Notas iniciais
Espero que gostem, Dreamers. A história está mais complexa e misteriosa, e na minha humilde opinião, está muito boa. Então, sem mais delongas, aqui está o primeiro capítulo!
PS: o capítulo está bem grande, pois vocês me pediram capítulos maiores. Se acharem que está grande demais, me informem nos reviews.
Boa leitura!

CAPÍTULO UM

ERA UMA VEZ

Era uma vez uma garota cuja vida era boa. Ela tinha uma irmã gêmea e as duas eram melhores amigas desde sempre. Apesar de serem idênticas por fora, dentro de suas mentes eram opostas. Uma era racional, calma e serena. A outra era mais emocional, otimista e sonhadora. Mas como Yin e Yang, uma completava a outra, e assim elas conviviam.

Foram criadas em um orfanato até seus seis anos, e nunca conheceram seus pais biológicos, nem a história deles. As outras crianças não se aproximavam delas, pois tinham características incomuns, ao começar por seus olhos raros que tinham um tom violeta. Até mesmo as mulheres que cuidavam delas tinham um pouco de receio, mas mesmo assim não lhes negavam atenção e carinho.

A vida dessas garotinhas melhorou muito a partir do momento em que foram adotadas por um amoroso casal, Rachel e Joseph Storm, que alegram as meninas ao lhe darem seu sobrenome e um lugar para chamar de lar. O dia de seu registro de adoção foi considerado a data de aniversário das meninas, já que ninguém sabia o real, pois essas foram deixadas na porta do orfanato quando eram apenas bebês. Este dia era o dia 20 de março de 2004. Eles decidiram se mudar para Cleveland, uma cidade na Geórgia, onde começariam uma vida nova.

No aniversário de 16 anos das gêmeas, seus amigos deram-lhes uma festa e de seus pais ganharam um carro. A diferença de idade das duas era de 5 minutos, por isso a mais velha ia dirigir o carro primeiro, elas sempre brincavam sobre essa “diferença de idade”. Era tarde da noite quando as garotas voltavam para casa após a festa. O caminho estava escuro, porém tranquilo. Tudo ia bem, as gêmeas estavam conversando e cantando as musicas que tocavam no rádio, até que de repente, a vida delas passou por um flash. Alguma coisa apareceu de repente na estrada, um garoto que aparentava ter a mesma idade das gêmeas. Ele foi atravessar a rua correndo, aparecendo do nada na penumbra da noite. O que não fazia sentido, pois não havia para onde ele ir atravessando aquela rua. Era como se ele simplesmente tivesse surgido ali.

Tudo aconteceu muito rápido. O carro foi desviado do garoto quando o volante foi brutamente girado para a direita da estrada. O carro derrapou e acabou capotando, e só parou quando atingiu o chão de uma ladeira que havia na estrada. A ladeira não era grande, mas era o suficiente para um grande estrago.

O carro estava de cabeça para baixo. A gêmea que estava dirigindo estava com vários cortes causados pelos cacos de vidro das janelas e do para-brisa do carro. Mas a gêmea que estava no banco passageiro não havia colocado o cinto de segurança, e acabou sendo jogada para fora do veículo.

Ao não ver sua irmã, uma descarga de adrenalina correu por seu corpo. A gêmea puxou seu sinto de segurança, chutou a porta do carro e arrastou-se para fora. Levantou cambaleando, pois estava atordoado por conta do acidente. Começou a gritar o nome de sua irmã, até que encontrou um corpo jogado ao meio da ladeira. Correu em direção ao corpo, e quando o virou, viu o rosto machucado de sua irmã, que de forma alguma acordava. Então começou desesperadamente a chorar. As lágrimas salgadas faziam os cortes em seu rosto arderem, mas não se comparava à dor que sentia dentro de si.

O garoto que havia atravessado a rua voltou para ver o que havia acontecido. Ele tinha cabelo castanho escuro, pele clara e olhos azuis brilhantes que estavam com uma grande expressão de pânico. Não havia mais ninguém na estrada além dele. Ele implorou por perdão, dizendo não ter visto o carro a tempo. A única coisa que a garota conseguiu lhe responder foi: chame uma ambulância. Então o garoto pegou seu celular e andou pelo local a procura de sinal. A garota continuou com sua irmã, até que uma luz muito forte veio em direção a ela. A luz parecia uma estrela cadente, que rodopiou em volta dela entrando em seu coração. E depois, algo que parecia ser uma sombra flutuou por sua irmã, entrando coração no coração dela. A garota nada fez, pois achou que estava apenas vendo coisas devido ao acidente.

Mais tarde, a ambulância chegou. A ambulância levou as duas, mas somente uma saiu do hospital. A outra não resistiu, e o anjo da morte a levou para um lugar melhor.

A vida da gêmea sobrevivente nunca mais foi a mesma desde então. A garota emocional, otimista e sonhadora havia se tornado uma pessoa triste e distante, que não conseguiu superar a perda de sua irmã. Seus pais também ficaram desolados, e a família que era tão amorosa ficou abalada por muito tempo. Mas os pais tiveram que encontrar forças para continuar e para cuidar de sua filha. Porém a irmão não cicatrizou, e repetia para si mesma “eu estava dirigindo, foi minha culpa”. Desde então, nunca mais dirigiu um carro, muito menos entrou em algum. O trauma era muito grande, e não foi fácil superá-lo.

Mas depois do acidente, coisas inexplicáveis começaram a acontecer na vida dela. Coisas que ela não conseguia explicar. Você acredita em mágica? Sim, eu sei que você acha isso uma pergunta ridícula, mas já parou para pensar nisso? Quando somos pequenos, nossos pais nos contam histórias sobre princesas, fadas e criaturas mágicas... Mas quando crescemos, esse encanto acaba. Simplesmente deixamos de acreditar, dizemos a nós mesmos que é estupidez acreditar em mágica. Mas a questão é: por quê? Será que isso é apenas nossa imaginação? São coisas vistas somente pelas crianças? Coisas imaginárias? Ou será que fingimos não ver? Fingimos não acreditar? Coisas que nós mesmos criamos? Perguntas... Perguntas, e mais perguntas...

Quando eram crianças, as gêmeas sempre tiveram uma grande imaginação. Na verdade, acho que elas foram assim desde que nasceram. Por um tempo depois do acidente, isso adormeceu na gêmea que então se tornou uma só. Mas ela começou a ter sonhos que a confortava. Sonhos sobre uma terra mágica chamada Somnia, onde a alegria e a tristeza, o bem e o mal, a luz e as trevas, viviam em harmonia. Isso de uma forma a ajudou a conseguir sorrir de novo, mas com seu coraçãozinho ainda triste, porém sabendo equilibrar e a conviver com isso. Ela fez anotações sobre seus sonhos, sobre as criaturas que via, sobre como era a vida lá. Assim ela fugiu de sua realidade trágica, com seu mundo que somente ela conhecia, e podia encontra-lo apenas fechando seus olhos.

Mas futuramente, algo estava destinado a acontecer com esta garota. Algo que mostrou a ela que esses sonhos não eram apenas sonhos, que tinham um significado e importância maior do que ela imaginava. Aliás, essa garota sou eu e estou aqui para conta-los minha história nos mínimos detalhes, sobre Somnia, sobre minha passagem lá e também sobre minha amada irmã gêmea, Clara Storm. Meu nome é Allyra Storm, e esta é a minha história.

Muitos me achavam louca, esquisita, tola... Não me aceitavam. Mas pessoas são apenas pessoas. São seres de uma imaginação limitada, e incapazes de saírem de sua zona de conforto para algo novo. Por muito tempo, eles me mantiveram refém da realidade, fizeram-me uma completa lavagem cerebral, e meu mundo dos sonhos foi morrendo. Mas, depois de tantos anos, eu consegui voltar e salvá-lo.

Minha história é muito complexa, por isso, vou tentar explicar da melhor maneira possível, com cada detalhe que vivi.

Bem, aqui vou eu...

TRÊS MESES APÓS O ACIDENTE

Era apenas mais uma segunda-feira como qualquer outra. Mais um dia ensolarado na cidade de Atlanta, cidade na qual eu mora há três meses. Início de semana, recomeçando tudo novamente. Após o acidente, fiquei um bom tempo sem frequentar a escola. Minha melhor amiga, Grace, trazia as tarefas para mim, e me ajudava com as matérias novas. Não queria ir para a escola após o que aconteceu. Não queria ter que enfrentar o olhar de pena de todos, tendo que ouvir “sinto muito por sua irmã”. O fato de minha irmã ter morrido e eu não acaba comigo todos os dias. Caí em uma depressão profunda, que ainda luto contra até hoje. Após muita terapia, eu disse a mim mesma que ficar largada na cama não traria minha irmã de volta. Se eu ainda tenho vida, vou vive-la, pois essa é a única coisa que posso fazer.

Eu tinha acabado de sair de casa, andando pela rua tranquilamente, quando minha visão de repente ficou turva. Isso tem acontecido muito ultimamente. Já fui ao médico algumas vezes, porém eles disseram que não há nada errado, mas que seria normal após alguns meses, devido aos ferimentos do acidente. Meu corpo iria se recuperar aos poucos.

Senti-me tonta, e sem querer, tropecei em uma pedra e caí. Sempre fui muito desastrada. Eu vou literalmente tropeçando pela vida. Bem, pelo menos a rua estava deserta e ninguém havia visto meu vergonhoso tombo. Enquanto eu ajuntava meus cadernos e livros que haviam caído da bolsa, ouvi alguém chamando meu nome. Allyra. Era uma voz masculina, mas não era conhecida. Olhei em volta, mas como já disse, a rua estava deserta. Era uma voz fraca, e parecia ser um sussurro dentro de minha cabeça. A voz chamou meu nome três vezes, depois parou.

Levantei-me do chão, olhei novamente em volta para ver se havia alguém, e meus pensamentos foram interrompidos quando vi Grace caminhando em minha direção.

Como eu havia dito, Grace era minha melhor amiga, e era minha melhor amiga desde que mudei para cá. Quando cheguei, ela e seus pais vieram nos dar as boas vindas. Enquanto Nossos pais conversavam, Grace veio falar comigo. Eu ainda estava muito deprimida, e falava pouco. Grace me perguntou o motivo pelo qual nos mudamos, foi onde eu lhe contei a história toda. Sobre o acidente de carro, e sobre a morte de minha irmã. Grace foi a primeira pessoa fora da família com quem eu havia conversado sobre o assunto. Creio que qualquer adolescente teria ficado espantando com uma desconhecida desabafando sobre a morte de sua irmã gêmea, mas Grace me ouviu com toda a calma do mundo e me confortou. E desde então, eu soube que ela seria minha melhor amiga.

Como toda segunda-feira, ela estava com sua cara mal-humorada de quem não havia dormido direito. Seus cabelos longos e ruivos estavam todos bagunçados, seus olhos castanhos estavam cansados e com enormes olheiras, disfarçados com corretivo. Estava tomando um café duplo, extra forte, que era a única coisa que conseguia mantê-la acordada.

– Bom dia. — eu disse.

– Não há nada de bom quando o dia é segunda-feira, e você sabe disso. — disse ela, em seguida bebeu um gole de seu café.

– E eu também sei que não há nada de bom em você, quando o dia é segunda-feira.

– Ei, calada. — disse ela, rindo. — Venha, vamos logo, ou chegaremos atrasadas naquela prisão que chamam de escola.

Grace e eu morávamos perto da escola, por isso, sempre íamos juntas a pé. Eram apenas 10 minutos até chegar à escola, mas às vezes nos perdíamos em nossas conversas, e perdíamos a noção do tempo. Durante o caminho todo, fomos tagarelando como sempre. Falávamos sobre tudo e nada, ao mesmo tempo.

Chegamos a nossa escola, a Red Fox High School, segundos antes de o sinal tocar.

O primeiro tempo era uma de minhas matérias favoritas: literatura. Quando Grace e eu chegamos à sala, nosso professor, o Sr. Harrison, estava escrevendo o tema da aula no quadro. Sentamos-nos, e quando lemos o tema sorrimos, pois era o tema que líamos desde crianças: FANTASIA.

O professor fez a chamada, e depois se levantou e começou a falar sobre o tema.

– Bem classe, como podem ver, o tema da semana é fantasia. — disse o Sr. Harrison. — Discutiremos o tema e faremos trabalhos sobre o assunto. Então, quem gostaria de começar?

Fantasia era o meu tema favorito dos livros. Vários livros deste tema me deixaram acordada até altas horas da noite. Eu aprendi a ler sozinha, quando ainda era muito pequena. Depois ensinei Clara. Nunca ninguém entendeu essa minha estranha habilidade. Nem eu mesma entendia. Mas para mim, desde sempre, ler é fácil como respirar. Ler e escrever. Escrever pequenos contos me ajudou na terapia. Eu chegava a sonhar com eles. Vez ou outra ainda tenho alguns daqueles sonhos. Sonhos sobre a terra fictícia de minha autoria, Somnia.

Falar sobre fantasia era fácil para mim. Imediatamente levantei a mão.

– Diga-nos, Srta. Storm, o que é fantasia para você?

– Fantasia para mim, é uma espécie de viajem. Quando leio algum livro deste tema, é como se ele me tele transportasse para um mundo completamente novo. A fantasia nos tira da realidade que enfrentamos todos os dias, para uma espécie de refugio. Podemos criar nosso próprio mundo de mágica.

– E por que você acha que a sociedade encara a fantasia e imaginação, de uma maneira tão fria? Quer dizer, há poucas pessoas que possuem uma imaginação produtiva. Por quê?

– Muitas pessoas têm medo. Medo de se perderem na imaginação, e esquecerem o caminho de volta para a realidade. É difícil ter a cabeça nas nuvens, e os pés presos ao chão. Mas a criatividade e imaginação estão presentes na sociedade, mesmo que muitos não percebam. Como os filmes, livros, seriados e até mesmo comerciais se sabão em pó. A imaginação é uma poderosa arma.

– Ótimas palavras, Srta. Storm. Mais alguém gostaria de comentar?

– Eu gostaria. — disse Mark Logan, um garoto que sempre sentava no fundo da sala e não falava muito.

– Pois bem, Sr. Logan, diga-nos sua opinião.

– Como é o mundo de mágica para cada um de nós? Quer dizer, temos um mundo diferente, certo? Não acreditamos nas mesmas coisas, não gostamos das mesmas coisas... Cada um de nós tem sua própria realidade, e sua própria fantasia. Então, como a sociedade pode nos julgar, sem saber direito como pensamos?

Fiquei surpresa com Mark. Para um garoto, cujo nem sempre ouvíamos a voz, ele teve uma ótima opinião.

– É uma ótima colocação, Mark. E este vai ser nosso primeiro trabalho. Quero que vocês criem sua própria história de fantasia. Não precisa ser um livro completo, pode ser uma redação sobre o que é fantasia para vocês. Mas, não vão escrever apenas uma linha, quero que se dediquem o.k.?

– O.K., Sr. Harrison. — dissemos em uníssono, com um tom de voz completamente desanimado.

O Sr. Harrison ainda sugeriu alguns contos que poderiam nos ajudar a criar nossas histórias. Logo após isso, o sinal tocou, e todos nos dirigimos à porta para a próxima aula: matemática.

A Sra. Morgan, professora de matemática, estava fazendo a chamada, quando novamente minha visão começou a ficar turva. Minha cabeça balançava e parecia que meu corpo estava ficando mole, como se meus ossos estivessem virando papel.

Abaixei minha cabeça para ver se parava, mas acabei apagando por alguns segundos, como se todos em minha volta houvessem sumindo. Ouvi apenas quando a Sra. Morgan gritou comigo.

– Allyra Storm, você está dormindo na minha aula?!

– O quê? — levantei rapidamente — Não eu não estava dormindo...

– Oh Cristo, o que aconteceu com você? Você está bem?

– Sim, estou bem, por...

– Seu nariz está sangrando! — gritou Grace, desesperada.

– O quê?! — Passei a mão em meu nariz, e meus dedos ficaram cobertos de sangue.

Olhei para a Srta. Morgan, e pude jurar que vi um vulto preto passando atrás dela. Foi uma fração de segundo. Entrou pela porta e saiu pela janela.

– Vá para a enfermaria. — disse ela.

– Eu vou com você. — disse Grace.

– Não, não precisa. Eu vou sozinha. — Me levantei da carteira, com a mão no nariz para conter o sangramento.

Fui em direção à enfermaria, que ficava no último andar, perto da secretaria. Fui andando depressa pelos corredores, cobrindo meu nariz com a mão direita, mas eu podia sentir o sangue escorrendo entre os dedos. Os alunos que estavam nos corredores me olhavam assustados, sem saber o que fazer. Apenas me olhavam com espanto, davam caminho, e quando eu saia de vista, cochichavam entre si.

A enfermeira ficou espantada quando viu meu nariz coberto de sangue. E não sabia o motivo do sangramento. E o que era aquela sombra? E acho que eu fui a única que havia visto. Provavelmente era por causa de minha tontura. Uma ilusão...

– Meu Deus, o que aconteceu com você?

– Não sei. Estava na aula, comecei a ficar tonta, e quando percebi, meu nariz estava sangrando.

– Venha, sente-se aqui. — disse ela, dirigindo-me a uma maca.

Ela limpou o sangue de meu nariz com lenço umedecido. Depois, aproximou-se para examiná-lo.

– Você caiu? Bateu com a cabeça? Levou uma bolada?

– Eu tropecei e caí esta manhã, mas não bati a cabeça.

– Você tem algum tipo de alergia?

– Não.

– E essa sua tontura, é frequente?

– Ultimamente, sim. Mas os médicos disseram que seria normal após o acidente.

– Bem, não há sinal de corte. — disse ela, examinando meu nariz com uma lanterninha. — Provavelmente uma das veias de seu nariz estourou. Isso é normal. Mas essa sua tontura pode ser preocupante. Se continuar, acho melhor você procurar um médico, mesmo eles tendo dito ser normal. Pode voltar para a classe, mas é melhor você evitar a educação física. Vou lhe dar um atestado.

– O.K., obrigado. — Ela me deu um pedaço de gaze, caso o sangramento voltasse, e foi preencher o atestado.

Fiquei feliz por conseguir me livrar da educação física, que era a matéria que eu realmente tentava evitar. Clara era o oposto. Ela era a parte atlética da família. Não nasci para os esportes. O professor, Sr. Collins, não ficaria nada feliz com isso, mas agora, eu tinha um atestado.

Como havia caído um pouco de sangue em minha blusa, fui até meu armário para pegar uma muda de roupa, e guardei meu atestado dentro de um caderno.

Quando peguei a blusa no armário, um bilhete caiu no chão. Ajuntei-o, e li.

"É bom saber que há crença em mágica dentro de você."

Não fazia a mínima ideia de quem poderia ter escrito aquele bilhete. Não havia nenhum nome. Será que poderia ter sido um engano? Provavelmente não. Deve ter relação com meu "discurso" na aula de literatura. Poderia ter sido o Sr. Harrison, por ter gostado de minha participação na aula. Perguntaria para ele depois.

Fui para o banheiro, para trocar de blusa. Não havia ninguém no banheiro e tirei lentamente a gaze do nariz, para ver se continuava sangrando. O sangramento havia parado. Havia apenas três gotas de sangue. Limpei novamente, e não havia sangue nenhum. Lavei o pouco de sangue que ainda havia em minhas mãos, e entrei em uma das cabines para me trocar. Troquei de blusa rapidamente e fui novamente a pia, para lavar meu rosto com água fria, quem sabe deixaria minha cabeça mais leve.

Quando liguei a torneira, comecei a ouvir um barulho. Aporta do banheiro havia aberto um pouco. Até então, nada estranho. Essa porta estava com defeito há um tempo. Em seguida, ouvi outro barulho. Uma das portas das cabines estava rangendo. Olhei em volta, mas não havia ninguém. Voltei minha atenção para a pia, mas parecia que o barulho ficava cada vez mais alto. Olhei novamente, e todas as portas estavam se mexendo, lentamente, até que começaram a acelerar. Todas as portas abriram violentamente. Estava saindo um enorme vento de dentro das cabines, uma coisa completamente surreal. Não havia janelas ou correntes de ar no banheiro. O único lugar que por onde poderia entrar ar, era pela porta – que havia se fechado.

O vento me lançou contra as pias. Abaixei-me e usei meus braços para defender meu rosto do violento vendaval.

O sinal do terceiro tempo tocou, e o vento cessou. Levantei-me rapidamente, peguei minha blusa suja e saí correndo o mais rápido que pude. Os corredores estavam movimentados, pelo toque do sinal. Fui até meu armário, guardei a blusa, procurei para ver se encontrava mais algum bilhete, mas não havia nenhum.

Fechei a porta do armário e levei um susto quando vi Grace, me observando com um olhar que dizia o que há com você hoje?

– Você esta bem? O que houve? O que a enfermeira disse? — Ela fez todas as perguntas tão rápido que tropeçava em suas próprias palavras.

– Acalme-se — eu disse, colocando minhas mãos em seus ombros -, eu estou bem, só estava um pouco tonta.

– E seu nariz?

– A enfermeira disse que uma das veias de meu nariz pode ter estourado e que isso acontece. Eu vou ficar bem.

– Você quase me matou de susto.

– Eu quase matei a mim mesma de susto. Uma coisa boa que consegui com isso, foi um atestado que me dispensa da educação física.

– O Sr. Collins vai pirar. — disse ela, com um sorriso maligno.

– Com certeza.

Neste momento, o Sr. Harrison passou ao nosso lado. Peguei rapidamente o bilhete em meu armário e fui correndo para alcançá-lo. Grace veio correndo junto comigo.

– Espere Sr. Harrison!

– Em que posso ajudá-la, Srta. Storm?

– Foi o senhor que me mandou este bilhete? — eu disse, tentando recuperar o fôlego de ter corrido.

Grace também havia corrido atrás de mim, e estava do outro lado do corredor, apoiada nos armários, em busca de ar.

O Sr. Harrison pegou o bilhete de minhas mãos e uma expressão confusa apareceu em seu rosto.

– Não, não fui eu. Quem sabe foi alguém que gostou de seus comentários na aula.

– Por esse motivo, achei que fosse o senhor. Mas tudo bem, desculpe incomodá-lo.

– Sem problemas. — E ele seguiu pelo corredor.

Ao meu lado, Grace lutava para conseguir recuperar o fôlego. Ela também não fazia o gênero atleta.

– O que foi isso? — perguntou ela, ofegando. — Sair correndo do nada?

– Você não precisava ter corrido também.

– Você não vê filmes? Sempre que você ver alguém correndo, corra também, ou você acaba sendo pisoteado por uma manada de elefantes.

– Ótima filosofia de vida. — eu disse com um tom zombeiro.

– E que bilhete é esse? — Entreguei-lhe o bilhete. Ela leu e também ficou confusa.

- De quem é?

– Não sei. Eu encontrei em meu armário. Seja lá de quem for não é importante.

Peguei o bilhete das mãos dela e joguei-o no lixo. Fui até meu armário pegar o atestado. Como não ia fazer nada na educação física, peguei meu celular e meus fones de ouvido, e botei-os no bolso traseiro da calça.

– Venha, vamos ver qual será a reação do Sr. Collins.

Chegamos ao ginásio e as garotas já estavam se aquecendo para o jogo de vôlei. Antes do jogo, o professor pedia pra darmos três voltas na quadra. Como sempre ele estava apitando e berrando para as alunas irem mais rápido.

Quando ele nos viu, uma expressão furiosa invadiu seu rosto. Ele veio em nossa direção, apitando feito uma locomotiva.

– Estão atrasadas, meninas. Tratem de se trocar e preparem-se para o jogo.

– Na verdade, Sr. Collins, estou dispensada da aula de hoje. — disse, entregando-lhe o atestado.

– Eu não acredito nisso! — exclamou ele, cada vez mais furioso — Tudo bem Storm, você está liberada. E você, Grace Taylor, corra já para o vestiário. Quero ver você na quadra em um minuto.

– Sim, senhor! — gritou ela, fazendo continência. Logo em seguida, foi correndo para o vestiário.

Fui me sentar na arquibancada. Tirei meu celular e meus fones de ouvido do bolso da calça.

Quando coloquei os fones e a música para tocar, comecei a ouvir um ensurdecedor zumbido. Imediatamente tirei os fones, mas o zumbido continuou. Eu tampava os ouvidos com as mãos para abafar o som, mas não adiantava. Sentia minha cabeça ficando pesada, como se alguém ou alguma coisa estivesse apertando-a e empurrando-a para baixo.

O zumbido continuou até que pude ouvir uma voz. Era a mesma voz que chamara meu nome esta manhã. A voz disse: sentiu minha falta? Eu senti a sua. Depois disso, o zumbido parou. Olhei em volta, mas não havia ninguém. Até que vi um vulto preto — o mesmo da aula de matemática — sair pela porta do ginásio. Novamente, eu fui a única a ver.

O que estava acontecendo comigo hoje?

Até o final da educação física, permaneci sentada na arquibancada, completamente imóvel.

Quando o sinal bateu, esperei Grace se trocar, e depois fomos para o refeitório. Já era hora do almoço. Pegamos nossa comida, e nos sentamos à mesa de sempre, onde só nós duas sentávamos. Grace estava falando sobre alguma coisa, mas não consegui prestar atenção. Não parava de pensar sobre o que acontecera no ginásio. Aliás, sobre o que acontecera o dia todo. Será que eu estava doente? Não era normal essa tontura e dores, muito menos sangue...

Meus pensamentos foram interrompidos quando Grace jogou uma uva em minha testa, para chamar minha atenção.

– Ai! — reclamei.

– Você não ouviu nenhuma palavra do que eu disse, não é?

– Desculpe Grace. Não sei o que está acontecendo comigo hoje.

– Você precisa de descanso. É segunda-feira, você não está raciocinado direito.

– É de repente estou cansada...

Depois do almoço, tivemos biologia, física e química, depois estávamos liberados.

Assim que chagamos na rua da casa de Grace, nos despedimos e eu fui para minha casa. Mal podia esperar para me jogar em minha cama, e tentar raciocinar o que havia acontecido hoje.

Cheguei em casa, subi para o meu quarto, guardei minha mochila e desci novamente, para a sala de estar.

Percebi que em cima da mesinha de centro, havia um bilhete. Era de minha mãe.

"Querida, seu pai e eu teremos um julgamento em East Point.

Voltaremos quarta-feira, à noite. Sei que você não sabe cozinhar, então, há dinheiro em cima da bancada da cozinha, peça pizza, comida chinesa...

Não convide estranhos para entrar, tranque bem as portas, não fique até tarde na rua, nada de festas nem de garotos em casa.

Se cuide. Qualquer emergência ligue para nós.

Amor, mamãe e papai."

Meus pais eram advogados. Eram os melhores de Atlanta, por isso, na maioria das vezes, os dois eram contratados juntos.

Fui até a cozinha. Como minha mãe havia dito, ela deixou dinheiro em cima da bancada. Cem dólares em notas de 20 e 50.

Estava com sede, então, fui pegar uma lata de Coca-Cola na geladeira. Abri a lata, tomei um gole, mas então, me afoguei e comecei a tossir. Não conseguia parar de tossir. Parecia que havia alguma coisa sufocando minha garganta, mas por mais que eu tossisse não saia. Cobri minha boca com a mão, mas continuava tossindo. Quando olhei minha mão, havia um líquido vermelho escorrendo entre meus dedos. Sangue.

Dei três passos para trás, me apoiando na bancada da cozinha. Ficava encarando minha mão, com um olhar de espanto. Fechei os olhos, respirei fundo, contei até três para me acalmar, e abri os olhos novamente. O mais estranho foi que, quando eu abri os olhos, não havia mais sangue. Aquilo me assustou. Há apenas alguns segundos, minha mão estava coberta de sangue, e agora, parecia que havia evaporado. Primeiro meu nariz, e agora minha boca? Quer dizer, será que havia mesmo saído sangue de minha boca?

Fui correndo para a pia da cozinha, abri a torneira, enchi a boca de água e bochechei. Quando cuspi a água na pia, não havia sangue nenhum. Melhor assim, pensei.

Terminei minha bebida, escovei os dentes, e fui para o consultório da minha terapeuta. O consultório era no centro da cidade. Era um longo caminho andando, pois eu nunca entrara em nenhum veículo motorizado após o acidente. Após uma longa andada sob o sol de Atlanta, cheguei ao consultório.

- Olá, Dra. Montgomery.

- Olá, Allyra. Por favor, sente-se.

Fui em direção à poltrona e me sentei.

- Deseja algo? Café, água...

- Água, por favor.

A Dra. Montgomery entregou-me um copo d’água. Tomei um gole, e então começamos a sessão.

- Então, Allyra, como tem se sentido ultimamente?

- Eu diria que estou melhorando. Eu ainda sinto muita falta da minha irmã. Sinto que sentirei falta dela para sempre. Mas está começando a se tornar uma dor com a qual eu consigo viver.

- Bem, isso é um progresso. – disse ela, anotando tudo em seu bloquinho. – E aqueles sonhos que você costumava ter? Os sonhos sobre... Somnia, estou certa?

- Isso mesmo. – confirmei. — Bem, eu os tenho algumas vezes ainda.

- Nesses sonhos, você vê sua irmã?

- Não. Ela está lá, eles me falam sobre ela, mas eu não a vejo. Ela está em um lugar mais distante.

- Você disse “eles”. E quem são “eles”, Allyra?

- Bem, eu não conheço nenhum dos rostos que vejo nos sonhos, mas eles são boas pessoas. São amigos.

- Entendi. E na vida real, tem algo desses sonhos interferindo na sua vida, ou algo que te faça sentir que possa fazer parte?

- Normalmente. Não. Mas hoje, coisas muito estranhas aconteceram.

- Que coisas?

- Bem, eu tenho visto um vulto, que passa muito rápido diante de meus olhos. Eu o vi na sala de aula, no banheiro, e no ginásio.

- Esse vulto que você fala, ele está aqui agora?

- Não, ele nunca fica parado. Como eu disse, passa rapidamente diante de meus olhos.

- E como é esse vulto? Tem uma forma física?

- Não, é como se fosse uma sombra.

- E essa sombra fala com você?

- Bem, eu não tenho certeza se tem ligação com a sombra, mas eu ouvi uma voz, uma voz masculina, falando comigo.

- E o que essa voz diz?

- Ela chamou meu nome algumas vezes. E teve um momento em que disse “Sentiu minha falta? Eu senti a sua”.

A Dra. Montgomery começou a fazer várias anotações no bloquinho dela. Senti-me meio angustiada, sinto que falei demais. Mas se eu não contasse para a doutora, não contaria para ninguém. E ela é psicóloga, essa é a função dela. Porém, não contei sobre as portas do banheiro, e nem sobre o sangue desaparecendo, porque isso era loucura demais.

- Bem, Allyra, eu diria que está tudo bem. Acho que esse vulto que você vê foi criado pelo estresse pós-traumático. Você sente falta da sua irmã, e esse vulto disse sentir sua falta. Você está se colocando no lugar de sua irmã, como seria se ela estivesse viva e você não. Esse é o fantasma da solidão, um vazio, que aparece de vez em quando. Ele não lhe disse nada que se torne alarmante para mim, então, está tudo bem.

- Que bom, fico mais aliviada. – respondi à doutora. – Acabamos por hoje?

- Antes de acabarmos, gostaria saber sobre sua aversão a veículos motorizados. Você tem andado em algum após o acidente?

- Não, ainda é muito difícil para mim.

- Tudo bem, vamos indo com calma. — disse a doutora, dando um sorriso reconfortante. – Acabamos por hoje.

- Obrigada, doutora.

- Por nada, querida. Vemos-nos semana que vem.

Deixei o consultório e me dirigi para casa. O que a Dra. Montgomery me disse me acalmou, mas não por completo. Algo dentro de mim me dizia que havia algo a mais. Enfim, vou deixar isso de lado por enquanto, antes q eu acabe enlouquecendo.

Notas finais
Então, o que acharam? Deixem seus comentários nos reviews. Espero que tenham gostado, e vejo vocês sexta-feira.
Até :*