I Must Be Dreaming
3 Paranoia
Notas iniciais
CAPÍTULO TRÊS
PARANOIA
Eram quase 6hs quando Grace e seus pais chegaram à delegacia. Eu estava sentada na ala de espera da delegacia, olhando para minhas mãos tremulas e vagando em minha mente sobre os acontecimentos da noite anterior. Ouvi o Oficial Wilson conversando com os pais de Grace, falando sobre o que ocorrera e o porquê eu estava aqui. Também o ouvi dizendo que eu deveria tomar alguns remédios durante um tempo, e se eu demonstrasse algum tipo de comportamento histérico ou agressivo, deveriam contatar um médico especializado.
Como previsto, acham que eu sou louca. E para melhorar, terei de voltar a tomar remédios. Como se o fato de ter um anônimo psicopata e aparentemente invisível atrás de mim não fosse o suficiente.
– Ally, você está bem? – perguntou-me Grace, ajoelhando-se em minha frente.
– Eu pareço bem, Grace? – disse em um tom frio – Não estou nada bem.
E instantaneamente as lagrimas voltaram a jorrar como pedras pesadas caindo de meus olhos. Grace sentou-se ao meu lado e me abraçou, confortando-me. Ouvi sua mãe chamar seu nome com um tom de receio, como se dissesse “Grace, afaste-se da sua amiga com problemas mentais”, e eu não poderia culpa-la por esse pensamento. Porém, Grace a ignorou totalmente e continua a me abraçar. Era bom saber que pelo menos uma pessoa no mundo não sentia medo de mim, e era ainda melhor saber que essa pessoa era minha melhor amiga.
– Você vai ficar bem, Ally. – sussurrou ela – Você ficará na minha casa até seus pais voltarem. Nós ligamos para a sua mãe e ela disse que tentarão voltar o mais rápido possível.
– O-obrigada. – respondi gaguejando entre lágrimas.
Grace havia levado algumas de suas roupas para eu poder me trocar. Ela disse que havia passado na minha casa para poder pegar alguma coisa, mas a polícia ainda estava lá para investigar e ninguém além deles poderia entrar.
Após de eu ter trocado a camisola hospitalar pelas vestes de Grace, a enfermeira entregou-me muletas, por conta de meu tornozelo engessado, e nós e os pais dela finalmente saímos da delegacia. Eles não dirigiram muitas palavras a mim, apenas disseram que sentiam muito e que eu não precisava me preocupar, pois eu não estava mais sozinha. Apenas agradeci e me desculpei pelo incômodo. Eles se direcionaram para o carro estacionado logo em frente da delegacia, enquanto Grace continuou ao meu lado.
– Não se preocupe. Ally, eu vou andando com você. Não vai precisar entrar no carro.
– Obrigado, Grace. Obrigado por tudo.
– Tem certeza que não prefere ir de carro, Ally? – perguntou o pai de Grace. – É um longo caminho para ir de muletas.
– Muito obrigado, Sr. Taylor, mas ainda não estou pronta para entrar em um carro.
– Tudo bem, compreendo. Vemos-nos em casa.
Enquanto Grace e eu íamos caminhando – quer dizer, ela caminhando e eu mancando -, ela me fez algumas perguntas sobre a noite anterior. Sobre o que tinha acontecido e se eu havia visto o tal invasor. Após explicar tudo a ela, ela parecia tão amedrontada quanto eu. Omiti alguns detalhes, como os olhos e a voz dele em minha cabeça. Grace era a única que não me achava louca, e apesar de ela ser minha melhor amiga e eu ter plena confiança nela, ela não confiaria tanto e mim se lhe dissesse que ouvi a voz do invasor em minha cabeça durante a aula.
Após alguns quilômetros, finalmente chegamos à casa de Grace. Meus braços pareciam gelatinas devido à força que tinha de fazer para andar de muletas. Isso era horrível. Mas eu achei que iria morrer na noite anterior, então andar de muletas era um grande lucro.
Quando chegamos, os pais de Grace já haviam ido trabalhar. Eles deixaram um bilhete na geladeira, dizendo para almoçarmos direito, tomarmos conta da casa e também me lembrando dos horários que eu deveria tomar meus remédios.
– Grace, você não vai para a aula?
– Claro que não. Acha mesmo que vou deixar você sozinha, com um maluco à solta? Nem pensar!
Tinha vontade de dizer à Grace que, sozinha ou não, ele iria chegar até mim. Ele não pareceu ter algo importante a me dizer, e com certeza iria voltar para terminar essa tarefa. O que me deixava ainda mais angustiada era o fato de ele dizer conhecer a mim e Clara, mas sua vós não era familiar. Mas eu não diria nada disso à Grace. Não queria que ela ficasse mais amedrontada do que já está, apesar de ela tentar esconder isso.
O dia foi passando, até que a noite caiu. Grace e eu dormiríamos na sala, pois era complicado para eu subir as escadas. Os remédios para dor e ansiedade me deixavam muito sonolenta, então logo adormeci.
Acordei no meio da noite, pois estava com minha garganta seca. Olhei para o lado, e vi que Grace não estava ali. De repente ela poderia ter ido ao banheiro, por isso não dei tanta importância. A sala estava sendo iluminada pela televisão que Grace havia deixado ligada. Fui arrastando-me até as muletas para me levantar, e depois fui para a cozinha tomar um pouco de água.
De repente, a luz da cozinha começou a piscar e a televisão da sala começou a chiar. Meu coração imediatamente começou a bater mais forte, e minhas mãos ficaram trêmulas. Peguei o frasco de calmantes que estava em cima da bancada. Quando abri a torneira para pegar mais água, não foi água que começou a jorrar. Invés disso, uma gosma preta e nojenta jorrava. Larguei o copo na pia e me afastei. Aquela gosma não cessava, então tentei fechar a torneira, mas mesmo assim não parava. Jorrava cada vez mais até que começou a escorrer da pia para o chão. Quando tentei sair dali, a gosma fez com que eu escorregasse e caísse ao chão. Não conseguia me levantar, então comecei a me arrastar para fora da cozinha.
– Grace! – gritei. – Grace, onde você está?!
– Ally... – ouvi sua voz fraca.
– Onde você está?
– Ally...
Olhei para o teto e dei um grito quando vi Grace grudada no teto com a mesma gosma que saia da pia. Em sua cabeça havia um machucado que estava sangrando, e ela aparecia muito fraca.
– Grace, o que houve?
– Ele... Ele está aqui.
Não! Não podia ser. Ele veio atrás de mim aqui. Era de se esperar, mas parte de mim não esperava que ele viesse imediatamente na noite seguinte. Queria saber se os pais de Grace estavam bem, mas não conseguia nem me levantar do chão, o que dirá subir as escadas. Não sabia o que fazer, a não ser dar-lhe o que ele quer.
– Onde você está? – gritei — Eu sei que você está aqui, isso está bem claro. Agora, apareça, e me diga logo o que você quer de mim?!
Uma risada sarcástica veio descendo às escadas. E então, o que era apenas uma sombra com olhos reluzentes finalmente tomou forma. A forma de um garoto alto e esguio, levemente pálido, de vestes pretas e cabelos ainda mais escuros e bagunçados, lábios rosados que formavam um sorriso amedrontador, quase tanto quanto seus olhos.
– Nos encontramos novamente, querida Allyra.
– Pare de enrolar e me diga logo o que você quer!
– Tenha calma, meu amor. – o tom em sua voz me deixou enojada — Para que tanta pressa?
Com um pouco de esforço, consegui me livrar da gosma e me apoiei em uma das baquetas para conseguir me levantar.
– Você parecia ter algo bem importante para me falar ontem, então, por que todo esse papo furado?
– Hm, que corajosa. Gosto disso nas mulheres. – disse ele, aproximando-se.
– Vá se ferrar! – gritei — Acabe logo com isso.
Em uma fração de segundo, ele estava bem na minha frente, há centímetros do meu rosto. Com uma de suas mãos pousadas em minha bochecha, observando cuidadosamente cada detalhe do meu rosto. Continuei imóvel, não só porque não conseguia correr, mas também porque eu estava apavorada ao ponto de ficar estática.
– Vamos deixar uma coisa bem clara, não grite comigo. Você não irá gostar de me ver zangado. Estamos entendidos?
Não consegui falar. Apenas concordei com um aceno de cabeça.
– Ótimo. – ele se afastou. – Não me apresentei devidamente. Meu nome é Sebastian. O seu nome eu já sei, bem até demais.
– E por que você veio aqui, Sebastian? – seu nome soou amargo em minha boca. – Por que fez tudo isso?
– Por que você foi escolhida, Allyra. Você e sua irmã.
– Escolhida para quê? E, não sei se você sabe, mas Clara está morta.
– Ah, eu sei sim. Quer dizer, ela está morta apenas neste mundo, onde você está agora.
– Você está maluco? Como assim “neste mundo”? Que outro mundo existe?
– Somnia.
Fiquei pasma. Ninguém sabe sobre Somnia, além de minha psicóloga. Como ele saberia? Por que ele estava fazendo esses jogos mentais comigo?
– Como... Como você sabe sobre Somnia?
– Como você acha? Eu moro lá.
– Não seja ridículo. Somnia não passa de um lugar imaginário com qual eu tenho sonhado nos...
– Nos últimos três meses? – disse ele, me interrompendo.
– Você já entrou em minha cabeça uma vez. Pode ter feito isso agora. – respondi rapidamente.
– Você está dizendo isso para mim, ou está tentando convencer a si mesma?
– Prove que estou errada.
– Bem, lembra-se de um dos seus sonhos, em que você olhou para o céu e viu enormes pássaros negros voando?
– Lembro, vagamente.
Sebastian então se afastou ainda mais de mim. E então, diante de meus olhos ele começou a tomar forma de um grande pássaro negro, com penas que refletiam como se fossem vidro, garras afiadas, e olhos que pareciam de um crocodilo.
– Acredita em mim agora? – disse ele em minha cabeça.
Apenas concordei com a cabeça. Então, ele voltou para sua forma humana.
– Sou um Drakon, Allyra. Uma das criaturas que vivem em Somnia. Tomamos essa forma de pássaro gigante quando completamos 18 anos, a chamada “idade de transição”. Além disso, também possuímos a habilidade de controle mental. – após dizer isso, ele estalou os dedos, e a gosma do chão e Grace desapareceram – E também temos muitos outros truques que não são relevantes agora.
– Onde está Grace? – perguntei desesperada.
– Fique tranquila, ela está bem. Voltando ao assunto, você tem uma grande missão a fazer. Algo muito grande está vindo para Somnia.
– O que é exatamente?
– Nós não sabemos, por isso precisamos de você. Sua irmã aguarda por você. Vocês duas juntas poderão nos dizer. Ela poderá me explicar melhor do que eu.
– Isso é... Loucura!
– É mesmo? Eu esperava mais de você. Você ficou toda pimposa e cheia de brilho nos olhos quando fez aquele discurso na aula de literatura, e agora diz não acreditar em mágica? Que hipócrita.
– Como você... Foi você que deixou o bilhete no meu armário, não foi?
– Claro que fui eu. E as palavras daquele garoto lesado da sua sala também foram minhas. Entrei na cabeça dele e o fiz falar aquelas coisas, pra te deixar mais encorajada a acreditar. Mas você é mesmo teimosa.
– Como chego até Somnia?
– Você saberá quando a hora chegar.
– Então você veio até aqui para nada além de me torturar?
– Bem, eu tinha que estabelecer uma ligação entre você e Clara. Somente eu teria a capacidade de fazer isso. É mais um truquezinho. Como esse. – ele estalou os dedos novamente, e o mesmo chiado que eu ouvira no ginásio, retornou ainda mais alto.
Caí no chão novamente, pois tirei as mãos da bancada para tapar meus ouvidos. Era uma dor aguda e terrível, que eu não desejaria nem para os meus piores inimigos.
– A ligação de vocês duas ainda não está completa, por isso, nos veremos novamente. Até mais tarde, amor.
– Ally! – ouvi a voz de Grace ecoando ao fundo. – Ally!
– Grace?
De repente, abro os olhos e vejo Grace me chacoalhando, com um olhar assustado. Foi tudo apenas um sonho? Não pode ser. Era real demais...
– Grace, você está bem. – disse aliviada.
– É claro que eu estou bem, por que eu não estaria? Você que começou a gritar e a se bater do nada. Parecia que estava sentindo muita dor, fiquei assustada. Por isso de acordei.
Sentei-me no colchão e reparei que as gazes que cobriam meus machucados estavam com grandes marcas de sangue, que não estavam ali antes. Os cortes haviam sido costurados e enfaixados, não havia como sangrar. Mas Grace não havia notado. Minha cabeça doía e parecia pesada, e eu sentia uma dor que parecia que eu tinha sido espancada.
– O que está havendo aqui? Ouvi gritos.
– Fui eu, Sra. Taylor. Eu... Eu tive um pesadelo.
– Parecia mais que um pesadelo, Ally. Parecia que alguém estava torturando você.
– Você está exagerando, Grace. – disse – Eu estou bem, só preciso dos remédios.
– Eu pego para você. – disse a Sra. Taylor, voltando da cozinha com os frascos e um copo d’água.
Assim que eu tomei os remédios, ela nos disse boa noite, e que se houvesse algo errado, era para Grace ir lá em cima chama-la. Nós concordamos e ela voltou para o andar de cima.
Grace voltou a dormir, e eu fiquei fitando o teto, tentando ao máximo não cair no sono. O que acontecera foi mesmo um sonho ou uma maneira Drakon de se comunicar em silêncio? Quer dizer, silêncio para as pessoas ao redor, pois para mim foi tão alto quanto o som de uma sirene. Eu precisava falar sobre isso com alguém. Falaria com a Dra. Montgomery assim que possível. Não me importo se ela irá me achar louca ou não, mas guardar isso para mim é algo que não consigo mais fazer. Ela disse que se a tal sombra tentasse me machucar, era para eu lhe informa-la. É isso que vou fazer.
Mas, e se de repente aquilo tudo foi verdade? E se Sebastian realmente existe, e se cada palavra que ele disse for realmente concreta? Não há motivos para eu ficar louca tão repentinamente, se fosse para eu enlouquecer, teria o feito há três meses. Se for verdade ou não, em breve eu saberei. Sebastian disse que não havia acabado. Ele aparentemente é muito devagar para acabar alguma coisa. Pergunto-me o quão mais terei que ser machucada e torturada. Para estabelecer a tal ligação com Clara, que está supostamente viva em Somnia, e também para saber o que diabos está por vir nesta terra fantasiosa. De um jeito ou de outro, vou acabar com isso. Se for isso que tenho que fazer para viver em paz, sem medo de deitar minha cabeça em meu travesseiro e fechar os olhos, que assim seja.
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