Notas iniciais
Eu tenho o (às vezes péssimo) costume de enfiar música em todo canto, inclusive goela abaixo de todo mundo. Então, se você estiver a fim, recomendo ouvir essas três para o capítulo ficar mais legal:
http://letras.terra.com.br/the-cure/9294/traducao.html
http://letras.terra.com.br/mindless-self-indulgence/407565/traducao.html
http://letras.terra.com.br/mindless-self-indulgence/26267/traducao.html
Hm, ok. Estou colocando músicas demais nessa fic? .-.
Anyway, espero que gostem!

O caminho para a casa da Jamia pareceu gigantesco. Por um momento achei que fosse sorte o fato de eu sempre deixar alguns CDs — especialmente do The Cure — jogados no carro, mas ouvir "Love Song" não ajudou nem um pouco a melhorar o meu estado atual.

Peguei a cópia que eu tinha da chave da casa e entrei, barulhento. Passei por Ray no corredor, fui para a sala e...

— Ray?! O que você tá fazendo aqui?

Virei-me e olhei o ser na minha frente, que fez uma expressão inocente.

— Te esperando, ué. Você disse que ia falar com a Jamia.

Eu o fitei, desconfiado, mas a pessoa em questão apareceu na mesma hora.

— Ah, até que enfim, Frank! — Jamia falou, vindo até mim e me puxando pela mão.

Fomos para a sala. Eu caminhei meio desatordoado, um pouco chocado e ainda com os olhos vermelhos pelo choro. Jamia já começou a falar:

— Ray me contou o que aconteceu. Eu queria ouvir de você, mas já devia ter esperado isso...

— Mas eu te contei tudo — eu disse, franzindo o cenho.

— Aqueles e-mails vagos não contam, Fran. Mas foram o bastante pra eu entender que você não estava bem. E claro que não estava, ele te deixou lá, largado, depois de fazer aquilo! Não sei como eu consegui não estrangular aquele filho da...

— Calma — Ray a cortou, rindo levemente. — Vamos ouvir o que o Frank tem a dizer. Você e Gerard conversaram, né?

Eu olhei meio assustado para Jamia, mas ela não parecia estar nada além de ansiosa. Antes de fazer o que Ray pedia, porém, eu queria saber uma coisa. Cautelosamente, perguntei:

— O que exatamente você falou com o Gerard?

— Só perguntei porque ele tinha voltado, mais nada.

— Hmm... E por acaso você acha que pode ter soado, hm, talvez um pouco agressiva?

Ela me fuzilou com o olhar e eu me encolhi no sofá.

— Se eu soei agressiva, Fran, foi porque ele foi um completo imbecil. Você devia agradecer por ele ainda ter todos os membros no corpo.

Ray riu. Ele adorava aquilo, idiota.

— Acho que você ainda não entendeu — Jamia continuou. —, totalmente, as condições do nosso acordo. Eu disse que quero você feliz. Essa é a parte importante. E eu não vou ficar quieta se a única pessoa que pode fazer isso não sabe!

Eu sorri. Não tinha como não amar essa mulher.

— Então, conta logo o que vocês dois conversaram.

Eu desatei a falar, contando desde o que eu escrevera no bendito caderno até minha última fala com Gerard. Antes de terminar eu já chorava de novo e Jamia não sabia se explodia ou me consolava.

— Realmente, não tinha ninguém melhor pra você se apaixonar, não? — ela murmurou, abraçando-me de lado. — Tenho certeza que o Ray não teria feito isso...

— O Ray também não teria agarrado um cara no banheiro — o cabeludo falou. —, se me permitem dizer. Mas que seja, o estrago já tá feito. Tem que resolver.

— Você tem razão — Jamia disse, apertando a mão em meu ombro. — Mas eu não vejo muito o que fazer...

— Como não? Frank só precisa tentar mais um pouco, Gerard está praticamente se jogando pra ele!

— Mas ele não pode, Ray! E se for verdade, se para o Ger for só sexual? Aí os dois transam e quem sai magoado depois?

— Mas é óbvio que não é verdade, o Gerard só é muito idiota pra admitir.

— Eu concordo com essa última parte, mas não temos como ter certeza de que ele mentiu. Parece, mas não dá pra saber. E se forem pra cama com só um apaixonado, a amizade deles vai acabar na mesma ho-

— Não — eu a cortei.

Estava olhando de um para o outro, assistindo passivo enquanto eles decidiam o que eu faria da minha vida. Não me importei com isso; não estava com cabeça para decidir por mim mesmo, e o que eles dissessem com certeza seria mais razoável do que o que minha mente abobalhada seria capaz de inventar. Mas as últimas palavras da Jamia me assustaram de um jeito que eu quase pude sentir minha pele empalidecendo.

— Não — repeti. — Nossa amizade não pode acabar.

Os dois olharam para mim com faces cada vez mais preocupadas. É, eu devia mesmo ter ficado pálido.

Isso era a única coisa que não poderia acontecer, de jeito nenhum. Eu poderia engolir meu amor pelo resto da minha vida, desde que continuasse tendo Gerard como amigo. Desde que eu pudesse continuar me sentindo uma criança ao seu lado, chutando-o no palco sem razão aparente, sujando toda sua cozinha em uma mini-guerra de comida. Eu poderia viver sem seu corpo, por mais insuportável que parecesse; mas não podia viver sem ele.

Ray e Jamia entenderam isso naquele momento, e por isso se calaram.

— Eu vou ficar bem — falei, tentando acalmá-los um pouco, mas sem muito sucesso. — É sério. Eu só preciso me recuperar de hoje. Depois vai voltar tudo ao normal, do jeito que era antes. Eu e Gerard seremos só amigos.

Os dois estreitaram os olhos para mim. É, eu sei, nem eu acreditava naquilo. Mas ouvir as palavras saindo da minha boca parecia deixá-las um pouco mais... acreditáveis. Só um pouco, já que minha voz era completamente hesitante.

Eu me despedi de Jamia e saí com Ray, que aceitou — ou, melhor, forçou — uma carona para sua casa. Depois fui para a minha, desejando meu travesseiro como nunca o desejei antes; pelo menos não sem ter sono.

————

As semanas seguintes foram um misto de complicação e normalidade.

No primeiro dia, não pude sequer tomar café em paz; dona Linda cansou de esperar meu ânimo melhorar e usou sua posição de mãe para me obrigar a contar logo o que estava acontecendo. E eu sinceramente não estava a fim de enrolar ninguém, então soltei de uma vez.

— Eu me apaixonei por uma pessoa. Não, essa pessoa não se apaixonou de volta. Sim, a Jamia já sabe.

Minha mãe ficou me olhando com a testa franzida.

— Ah, e é um cara — lembrei. Terminei minhas torradas enquanto sua testa se franzia mais e saí sem esperar que ela se recuperasse do choque. Ela conseguiria; em cinco minutos estaria ligando para Jamia para discutir e decidir minha vida, já que todos, menos eu, parecem ser capazes disso.

Só no segundo dia eu fui com os outros conversar mais sobre o álbum. Até que não foi tão ruim; Gerard só pareceu mais simpático do que o comum, mais ainda conseguimos nos tratar quase normalmente. Ele colocou algumas músicas do Mindless Self Indulgence para tocarem no seu computador e logo nós estávamos mais animados em cantar do que em trabalhar, começando com "Shut Me Up" e pulando um pouco nos sofás — o que não faria Donna muito feliz; eu até queria ficar para ver Gerard e Mikey levando bronca da mãe. Mas era bom ver a todos nós como fãs e não como ídolos. Isso me fazia lembrar do começo, quando éramos só um bando de moleques com camisetas de bandas de rock fazendo uma barulheira infernal no porão, ainda que cada um num canto. E Gerard sempre ficava bobo com o MSI, voltando a ser um menino com os olhinhos brilhando. Não que ele jamais vá admitir, mas ele quase deu pulinhos de felicidade quando soube que tocaríamos com os caras no Projekt.

O resto desse dia foi razoavelmente divertido... Exceto durante os quase três minutos em que ouvimos "Faggot". Eu e Gerard evitamos contato visual, ficamos parecendo dois pimentões, Bob e Mikey não pararam de perguntar o que estava acontecendo e Ray teve que ir ao banheiro para aliviar seu ataque de risos. Senti um arrepio temeroso correr minha espinha quando ouvi Gerard falar baixo para o irmão: “Depois eu te conto”. Droga.

Nos dias seguintes as coisas foram acontecendo rápido e devagar ao mesmo tempo. Todos nós tínhamos coisas para fazer, e Gerard estava bem ocupado com sua história em quadrinhos, então o tempo voava. Mas quando eu e ele ficávamos sozinhos no mesmo cômodo era como se o mundo parasse de rodar, e não no bom sentido. Acompanhados, éramos os melhores amigos de sempre, mas sozinhos... Eu quase chegava a tremer e ele fazia de tudo para não me encarar. Isso já estava me dando nos nervos. Até parece que nós nos atacaríamos se cruzássemos os olhares! Bem... Na verdade isso era bem possível. Mas eu poderia muito bem fingir que não.

Então... Ah, então chegou. Depois de semanas de tortura mental, chegou o dia em que nos enfiamos no ônibus e fomos para o primeiro show na turnê do Projekt Revolution. Eu já estava com saudades daquilo, da cama desconfortável, da correria na maquiagem, de segurar minha guitarra, de poder me distrair de verdade.

Eu estava nervoso, apesar de não saber bem porquê. Eu não conseguia parar de pensar que, de algum jeito, aquela turnê... Aquele verão, lotado de shows, de 2007, iria ser o mais impactante da minha vida. Claro que teria a ver com o Gerard, mas de que forma? Boa ou ruim? Meu estômago se embrulhava por não saber a resposta.

Mas eu não tinha escolha. Eu conseguia ouvir do camarim os gritos lá fora. E por uma hora, em quase todas as noites nas próximas semanas, aqueles gritos seriam mais importantes. Então eu subia ao palco.

Notas finais
E chegou o Projekt. Vai acontecer muita coisa *-*
Estão gostando? ;*