguei a casa pousei as sacas e subi para o piso superior, o meu corpo implorava por uma cama, principalmente por saber que amanhã o dia iria começar cedo.

Os primeiros raios de sol invadiam o meu quarto, no dia anterior como o cansaço era enorme acabei por me esquecer de fechar as portadas e agora sofria as consequências, pois eram apenas seis da manhã e eu já me havia levantado. Eu podia não ser preguiçosa, ser trabalhadora e tudo mais, mas durante as férias raras eram as exceções que eu abdicava de uma boa noite de sono.

Uma hora após o meu doloroso despertar a minha mãe já marcava a sua presença:

- Bom dia Inês – seguiu-se o beijo matinal e um sorriso. Se eu pudesse escolher uma parte do dia para estar com alguém em particular eu tiraria a manhã para a minha mãe – não é um pouco cedo para já estares acordada?

- Bom dia mãe – sorri quase impercetivelmente – é, se calhar tens razão mas não consegui dormir, agora que já estou pronta pensei em sair já e fazer uma caminhada até à avó para poder pegar a Leonor.

- Fazes bem filha, obrigado e a tua irmã vai adorar a surpresa – eu nem respondi, tinha a certeza que a Leonor iria adorar ver-me mas não posso dizer que seria uma surpresa, estaria a mentir se o fizesse.

A quantidade de pessoas que caminhavam na rua aquela hora da manhã era surpreendente, podia ver gente de todas as idades, desde bebes de mão dada com os pais até senhoras mais idosas a atravessarem a passadeira lentamente para desespero daqueles que faziam o seu caminho de automóvel para o trabalho. Quando cheguei ao portão da pequena casa verde podia ver Leonor a correr com um sorriso nos lábios enquanto ajudava a avó Rosa a colocar alguma fruta numa cesta.

- Inês – gritou quando me viu emergir pelo portão – o que estás aqui a fazer? – Perguntou finalmente depois de um beijo e um longo abraço.

- Vim fazer-te uma surpresa – respondo enquanto passo a mão pelos longos cabelos – espero que tenhas gostado pois temos um longo caminho pela frente e eu quero que o faças com esse enorme sorriso.

- Claro que gostei, se tu queres eu faço. Sorrirei até me caírem os dentes todos, lembras-te do que prometi naquela noite? Eu ainda estou longe de ter cumprido mas vou lá chegar – eu estava de lágrimas nos olhos, a minha menina tinha sempre aquele toque, aquele jeito carinhoso de tratar bem as pessoas que ama.

Notas finais
Que acharam?