I Love You Like I Didnt Yesterday
16 Capítulo 16
Notas iniciais
;)
Os primeiros shows foram normais, mas eu estava certo ao prever a intensidade da turnê. Não sei se era o clima, as viagens, a música ou o diabo a quatro, mas a situação entre eu e Gerard estava ficando cada vez mais... complexa.
Eu estava tentando agir naturalmente. Juro. Mas existia uma tensão no ar crescendo gradualmente, e não só nós dois a sentíamos. Bob era o único que ainda não entendia, mas ele cansou de perguntar e simplesmente passou a observar, e estava na cara, também, não é? Eu e Ray passamos a discutir a situação periodicamente, parecendo exatamente aquele tipo de amiguinhas com segredos. O interessante é que Gerard ficou assim com Mikey também. De alguma forma estranha, nós nos separamos em duas duplas... e Bob no meio. Ele devia dar graças a Deus por não saber de nada.
A questão, de forma geral, era meio básica: a tensão era sexual entre nós dois. Pudera; nós praticamente falamos que queríamos nos comer. E, não sei quanto a ele, mas eu estava sofrendo horrores com uma seca que já durava mais de dois meses.
— Realmente, Frank, não sei porque você simplesmente não entra no quarto dele e... — Ray começou, certo dia, enquanto me ouvia reclamar da minha abstinência forçada pela milésima vez.
— Não dá, Ray — eu o cortei. — Não vou ser só uma foda casual pra ele. Não adianta. Como você acha que eu ficaria, no dia seguinte, sabendo que ele não me quer mais? Como eu ia olhar pra ele todo dia?
— É, eu sei, eu sei... Então arruma alguém, tem um monte de gente pagando um pau pra você.
Eu dei de ombros. É claro que tinha, e eu não sabia porque ainda não tinha feito isso. Fiquei pensando, quem sabe, se eu conseguisse alguém ligeiramente parecido com Gerard... Os cabelos, se fossem iguais, eu poderia colocá-lo de costas... Ah, o que eu estou pensando? Eu não conseguiria fazer isso. Parecia que meu corpo só queria responder ao do Gerard.
Por isso, a tensão foi crescendo, e acho que nós dois entendemos o porque precisávamos fazer o que fizemos no palco nos shows seguintes. Gerard também sentia aquilo, e em uma bela noite ele decidiu perguntar de uma vez se eu queria fazer o “frerard” para os fãs de novo. E eu diria não?
Talvez as coisas continuassem assim, meio boas, meio ruins, até voltarmos para casa. Eu acreditei nisso a princípio. Mas eu não contava com um certo detalhe, e acho que ninguém o imaginou, um detalhezinho de cabelos pretos, maria-chiquinha e tatuagens.
Lyn-z.
Achei que estava sendo paranóico quando começou, mas eu só estava prevendo o perigo. É claro que Gerard quis encontrar com o Mindless assim que tivéssemos a oportunidade, e ninguém se opôs a isso. Já os havíamos conhecido, mas muito brevemente, e seria bom vê-los de novo.
Entre a correria geral que fica nesses festivais, com pessoal da equipe para todo lado, conseguimos parar a Lyn-z e o Steve no espaço entre a produção pessoal de cada banda e começamos a conversar sobre qualquer coisa.
— A gente já tinha se conhecido lá pra 2003 ou 2004, lembra? — Gerard perguntou.
— Lembro, não dá pra esquecer vocês fácil — Lindsey respondeu com uma risadinha simpática.
Falamos mais um pouco e, ao nos despedirmos, Gerard decidiu ir com Lindsey tomar um café e continuar a conversa. Nenhum de nós se importou.
Então, depois do show daquela noite, ele sumiu. Só Mikey soube que ele fora se encontrar com Lyn-z de novo.
E depois, de novo. E de novo, e de novo, e de novo.
Acho que a pior merda nisso é que, quando eu e ele ficávamos sozinhos, a tensão sexual continuava presente. E no palco, continuamos com as brincadeiras, ainda que leves. Eu, sinceramente, não estava entendendo qual era a dele. Ray também parecia não entender, e me acompanhava com energia quando eu decidia xingá-lo um pouco. Já Mikey parecia estranhamente feliz com a aproximação do irmão com a baixista. Bob foi mais esperto e se manteve quieto, cauteloso.
Gerard começou a falar bastante dela. Ele era o único que não via a minha cara quando fazia isso — já que todos os outros me olhavam ou com medo ou com pena —, e por isso não parou de fazer. Lindsey isso, Lindsey aquilo. Ela é demais. Sabia que ela desenha? Ela tem uma ótima performance ao vivo. As tatuagens dela são lindas. Ela é linda.
Eu estava ficando louco.
O ciúme crescia em mim como uma erva daninha. Eu o escondia, é claro, mas ficava cada vez mais difícil.
— Ontem a Lindsey me disse...
— Gerard, se você falar dela de novo, duas bandas vão perder um membro cada hoje a noite.
É, eu disse isso. Ele deu risada e continuou a falar.
Ray estava ficando preocupado comigo, e para ajudar, Jamia e minha mãe também não paravam de ligar para perguntar como eu estava. Mas não eram ligações do tipo “Oi, Frank, como tá indo os shows?”. No caso da minha mãe era “Oi, querido, como você está? Não tá triste, não, né? Se você quiser eu dou um jeito de ir aí ficar com você...” e no caso da Jamia era mais para “Como aquele idiota tá te tratando, Fran?”.
E a coisa não estava fácil mesmo. Meu sentimento por ele não se alterara nem um pouco e ele continuava me tratando da mesma forma: amigos quando acompanhados, mudos quando sozinhos. Então ele ainda sentia a mesma coisa. O que eu devia entender disso, caralho? Quem ele queria, afinal, eu ou ela?
— Os dois — Ray respondeu, quando eu finalmente desabafei essas palavras. Mas ele não parecia contente com isso. Para falar a verdade, ele estava começando a parecer a Jamia. Talvez isso tivesse a ver com o fato dos dois terem virado uma espécie de amigos, mas acho que era mais porque ele se envolveu com a minha visão da história, e estava irritado com Gerard por me fazer sentir tão mal, mesmo que não fosse a intenção.
Só que o negócio só ficou feio mesmo quando as suposições viraram oficiais: Gerard e Lyn-z estavam namorando. E eles ficaram muito felizes em anunciarem sua paixão com mensagens escritas em partes diferentes de seus corpos, nos shows, como uma conversa a distância. Eu via Mikey escrevendo o que Gerard pedia em seu pescoço ou braço no camarim.
Agradeci imensamente por poder ficar tão bem no palco, por conseguir. Mas meu comportamento por trás dele mudou drasticamente.
Parei de vez com as pequenas festas que eram dadas de vez em quando. Só me enfiava no quartinho do ônibus e não saía até a hora do próximo show, onde eu ficava o mais afastado de Gerard quanto era possível. Imagino que balançar a cabeça e jogar o cabelo para frente tenha impedido as pessoas de verem as lágrimas retardatárias que vinham ocasionalmente enquanto eu tocava. Em uma noite eu cogitei a ideia de sair do palco quando I’m Not Okay começou, mas isso só me traria problemas. Então eu engoli o choro com todas as forças que consegui arrumar, e soube que nunca chegaria a descobrir de onde essas forças vieram. “É na batalha que aparecem as armas”, ouvi certa vez. É, acho que deve ser verdade. De que outra forma um coração em pedaços continua batendo?
O tempo que se passou me pareceu uma eternidade. A única coisa que amenizava meu sofrimento, ironicamente, era ver Gerard feliz. Ele viu o que estava acontecendo comigo e ficou claramente mal por causa disso, mas, pelo menos enquanto estava com Lindsey, ele estava feliz. E, de qualquer forma que fosse, ver seu sorriso tão verdadeiro fazia as coisas um pouquinho melhores. Eu aceitara ser só um amigo, não foi? Não tinha do que reclamar.
Então chegou agosto. Passados uns dez dias no mês, eu me peguei pensando em como ainda estávamos em agosto — como assim ainda estamos na metade dessa turnê? Como assim eu ainda não estou perto de morrer? — enquanto me preparava para o show daquele dia. Já fazia dias que eu e Gerard não fazíamos nada no palco, e eu estava agradecido por isso. Não suportaria ficar próximo daquela forma e ter que parar por ali.
Então o dito cujo entrou no camarim. Eu estava vestido, terminando de ajeitar o cabelo. Escolhi uma camiseta que deixasse os ombros de fora e luvas que subiam até acima dos cotovelos. Se não fosse a minha cara desolada, que eu já não preocupava em disfarçar, eu estaria lindo. Mas Gerard pareceu não se importar com esse detalhe. Ele se sentou num sofá próximo e me encarou. Eu o via pelo espelho, mas não precisava; sentia seu olhar em mim, avaliando-me de cima a baixo. Senti meu rosto esquentar e, milagrosamente, o clima triste no qual meu cérebro estava envolto há dias começou a se dissipar.
— Que foi? — perguntei, fingindo ainda me concentrar no cabelo.
— Estou te olhando... — ele falou, pensativo, e seu olhar continuou passeando por mim sem pudor algum.
— Isso eu percebi — falei, um tanto friamente. Eu disse que o clima triste começou a se dissipar.
Ele não pareceu notar. Olhou para o espelho para ver meus olhos antes de continuar a falar.
— Você está bonito.
— Hm — respondi, sentindo meu rosto esquentar um pouco mais. — Valeu.
— Na verdade... — ele prosseguiu, um pouco mais baixo. — você está lindo.
Ele com certeza já notara que eu estava vermelho, mas continuava sério. Eu sorri um pouco, mas estava muito magoado com os últimos acontecimentos para conseguir dar um sorriso sem amargura.
— Hm — repeti. — A Lindsey também acha?
— Acha — ele respondeu prontamente, talvez de propósito para me surpreender. — Se bem que eu não falei com ela hoje.
— Wow, milagres acontecem.
Ele me ignorou, mantendo o olhar faiscante sobre mim. Aquilo já estava me incomodando... De um jeito em que eu também gostava.
— Eu estava pensando hoje — ele falou. — Fiquei pensando sobre nós dois.
— Hm — eu não tinha resposta melhor?
— Mikey já sabe o que aconteceu, você deve ter notado. E hoje ele veio falar de como ele estava feliz por eu ter conseguido superar essa... coisa... que estava entre eu e você.
Fiquei quieto, ainda olhando para ele pelo espelho, e ele continuou.
— Aí eu parei e percebi... que não tinha conseguido. A Lyn-z meio que me bloqueou nesses últimos tempos, e eu não tinha parado pra pensar nisso. Então parei, e pensei, e cheguei a conclusão que...
Ele pareceu perder as palavras. Eu permaneci em silêncio, mas ele estacara. Então me virei, agora com uma aparência mais minha; não corado furiosamente, mas também não com cara de quem está pensando em se matar.
— O quê? — perguntei. — Chegou a conclusão de quê?
Mas ele não respondeu. Ficou me encarando por longos segundos, até que sua boca formou um sorriso no canto dos lábios. Eu não percebera como estava com saudades disso, desse sorriso, safado e brincalhão; e, mais importante, meu. Um sorriso que era para mim.
Meu coração pulou uma batida antes que ele voltasse a falar:
— Faz um favor, Fran?
Eu assenti, temeroso.
— Se solte. Só... faça isso hoje, ok?
Eu o observei, confuso, enquanto ele se levantava e se encaminhava para fora.
— Espera, Gee, qual a conclusão que você chegou? — perguntei.
Ele se virou e piscou, de repente parecendo o Gerard travesso de sempre.
— Até o palco, Frank.
Eu fiquei olhando, pasmo, para a porta que fora fechada. Minha mente e meu coração estavam um nó, e eu não sabia o que fazer. Só saí de verdade daquele estado paralítico quando Bob apareceu para me buscar.
Então eu fui.
Notas finais
Beijos!
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