I Love You Like I Didnt Yesterday
20 Capítulo 20
Notas iniciais
Boa leitura *-*
Eu não sabia dizer se era bom ou ruim que não tivéssemos show naquela noite. A vantagem é que eu ainda teria um dia para me recuperar do que acontecera antes de me apresentar, e a desvantagem é que eu ficaria confinado em um ônibus com Gerard, Ray e Mikey se atacando verbalmente sempre que podiam e Bob tentando continuamente instaurar a paz.
Fiquei no meu quarto, com a cama abarrotada de salgadinhos e doces, durante o resto do dia e a maior parte do dia seguinte. Assim que estacionamos no novo local, Gerard correu para fora — com certeza indo atrás da Lyn-z — e só voltou dez minutos antes de subirmos ao palco a noite. Eu já estava esperando que ele não viesse, mas ele é muito profissional para simplesmente dar para trás assim. E não esqueceu, como percebi logo, de escrever mais uma coisa no pescoço para sua amada noiva.
Não nos falamos e, no decorrer do show, deixei toda a raiva e tristeza reprimida deslizarem pelos meus dedos. Achei que talvez a ideia do Bob até estivesse dando certo... Mas me enganei.
Em certo momento, ajoelhado na frente do palco, eu vi Gerard me contornando para ir para outro lado, dando uma volta exageradamente grande para não passar perto de mim. Não sei porque, mas aquilo me causou uma pequena explosão de fúria. Então agora ele não queria chegar perto? Ele me come e depois eu viro uma coisa repugnante da qual ele tem que passar longe, é isso?
Assim que ele parou de andar, eu me levantei. Subi em um amplificador e me joguei sobre ele, com força, quase o derrubando.
— Que você tá fazendo? — ele perguntou num grito, o microfone longe de sua boca por minha causa.
— Não quer mais, querido? — respondi, irônico, também gritando, empurrando-o.
Ele me agarrou pelos braços, não sei para quê, se para me afastar ou me puxar. Só sei que também o agarrei e nós dois começamos a nos empurrar pelo palco, nossas unhas nos perfurando, enquanto Ray, Mikey e Bob terminavam a música.
Nós aplicamos cada vez mais força nos braços, um tentando fazer o outro cair, até que, em uma repentina consciência de que estávamos no meio de um show, eu afrouxei o aperto e ele conseguiu me jogar longe, talvez com mais força do que pretendesse. Dei uma cambalhota no impacto e parei ajoelhado, minha guitarra caída à minha frente. Inspirei fundo, tentando voltar a um estado normal. Ainda estávamos no meio de um show.
Percebi que Ray, próximo a Gerard, trocava olhares com Mikey, que estava bem ao meu lado. A mensagem que passaram silenciosamente um ao outro pareceu flutuar pelo ar: “Eu não toco no seu se você não tocar no meu”. Ah, queria que Mikey tentasse alguma coisa comigo... Mas ele não tentaria, eu sabia.
Ray se afastou, eu me levantei e Gerard, claramente ainda com raiva, pegou uma latinha vazia do chão e atirou na minha direção, sem me acertar. Vi seus lábios murmurarem “idiota”. Quase fui para cima dele de novo. Mas o bom-senso pareceu atingir a todos nós ao mesmo tempo, e não fizemos mais nada estúpido até voltarmos para o ônibus. Lá, Ray e Mikey explodiram, querendo saber o que aconteceu, e até o pacífico Bob parecia querer nos estrangular.
— Na frente de todo mundo! — Bob quase gritava. — Não dava pra segurar pra depois, não?
— Você que disse pra soltarmos a raiva no palco, Bob — não resisti ao comentário.
Ele bufou e me mostrou o dedo do meio.
— Foi ele que começou — Gerard se defendeu.
— É, fui eu — falei antes que Ray voltasse a gritar, porque cara, ele realmente está parecido com a Jamia. — E você só está inteiro porque eu me toquei que tinha de parar.
— E eu não? — ele rebateu. — Acha que eu não conseguiria acabar com você se eu quisesse?
— Então prove — eu disse, abrindo os braços em um gesto de ameaça. — Se você é tão bom assim, Gerard, acaba comigo. Acaba comigo por fora, já que você já terminou o serviço por dentro.
Ele se calou. Pela sua cara, o que eu falei foi melhor do que se tivesse lhe dado um soco. Dei um sorrisinho azedo e o empurrei para ir para minha cama.
— Foi o que eu pensei — rosnei ao passar.
Tentei dormir, pensando que Gerard merecia muito mais do que o que eu o fiz sentir. Mas o problema é que eu não queria brigar com ele de verdade. Lembranças começavam a me assombrar, de quando éramos apenas amigos, melhores amigos, de quando uma briga como essa estava fora do nosso alcance. Nunca fomos dormir brigados; sabíamos muito bem que isso poderia ser péssimo depois. Fazíamos as pazes, ríamos de nós mesmos e passávamos a noite bebendo ou jogando video-game com Mikey. Mas agora, eu sabia que ele não apareceria no meu quarto de repente para fazer as pazes. Não chegaria barulhento, dizendo “Já deu, né, Frankie? Levanta essa bunda daí e vamos sair”.
Não, ele não seria o meu melhor amigo agora. A coisa que eu mais temia que acontecesse. Por isso, não tive como dormir tranquilamente. E algo me dizia que não teria uma boa noite de sono em algum tempo.
————
A turnê continuou sem maiores problemas, brigas ou assassinatos, apesar do clima às vezes parecer muito propício a isso. Eu e Gerard começamos a nos tratar muito friamente, fazendo um belo teatro em público, mas ainda assim sem nos falar mais do que era necessário. Para falar a verdade, também era um teatro o fato de nos tratarmos assim; nenhum de nós queria continuar com isso, dava para ver. Mas uma coisinha chamada “orgulho” ergueu muros bem altos ao nosso redor. É claro que Ray me apoiou no começo, mas até ele ficou exasperado depois. Ele esperou que eu quisesse distância de verdade de Gerard, não que eu só fingisse isso. E eu fingia bem... na maior parte do tempo.
Em alguns dias, éramos chamados para pequenas entrevistas sobre o Projekt, e não tinha como negarmos. Na mesma semana em que brigamos, estivemos em uma rádio com fãs na platéia. Era acolhedor, não tinha como não ser. Eu me sentia muito bem e leve ali, sentadinho no meu canto. Até uma fã decidir pedir para Gerard me beijar de novo, como fizera no show de sábado. Eu senti meu rosto queimar e, enquanto Gerard respondia — muito rápida e nervosamente, na minha opinião — que não repetiria o beijo e que aquilo não era uma coisa comum, comecei a rir timidamente, sem querer. Ri mais nervoso ainda quando Gerard decidiu entrar na onda do pessoal e dizer que sentiu mágica e fogos de artifício naquela noite. Será que era verdade? Ah, droga, não importa, eu não preciso saber disso. Mas eu ainda estava corado, não estava? E eles tinham câmeras. Que beleza.
Bem, além desses momentos em que meus muros eram momentaneamente abaixados, eu conseguia conservar o tom gélido ao me dirigir a ele, e vice-versa. Ele começou a passar mais tempo ainda — se é que isso era possível — com o Mindless Self Indulgence. Acho que era mais fácil se eu pensasse que ele estava com a banda, e não sozinho com ela. Eu ficava enfiado no ônibus, assistindo televisão, lendo, mexendo no laptop, conversando com a Jamia por telefone — depois do primeiro surto e depois que a pedi, ela fez a gentileza de não mencionar o Gerard —, enfim, fiz tudo para me distrair.
— Você sabe que ele só está fugindo para a Lyn-z toda hora porque vocês estão brigados — Mikey me falou, certa vez. Eu dei de ombros.
Conforme o fim da turnê se aproximava, a data do casamento do infeliz também. Ele comunicou rapidamente a todos nós que se casaria no último dia do Projekt. Eu dei um “parabéns” amargo e sarcástico e não falei mais nada.
— Realmente, Fran — Bob decidiu se intrometer também, mais tarde. — Quem está sendo meio burro agora é você. Se você tentasse falar com ele, talvez ele desistisse do casa-
— Não. Eu não vou fazer nada. Se ele quiser, ele que venha atrás.
Bob revirou os olhos e passou a vez para Ray. Eu estava ficando irritado. Será que, por uma vez, podiam parar de querer decidir as coisas por mim?
— Olha, Frank — Ray começou. — Eu acho que você está certíssimo em tratar o Gerard assim, mas... Tá na cara que não é de verdade. Vocês estão parecendo duas crianças birrentas.
Dei de ombros para ele também.
— Tá vendo? — ele prosseguiu. — É puramente uma batalha de egos. Não quer parar com isso e tentar voltar ao normal? Afinal, vocês ainda são amigos...
Eu o fulminei com o olhar.
— ... ou não. Mas deveriam ser. Vocês deviam estar pelo menos fazendo força pra ficarem bem. Desse jeito nem você está feliz sozinho nem ele com a Lindsey.
— Quem disse? Ele está feliz da vida com ela.
Ray riu.
— Você vai se enganar até quando?
Bufei e virei o rosto. Eles eram todos idiotas. É claro que Gerard não me amava, é claro que ele estava feliz com a Lyn-z... Não é? Ele não me queria mais, nunca me quis de verdade. Não é? Ah, como se perguntar para mim mesmo fosse resolver a questão.
Mas sobre uma coisa eles estavam certos: aquilo estava me matando. Meu travesseiro sabia bem disso, molhado quase toda noite. Assim que eu fechava os olhos, pensava em Gerard. Começava lembrando da noite em que ficamos juntos, tentando absorver de volta cada detalhe... Depois ficava amargurado com a lembrança do dia seguinte. Mas, depois, a dor imensa da saudade me assolava. A distância que estávamos nos dando mentalmente era tão ruim que quase parecia física. Eu não sabia como faria quando voltássemos para casa, quando, além de tudo, eu não pudesse, ao menos, ver seu rosto todo dia...
Mas, quando acordado, eu afugentava todos esses pensamentos, empinava o nariz e o ignorava solenemente enquanto podia. Vencer o ego de uma pessoa magoada é difícil, e quando essa pessoa sou eu, isso se torna quase impossível.
Então continuamos assim. Dia após dia, show após show. E o fim da turnê inevitavelmente chegou. E, junto com ele, o casamento. Que porra de destino para fazer eles acharem um ministro no meio da bagunça toda que é um festival, não?
Eu estava na cama, encarando o teto depois do último show, quando Ray entrou.
— Fran, o casamento é em uma hora. Você...
— Eu não vou.
— Sim, claro. Mas... — ele pareceu muito envergonhado. — Eu...
— Você pode ir, Ray.
— Eu não queria ir, mesmo, mas Bob achou que já seria muito ruim que você não fosse, e Mikey me pediu de um jeito que parecia que era a única forma de nós voltarmos a ficar realmente bem, e eu não quero ficar mal com o Mikey, sabe, ele só estava protegendo o irmão, no fim das contas, e...
— Ray. Eu já disse que você pode ir. Não vou ficar chateado.
Ele assentiu rapidamente e saiu do quarto. Eu voltei a encarar o teto.
Eu poderia ir. Era ali perto, em um canto do pátio dos ônibus, uma coisa pequena, digna de casamento de backstage. Eu poderia aparecer de repente e gritar que o noivo transara comigo, dando risadas maldosas com as caras de todos. Poderia chegar e beijá-lo quando ouvisse “pode beijar a noiva”. Poderia chegar me declarando, romântico e clichê, mas aí ele me rejeitaria de novo e eu ficaria com a cara no chão. Melhor me ater ás duas primeiras opções.
Mas eu não fui. Naquela segunda-feira quente de verão, eu simplesmente encarei o teto e esperei a hora em que voltaríamos para casa. O que mais eu poderia fazer? Nada parecia ter sentido. Nada.
———
Então nós tínhamos voltado. Estávamos em New Jersey de novo, em nossas acolhedoras casas. Eu e Gerard mal trocamos duas palavras, e a saudade, a dor e a raiva apertaram esmagadoramente meu coração quando nos despedimos com acenos rápidos. Ray, Bob e Mikey vieram cochichando atrás de nós, mas não me dei ao trabalho de descobrir o que falavam. Devia ser mais uma daquelas conversas de “eles estão fazendo tudo errado”.
Passei a terça e a quarta com Jamia, às vezes triste e às vezes a usando como coro para xingar o Gerard. Nesses dias, soltei furiosamente tudo que estava guardando de rancor. A cada hora, eu ficava mais bravo com Gerard, apesar de ele nem estar presente. Na verdade, acho que isso só piorou a situação.
Na quinta, fiquei com Ray, na minha casa. Ele me pareceu estranhamente evasivo nos meus ataques de fúria anti-Gerard. Acho que já estava passando tempo demais com Mikey e sendo convencido de que “o pobre do Gerard também está sofrendo”. Isso não ajudou no meu mau-humor geral. Fui dormir novamente emburrado naquela noite, no que estava sendo a pior semana da minha vida.
Mas acordei com o telefone em algumas horas. Levantei-me sonolento, vendo rapidamente o relógio na escrivaninha. Quatro e pouco da manhã. Quem era o imbecil me ligando às...
— Frank?! — Bob falava. A nota de pânico em sua voz me despertou instantaneamente.
— Que foi?
— É o Gerard. Ele... ele sofreu um acidente.
Notas finais
Magic and fireworks - http://www.youtube.com/watch?v=_66elKndKk4
Eu vi as datas do Projekt de 2007 e, além do dia seguinte do show em que o Frank "aproveita" o Gee realmente ser um dia de folga, o casamento do Gee e da Lyn-z foi mesmo numa segunda. E essa briga também foi durante essa turnê. Tá tudo conspirando a favor da fic @__@
A parte ruim disso é que, é, ele se casou '-'
Não me matem de novo e beijos :*
Fale com o autor